O presidente da Reserva Federal norte-americana, Jay Powell, que tem vindo a ser fortemente pressionado por Donald Trump para baixar mais as taxas de juro, avisa que a independência dos bancos centrais é um ativo “muito importante” e que, caso esta se perca, será “muito difícil recuperá-la novamente”. Powell afirmou, numa conferência de imprensa para explicar porque é que o banco central decidiu não mexer nos juros, nesta quarta-feira, que acredita que a Fed não perdeu a sua independência e que “não irá perdê-la, espero que não a perca“.
A declaração foi feita depois de a Reserva Federal dos EUA (Fed) anunciar que manteve as taxas de juro inalteradas, como era consensualmente previsto pelos analistas, apesar da pressão intensa feita por Donald Trump sobre o banco central para que este torne a política monetária menos restritiva (baixando os juros mais rapidamente). A pressão de Trump incide sobre a Fed, como um todo, mas em particular sobre o presidente Jay Powell, que nos últimos meses de mandato é alvo de inúmeros insultos públicos e está sob ameaça de um processo judicial relacionado com as obras de renovação na sede da Fed em Washington, DC.
Na conferência de imprensa que deverá ter sido a sua antepenúltima como líder da Fed, Jay Powell voltou a desvalorizar as críticas de Trump, dizendo que não comenta “comentários” feitos “por outros responsáveis políticos, sejam eles quais forem”. Ainda assim, explicou que decidiu enviar uma mensagem pública, em vídeo, sobre o processo judicial porque se trata, na sua opinião, da maior ameaça à independência do banco central em muitas décadas – “decidi fazer isso porque achei que se não o fizesse teria dificuldade em justificar, depois, não o ter feito”.
Após muita insistência por parte dos jornalistas, Powell acabou por fazer um comentário que garantiu ser “geral”, sobre os bancos centrais, mas acabou por desaguar numa análise sobre até que ponto é que a Reserva Federal dos EUA, o banco central mais poderoso do mundo, poderá estar em risco de perder a independência.
“Todas as democracias avançadas, maiores ou menores, perceberam que isso é algo que serve bem os seus povos, isto é, haver uma separação e não deve haver um controlo político sobre a política monetária, porque a política monetária pode ser uma ferramenta utilizada para influenciar a economia de modo a obter vantagens políticas”, explicou Powell. Zelar por essa independência “é uma boa prática”, afirmou.
Se se perde isso, depois é muito difícil voltar a recuperar a credibilidade e a confiança das pessoas de que se está a tomar decisões estritamente pensando no bem de toda a população, e não para beneficiar este grupo ou aquele”, afirmou.
Jerome Powell afirmou que, apesar de toda a pressão que tem sofrido, incluindo pessoalmente, isso não faz com que a Reserva Federal tenha perdido a independência e a confiança por parte dos agentes económicos. “Não a perdemos, não acredito que a iremos perder, sem dúvida espero que não a percamos“, afirmou Powell, salientando que isso é algo “muito importante porque tem permitido aos bancos centrais servirem bem o público, mesmo sem serem perfeitos”.
“Numa boa posição”. Tal como BCE, Fed sinaliza que não estão iminentes mais mexidas nos juros
O mandato de presidente termina no final de maio, pelo que ainda deverá ser Powell a protagonizar as reuniões marcadas para meados de março e finais de abril. A Casa Branca indicou que poderia nomear um substituto para Powell ainda nesta semana, mas esse anúncio ainda não foi feito. A decisão desta quarta-feira sobre taxas de juro não foi consensual, com dois dissidentes que queriam um corte de 25 pontos-base nos juros: Stephen Miran, nomeado há poucos meses por Trump para terminar um mandato de outra governadora que saiu prematuramente, e Christopher Waller, um dos candidatos ao lugar de Jay Powell.
Tal como nas conferências de imprensa mais recentes, Jay Powell voltou a reconhecer alguma fraqueza do mercado de trabalho mas pareceu um pouco mais otimista sobre a atividade económica, que “melhorou, claramente”, em relação aos indicadores que existiam há poucas semanas, quando a cúpula da Fed se reuniu pela última vez.
Por outro lado, o banco central tem alertado que a taxa de inflação continua acima do objetivo – outro fator que faz com que se justifique uma mudança na política monetária neste momento. O indicador favorito da Fed para a inflação (o core PCE) deverá manter-se, segundo as previsões da própria Fed, na região dos 2,5% ao longo deste ano, o que, aos olhos de Powell, não recomenda que se deva baixar as taxas de juro novamente, sob pena de estimular ainda mais essa taxa de inflação (que já está acima do objetivo de 2%).
Imitando a linguagem que tem sido usada por Christine Lagarde, presidente do BCE, Jay Powell considerou que a Fed está, neste momento, “numa boa posição” para, nos próximos tempos, tomar decisões com base na forma como evoluírem os dados económicos – um sinal de que, neste momento, não será muito provável que haja novas mexidas nas próximas reuniões.
A Fed cortou as taxas de juro três vezes em 2025, reduzindo a taxa de referência total em 0,75 pontos percentuais, para um intervalo entre 3,5% e 3,75%. Ainda assim, esse ritmo de descida dos juros tem sido demasiado lento aos olhos de Donald Trump, que tem defendido que a taxa de juro nos EUA devia estar num nível próximo de 1% – um valor que implicaria uma redução drástica em relação ao nível que atualmente está em vigor.
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