As cheias em Moçambique atingiram particularmente Chókwè, região do sul conhecida por ser o celeiro do país. Em poucos dias, a água engoliu 88% do território, destruíndo meses de produção agrícola, nomeadamente de arroz, e ameaçando com a fome.
“Estas cheias tiveram uma característica especial, chegaram aos pontos que, outrora, nas cheias do ano 2000, nas cheias do ano 2013, eram considerados seguros”, conta à agência Lusa o administrador de Chókwè, Narciso Nhamuco.
“É uma tragédia nova que não se compara com outras”, sublinha ainda, enquanto coordena o apoio humanitário às mais de 55 mil pessoas colocadas nos três centros de abrigo criados no distrito, na província de Gaza, a 250 quilómetros a norte de Maputo.
No “celeiro do país” vivem-se dias de apreensão face ao futuro: “A atividade da agricultura foi completamente arrasada“.
Chókwè, na província de Gaza, foi uma das zonas mais afetadas pelas cheias de janeiro, com 88% do seu território inundado e 170 mil pessoas afetadas, explicou à Lusa o administrador Narciso Nhamuco. Desde 15 de janeiro, 2.258 quilómetros quadrados ficaram submersos.
Na agricultura, as cheias prejudicaram a atividade de 44 mil produtores, entre campos, casas e vilas inundados.
“Aqui é o grande celeiro de produção de arroz. Também o regadio foi afetado, porque sofreu vários rombos, o que vai comprometer a produção. Estamos a falar de uma área de 45.750 hectares”, detalha.
O administrador de Chókwè reconhece a “necessidade urgente” de acesso a sementes para que a população possa retomar o cultivo, desde logo do arroz, de modo a não perder “o autossustento”. Caso contrário verificar-se-á uma “dependência completa de assistência alimentar“.
No terreno, decorre a avaliação dos prejuízos e das condições para que os habitantes regressem em segurança a algumas zonas.
“Esta população vai retornar aos seus bairros e os parceiros vão apoiando com os kits, neste caso de higiene, mas também os kits de dignidade ou os kits alimentares para a fase de recuperação. Este é um processo, é um trabalho que está a ser feito”, diz.
Por todo o distrito, de arcas frigoríficas à cabeça, e água pela cintura, há quem ainda tente salvar o que ficou para trás no momento da fuga apressada à subida das águas.
“As pessoas aqui estão em grande sofrimento, por causa das cheias”, explica Ursilo Muhovo, 49 anos, em cima da sua motorizada que utiliza para o transporte de mototáxi, mesmo nas cheias.
“É um risco, cair na água”, brinca Muhovo, para depois lamentar que “[as pessoas] não têm apoio. Estão a receber lixo [das enxurradas]”. Acrescenta que a situação é “muito pior” do que em cheias anteriores.
Enquanto isso, espera passageiros, poucos, para levar ao distrito vizinho de Guijá, também em Gaza, por uma estrada tomada pela água.
Antes, o preço do serviço era de 100 meticais (1,33 euros), por poucos quilómetros. Após as cheias, o preço aumentou para 150 (dois euros) e ameaça continuar a subir.
“O combustível está muito caro, nas bombas não há nada. Um litro vale 300 meticais [quatro euros]”, admite.
As cheias em Chókwè danificaram centros de saúde, hospitais e milhares de casas, para além de 84 escolas, sem previsão de retoma das atividades normais — algumas foram transformadas em centros de abrigo temporários, a cerca de duas semanas do início do ano letivo, adiado um mês, devido às cheias, para 27 de fevereiro.
As escolas afetadas “albergam 63 mil alunos”, explica o administrador de Chókwè. “Como o ano letivo vai iniciar no final deste mês, temos tempo em fevereiro para fazer um levantamento e receber apoio dos nossos parceiros na área de educação, para podermos ver que soluções imediatas podem ser garantidas a fim de retomar na data prevista”.
Entre os deslocados, estão professores. “Estamos a fazer o levantamento de onde estão, porque nem todos estão no mesmo centro e nem todos estão no centro próximo ao local onde está a sua escola”.
É o caso de Apolinário Basílio, professor de matemática de 40 anos, desolado com o que vê na cidade, sede do distrito.
“É o celeiro do país, mas as pessoas estão a chorar neste momento (…), estão a pedir um apoio”, conta à Lusa.
“Houve muita destruição na cidade. No primeiro bairro afetado não saíram com nada, perderam muita coisa, houve morte”, descreve, destacando que a população “precisa de ajuda”.
“O mais prioritário é alimentação“, afirma, lamentando que grupos estejam a entrar nas casas, inundadas, para levar o pouco que sobrou.
“Quando o dono da casa não está, [deslocados] vandalizam, roubam coisas. Não é correto”, desabafa.
Para chegar à escola onde trabalha, Apolinário Basílio deve atravessar uma estrada destruída pelas águas que transbordaram do rio Limpopo, pelo que não sabe se vai conseguir estar presente no início do período escolar.
“Não há ligação”, diz enquanto aponta para o outro lado de uma via que só os mais corajosos tentam cruzar, a pé, com dificuldade perante a força da água.
O administrador Narciso Nhamuco reconhece as dificuldades e admite que a zona baixa da cidade de Chókwè “sofreu muito”, com acessos cortados para norte e grande parte dos 139 mil habitantes em centros de deslocados.
“A maior parte da população, em quase todos os bairros de Chókwè, foi afetada pelas inundações, as pessoas sofreram”, admite, reconhecendo que “grande parte das infraestruturas” do Estado, como as casas ou as estradas, tiveram prejuízo.
“Mas um elemento fundamental de grande preocupação é mesmo a questão do regadio, porque o regadio circunda a cidade e todo o distrito e é a base da subsistência da nossa população. Este é o maior problema. E as vias de acesso”, desabafa.
Por agora, no celeiro de Moçambique, o principal receio nos próximos meses é a fome, que persiste enquanto a água desaparece lentamente.