E vão quatro. Nem um mês passou das eleições presidenciais, e Pedro Passos Coelho, que tem gerido as aparições e intervenções públicas ao milímetro ao longo dos últimos anos, surgiu pela quarta vez neste curto espaço de tempo para, mais uma vez, fazer marcação cerrada ao Governo. A presença vai-se fazendo sentir, e até já obrigou a uma tomada de posição por parte do secretário-geral do PSD, Hugo Soares, mas o antigo primeiro-ministro continua a garantir que não há motivo para preocupações (ou festejos): não considera estar de regresso à política – o que não quer dizer que vá deixar de pressionar o Governo a adotar uma postura mais reformista.
“Não estou no ativo da política, mas não estou inibido de poder fazer algumas considerações que possam ter ressonância pública ou política”, esclareceu Passos em Coimbra, depois de ter participado numa homenagem ao juiz conselheiro Júlio Pereira. “Não é regresso de coisa nenhuma”, continuou, “isso não significa que não possa, ocasionalmente, fazer do ponto de vista público alguma reflexão e algum contributo sobre o que se passa e, nessa medida, fico satisfeito de saber que algumas das preocupações que eu tenho possam ter algum eco e possam ser ouvidas também”.
O secretário-geral do PS, por exemplo, já veio dar razão a algumas das críticas de Passos Coelho (nomeadamente em relação à necessidade de uma reforma da Administração Pública), e apontou as críticas do antigo líder social-democrata como um sinal de “instabilidade” dentro do PSD.
Sem dizer a quem se refere, o antigo chefe de Governo nota que não está sozinho nas propostas de reforma que tem trazido ao debate público e sublinha que essas preocupações têm um “âmbito nacional”, não “partidário”, por um motivo em concreto: “As pessoas olham para o país e esperam que as coisas possam alterar-se, que possam mudar, que se possa avançar no crescimento e na transformação do país e, portanto, essas minhas palavras devem ser ouvidas, espero eu, pelo menos, que o sejam, como um incentivo a essa mudança e àquilo que o país precisa de fazer.”
E se se vai tornando praticamente unânime que Passos Coelho está a fazer pressão ao Governo, já nem o antigo líder social-democrata o nega frontalmente. “Cada um entende como quer”, atirou, quando questionado pelos jornalistas. De qualquer forma, insiste que o timing das declarações que vai proferindo é inocente, não tem “nenhuma intenção em particular” e que simplesmente tem sido convidado a pronunciar-se sobre as questões que tem posto em cima da mesa.
Desta vez, também António Costa foi diretamente visado pelas críticas do antigo primeiro-ministro. É ao homem que o sucedeu na liderança do Governo que Passos aponta responsabilidades pela estagnação económica do país. “Ao fim de oito anos, que foi o tempo em que o dr. António Costa chefiou o Governo, o país esteve numa paralisia grande em matéria de transformação económica”, lamentou. “Governou-se, como se costuma dizer, à vista, a pensar no dia-a-dia e não a pensar no futuro”.
O problema, explica, é que “o futuro sempre chega”, e castigou o período de governação socialista. “O país deu um sinal muito claro de que queria uma mudança profunda”.
Assim sendo, e agora ultrapassado um ciclo marcado por várias idas às urnas, Passos reforça que é hora de pôr mãos à obra, até para cumprir “a grande promessa com que o PSD chegou ao Governo”: o ímpeto reformista.
Volta a dizer que não se pode “perder mais tempo”, e que a AD só se pode queixar de estar a ser bloqueada pela oposição se, de facto, levar ao Parlamento os programas, os projetos – “as reformas, chamem-lhe o que quiserem” – que podem fazer o país avançar. “É muito importante não perder esta oportunidade histórica para andar para a frente e para fazer essas mudanças”, insiste.
Para nota futura, fica também mais uma vez registado que Passos não irá aceitar o argumento de que os eventuais insucessos da AD se devem à ausência de uma maioria parlamentar. “Isso é um cálculo que o Governo tem de fazer”, refere o social-democrata, que alerta que “não é pelo facto de não haver uma maioria absoluta que os Governos estão impedidos de apresentar as suas ideias, os seus projetos, as suas propostas de reforma”.
Nova aparição, nova reforma
E na onda de reformas que Passos Coelho tem pedido, o antigo primeiro-ministro voltou a deixar uma nova proposta, desta vez dirigida aos serviços de informações. O social-democrata foi convidado a participar numa homenagem ao falecido juiz conselheiro Júlio Pereira, com quem se cruzou na qualidade de líder do Governo quando este chefiava o SIRP – o Sistema de Informações da República Portuguesa.
Numa intervenção mais curta do que o habitual, Passos lembrou que nesse período não foi possível chegar a um entendimento no Parlamento para viabilizar uma reforma nestes serviços que, na prática, fundisse o SIS (que trata as ameaças internas) e o SIED (que deteta ameaças externas). Já na altura, explica, partilhava com Júlio Pereira a ideia de que “que é muito difícil distinguir, separar com facilidade o que é a ameaça interna ou a ameaça externa”.
“As duas coisas andam muito interligadas”, garante, e vê que isso seja ainda mais verdade nos dias de hoje.
Lamentando que ainda hoje persista a “desconfiança” em relação a essa visão “mais integrada” dos serviços, Passos deixa um apelo às forças partidárias, na mesma linha do que tem feito ao longo dos últimos dias: aproveitar a oportunidade.
“Posso formular esse voto para que seja um dia possível no Parlamento esse entendimento alargado, porque não pode ser apenas o de uma maioria ou de um Governo, tem de ser realmente um entendimento mais alargado”, desejou. “Que as forças que são indispensáveis para gerar este consenso necessário possam vir a convergir nas condições para que Portugal venha a ter serviços, como foi sonhado pelo dr. Júlio Pereira, mais integrados e, portanto, mais aptos a servir a sua missão dentro de um Estado Democrático como é o nosso”.
Por entre elogios a Júlio Pereira, o antigo primeiro-ministro lançou mais uma crítica para o ar, ainda que mais uma vez, não tenha identificado o destinatário: “Às vezes há pessoas que consideram que o Estado está ao seu serviço, quando na verdade o Estado está ao serviço dos portugueses e não de outros projetos”.
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