No Antigo Testamento, Haman era descrito como um dos mais importantes membros da corte do rei Assuero, da Pérsia. O soberano queria que todos os funcionários da corte se ajoelhassem diante dele, como sinal de respeito. Todos o faziam, menos um, Mordecai, um judeu. Talvez por isso, lê-se no Livro de Ester, Haman fez do seu objetivo perseguir e matar todos os judeus. Mas Haman acabou enforcado na forca que o próprio construiu para matar Mordecai.
O relato bíblico é recuperado pelo jornal El Español, a propósito da missão que surgiu, no seio da Mossad, com o objetivo tão claro quanto complexo de matar Ali Khamenei. O plano, que exigia uma dedicação especial, obrigou à criação de uma unidade especial secreta dentro dos serviços de inteligência de Israel. O nome? Unidade Haman, claro está. Foi criada pelo então primeiro-ministro israelita Ariel Sharon em 2002. 24 anos depois, cumpriu o objetivo.
Líderes israelitas foram mudando, mas plano manteve-se. Com Netanyahu, missão foi reforçada
A morte do aiatola começou a ser preparada um ano depois de Ariel Sharon ter assumido o cargo. Nessa altura, chamou para a sua residência, em Jerusalém, vários altos cargos da Mossad e dos serviços de inteligência de Israel. Delegou em Meir Dagan, então diretor da Mossad, a função de criar e liderar a unidade Haman. Tinha nas mãos a responsabilidade de cumprir uma tarefa que se avizinhava difícil: seguir, exaustivamente, Ali Khamenei. Queria que o seu destino fosse o mesmo que o de Haman, a morte.
A partir daí, todos os passos do aiatola passaram a ser seguidos. Mas a vigilância da Mossad estendia-se a familiares, colaboradores próximos e membros do seu corpo de segurança. Todos os círculos que o rodeavam eram seguidos ao detalhe, sempre com o objetivo, em pano de fundo, de matar o líder supremo do Irão, que assumiu o cargo em 1989 — depois de já ter sido Presidente do país do Médio Oriente entre 1981 e 1989.
Os anos foram passando, os líderes israelitas mudaram e os responsáveis pela Mossad também. A missão não foi esquecida e todos os primeiros-ministros demonstraram essa intenção, alguns com maior ou menor fulgor. Benjamin Netanyahu foi um dos chefes do Governo de Israel que, segundo o El Español, mais manifestou essa vontade.
Não se ficou pela intenção. Em 2022, quando ‘Bibi’ chegou novamente ao cargo de primeiro-ministro, a unidade foi reforçada: mais dinheiro e mais meios. Terá dito ainda a David Barnea (diretor da Mossad desde 2021) que a morte de Khamenei era uma das suas maiores prioridades. Quis ter uma data limite para cumprir esta missão e classificou-a com a categoria ‘Ain Efes’ — uma missão que não admite o fracasso.
Com a intenção de Netanyahu traduzida em ações, foram reforçados os ‘Katsas’ no Irão (assim se designam os informadores da Mossad no terreno) e as equipas responsáveis por intercetar sinais e decifrar códigos. Os agentes israelitas em Teerão começaram a seguir ainda mais de perto a equipa do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica responsável pela proteção dos líderes iranianos.
Em dezembro de 2024, recorda também o jornal espanhol, Ali Younisi, antigo ministro da Informação do Irão, destacou a influência e a infiltração da Mossad em solo iraniano e alertou todos os funcionários iranianos para que estivessem atentos à segurança do país e do aiatola. De facto, quatro anos antes, tinha morrido um dos guarda-costas mais próximos de Khamenei. O próprio Irão dividiu-se na explicação sobre esta morte: a Guarda Revolucionária disse que tinha sido vítima de um “defeito técnico na sua arma”; mas os serviços de inteligência relataram que tinha sido envenenado por agentes israelitas.
Mossad tinha tudo pronto para matar Khamenei em 2025, mas Trump não terá dado ‘luz verde’
Independentemente do motivo, os iranianos ficaram (ainda mais) em alerta. A Mossad estava cada vez mais perto e também estava atenta, por exemplo, a Hassan Mashrou’i-Far, responsável pela segurança do complexo Motahari — complexo de alta segurança que abriga gabinetes relevantes do regime iraniano, incluindo a sede de Khamenei. Esta infraestrutura foi reduzida a cinzas no ataque do último sábado.
A vigilância de décadas deu frutos quando o diretor da Mossad, em maio de 2025, ligou a John Ratcliffe, diretor da CIA, e a Marco Rubio. Tinham o aiatola na mira, bastava premir o gatilho. Mas não queriam dar esse passo de gigante sem a ‘luz verde’ dos Estados Unidos da América — bastava o ‘sim’ de Donald Trump. O Presidente dos EUA achou que ainda não era a altura e terá dito isso mesmo a Netanyahu.
O líder norte-americano terá acreditado que ainda era possível sentar-se a negociar com Teerão. Mas convenceu-se que estava enganado. Desde maio até à morte de Khamenei, apertou-se o cerco da Mossad à cúpula do poder do Irão. Nada escapava aos agentes, que centravam grande parte da vigilância nas câmaras de semáforos de avenidas perto do complexo por onde passa todo o núcleo do poder iraniano.
A 26 de fevereiro, o líder da unidade no terreno deu o alerta. Os ‘Katsas’ tinham percebido que, dois dias depois, o aiatola iria reunir-se com a maior parte dos líderes políticos, incluindo da Guarda Revolucionária, no complexo. O relógio estava a contar. O diretor da Mossad reuniu de emergência com Netanyahu, que pediu a Barnea para falar com o homólogo da CIA. Ele mesmo falaria com Trump; o primeiro-ministro israelita, que há muito tinha o desejo de matar Khamenei, saberia que uma oportunidade daquelas não se repetiria tão cedo.
A Casa Branca só deu o aval na sexta-feira, 27 de fevereiro. Com a decisão tomada, o plano de ataque foi colocado em marcha, com o apoio de caças F-35, F-15, F-16 — todos equipados com bombas guiadas por GPS ou laser, com muita precisão e munições com capacidade de atingir os bunkers.
O ataque iniciou-se no dia seguinte, na manhã de 28 de fevereiro. A caravana de carros oficiais entrou no complexo iraniano pelas 8h45 e, uma hora depois, começaram a cair as primeiras bombas. Em poucos minutos, o complexo ficou reduzido a escombros. Entre a destruição, claro, estava o corpo do aiatola e de largas dezenas de líderes do Governo do Irão. 24 anos depois do início da missão, o aiatola teve o mesmo destino que Haman.
Quem são os líderes iranianos mortos na guerra e quem já assumiu o poder?