Um acidente entre um avião da Air Canada com 72 pessoas a bordo e um veículo no aeroporto LaGuardia, em Nova Iorque, Estados Unidos da América, este domingo, fez, pelo menos, dois mortos — o piloto e o copiloto — e vários feridos e interrompeu as operações naquela infraestrutura, noticiou a Sky News. Em gravação entretanto tornada pública, controlador aéreo assume erro (“fiz asneira“), segundos após tentar corrigir, sem sucesso, a autorização que tinha dado ao carro para que cruzasse a pista: “Para, para, para, camião 1“.

As autoridades norte-americanas, que já concentraram a investigação numa pista específica e estão a analisar os dados das caixas-negras, procuram agora perceber se um incidente com um voo da United Airlines terá interferido na atividade da torre de controlo aeroporto, desviando a atenção de um controlador num momento decisivo e contribuindo para o acidente, segundo a Associated Press.

Segundo o New York Times, cerca de um minuto antes do embate, um veículo do aeroporto comunicou por rádio com a torre de controlo, mas a mensagem acabou por ser interrompida por outra transmissão, explicou Jennifer Homendy, presidente do Conselho Nacional de Segurança nos Transportes (NTSB).

Os investigadores ainda não ouviram algumas das principais testemunhas do acidente, incluindo os controladores que estavam de serviço na torre no momento da colisão e os agentes a bordo do carro de bombeiros envolvido. Um dos factos que falta apurar  é se a equipa no veículo de emergência chegou a receber a ordem do controlador para parar, explicou Homendy. A responsável do NTSB acrescentou ainda que no turno da meia-noite em La Guardia é prática comum existirem apenas dois controladores a acumular várias funções em simultâneo — uma situação que, segundo disse, tem sido motivo de preocupação há vários anos entre profissionais do controlo de tráfego aéreo.

O avião, proveniente de Montreal, no Canadá, colidiu — já na pista quando seguia a uma velocidade de 38 km/hora — com um carro de combate a incêndios da Autoridade Portuária de Nova Iorque e Nova Jérsia, que tinha pedido para cruzar a pista no momento em que seguia para uma ocorrência. Apesar de ter recebido autorização, naquela pista estava a aterrar um CRJ900 da Air Canada, informou entretanto a autoridade, citado pela NBC News.

Entre os feridos estão 41 passageiros e tripulantes da aeronave, com ferimentos de diferentes níveis de gravidade, avança a NBC News. Alguns dos passageiros foram levados para os hospitais de Queens Presbyterian e de Elmhurst, ambos nas proximidades do aeroporto. Kathryn Garcia, diretora executiva da Autoridade Portuária, disse que 32 dos 41 feridos levados para o hospital já receberam alta, mas adianta que algumas das restantes estão “gravemente feridas”, sem precisar o número de feridos graves. Entretanto, os dois condutores do carro de assistência, que inicialmente não figuravam nos feridos associados ao acidente, deverão receber alta em breve, noticiou ainda na segunda feira a emissora.

Ao que uma passageira indica, as ações do piloto e copiloto do CRJ900 foram decisivas para salvar as vidas dos que seguiam no voo 8646 da Air Canada Express. Rebecca Liquori disse que sentiu os travões do avião serem acionados rapidamente, logo antes do embate com o carro de assistência. “Estou muito grata por eles nos terem salvado, mas fico muito triste por não terem conseguido regressar a casa para junto das suas famílias. Eu não estaria aqui se não fosse a rápida reação do piloto”, afirmou, relembrando que “todos pensaram que iam morrer”, pelo facto de não saberem se o avião ia explodir ou não.

Mas não foram só os pilotos a conseguir ajudar os passageiros. Foram também os próprios passageiros a ajudarem-se uns aos outros, relatou Liquori à NBC. “Gostaria também de elogiar aqueles que se viram envolvidos num acidente assustador e reagiram não só com serenidade, mas também estendendo a mão à pessoa ao seu lado, os passageiros que abriram a porta de emergência e se ajudaram mutuamente a sair do avião e as pessoas que mantiveram a calma umas nas outras”, realçou.

Depois da colisão, a Administração Federal de Aviação (FAA) emitiu ordem de interrupção das operações. Todas as ruas e acessos por autoestrada ao aeroporto estão também fechados ao trânsito, de acordo com o Departamento de Polícia de Nova Iorque (NYPD). A mesma polícia pede, na rede social X, que os cidadãos “evitem a zona, se possível” e diz que se esperam atrasos.

O NTSB anunciou no X, entretanto, que enviou para o terreno uma equipa para investigar o acidente. “A NTSB está a mobilizar uma equipa de intervenção para investigar o acidente ocorrido a 22 de março com o voo 8646 da Jazz Aviation, Air Canada Express, um CRJ900, que colidiu com um carro de bombeiros na pista 4 do Aeroporto LaGuardia, em Nova Iorque”, lê-se no post.

Foi mais tarde tornado público um áudio das comunicações do aeroporto aquando da colisão. No áudio de radiocomunicações é possível perceber que o controlador da torre do aeroporto de LaGuardia diz ter cometido um erro, ao deixar circular o carro de bombeiros na pista onde naquele momento estava a aterrar o CRJ900 da Air Canada.

“Para, para, para, camião 1. Para, para, para. Para, camião 1. Para. Para camião 1! Para!” — é o que se ouve de uma das torres de controlo do aeroporto, momentos antes do embate. Mais tarde, já depois da colisão, o controlador adiantou que o aeroporto ia estar fechado “por uns tempos”. Um dos seus colegas disse que o acidente “não foi bom de se ver”. “Há pouco já estávamos a lidar com uma emergência… fiz asneira”, diz o controlador. “Não. Fizeste o melhor que podias“, respondeu o colega.

Também foi revelado pela CNN que uma assistente de bordo sobreviveu à queda do avião depois de ter sido projetada por mais de 100 metros. Solange Tremblay foi encontrada ainda presa à cadeira.

“É um verdadeiro milagre. No momento do impacto, o assento dela foi projetado para mais de 100 metros do avião. Encontraram-na e ela ainda estava presa ao assento. Teve um anjo da guarda a olhar por ela. Podia ter sido muito pior”, afirmou a filha, Sarah Lépine.

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reagiu ao acidente enquanto falava aos jornalistas antes de embarcar no Air Force One, na Flórida. “Eles cometeram um erro. É uma área perigosa. Isto é terrível“, disse.

Também o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, afirmou que este acidente é “profundamente triste“. “As autoridades canadianas estão a trabalhar em estreita colaboração com os seus homólogos norte-americanos no terreno, enquanto a investigação continua”, escreveu Carney na rede social X.