O antigo administrador do Banco Espírito Santo, José Maria Ricciardi, morreu esta quarta-feira aos 71 anos, vítima de doença prolongada, avançou o jornal ECO e confirmou o Observador.

Formado em Ciências Económicas Aplicadas pela Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica, o economista nascido em outubro de 1954 era primo de Ricardo Salgado e foi uma das vozes que mais contestaram a sua liderança. Em entrevista ao Observador em setembro de 2023, Ricciardi admitiu que o seu primo o tinha tentado pressionar  num jantar em 2014, perguntando-lhe “o que é que queria” em troca do seu silêncio.

José Maria Ricciardi. “Não fiquei surpreendido que Ricardo Salgado tivesse roubado a sua própria família”

José Maria Ricciardi, que foi também líder do BES Investimento, chegou até a denunciar em carta dirigida ao Banco de Portugal (e ainda antes da queda do BES), irregularidades na gestão do grupo Espírito Santo. Nesta carta alertava para a concentração de poder “num núcleo pequeno sob a direção” de Salgado, escreve o Expresso. Ricciardi foi o único membro da família Espírito Santo a quem o Banco de Portugal nunca retirou o estatuto de idoneidade, sendo apenas testemunha em todos os processos criminais que visavam a gestão de Ricardo Salgado no GES e no BES.

Em 2014, no ano em que o BES colapsou, José Maria Ricciardi foi à comissão de inquérito parlamentar sobre o Banco Espírito Santo e aí disse que foi “a única pessoa que” tentou “mudar o curso das coisas”. “Houve duas tentativas para me pôr na rua. Primeiro, em novembro de 2013 e depois, em junho de 2014”, acrescentou.

Em 2015 a venda do BES Investimento foi concretizada ao grupo chinês Haitong, que deu origem ao banco Haiton Bank, do qual se manteve CEO até ao final do ano seguinte. E depois disso decidiu investir na sua vertente desportiva: candidatou-se à presidência do Sporting Clube de Portugal em 2018, contra Frederico Varandas. Mas a intenção de suceder a Bruno de Carvalho ficou por aí, uma vez que perdeu a eleição.

José Maria Ricciardi: “Estou-me nas tintas para que me achem um croquete”

O banqueiro — que dizia não saber se o primo tinha ou não Alzheimer e que não lhe desejava “mal nenhum” — admitiu também em entrevista ao Observador que, inicialmente, não lhe parecia “possível que uma pessoa roubasse a sua própria família”. “Mas depois, com o tempo que foi passando, deixei de ter qualquer espécie de dúvida sobre isso. Se fiquei surpreendido que tivesse sido provado que Ricardo Salgado roubou a sua própria família? Não, não fiquei”, afirmou.

O facto de ter vincado de forma tão clara a sua posição contra Ricardo Salgado, levou a que fosse isolado pela própria família. “Sou visto como um traidor pela família”, chegou a partilhar com a revista Sábado.

Na entrevista de 2023 ao Observador, Ricciardi contou ainda que percebeu que o seu primo estava a falsificar a contabilidade do Grupo Espírito Santo dez anos antes, em dezembro de 2013. “O Banco de Portugal tinha mandado fazer um ETRIC II [auditoria especial que analisa o balanço dos principais grupos económicos a quem os bancos concediam crédito], que incluiu o Grupo Espírito Santo (GES). Constitui-se uma equipa interna com várias pessoas, nomeadamente o dr. Joaquim Goes [ex-administrador do BES com o pelouro do risco]. E, a certa altura, percebeu-se que o passivo das empresas, das holdings do GES, era muito superior ao que estava registado.”

Ricciardi sonhava “reconstruir o nome Espírito Santo”

José Maria Ricciardi “era um dos grandes amigos que eu tinha”, contou Dias Ferreira no programa Resposta Pronta da rádio Observador em reação à morte do economista.

“Apreciava muito o seu sportinguismo. Ele era muito emocional a discutir qualquer coisa e por isso, muitas vezes, as nossas discussões resumiam-se a dois emocionais a discutir o Sporting. Às vezes a gente ultrapassava aquilo que era legítimo e depois voltávamos ao mesmo”, lembrou o dirigente leonino e também candidato à presidência do SCP em 2018. Dias Ferreira e Ricciardi estiveram lado a lado na corrida à direção dos leões e até isso contribuiu para o crescimento de “uma boa relação” entre ambos, diz.

Morte de José Maria Ricciardi: “Tinha o sonho de ser presidente do Sporting e de reconstruir o nome da família Espírito Santo”

“É com tristeza que o vejo partir, sobretudo porque sei que tinha dois sonhos principais. Um era ser presidente do Sporting e podia tê-lo sido noutra ocasião. E o outro sonho, que ele me confessou várias vezes nos últimos tempos, foi que queria reconstruir o nome Espírito Santo, o nome da família”, partilhou o sportinguista.

Seguro de que Ricciardi “deixa muitos amigos”, Dias Ferreira afirma que, apesar de não ter conquistado nenhum destes sonhos “terá prestado grandes serviços” ao SCP e à família Espírito Santo.

Sporting manifesta “profundo pesar” pela morte do banqueiro e ex-dirigente José Maria Ricciardi

O Sporting manifestou esta quarta-feira “profundo pesar” pela morte de José Maria Ricciardi, antigo dirigente e candidato à presidência leonina, que morreu na terça-feira aos 71 anos, vítima de doença prolongada.

Numa nota na sua página oficial, o clube endereçou as condolências à família e amigos, enaltecendo os “anos de esforço e dedicação” de Ricciardi, que foi dirigente entre 1995 e 2013, integrando o Conselho Fiscal sob a liderança de seis presidentes, primeiro como vogal e, posteriormente, como vice-presidente.

Sobrinho-neto do fundador José Alvalade, José Maria Ricciardi manteve uma ligação histórica ao Sporting, tendo sido candidato à presidência em 2018, num percurso que conciliou com uma longa carreira no setor bancário.