“Isto é um passo atrás — 100 anos atrás. Mais valia voltarem a utilizar correios, telégrafos e cavalos”. É assim que Volodymyr Zelensky faz o retrato da Rússia em 2026, onde o acesso à internet é alvo de cada vez mais restrições, incluindo o bloqueio, nos últimos dias, do Telegram, uma das aplicações mais utilizadas na Rússia, quer por opositores políticos, quer por apoiantes do Kremlin, bloggers militares e até soldados.
O bloqueio da aplicação é justificado pelas autoridades com questões de segurança, nomeadamente o facto de a Ucrânia e os serviços de informações ocidentais se terem infiltrado em múltiplas aplicações e estarem a comprometer a defesa contra drones ucranianos. Porém, o criador do Telegram tem outra interpretação: “A Rússia está a restringir o acesso ao Telegram para forçar os seus cidadãos a utilizarem uma app controlada pelo Estado, construída para vigilância e censura política“, denunciou Pavel Durov nas redes sociais.
Em causa está a tentativa de substituir o Telegram pelo Max, uma nova aplicação estatal russa com as mesmas funções, mas que está integrada nos serviços públicos digitais russos e serve também como identificação digital. Para forçar esta passagem, a Rússia exige agora uma conta no Max para aceder aos serviços do Estado, por exemplo. “Só planeio mudar para o Max se não houver outra solução”, afirma, ainda assim, Maria, uma habitante de Moscovo que falou com a NBC News. Outras pessoas ouvidas pelo canal norte-americano sugerem a possibilidade de comprar um segundo telefone para instalar a aplicação.
Contudo, o “apagão” vai além do bloqueio de uma única rede social. Arturo Filastò, investigador do Open Observatory of Network Interference que monitoriza a censura online, destaca como este apagão é diferente do que se assistiu no Irão no início do ano: em vez de um bloqueio súbito, a Rússia assistiu a um processo “mais opaco”, elabora ao The Guardian.
Uma análise da aplicação Amnezia, que permite criar e utilizar uma VPN (rede privada virtual) gratuita para contornar restrições, dá conta de bloqueios cada vez mais frequentes e mais abrangentes a várias zonas do país ao longo das últimas semanas, que caracterizam como um teste “à forma como a economia funciona sob restrições”. “De acordo com as nossas previsões, os apagões em Moscovo vão tornar-se mais ou menos uma rotina”, declarou a empresa ao jornal britânico.
As consequências fazem-se sentir na vida diária dos russos: de forma mais óbvia nas comunicações, mas também nos serviços de transportes ou de entregas, nos pagamentos bancários, nas aulas à distância ou nos correios. Pedir indicações ou abrir um mapa em papel, sair do centro de Moscovo para enviar um email de trabalho ou depender de dinheiro vivo são agora realidades comuns para muitos moscovitas.
Andrei Soldatov, jornalista russo no exílio e especialista nas secretas, argumenta, ao El Mundo, que é mais do que censura. Vladimir Putin “está a tentar modificar o comportamento das pessoas; não é sobre prevenir o acesso, mas reeducá-los sobre como utilizar a internet”, elaborou.
O plano do Kremlin para isolar o espaço digital russo do resto da internet foi alvo de raras críticas mesmo entre os setores que apoiam o Kremlin, como os bloggers militares que acompanham a guerra na Ucrânia. “Para os grupos responsáveis pelo combate a drones, o Telegram há muito que é o ÚNICO canal de comunicação”, criticou um dos canais (Two Majors) mais influentes de análise militar, pró-Moscovo. Os bloqueios motivaram mesmo protestos — no passado domingo, pelo menos 12 pessoas foram detidas numa manifestação em Moscovo.