O “inferno” irá abater-se sobre o Irão, caso o regime iraniano não aceite as condições impostas por Donald Trump de negociar ou reabrir o Estreito de Ormuz. A ameaça foi deixada pelo Presidente norte-americano no 37.º dia de guerra e rapidamente teve resposta do Irão, que identificou outro “inferno”. “Se as hostilidades escalarem, toda a região vai tornar-se num inferno para vocês”, avisou o porta-voz de um dos comandos do Exército iraniano.
Pela voz do ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, a resposta foi outra. Com um agradecimento ao Paquistão pelos esforços de mediação, Abbas Araghchi mostrou disponibilidade para negociar, mas nos termos do Irão, para obter um fim “conclusivo e duradouro” para a guerra.
Porém, enquanto as acusações eram trocadas entre as chefias políticas, as chefias militares iranianas e norte-americanas estiveram, este sábado, focadas num mesmo objetivo: encontrar o piloto do F-15 abatido pelo Irão na sexta-feira. As buscas de ambas as partes decorreram ao longo de todo o dia, tendo Trump anunciado, já durante a madrugada de domingo, que o soldado tinha sido encontrado e resgatado. O Irão apresentou uma versão contraditória dos acontecimentos.
Sobre os outros atores do conflito, destacaram-se os ataques israelitas contra complexos petroquímicos no Irão e a continuação dos ataques contra o Hezbollah e do Hezbollah, Irão e Houthis contra Israel. A resposta iraniana contra o Golfo foi, contudo, mais contida: pela primeira vez desde o início da guerra, a Arábia Saudita não registou nenhum ataque. Também não se verificaram ataques iranianos contra o Qatar.
Pode recordar os acontecimentos de sexta-feira aqui.
Estes foram os desenvolvimentos na guerra no Médio Oriente ao longo deste sábado, dia 4 de abril:
No Irão:
- Israel atacou o complexo petroquímico de Mahshahr, dizendo que a fábrica era utilizada para criar materiais utilizados em mísseis balísticos. O ataque matou uma pessoa.
- Os ataques israelo-americanos atingiram a IRIB, a estação pública de rádio e televisão do Irão, em Teerão.
- A Agência Internacional de Energia Atómica relatou que um projétil de um ataque israelo-americano atingiu uma zona perto da Central Nuclear de Bushehr.
- O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão e o embaixador do Irão junto das Nações Unidas alertaram para os riscos de um acidente nuclear devido aos ataques contra Bushehr ou nas suas proximidades.
- O ministro da Ciência do Irão relatou que “mais de 30 universidades foram visadas diretamente” por ataques israelo-americanos em mais de um mês de guerra. Hossein Simai Sarraf visitou a Universidade Shahid Beheshti, no norte de Teerão, que foi atacada na sexta-feira.
- Os Estados Unidos resgataram o segundo piloto do F-15 abatido pelo Irão na sexta-feira. As operações de busca foram a prioridade militar dos Estados Unidos ao longo de todo o sábado e o resgate aconteceu na madrugada de domingo.
- O Irão desmentiu as informações, alegou ter frustrado as operações de busca e resgate dos EUA e disse que os Estados Unidos sofreram uma “derrota humilhante”.
- O Presidente norte-americano renovou o ultimato para o Irão reabrir o Estreito de Ormuz. “Lembram-se de quando dei ao Irão dez dias para CHEGAR A UM ACORDO ou ABRIR O ESTREITO DE ORMUZ? O tempo está a esgotar-se — faltam 48 horas para que o inferno se abata sobre eles”, escreveu Donald Trump na Truth Social.
- O porta-voz do Comando Central Khatam al-Anbiya do Exército iraniano respondeu na mesma moeda às ameaças norte-americanas. “Se as hostilidades escalarem, toda a região vai tornar-se num inferno para vocês; a ilusão de derrotar a República Islâmica do Irão vai tornar-se num pântano em que vocês se vão afundar”, declarou Ebrahim Zolfaghari.
- Um general do mesmo comando, Ali Abdollahi, também reagiu às declarações, dizendo que as “portas do inferno serão abertas” caso Trump cumpra as ameaças. “O Presidente norte-americano [Donald Trump], agressivo e belicoso, após ter sofrido derrotas sucessivas, começou, de forma impotente, instável, nervosa e estúpida, a ameaçar as infraestruturas e os bens” do Irão, afirmou.
- O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão agradeceu ao Paquistão pelos esforços de mediação e acusou a imprensa norte-americana de deturpar a posição iraniana em relação às negociações. “O que nos preocupa são os termos de um FIM conclusivo e duradouro desta guerra ilegal que nos foi imposta”, declarou Abbas Araghchi nas redes sociais.
Em Israel e no Líbano:
- Seis pessoas ficaram feridas depois uma munição de fragmentação ter atingido uma zona no centro de de Israel.
- Ao todo, o Irão lançou oito mísseis contra Israel e registaram-se impactos de munições de fragmentação em dez zonas do país.
- O Hezbollah disse ter lançado 23 ataques contra as forças israelitas no sul Líbano e 19 ataques contra as comunidades do norte de Israel.
- Os Houthis lançaram um míssil balístico contra o sul de Israel, declarando que o ataque foi coordenado com o Irão e o Hezbollah.
- Um soldado israelita morreu num incidente de fogo amigo no sul do Líbano. Outro soldado ficou gravemente ferido.
- Três capacetes azuis ficaram feridos num ataque contra uma posição da força de paz das Nações Unidas no Líbano, relatou a UNIFIL, sem identificar o autor do ataque. Israel responsabilizou o Hezbollah pelo ataque.
- Os ataques israelitas contra o Líbano mataram 1.422 pessoas desde o dia 2 de março, segundo os números atualizados do Ministério da Saúde libanês.
No Golfo:
- O Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos (EAU) relatou a interceção de 56 drones e 23 mísseis balísticos.
- Fragmentos de um míssil iraniano atingiram o edifício da Oracle no Dubai, mas não se registaram baixas.
- O Kuwait disse ter intercetado oito mísseis e 19 drones.
- No Bahrain, foram intercetados oito drones e nenhum míssil, segundo informações do Exército.
- Pela primeira vez desde que a guerra começou, a Arábia Saudita não deu conta de qualquer ataque iraniano contra o país.
- Também não se verificaram ataques contra o Qatar.
No resto do mundo:
- No Iraque, um ataque israelo-americano matou dois combatentes das Forças de Mobilização Popular, uma das milícias iraquianas que apoia o regime iraniano.
- As milícias pró-Irão no Iraque lançaram novos ataques contra bases e interesses norte-americanos na região.
- O Departamento de Estado nos Estados Unidos anunciou a detenção de Hamideh Afshar, identificada como sobrinha de Qassem Soleimani, o comandante da Guarda Revolucionário morto num ataque norte-americano ordenado por Donald Trump em 2020.
- A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, visitou o Qatar e sublinhou a necessidade de desescalar o conflito e diminuir o seu impacto na segurança energética da região e das cadeias de abastecimento globais.
- O Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, alertou, durante um telefonema com o secretário-geral da NATO, que a guerra atingiu um “impasse geoestratégico” e que a comunidade internacional deve reforçar os esforços de mediação.