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É um teatro ou um jantar? "Maria-Rapaz" é a peça onde se come, e onde os chefs afinal são atores

Este artigo tem mais de 6 meses

Com receitas assinadas pela sous-chef do Cura, a peça de Joana Pereira da Costa apaga a fronteira entre palco e plateia. Em "Maria-Rapaz" o teatro faz-se através da comida, num jantar de 6 momentos.

O restaurante da Casa Capitão vai ser palco da peça "Maria-Rapaz"
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▲O restaurante da Casa Capitão vai ser palco da peça "Maria-Rapaz"

▲O restaurante da Casa Capitão vai ser palco da peça "Maria-Rapaz"

O paladar é o convidado principal na estreia de Maria-Rapaz, uma peça do projeto Aftertaste Supperclub que cruza o teatro com comida e dramaturgia sensorial. No próximo dia 13 de maio chega à Casa Capitão enquanto um teatro comestível que acompanha a vida de um casal enquanto cozinha, come e conversa. Tudo isto enquanto o público aproveita exatamente o mesmo jantar de seis momentos que os atores.

Sem um palco ou plateia, a peça da artista portuguesa Joana Pereira da Costa estreia-se no restaurante da Casa Capitão e é esse mesmo o cenário que vai ser utilizado ao longo de toda a peça. “Os atores são os chefs e os empregados de mesa, portanto, a peça começa como se fosse um jantar normal e ao longo do tempo o público vai-se apercebendo de que os chefs não são efetivamente chefs, são sim os atores, e depois toda a história desenrola-se a seguir”, explica a artista sensorial ao Observador.

Sentado nas mesmas mesas de restaurante onde está a decorrer o espetáculo, o público vai assim assistir ao longo de quase três horas a uma peça de teatro imersiva situada entre uma cozinha de alta gastronomia sem erros e o caos acolhedor de uma cozinha doméstica que acompanha duas mulheres enquanto cozinham, inspiradas em receitas tradicionais portuguesas e na experiência queer, ao mesmo tempo que questionam o que é arte e que tipo de conhecimento se transmite quando se partilha uma refeição.

Apesar de não ser um teatro sobre comida, e sim teatro através da comida, essa tem um papel principal, uma vez que o próprio ato de comer se torna numa estrutura narrativa: “O tempo, o sabor, o cheiro e a partilha entre os participantes produzem significado, aproximando o público da obra através da experiência física e coletiva. O espectador deixa de observar à distância e passa a integrar o ambiente performativo“. Esta abordagem culmina assim num jantar de seis momentos onde cada prato corresponde a uma cena. As receitas foram desenvolvidas em colaboração com chefs convidados, como a sous-chef do Cura, no Ritz, Marina Garcia, e com a chef e investigadora Safiya Robinson, e são todas 100% vegetarianas.

A experiência gastronómica começa numa abordagem de fine dining que vai ficando cada vez mais doméstica à medida que as cenas avançam. As propostas vão também mudando: “Os pratos vão passando de mais tradicionais, tradicionalmente portugueses, a uma versão mais queer, ou seja, uma versão alterada. Não olhar para a receita como uma lista de ingredientes e instrução mas sim como algo que se pode vir a mudar com base nos nossos valores pessoais”, explica Joana Pereira da Costa. “A peça começa com comida muito tradicional sem ser tão mudada e vai ficando mais alterada ao longo da peça”, esclarece. Como em qualquer supperclub, o público apenas sabe o que vai jantar quando o prato chegar à mesa.

Ao Observador, a artista explica que a ideia para a peça surgiu quando assistiu a um espetáculo onde havia difusão de cheiro ao longo da peça, convidando o público a ativar o olfato para além da visão e audição que o teatro pede.

“Eu gosto muito de explorar outros sentidos que não só o visual. E acho que com o cheiro e com a comida, que são sentidos que estão mais associados à memória e sentidos mais viscerais, o público mais facilmente consegue sentir no seu próprio corpo a história do que está só a ver. Há menos separação”, defende, esclarecendo que “existem várias peças que é dinner and a play mas que não estão necessariamente os dois juntos. E acho que o objetivo é mesmo para o teatro e para o jantar em si contar a história que o público está a ver”.

Maria-Rapaz vai estar em exibição na Casa Capitão a 13 de maio mas depois segue para Londres onde, nos dias 14 e 15 de agosto, convida a provar o menu no Camden Fringe Festival. Os bilhetes tanto para a sessão nacional (32,50 euros) como internacional (9 libras) já estão disponíveis.

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