A agenda do Papa prosseguiu como se nada tivesse acontecido, visto que, na sua comitiva, ninguém tinha conhecimento dos dois atentados suicidas ocorridos em Blida, a cerca de 40 quilómetros de Argel, na manhã de segunda-feira, primeiro dia da visita histórica de um Papa à Argélia. Ao meio-dia, perante o Presidente Abdelmadjid Tebboune, Leão XIV pediu aos líderes argelinos abertura: “Aqueles de vocês que ocupam posições de autoridade neste país” que “promovam uma sociedade civil vibrante, dinâmica e livre, na qual os jovens, em particular, sejam reconhecidos como capazes de ajudar a ampliar o horizonte da esperança para todos”. A visita continuava a decorrer sem qualquer perturbação.
As autoridades argelinas procuraram impor um bloqueio total de informação. Na imprensa nacional da Argélia, não houve qualquer referência. Entre os jornalistas estrangeiros que cobriam o evento, também nada circulava. Mesmo dentro da comitiva que acompanhava o Papa, a notícia demorou várias horas a surgir, sem qualquer reação da sala de imprensa do Vaticano.
As redes sociais, porém, escaparam ao controlo. Rapidamente, começaram a surgir vídeos que chegaram aos media franceses, confrontados com a ausência de confirmação oficial. Online, apoiantes do regime procuraram desvalorizar o episódio, sugerindo que as explosões teriam sido causadas por botijas de gás ou que as imagens estariam descontextualizadas. Só na terça-feira, a agência France-Presse (AFP), segundo o Le Monde, confirmou a existência de um “ataque suicida duplo” ocorrido em Blida no dia anterior, após verificar imagens das redes sociais e citar “uma fonte ocidental familiarizada com o caso”.
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As imagens que circularam online ajudam a reconstituir o que aconteceu. O alvo seria uma esquadra da polícia, mas os dois atacantes acionaram os cintos explosivos antes de se conseguirem aproximar do edifício — aparentemente depois de um agente de serviço ter detetado a sua presença. Num dos vídeos, verificado pela AFP, vê-se o polícia aproximar-se de um dos homens-bomba, ficando a poucos metros, sendo depois projetado pela explosão. O agente levanta-se de seguida, aparentemente ileso. “Houve dois incidentes de segurança ontem [segunda-feira] à tarde em Blida, incidentes de natureza terrorista. Dois homens-bomba explodiram-se e morreram”, confirma uma fonte à agência, citada pela Euronews, na terça-feira. Além dos dois, não há mais vítimas mortais registadas.
As imagens indicam, como explicou um especialista em segurança argelino ao jornal, que “a explosão foi fraca e a operação foi mais um trabalho improvisado”. Com base na informação disponível, tudo aponta para uma ação falhada, marcada pelo amadorismo de dois atacantes, “lobos solitários”, mal equipados.
A tentativa de silenciamento teve efeitos para além das fronteiras do país. Nos corredores da União Africana, o episódio gerou embaraço. Na manhã de terça-feira, a organização condenou “nos termos mais veementes possíveis o duplo atentado ocorrido em 13 de abril de 2026 em Blida”, num comunicado assinado pelo presidente da comissão, Mahamoud Ali Youssouf. Mas o texto foi rapidamente retirado do site oficial. Contactado pelo Le Monde, o porta-voz Nuur Mohamud Sheekh justificou a decisão: “As informações em que este comunicado se baseava não foram corroboradas por fontes oficiais”.
Quanto ao momento do ataque, segundo uma fonte diplomática francesa citada pelo jornal, não há coincidências. “Não há absolutamente nenhuma dúvida sobre a ligação entre o momento desses atos e a atual visita do Papa à Argélia. Os terroristas queriam punir a Argélia por acolher o líder dos infiéis. É também uma mensagem ao Presidente Tebboune, que tem a audácia de receber o Papa em solo islâmico”, afirmou.
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Mais tarde, evocando esse passado de violência, o Papa Leão XIV elogiou o povo argelino, “que conseguiu superar essas provações”. Recordou ainda que as vítimas religiosas da década negra da guerra civil argelina (1992-2002) “permaneceram fiéis à caridade até o ponto de se sacrificarem ao lado de muitos outros homens e mulheres, cristãos e muçulmanos”. O atentado falhado acabou por surgir como contraponto ao apelo à reconciliação e à paz que o pontífice procurou transmitir: “Em vez de multiplicar mal-entendidos e conflitos, vocês certamente podem-se tornar protagonistas de um novo capítulo da história”, clamou o Papa.