O IPO do Porto formaliza esta quarta-feira, em parceria com instituições da Galiza, Espanha, um projeto dedicado sobretudo aos cancros do pulmão e colorretal e que inclui a participação de pacientes dos dois países em ensaios clínicos com terapias inovadoras.
Com o nome EQUIO – Equidade Oncológica Transfronteiriça, a iniciativa junta o Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto ao Servizo Galego de Saúde (SERGAS) e a Agência Galega para a Gestão do Conhecimento em Saúde (ACIS), e será formalizada esta quarta-feira em Santiago de Compostela, na Galiza, numa cerimónia marcada para as 10h00.
Avançando que, na prática, se trata da criação “da primeira rede oncológica transfronteiriça de cuidados oncológicos integrados da Europa”, o presidente do IPO Porto explicou que as parcerias entre a Galiza e a Região Norte de Portugal “já existem há cinco/seis anos, inclusivamente com intercâmbios entre profissionais, materializando-se agora em projetos concretos”.
“Isso é muito relevante e não é apenas um exercício académico. É um exercício que vem de pensamento, de organização, de cuidados, de organização estrutural, que vai da investigação à formação e aos cuidados que são oferecidos aos doentes que tem impacto e terá impacto cada vez mais e com mais escala nos eventos da região”, disse Júlio Oliveira, em declarações à agência Lusa.
Segundo o presidente do IPO do Porto, a parceria tem vindo a desenvolver-se em várias dimensões do domínio científico, à promoção da investigação clínica e investigação científica na área da oncologia com especial foco na área da medicina de precisão.
Prevendo-se que dure três anos, o EQUIO conta com um orçamento de 1,96 milhões de euros cofinanciado com fundos de cooperação europeia.
É objetivo central do projeto garantir um acesso equitativo ao diagnóstico, tratamento e acompanhamento do cancro no território da Eurorregião Norte de Portugal e Galiza, razão pela qual será formado um grupo de especialistas para cada tipo de tumor, com profissionais portugueses e espanhóis que definirão padrões comuns para todo o processo de saúde, desde o diagnóstico ao tratamento e acompanhamento.
Está igualmente prevista a criação de um comité molecular de tumores, igualmente com especialistas transfronteiriços, para o diagnóstico molecular de tumores avançados, bem como para a consolidação de procedimentos que permitam a participação de pacientes dos dois países em ensaios clínicos com terapias inovadoras.
À Lusa, Júlio Oliveira avançou que será lançado um projeto piloto comum para realizar a análise molecular avançada para pacientes com cancro metastático avançado sem alternativa terapêutica nos protocolos usuais.
“Queremos, em conjunto, alargar à escala do Noroeste Peninsular o Programa de Oncologia de Precisão, a discussão de doentes. Isto para procurarmos identificar potenciais ensaios clínicos que estejam a decorrer na região, tanto do lado de cá da fronteira como do lado de lá, traduzindo isto em benefícios na mobilidade de doentes, ou seja para que tenham acesso a mais oportunidades de tratamentos através de ensaios clínicos”, disse Júlio Oliveira.
Esta estratégia não é nova no IPO do Porto, onde, independentemente da origem do tumor, a todos os doentes que estejam na iminência de esgotar as opções de tratamento convencionais, está já a ser oferecida a sequenciação genómica compreensiva.
“Entre 10% a 15% dos casos encontramos alterações nos genes do tumor que podem, ou que indiciam, que possa haver resposta a tratamentos disponíveis, em contexto de ensaio clínico ou que estejam disponíveis para outros contextos de doença que não aquele que o doente tem, mas cujo tratamento possa vir a beneficiar esse doente”, explicou Júlio Oliveira.
De acordo com a descrição do EQUIO enviada à Lusa, em três anos o projeto deverá integrar cerca de 500 pacientes.
Júlio Oliveira é mais ambicioso: “Esperamos mais. Só num ano, só aqui no IPO do Porto, integrámos cerca de 300 doentes nesse processo. Portanto, os 500 será um número facilmente atingido”.
O EQUIO inclui, ainda, a criação de um campus de formação em oncologia para comunicação transfronteiriça, dedicado ao treino contínuo de profissionais de saúde sobre os mais recentes avanços em diagnóstico e tratamento.