Num caso inédito na Escócia, Lee Milne, de 40 anos, foi responsabilizado criminalmente pelo suicídio da mulher, tendo sido condenado a onze anos de prisão por homicídio negligente.

Na noite de 27 de julho de 2023, Kimberly Milne, de apenas 28 anos, atirou-se de uma ponte sobre a autoestrada A90, que liga as localidades de Dundee, de onde era natural, e Aberdeen, noticia o The Guardian. Mas apesar de ter sido a jovem saltar, terminando assim a sua vida, o júri considerou, por unanimidade, que o abuso físico e psicológico que Lee exerceu sobre Kimberly durante a sua relação de cerca de dois anos foi o ‘empurrão fatal’.

Pelo que as autoridades conseguiram apurar, através de testemunhos da própria e dos seus familiares, a vida da jovem escocesa sempre foi marcada por problemas de saúde mental. Ainda em criança, foi internada várias em centros psiquiátricos, mais tarde começou a automedicar-se com drogas ilegais para “anestesiar a dor” e, em 2020, tentou cometer suicídio. “A Kimberly nunca teve uma vida agradável, passou por períodos de muita turbulência”, confessou o seu pai, lembrando que a própria afirmava que não viveria para além dos 21 anos, avança o The Guardian.

Um ano depois da sua primeira tentativa de suicídio, Kimberly conheceu o futuro marido, Lee Milne, online. Segundo a irmã mais nova de Kimberly, Nicky Bruce, Lee surgiu como o seu “príncipe encantado”. “Ela só queria ser amada”, disse Nicky em tribunal. A relação parecia estar a correr bem, tendo o par casado pouco tempo depois – em outubro de 2022 – mas ‘entre quatro paredes’ os problemas começaram a surgir praticamente desde o início da relação e continuaram até ao dia em que a jovem colocou um fim à sua vida.

Segundo a acusação, os abusos de Lee Milne não eram meramente físicos, mas também psicológicos. Em múltiplas ocasiões estrangulou-a, desferiu-lhe murros, arrastou-a pelos cabelos, deixando-a inconsciente, o que aconteceu outras vezes com agressões. Isolou-a da família, controlava-lhe o dinheiro, o telemóvel, as movimentações e insultava-a regularmente. Chegou mesmo a trancá-la no apartamento que partilhavam, sem comida, segundo reportam a BBC e o The Guardian.

As irmãs recordam, em tribunal, ter visto ao longo da relação múltiplos indícios da sua natureza abusiva. Lynsey Anderson, irmã mais velha, atestou ter visto hematomas no pescoço e no braço de Kimberly e, numa ocasião, chegou a reparar numa marca de mordida. “Conseguia-se ver os dentes. Era como uma marca numa maçã quando lhe dás uma dentada”.

Já a irmã mais nova acusou o ex-cunhado “de encher a cabeça dela com disparates absolutos. Acho que ele a fez sentir que a família não a amava”.

Kimberly tentou várias vezes terminar a relação. Mas sempre que o fazia, Lee Milne ameaçava matar-se, tendo mesmo, em fevereiro de 2023, durante um período de separação, enviado uma mensagem com uma fotografia em que aparecia com uma agulha no pescoço, avisando que se algo de mal lhe acontecesse “ela seria responsável pela sua morte”, escreve o The Guardian.

Em maio de 2023, dois meses antes de morrer, Kimberly foi internada no Carseview Centre, uma instituição de saúde mental do Serviço Nacional de Saúde em Dundee, após mais uma tentativa de suicídio. Foi durante este período que partilhou com a equipa médica, e mais tarde com a polícia, os abusos físicos e “tortura mental” que Milne perpetrou durante quase dois anos, avançou o jornal britânico.

Após prestar declarações às autoridades, Lee foi oficialmente acusado de violência doméstica, tendo ficado em liberdade condicional e proibido de contactar Kimberly. Porém, violou essas condições repetidamente, assegurou a polícia, incluindo na noite em que a jovem se suicidou.

Várias testemunhas recordaram tê-los visto juntos num parque comercial em Dundee nessa noite, com Kimberly “encolhida” e “muito perturbada” enquanto Milne gritava com ela e a encurralava contra uma parede. As câmaras de vigilância do estabelecimento também captaram a interação. Pouco depois, os dois foram vistos a caminhar até à ponte, com Lee a seguir a jovem, sobre a A90, onde Kimberly acabou por saltar morrendo imediatamente depois de um carro que estava a passar a atingir.

Horas depois, Milne disse às autoridades que tinha corrido atrás de Kimberly, apenas para a impedir de saltar.

Inicialmente, as autoridades trataram a morte de Kimberly como um ‘mero’ suícidio, mas à medida que os detalhes iam surgindo com a investigação, a possibilidade de acusar Milne de homicídio começou a afigurar-se como viável. Segundo Alex Prentice, um dos principais advogados penalistas da Escócia se se conseguisse estabelecer uma causalidade entre o “comportamento abusivo contínuo” e a morte de Kimberly, levando-a a “sentir que não havia para onde ir, e que a única saída era tirar a própria vida” a acusação seria viável, cita-o o The Guardian.

Embora o advogado de defesa de Lee Milne tenha argumentado que o seu cliente não podia ser responsabilizado pela morte da ex-parceira e que a sua morte se devia aos “problemas de saúde mental de longa data”, o tribunal não aceitou tal argumento.

Assim, depois da leitura da sentença a 10 de abril, Lee Milne tornou-se a primeira pessoa no Reino Unido a ser condenada por matar uma ex-parceira (por violência doméstica prolongada), apesar de não ter causado fisicamente a morte dela. A juíza que presidiu o caso condenou Milne a uma sentença alargada de onze anos: oito de prisão efetiva e três anos de supervisão após a libertação, numa decisão histórica de que a violência doméstica sustentada pode tornar um agressor criminalmente responsável pelo suicídio da vítima.