Após dezasseis dias detida pelo Serviço de Imigração e Alfândegas (ICE, na sigla em inglês), nos Estados Unidos, Marie-Thérèse Ross-Mahé, de 86 anos, foi repatriada para a França. Vestida com a farda utilizada na prisão, “sapatos cor de laranja, calças e uma blusa cinzenta manchada e furada”, a idosa terá aterrado no aeroporto de Aeroporto Charles de Gaulle, a pouco mais de 20 quilómetros de Paris, avançou o jornal Ouest-France.

“A minha mãe está finalmente livre! É um alívio enorme”, disse um dos seus filhos, que a reencontrou em França, ao mesmo meio de comunicação social, para o qual lamentou estar Marie-Thérèse em “estado de choque e exausta”. O homem e também os seus dois irmãos, que não quiseram se identificar, desconfiavam de uma denúncia feita pelos enteados de mãe ao órgão de controlo imigração com o intuito de dificultar a partilha da herança, o que foi posteriormente confirmado pela juíza responsável pelo inventário do falecido, Shirley Millwood, noticiou o The New York Times.

O ministro dos Negócios Estrangeiros de França, Jean-Noël Barrot celebrou a libertação de Marie-Thérèse e afirmou aos jornalistas que os métodos de detenção do ICE “não estão em conformidade” com os padrões franceses e “não são aceitáveis”, pelo que Paris contactou o Governo dos EUA para que o caso fosse tratado com urgência.

A mulher mudou-se em junho de 2025 para os Estados Unidos com o objetivo de se casar com o homem por quem foi apaixonada na juventude e que reencontrou mais de 60 anos depois. Mas em 24 de janeiro deste ano, o seu marido, o norte-americano William “Billy” Ross, morreu repentinamente aos 85 anos, o que tornou irregular a situação da viúva no país. Marie-Thérèse aguardava pela autorização de residência definitiva. Após a morte do marido, os filhos do primeiro casamento do homem iniciariam uma disputa judicial com a francesa pela herança.

Os filhos de Ross não aceitaram partilhar os bens do seu pai com a madrasta DR

Os filhos de Ross não aceitaram partilhar os bens do seu pai com a madrasta

De acordo com a lei do estado do Alabama, onde o casal vivia, e devido ao facto de Billy não ter deixado testamento, o carro, casa e contas bancárias — avaliados num total de mais de 150 mil euros — seriam partilhados entre a viúva e os filhos do homem. Mas Tony e Gary Ross, insatisfeitos com a divisão, terão ido à casa em que o pai vivia com a mulher para ir buscar o carro e uma carrinha, acusou Marie-Thérèse. Os dois negaram tê-lo feito.

Uma deliberação judicial que impediu os parentes de Ross de venderem ou doarem os seus bens agravou a disputa que já decorria fora do tribunal. Millwood referiu no processo que o filho mais novo terá aproveitado a sua influência como funcionário público para pedir aos agentes de segurança que prendessem a madrasta arbitrariamente, sem considerar que o seu pedido de cidadania já estava em curso.

Segundo o New York Times, um dos filhos do falecido, Tony, é um polícia reformado que trabalhava num tribunal federal. O processo refere também que ele terá sido informado da detenção da mulher do pai um dia antes desta ocorrer. Logo após a detenção, o irmão de Gary terá ido logo a seguir até a residência trocar as fechaduras.

A defesa de Marie-Thérèse alega que Gary terá redirecionado a correspondência que chegava à casa após a morte do seu pai para uma outra morada, o que a impediu de receber uma notificação das autoridades relacionada com o seu processo de legalização. Além de ordenar que os filhos devolvessem os carros e as chaves da casa, a juíza solicitou o apoio do Governo Federal norte-americano na investigação do caso. Enquanto o processo de partilha dos bens ainda decorre no tribunal nos Estados Unidos, Marie-Thérèse pode aguardá-lo na companhia da sua família em França, longe da prisão.