Uma história de amor que teve início no final da década de 1950 em França não teve um final feliz para Marie-Thérèse, de 86 anos, que foi presa nos Estados Unidos após a morte do seu marido. A mulher está detida desde o dia 1 de abril no estado do Louisiana, num centro de imigrantes do Serviço de Imigração e Alfândegas (ICE, na sigla em inglês).

Um dos três filhos de Marie-Thérèse suspeita que ela foi denunciada como “imigrante ilegal” naquele país pelo herdeiro de um casamento anterior do seu marido, que estava numa disputa judicial com a mulher pelos bens. “[Os agentes do ICE] algemaram as mãos e os pés da minha mãe como se ela fosse uma criminosa perigosa“, disse o homem, que vive na cidade de Nantes, ao jornal Ouest-France.

A francesa mudou-se para os Estados Unidos em junho de 2025 para viver com um militar norte-americano, conhecido como “Billy”, que conheceu há mais de 60 anos. Nessa altura, Billy estava destacado na base da NATO na cidade de Saint-Nazaire, na costa oeste francesa, onde Marie-Thérèse atuava como secretária bilíngue. No entanto, quando o homem deixou França em 1966, os dois perderam o contacto.

Quarenta e quatro anos depois, em 2010, a francesa e o norte-americano, ambos já casados e com filhos, retomaram o contacto através das redes sociais, chegando a reencontarem-se pessoalmente com as suas famílias, sendo Billy considerado um homem “encantador e adorável” por um dos filhos da mulher. Os dois ficaram viúvos em 2022, quando enfim deram início ao relacionamento que não foi possível na juventude. O casal estava apaixonado “como dois adolescentes”, disse o filho de Marie-Thérèse, pelo que decidiram então casar-se, permitindo que a mulher solicitasse um visto de residência permanente [conhecido como green card] nos EUA.

A primeira reviravolta da história ocorreu em janeiro deste ano, quando Billy morreu repentinamente, deixando não somente bens para uma disputa judicial, mas também a situação migratória da sua esposa indefinida. Uma audiência de conciliação entre Marie-Thérèse e um filho do casamento anterior de Billy, que não aceitava a partilha da herança, estava marcada para 9 de abril. E antes mesmo de o caso ir a tribunal, o homem cortou o fornecimento de água, energia elétrica e internet da casa em que Marie-Thérèse vivia com Billy. Mas o pior ainda estava por vir: oito dias antes da sessão a idosa foi presa naquele imóvel na cidade de Anniston, Estado do Alabama. Os vizinhos presenciaram a detenção e contactaram a família da francesa.

À BBC, o ICE afirma que a detenção ocorreu porque a mulher ultrapassou o período de permanência permitido do seu visto de entrada, que era de no máximo 90 dias. A sua solicitação para o greencard — que ainda não havia sido emitido — não impediu a ação. Casos como este têm sido cada vez mais comuns naquele país, que, sob o Governo de Donald Trump, está a tornar cada vez mais rígidas as suas punições aos imigrantes.

“Tendo em conta o seu estado de saúde [Marie-Thérèse sofre de problemas cardíacos e fortes dores nas costas], ela não aguentaria um mês nessas condições, numa prisão superlotada a partilhar espaço com mais setenta pessoas“, disse o seu filho ao Ouest-France. Após uma semana sem notícias da mulher, a 8 de abril, um embaixador do Consulado-Geral de França em Atlanta visitou-a, informando aos seus filhos que Marie-Thérèse estava bem. “A nossa mãe é uma guerreira, uma força da natureza. Os outros detidos a chamam-na ‘a inafundável’. E os vizinhos que testemunharam no tribunal afirmam que ela ganhou a causa pelos bens“.

A prioridade dos seus filhos tem sido retirar a idosa dos Estados Unidos, repatriando-a para a França, pedido que está a ser acompanhado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros. Não há provas de que a detenção tenha ocorrido por denúncia do herdeiro de Billy, mas enquanto Marie-Thérèse está presa e as relações EUA-França estão estremecidas, o seu filho lamenta estar a viver “um roteiro ruim de filme norte-americano“. “Todas as manhãs, acordo a dizer a mim próprio que não é verdade, que tive um pesadelo”.

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