Quem revisita o passado de Sabastian Kimaru Sawe, fá-lo, em boa parte, para perceber o que o outrora menino, nascido e crescido numa pequena aldeia no Quénia, ultrapassou para agora ser o recordista mundial de maratona. É aí que, da forma mais natural do mundo, está o segredo de tudo.

A história de Sabastian Sawe passa agora por Londres, onde o atleta bateu o recorde do mundo de maratona. Mas começou em Cheukta, nas Terras Altas de Uasin Gishu, no Quénia, mais precisamente no dia 16 de março de 1995. Sabastian nasceu num local que alternava entre a escassez de água e as inundações. A eletricidade era rara e a água recolhida através da queda de chuva. O chão da aldeia, em terra batida, dava lugar a casas com paredes em barro.

O rádio era o único portal que retirava aquele povo de uma realidade que começava e acabava na agricultura. Simion, o pai, era agricultor. Emily, a mãe, foi uma talentosa corredora e chegou a conquistar um campeonato nacional inter-escolas em 1991. A gravidez, tão nova e naquelas circunstâncias, tirou-lhe o sonho de ir muito além dos campeonatos escolares e voltou-a para a vida no e para o campo.

Para subsistir, a família de Sabastian, como muitas outras na aldeia, cultivava milho. “Era um trabalho árduo, mas nunca passámos fome”, garantiu o atleta à Runner’s World. Foi ali, em 2004, nas searas de Cheukta, que correu pela primeira vez. Não para competir com outros mas para ir à escola. O trajeto era feito em ritmo de corrida e tinha como pano de fundo o método de subsistência daquela povoação. “Eram dez minutos de corrida mas ninguém caminhava”, revelou Jack, o tio de Sabastian Sawe. Todos corriam para a escola, mas a mãe, Emily, recorda que “para onde quer que fosse, ele corria”.

A avó ‘Koko’, a missa ao domingo e o legado de família

Mais tarde, os pais de Sabastian tiveram de mudar-se para mais de 100 quilómetros de distância. O motivo era o mesmo: a agricultura. Sabastian ainda foi com Emily e Simion, mas as saudades da avó, Esther ‘Koko’, ditaram o seu regresso a Cheukta. Ele e a irmã passaram a ser criados por ela. Foi nessa altura que Sabastian passou a ir à missa ao domingo, onde ‘Koko’ lhe passava os valores da disciplina. Sawe era descrito como um jovem sensato, educado e com um desempenho escolar aceitável. Mas além destas características, era um sonhador. E já sabia que queria correr desde muito cedo.

Esse sonho foi diretamente apoiado pelo seu professor Julius Kemei e por um outro seu tio, Abraham Chepkirwok. O professor lembra que Sabastian “às vezes escondia-se das corridas na cantina da escola”, mas recusou-se “a deixá-lo recuar”. “Disse-lhe: ‘Correr não é apenas talento – é a tua sorte e o teu futuro’“, recorda. Chepkirwok inspirou em 2008 o sobrinho ao estabelecer o atual recorde nacional do Uganda dos 800 metros, percorridos em 1.43,72. “Lá estava ele, na linha de partida dos Jogos Olímpicos. Essa imagem não a esqueci”, afirma Sabastian.

Indiretamente, apoiava-o o legado que trazia consigo. O seu pai, Simion, pertencia à tribo Nandi, uma das mais resistentes ao Império Britânico, colonizador do Quénia. A mãe foi uma promissora corredora. O avô, Musa Simenei, um trabalhador assalariado, limpou terrenos até conseguir cerca de 60 hectares (algo como nove campos de futebol, aproximadamente) em plantações de milho, onde a família se conseguiu sustentar. A resistência inata de Sabastian estava-lhe no sangue, mas não apenas para correr. Também para conseguir escapar dessa realidade que começava e terminava nas searas, para seguir o seu sonho e honrar o da sua mãe.

Sabastian seguiu o caminho da mãe e começou a competir em corridas inter-escolas mas a nível regional. Rapidamente começou a ganhar uma atrás da outra. Cada vitória levantava mais alto a mesma teoria: estava pronto para outro patamar. Para defender essa tese, Sabastian apanhou em 2017 um autocarro para Iten, a cerca de uma hora de Cheukta. Era ali, a 2.400 metros de altitude, que se formavam os campeões. Os moradores diziam que, quem treinasse ali, tinha melhoras mágicas, refere a mesma publicação.

Ao contrário de muitos jovens atletas que chegavam a Iten para perseguir o mesmo sonho, Sabastian contou com a ajuda do tio, que lhe disponibilizou equipamento adequado e dinheiro suficiente para a estadia. Ainda assim, o treinos eram informais e orientados por ex-atletas, numa estrutura inexistente e à base do improviso. Sawe treinava principalmente para os 800 metros. Era esse o potencial que o tio via no sobrinho. Sawe começou a ir a algumas provas pela mão do seu tio, mas não se conseguia destacar. Ainda assim, o seu tio continuava a acreditar que os 800 metros seriam o futuro do sobrinho.

O reconhecimento que tardou, a recusa de ser polícia

Em 2019, Sabastian chegou atrasado a uma prova de atletismo em Kakamega, a cerca de três horas de Iten. Entre outras provas, a de 800 metros já tinha sido disputada. Restava a dos 5.000 metros, à qual Sawe se juntou, sem qualquer experiência, nem aquecimento. O que inicialmente era uma tentativa de apenas acompanhar o pelotão transformou-se em vitória. 13.56 foi o tempo que Sawe demorou a percorrer os cinco quilómetros – a melhor marca do dia.

No entanto, essa vitória e algumas que se seguiram não lhe deram o reconhecimento que ele precisava e que outros conseguiram obter: contratos, viagens e agentes. Sawe era bom, mas, para os padrões do Quénia, não o suficiente para conseguir patrocínios. Por isso voltou a Cheukta, onde a família o questionou sobre a possibilidade de largar as corridas e conseguir um emprego convencional: um cargo na polícia, através de contactos familiares. Mas Sabastian afastou essa possibilidade e treinou ainda mais. O excesso de carga levou a uma lesão num tendão em março de 2020. Ainda tentou contrariá-la, mas em agosto já não conseguia correr. A Covid-19 paralisou todas as provas e colocou em suspenso todos os patrocínios e oportunidades, não só para Sabastian, como para muitos outros atletas. Iten e os seus treinos improvisados, por atletas que partilham o mesmo sonho, estavam em suspenso.

Em suspenso, pela lesão, continuavam também os sonhos de Sabastian. Mas o atleta tinha apenas uma certeza: queria correr. Percebendo que o sobrinho estava “estagnado” em Iten, o tio Abraham entrou em contacto no outono de 2020 com o técnico queniano Abel Mutai, medalha de bronze olímpico em 2012. Sawe mudou-se para o 2Running Club no condado de Nandi – para onde os pais se tinham mudado anos antes –, um centro de treino profissional, que dispunha de fisioterapia e protocolos de recuperação avançados, coordenado por Claudio Berardelli. Foi lá que conseguiu recuperar fisicamente e foi promovido ao grupo de elite do centro. No entanto, surgiu mais um percalço: quando estava prestes a competir na maratona de Valência, um teste positivo de Covid-19 impediu-o de viajar.

Mas o sonho de Sawe era tão resistente quanto o próprio. Após um 2021 de treinos intensos e isolamento, o mundo do desporto finalmente conheceu o seu potencial a 30 de janeiro de 2022, na meia maratona de Sevilha. Embora contratado apenas para ditar o ritmo até aos 10 quilómetros, Sawe – que pouco antes tinha sabido que a sua avó ‘Koko’ estava gravemente doente – decidiu continuar a prova e venceu com o tempo de 59.02, batendo o recorde do percurso por um minuto e meio. A missão de Sabastian era apenas guiar os outros atletas nos dez primeiros quilómetros em 28.10. A missão passou a homenagem à sua avó ‘Koko’, que faleceu dias depois.

A partir daí, a sua evolução foi notável. Em 2023 venceu o Campeonato do Mundo de meia maratona em Riga e em 2024 estreou-se na maratona de Valência com uma vitória, percorrendo os 42,195 quilómetros em 2.02.05. Em 2025, venceu a maratona de Berlim, quase cinco minutos à frente do segundo classificado, o japonês Akira Akasaki.

O recorde com a ajuda dos ténis mais leves do mundo, das fatias de pão, do mel e do chá

No último domingo, em Londres, Sabastian voltou a vencer uma maratona mas com contornos históricos. Sabastian Kimaru Sawe não só bateu o recorde de tempo para completar a prova, como se tornou no primeiro atleta da história a fazê-lo em menos de duas horas: 1.59.30. Para essa marca, contou com a ajuda dos ténis mais leves do mundo – os Adidas Pro Evo 3, os primeiros ténis de corrida com menos de 100 gramas – e ainda “duas fatias de pão, mel” e “chá”. Foi esse o pequeno almoço do atleta, citou o The Guardian. A isto, juntam-se os 200 quilómetros por semana em média, “atingindo um pico de 241 quilómetros”, revelou Berardelli, ainda hoje seu treinador, depois da corrida.

Foi apenas a quarta maratona de Sawe. Por isso, o treinador acredita que o atleta “ainda não atingiu o seu máximo potencial”. “Se pensarmos em adaptações a longo prazo, que é um processo que requer tempo, acredito que Sabastian ainda não chegou lá”, atirou. “Todas as peças encaixam na perfeição, graças à sua atitude e ao seu caráter. Ainda estou a descobrir quem é o Sawe. É um ser humano excecional. Tem uma energia tão positiva, mas é tão humilde ao mesmo tempo”, admitiu o técnico, que “pensava que já tinha visto praticamente tudo” em 22 anos a treinar no Quénia. Até que Sawe apareceu e começou a mostrar ao treinador o que ele considerava “quase impossível”.