A Microsoft e a OpenAI renegociaram o acordo de parceria. Desde 2019 que as duas empresas têm um acordo que, entre várias cláusulas, implica que a Microsoft tem acesso exclusivo à propriedade intelectual da OpenAI. Só que nos últimos tempos, as duas empresas pareciam cada vez mais afastadas. Em parte, devido a outras parcerias da OpenAI com empresas rivais, como a Amazon.
Os novos termos da parceria, anunciados esta segunda-feira, dão maior liberdade à OpenAI para explorar relações comerciais com outras empresas, como a Amazon e a Amazon Web Services (AWS). Por sua vez, a Microsoft continuará como principal parceira cloud da OpenAI, mas reduz a dependência da dona do ChatGPT na sua estratégia de IA.
Em comunicado, as tecnológicas realçaram que esta alteração “simplifica a parceria”, assenta “em flexibilidade” e permite “a ambas as empresas explorarem novas oportunidades”.
O que muda para a OpenAI?
Uma das maiores mudanças é que a OpenAI fica livre para vender os seus modelos de inteligência artificial (IA) através de qualquer outro fornecedor de cloud. Até aqui, os modelos da OpenAI estavam disponíveis em exclusivo através da plataforma Azure da Microsoft. “A OpenAI pode agora servir os seus produtos aos clientes em qualquer fornecedor cloud”, foi dito em comunicado.
Deixa também de existir uma ideia de exclusividade da propriedade intelectual da OpenAI poder ser usada apenas pela Microsoft. Ou seja, fica aberta a porta para que rivais da Microsoft, como a AWS ou a Google, entre outros, possam disponibilizar os modelos da dona do ChatGPT.
A AWS já está em campo, com Andy Jassy a dizer nas redes sociais que está entusiasmado “por disponibilizar os modelos da OpenAI diretamente aos clientes através da Bedrock [plataforma de IA da AWS] nas próximas semanas”. Ficou ainda a promessa de mais detalhes da ligação entre a OpenAI e a Amazon esta terça-feira, no evento da AWS que decorrerá em São Francisco.
De acordo com o portal Axios, também a Google estará a analisar os termos do acordo revisto para perceber como poderá trabalhar com a OpenAI.
A OpenAI e a Microsoft têm há vários anos um acordo de partilha de receitas. Com a mudança, a OpenAI continuará a pagar a mesma percentagem de 20% à Microsoft até 2030, como no anterior acordo. Mas agora haverá um tecto máximo, que não foi revelado, e a inscrição de que esta partilha de receitas acontecerá “independentemente da evolução da tecnologia da OpenAI”.
E para a Microsoft?
A Microsoft continuará a ser a “parceira preferencial de cloud da OpenAI” e a ter a primazia no lançamento de produtos da OpenAI na plataforma Azure, “a menos que não possa ou opte por não oferecer suporte às competências necessárias”, foi dito em comunicado.
Por outro lado, a dona do Windows deixa de estar obrigada a pagar uma comissão pelas receitas obtidas através da venda de modelos da OpenAI na plataforma Azure. A dona do Windows continua também a receber as receitas de vendas da OpenAI até 2030.
A Microsoft, que já investiu cerca de 13 mil milhões de dólares na OpenAI, “continuará a participar diretamente no crescimento da OpenAI como uma das principais acionistas”. Em outubro do ano passado, a startup concluiu a reestruturação societária, tornando-se numa empresa com fins lucrativos e sociais. Na altura, ficou acordado que a Microsoft ficaria com 27% desta nova estrutura.
Mantém-se ainda a promessa de que a OpenAI irá gastar 250 mil milhões de dólares em serviços de cloud Azure da Microsoft.
OpenAI avança com reestruturação. Microsoft fica com 27% da nova empresa com fins lucrativos
O que há mais nas entrelinhas deste novo acordo?
O novo pacto traz maior independência para as duas empresas. E, de acordo com o Wall Street Journal, também mais clareza em relação à polémica cláusula da inteligência artificial geral (AGI). A AGI é um termo que divide os especialistas mas que tem sido descrito como uma IA que ultrapassa as capacidades humanas.
Na anterior versão do acordo, a cláusula previa que a OpenAI poderia deixar de partilhar receitas com a Microsoft quando alcançasse a AGI. Ambas as empresas consideravam que a cláusula era demasiado vaga e que poderia complicar a relação. O novo acordo elimina a cláusula e dá um prazo claro para o acordo de licenciamento não exclusivo da propriedade intelectual.
Rever os termos do acordo também elimina alguma da incerteza à volta de questões concorrenciais. A Reuters nota que deixar de ter o exclusivo da venda dos modelos da OpenAI poderá ser benéfico para a Microsoft nas análises concorrenciais em mercados como o Reino Unido, na União Europeia e mesmo nos Estados Unidos. Em algumas geografias, a relação entre as big tech e laboratórios da IA, como a OpenAI ou a Anthropic, está a ser alvo de escrutínio.
Além disso, também fica mais longe a possibilidade de um litígio em tribunal entre a Microsoft e a OpenAI. No mês passado, o Financial Times avançou que a Microsoft estaria a ponderar recorrer aos tribunais para contestar a parceria entre a OpenAI e a Amazon. Em fevereiro, foi anunciada uma “parceria estratégica” entre a OpenAI e a Amazon, que previa um investimento da Amazon de até 50 mil milhões de dólares. Uma ligação que, aos olhos da Microsoft, era vista como uma violação do acordo de exclusividade.
Rever os termos da ligação também permitirá à OpenAI robustecer-se para a oferta pública inicial (IPO, em inglês) que deverá fazer este ano. “Acreditamos que isto coloca a OpenAI numa posição sólida para avançar para a entrada na bolsa através de uma oferta pública inicial, tendo em conta as oportunidades mais evidentes no ambiente de nuvem e a redução de barreiras significativas decorrentes da sua parceria inicial com a Microsoft”, diz numa nota o analista Dan Ives, da Wedbush.
“Essencialmente, a Microsoft já deixou de precisar de apoio com a OpenAI e, daqui para a frente, o que se pretende é dar um passo em frente na monetização da IA na sua plataforma principal”, refere.
OpenAI não terá atingido objetivos de receitas e utilizadores
Já depois de ter sido revelada a mudança na parceria, o Wall Street Journal avançou que a OpenAI teria falhado os objetivos de receitas e de utilizadores semanais. Os objetivos foram definidos pela própria empresa, como uma forma de se preparar para a disciplina financeira necessária para o IPO.
Sarah Friar, a diretora financeira da empresa, terá transmitido aos restantes executivos a preocupação crescente de que a empresa não esteja a conseguir crescer o suficiente para fazer frente aos custos de computação. Uma das fontes do WSJ refere que o conselho de administração da empresa já terá questionado as decisões do CEO de tentar assegurar mais poder de computação, mesmo que o negócio pareça estar a abrandar.
A OpenAI terá falhado o objetivo de ter mil milhões de utilizadores ativos por semana no fim de 2025, disse uma das fontes. A empresa também não terá conseguido alcançado a marca de receitas, embora não seja especificado qual o valor a atingir.
A OpenAI respondeu à notícia do WSJ com um comunicado conjunto de Sam Altman e Sarah Friar. “Estamos totalmente de acordo em adquirir o máximo de capacidade de computação possível e em trabalhar arduamente nisso juntos todos os dias”, disseram os executivos, que consideraram “ridícula” qualquer sugestão sobre divisão dentro da empresa.
A empresa liderada por Sam Altman já anunciou diversos acordos com empresas para assegurar mais computação, da Nvidia à Oracle. Após a publicação da notícia do WSJ, várias empresas tecnológicas viram as ações desvalorizar.
Por volta das 15h20 desta terça-feira, as ações da Oracle estão a recuar 3,68% (166,6 dólares) e a Nvidia cai 2,01% (212,26 dólares). No Japão, as ações do grupo SoftBank, um dos principais investidores da OpenAI, caíram 9,86% esta terça-feira, a cotar nos 5.268 ienes (28,22 euros).
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