A Federação Distrital do Porto do PS declarou esta sexta-feira existir uma “quebra de confiança política” relativamente ao presidente da Junta de Freguesia de Vila do Conde, Isaac Braga, na sequência do chumbo do relatório de gestão e contas de 2025 da autarquia.

Em comunicado, a distrital socialista refere ter tomado conhecimento “dos factos relacionados com a votação do Relatório de Gestão e Contas de 2025” da freguesia de Vila do Conde, no distrito do Porto, manifestando “solidariedade política” para com a concelhia local do partido.

“Perante os elementos tornados públicos, entende a Federação que existe, neste momento, uma quebra de confiança política relativamente ao presidente da Junta de Freguesia, Isaac Braga”, refere o documento.

A estrutura distrital acrescenta que a situação deverá ser “devidamente avaliada à luz dos princípios de responsabilidade e transparência que norteiam o Partido Socialista”.

Segundo o PS/Porto, “a confirmarem-se como verdadeiros os factos em causa, serão mobilizados todos os meios políticos e estatutários adequados” para a tomada de “decisões concretas”, de forma a “salvaguardar a integridade, a credibilidade e a confiança política no Partido Socialista de Vila do Conde”.

A posição surge após o ‘chumbo’, a 30 de abril, na Assembleia de Freguesia de Vila do Conde, do relatório de contas de 2025, da revisão orçamental e do inventário de bens, com votos contra da oposição [coligação PSD/CDS e Chega] e a abstenção da maioria dos eleitos do PS, apesar de três elementos socialistas terem votado a favor.

A oposição justificou o voto com a alegada falta de acesso a documentação essencial, incluindo extratos bancários, e anunciou o envio do processo para o tribunal competente e para a Inspeção-Geral de Finanças.

O caso ganhou dimensão política depois de terem sido divulgadas suspeitas relacionadas com a alegada utilização de verbas da junta de freguesia para despesas pessoais do presidente, segundo uma investigação que será esta sexta-feira divulgada na íntegra pela RTP, mas cujos excertos já foram publicados.

Segundo essa investigação da RTP, em causa estão gastos em restaurantes, hotéis, perfumarias e outras despesas de índole alegadamente pessoal.

Também esta sexta-feira, a concelhia do PS de Vila do Conde divulgou um comunicado em que considera que a abstenção dos eleitos socialistas na assembleia de freguesia constituiu “um voto responsável e um aviso sério à Junta de Freguesia“.

O secretariado da concelhia reuniu-se com os membros eleitos nas listas do PS para “entender e analisar as razões” que levaram à abstenção, sublinhando que os autarcas “decidiram livre e responsavelmente o seu voto”.

A estrutura local socialista acrescenta que “não pactua, nem aceita comportamentos dúbios ou pouco transparentes, que excecionalmente possam acontecer, por parte de um ou outro dos seus autarcas”.

“O trabalho e a seriedade são bandeiras insubstituíveis”, refere ainda o comunicado.

Na mesma nota, o PS de Vila do Conde recorda que a maioria dos eleitos nas listas socialistas no concelho “são politicamente independentes, não sendo militantes do PS”.

Em declarações à Agência Lusa, o presidente da Junta de Freguesia de Vila do Conde, Isaac Braga, disse estar “sereno e de consciência tranquila”.

“Aguardarei pela emissão integral da reportagem da RTP para, juntamente com os serviços da Junta, analisar com rigor e responsabilidade cada um dos pontos abordados e prestar os devidos esclarecimentos”, disse.

Questionado sobre a posição emitida pelo PS/Porto relativamente à “quebra da confiança política”, Isaac Braga disse ter ficado “surpreendido”.

“Não fui contactado por ninguém da estrutura e acho estranho terem tomado uma posição ainda antes da reportagem [RTP] ter sido emitida na íntegra e de eu poder rebater e prestar todos os esclarecimentos”, completou o autarca, que está no terceiro mandato no cargo.

Já Luísa Maia, presidente da concelhia do PSD de Vila do Conde, e também vereadora do partido no executivo municipal, reagiu aos acontecimentos, considerando que o PS/Vila do Conde “não se pode desresponsabilizar” desta situação.

“Foi Vítor Costa, presidente da Câmara [eleito pelo PS], que escolheu recandidatar Isaac Braga à Junta de Freguesia, certamente em busca de um bom resultado eleitoral ancorado a este candidato. Por isso,o PS/Vila do Conde não pode agora desresponsabilizar politicamente destes acontecimentos”, disse à Lusa.

A social-demcorata considerou, no entanto, que “se houver lugar a algum procedimento que se entenda criminal, será, naturalmente, um caminho que a Justiça terá que, averiguar“.