Acompanhe o nosso artigo em direto sobre a guerra no Médio Oriente
Numa altura em que as negociações entre os Estados Unidos e o Irão estão num impasse, o regime iraniano tem vivido um aumento da contestação interna. Se a crise económica e a repressão de manifestantes anti-regime marcaram os últimos meses, um outro grupo tem afirmado o seu peso na política e na sociedade iranianas, mas do lado contrário.
Esta fação extremista, mesmo para os padrões ideológicos do regime dos aiatolás, intitula-se Jebhe-ye Paydari — também conhecida como Frente de Estabilidade da Revolução Islâmica — e tem como patrono o atual Líder Supremo do Irão, Mojtaba Khamenei, segundo o site de notícias da oposição iraniana Iran International.
“Guerra moral” contra o Ocidente
O movimento posiciona-se contra uma cedência no programa nuclear iraniano numa negociação com os Estados Unidos, segue uma linha ideológica mais ortodoxa dos valores da Revolução Islâmica de 1979, e pede “vingança” pelas mortes provocadas pelos ataques norte-americanos, frisa a CNN.
O Jebhe-ye Paydari foi fundado em 2011 e teve como líder espiritual Mohammad-Taqi Mesbah-Yazdi, que morreu em 2021. Foi membro da Assembleia de Peritos — órgão responsável pela eleição do Líder Supremo —, onde encabeçou a ala mais conservadora, e criador da Escola de Haghani, na cidade de Qom, um dos principais centros intelectuais do país, onde são formados membros da elite política e religiosa do Irão.
O atual líder espiritual é Mahdi Mirbaqiri, que defende a tese aceleracionista do “fim dos tempos“, através de uma “guerra moral” contra o Ocidente, afirmou em 2019 numa entrevista ao Instituto de Investigação dos Media no Médio Oriente (MEMRI).
“Nunca iremos alcançar a era do reaparecimento [do Imam Oculto] a menos que entremos num combate generalizado — um confronto abrangente que escalará para a luta”, afirmou Mirbaqiri na altura.
Esse combate tem sido feito nas estruturas políticas, onde tem representantes na Assembleia dos Peritos, no Assembleia Consultiva Islâmica — Parlamento —, e nas eleições presidenciais, onde o candidato apoiado pelo partido, Saeed Jalili, obteve o 2.º lugar, em 2024.
Recusa em negociar com os “assassinos” de Khamenei
Outra frente é a da comunicação social, em que o irmão de Jalili, Vahid Jalili, lidera o departamento de cultura da estação estatal IRIB, mas também do site Raja News, afeto ao partido e onde têm sido expostas muitas críticas à atuação do governo iraniano nas negociações com os Estado Unidos.
Numa publicação feita a 3 de maio, os membros da delegação do Irão foram duramente criticados por negociarem com os “assassinos” do antigo Líder Supremo, Ali Khamenei.
“[Trump, Netanyahu e Hegseth] perceberam que, mesmo que martirizem o nosso Imam, ainda haverá pessoas dispostas a negociar, a apertar as mãos a [Steve] Witkoff, [JD] Vance e [Jared] Kushner, a sorrir para os assassinos do nosso Imam mártir e a falar sobre a necessidade de resolver mal-entendidos, solucionar questões passadas e iniciar um novo capítulo nas relações”, declarou o grupo.
O Jebhe-ye Paydari chegou a ter um membro na equipa de negociação, através do deputado Mahmoud Nabavian, mas que se manifestou pouco esperançoso nas conversações e considerou a renegociação do programa nuclear iraniano um “erro estratégico”.
Aliás, o partido não se opõe totalmente a um entendimento com Washington, mas preferem uma “capitulação” dos Estados Unidos para “ditarem” os termos do acordo, disse Mohammad Ali Shabani, editor do site de notícias iraniano Amwaj.media, à CNN.
“Ninguém no Irão é contra um acordo“, assegura Shabani, que acrescenta que a discussão é sobre “táticas” e “quem o faz”.
O grupo também tem mobilizado uma geração mais nova de “revolucionários”, fiéis ao regime, mas desiludidos sobre a forma como o poder político iraniano tem lidado com os Estados Unidos. Segundo o investigador Hamidreza Azizi, do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança, o Jebhe-ye Paydari pretende “capitalizar” as novas gerações “nas ruas”, algo que tem acontecido em protestos contra os bombardeamentos norte-americanos.
“Eles tentam representar-se como a manifestação de uma ideia introduzida por Ali Khamenei [Líder Supremo morto nos ataques norte-americanos, em fevereiro] de criar uma geração de jovens revolucionários piedosos, capazes de levar avante o legado da República Islâmico”, afirmou Azizi à CNN.
No entanto, apesar do poder que detém, o Jebhe-ye Paydari encontra-se politicamente isolado, sublinha Mohammad Ali Shabani à CNN, notando uma aliança invulgar entre conservadores e reformistas nas críticas e na marginalização do partido na sociedade.
“Fazem muito barulho e são vistos como tendo ajudado Israel e os Estados Unidos a retratarem o Irão como enredado numa grande divisão interna, mas os radicais marginais estão a sofrer resistência de todos os lados e tornaram-se cada vez mais isolados”, considera Ali Shabani.
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