Mário Centeno acha “muito estranho” que o Governo tenha avançado para um alteração da legislação laboral sem ter, como base, “números” que mostrem ser necessário fazê-lo. Em entrevista à CNN o socialista defendeu que não é pela “legislação que se identificam dificuldades de inserção dos jovens no mercado de trabalho”. E esclareceu ainda que, pelo menos para já, não abre a porta à política, deixando um recado a Pedro Nuno Santos: “Fiz um investimento no conhecimento, não há nada de tático.” Confrontado com a decisão de não concorrer a Belém, o antigo governador do Banco de Portugal (BdP) disse ainda não estar arrependido.

“Acho muito estranho que se proponham alterações legislativas sem termos números por trás”, afirmou o antigo governador do BdP em entrevista à CNN, recusando comentar a decisão do PS de votar contra o novo pacote laboral. Segundo Mário Centeno, o “único número” apresentado até ao momento como fundamento para uma revisão da lei laboral “foi um indicador da OCDE que é de 2019”.

Centeno esclareceu depois que o “indicador verdadeiramente importante e que representa a dinâmica do mercado de trabalho” tem que ver com quanto tempo uma pessoa está desempregada e não quantas estão nessa situação. “De cada jovem em Portugal que está desempregado, apenas 16% está assim há mais de um ano. O que interessa não é quantas pessoas estão desempregadas, mas sim quanto tempo vão estar assim”, disse.

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Para o economista, “não é pela legislação que nós identificamos dificuldades de inserção no mercado de trabalho dos jovens”. “Acho que estamos a laborar num erro. O que era importante não era ter mais flexibilidade [no mercado laboral], era ter melhor flexibilidade”, acrescentou. Centeno não aprofundou mais o tema, abrindo a porta a que venha a ser explorado nas próximas semanas, uma vez que foi anunciado que o socialista passará a ter um espaço de comentário semanal na CNN todas as segundas-feiras.

Na entrevista desta segunda-feira, que serviu para anunciar e lançar esta nova rubrica semanal, Mário Centeno foi ainda confrontado com as suas intenções políticas, assim como a sua saída do BdP.

A pré-reforma “foi a solução encontrada para o BdP poder dispensar os meus serviços”, disse. E, à semelhança do que aconteceu nos momentos anteriores em que foi questionado sobre este tema, Centeno garantiu: “Não fui despedido”. “Mas era necessário cumprir um contrato de trabalho e enquadrar esta transição naquilo que são as regras do fundo de pensões do BdP. Eu tinha os direitos todos concretizados no sentido de acesso à aposentação.”

O futuro acontecerá “além deste ciclo político”

Após sair do BdP e de ter passado um período a lecionar no ensino superior nos EUA, Centeno diz ter estado a preparar-se “para as próximas atividades”, nomeadamente o seu novo espaço de comentário.

Admitindo que governar as Finanças do país “foi uma experiência absolutamente única” e da qual se orgulha, Mário Centeno aproveitou agora para vincar que “esse tempo está fechado no intervalo entre 2015 e 2020”. “O que acontecer no futuro [em termos políticos] será qualquer coisa que estará para além deste ciclo político. Neste momento o meu foco é nestas conversas”, limitou-se a dizer.

E sobre as críticas de Pedro Nuno Santos aos “taticistas que estão à espera que venham tempos mais fáceis para o PS para avançar para a liderança”, quis tranquilizar o antigo secretário-geral do PS: “Fiz um enorme investimento no conhecimento, foi o fio condutor de toda a minha vida. Nada de tático tem esse investimento.”

Significa isto que Centeno está satisfeito com a atual liderança de José Luís Carneiro? “Agora temos um ciclo político que está a decorrer, com as vicissitudes que todos os ciclos neste momento, no mudo, têm. E temos de respeitar o que está a acontecer”, rematou.

Ainda sobre a decisão de não ter avançado com a candidatura a Belém, Centeno garante que não está arrependido. “Foi uma decisão muito bem ponderada, em ambiente familiar, depois de muitos anos de entrega ao serviço público”, disse.

Centeno no BCE: “Governo português empenhou-se na fase final do processo”

Questionado sobre as suas previsões para a economia portuguesa para o próximo ano, Centeno disse que “o exercício de 2026 — e assim era para 2025 também — será aquilo que do lado da despesa o Governo conseguir executar”. “Evitar o défice também não pode ser um estigma, porque é para isso que se criam as tais almofadas financeiras. Outra coisa é deteriorar as contas públicas em momentos de crescimento económico e isso já é uma coisa mais preocupante”, afirmou. E alertou que agora mais que nunca “é preciso ter cautela com os momentos da decisão da despesa”, uma vez que “continuamos com alguma desaceleração da economia”.

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E, ainda focado na Europa, explicou que o facto de não ter sido eleito presidente do BCE (Banco Central Europeu) dependeu apenas de “decisões políticas”.

“Era um cenário complexo, e uma candidatura que necessita de muito compromisso e investimento político, também do lado português. Foi um resultado normal. O que aconteceu foi política. É o que é, foi o que aconteceu, houve um grande empenho do Partido Popular Europeu no candidato croata, havia variadíssimos governadores também colegas meus candidatos, era um concurso concorrido”, explicou.

Para Mário Centeno, “o governo português, na fase final do processo, empenhou-se”. “Talvez pudesse ter empenhado um pouco mais cedo, mas acho que foi a dinâmica europeia que ditou o resultado. E desde o princípio que para mim esta era uma questão nacional e só assim podia ser enfrentada. Não havia questões partidárias porque o lugar era para um organismo independente e queria-se ocupado por essa características.”