Na última audição regimental antes das férias parlamentares, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, surgiu perante os deputados da Comissão de Saúde para defender os resultados de medidas implementadas pelo Governo (nomeadamente as urgências regionais na região de Lisboa) e para anunciar regras mais apertadas para as cirurgias adicionais no SNS. Pelo meio, pediu um consenso para combater o problema dos internamentos indevidos nos hospitais — que dispararam nos últimos meses — e criticou duramente o antigo diretor-executivo do SNS Fernando Araújo, que acusou de ter “fugido” e de não assumir o lugar de deputado na Assembleia da República.
Na intervenção inicial, a ministra da Saúde anunciou que já está concluída a portaria que vai regulamentar a realização de cirurgias em produção adicional no SNS. Segundo Ana Paula Martins, os médicos e outros profissionais só poderão participar nestas cirurgias quando tiverem completado um nível mínimo de cirurgias base (ou seja, realizadas no horário normal de trabalho), sem, no entanto, revelar qual esse nível.
“A realização de cirurgia adicional dependerá sempre do cumprimento prévio de níveis exigentes de atividade cirúrgica base. Quando esses níveis não forem atingidos, não haverá lugar a produção adicional. Queremos incentivar a capacidade de resposta dos hospitais mas queremos fazê-lo sem criar incentivos perversos e desalinhados com os interesses dos doentes”, sublinhou a ministra, referindo-se aos casos de pagamentos de elevadas quantias por cirurgias adicionais no SNS, cujo caso mais paradigmático é o do ex-dermatologista do Hospital de Santa Maria que, em apenas 10 dias de trabalho, ganhou 400 mil euros.
Portaria sobre cirurgias extra vai uniformizar regras em todo o SNS
A nova portaria, que ainda aguarda publicação, vai ainda uniformizar as regras nos diferentes hospitais “eliminando assimetrias identificadas pela IGAS”, referiu Ana Paula Martins. Recorde-se que a Inspeção Geral das Atividades em Saúde, numa auditoria revelada pelo Observador em outubro, revelou que, entre 2022 e 2024, apenas 13 das 42 Unidades Locais de Saúde e Institutos Portugueses de Oncologia do país cumpriam o rácio recomendado de 30% de cirurgias adicionais.
Outra novidade é que a mesma cirurgia será paga da mesma forma quer seja feita dentro ou fora do SNS. “O mesmo ato cirúrgico terá o mesmo preço, independentemente de ser realizado numa unidade do SNS, no setor privado ou no setor social”, adiantou Ana Paula Martins.
Ainda nesta área, a ministra da Saúde justificou a quebra no número de cirurgias realizadas no SNS (menos 5,6% no primeiro trimestre de 2026) com a diminuição acentuada da produção adicional, indicando que o Governo prefere a existência de um sistema “transparente e auditável” nos hospitais (onde foram detetadas várias irregularidades com cirurgias extra) — mesmo que isso possa comprometer os tempos de espera.
”É verdade que se registou uma redução de 5% no número de doentes operados, uma tendência que começou no ano passado e se prolongou nos primeiros meses deste ano. Mas importa dizer toda a verdade: a atividade cirúrgica base dos hospitais aumentou 2%”, adiantou a ministra da Saúde, acrescentando que “a redução verificou-se exclusivamente na produção adicional, que caiu 20%”. Ana Paula Martins justificou a diminuição global do número de cirurgias com as “medidas de contingência adotadas durante o surto de gripe, que obrigaram à suspensão de atividade adicional” e com a decisão do Governo de apertar as regras às cirurgias extra, perante as irregularidades detetadas pela IGAS.
“Preferimos um sistema transparente e auditável, ao invés de manter práticas que possam comprometer a confiança dos portugueses no SNS, ainda que tenha impacto temporário nas listas de espera”, defendeu Ana Paula Martins. Recorde-se que as listas de espera para cirurgia no SNS estão a aumentar, sendo que o número de doentes que aguarda cirurgia fora do Tempo Máximo de Resposta Garantido aumentou 16% em março de 2026, face ao mesmo mês do ano passado.
Sobre um dos temas que mais constrangimentos causa ao funcionamento dos hospitais, o dos internamentos indevidos, a ministra da Saúde lamentou que o problema se esteja a agravar e pediu um consenso alargado para resolver a questão. O número de internamentos indevidos nos hospitais do SNS disparou para 3.493 em abril, reconheceu Ana Paula Martins, um aumento significativo em relação à estimativa dos administradores hospitalares (que, em março, concluíram haver cerca de 2.800 camas ocupadas indevidamente).
Já ontem o presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares, Xavier Barreto, tinha referido que “nos últimos dois meses, a situação dos internamentos inadequados agravou-se”, considerando que tal situação “não é normal”, pois normalmente o início do período de verão trazia um alívio do problema.
Internamentos indevidos nos hospitais agravaram-se desde março
Esta quarta-feira, a ministra da Saúde detalhou que a maioria destas pessoas aguarda vaga na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados — uma rede que “está sob pressão”, admitiu. No entanto, há também casos de utentes que aguardam respostas sociais (como em lares) e alguns que dependem de decisões judiciais. “Só nesta situação temos 465 cidadãos à espera que os tribunais decidam sobre o Estatuto de Maior Acompanhado, sendo que alguns esperam há um ano”, lamentou Ana Paula Martins, defendendo um consenso alargado no setor da saúde e entre os partidos para resolver o problema dos internamentos indevidos nos hospitais.
“O país beneficiaria de uma abordagem assente no consenso. Este tema deveria estar no domínio de convergência estratégica entre setores e forças políticas. Isto não diminui a responsabilidade do Governo. Exige que continuemos a reforçar respostas disponíveis, a melhorar a articulação entre Saúde, Segurança Social e Justiça e mobilizar todos os meios ao nosso alcance para devolver aos hospitais a sua missão base: prestar cuidados de saúde”, sublinhou.
Ministra recusa Plano de Emergência 2.0 e ataca ex-coordenador do grupo de acompanhamento
O tema da resolução dos internamentos sociais é um dos que constam do Plano de Emergência e Transformação da Saúde (PETS), que o Governo apresentou há cerca de dois anos. Apesar de o Governo considerar cumpridas quase 90% das medidas do PETS (isto embora muitas das medidas dadas como concluídas não tenham concretização no terreno), Ana Paula Martins reconhece algumas falhas.
“Resolvemos muitos problemas mas também retirámos muitas aprendizagens. De forma muito humilde, houve coisas que reconhecemos que não correram bem”, disse a ministra da Saúde, sem elencar quais. Ainda assim, a governante referiu que tem “orgulho no” PETS. “O PETS orgulha-nos. É a primeira vez que existe um plano com indicadores, com transparência, auditável através do site e até auditado pelo Tribunal de Contas”, sublinhou.
Em resposta ao Partido Socialista, Ana Paula Martins recusou qualquer reformulação do Plano de Emergência e Transformação da Saúde (PETS) e lembrou que as medidas a tomar estão no Programa de Governo. “Não vai haver PETS 2.0, nem 3.0 nem 4.0. Há um programa do Governo, que é o que vale, e tem lá todas as medidas que precisa de ter para continuar a ter a transformação. A emergência já lá vai e as prioridades já estão em concretização ou concretizadas”, disse a ministra da Saúde.
A ministra da Saúde não escondeu, no entanto, que continua em rota de colisão com o coordenador do grupo de acompanhamento do Plano de Emergência e Transformação da Saúde (PETS), o pneumologista e professor Carlos Robalo Cordeiro. Na Assembleia da República, a ministra criticou o médico, por, diz, ter “feito prova de vida” na véspera da discussão parlamentar sobre os dois anos do Plano de Emergência, referindo-se às declarações feitas por Robalo Cordeiro ao Observador, na quinta-feira, e nas quais o médico referiu não reunir com a tutela há mais de um ano e ter ficado sem interlocutor no Ministério da Saúde, e disse ainda que o grupo que lidera tinha deixado de receber dados essenciais para fazer uma avaliação da execução das medidas do PETS, acusando a tutela de “inércia”.
“As pessoas que estiveram envolvidas na Comissão de Acompanhamento (e a quem muito agradecemos) e que, eventualmente, por outras razões da sua vida profissional, institucional, e até, quem sabe, política, entenderam fazer prova de vida na véspera da interpelação [na Assembleia da República] é uma matéria sobre a qual a ministra da Saúde não tem nada a dizer”, disse Ana Paula Martins, referindo que o despacho de nomeação do grupo de acompanhamento, liderado por Carlos Robalo Cordeiro, terminou em 2025. “Não dispensei ninguém. Se ler o despacho, verá que o despacho já terminou. Não há comissão de acompanhamento”, sublinhou.