Numa das mais “caóticas e imprevisíveis” eleições primárias para escolher o governador da Califórnia, os resultados indicam que o democrata Xavier Becerra, que integrou a administração Biden como secretário da Saúde, está à frente da corrida e passará à próxima ronda. A contagem, tradicionalmente lenta e que já levou o Presidente norte-americano, Donald Trump, a falar sobre suspeitas de “manipulação”, está a correr e mostra um muito ligeiro avanço para Becerra, mas que será suficiente para ficar em primeiro lugar.
Segundo as contas da NBC e da Associated Press, e com dois terços dos votos contados, Becerra poderá contar com 27% dos votos, muito próximo do segundo candidato, o republicano e antigo apresentador da Fox News Steve Hilton, com uma projeção de 26% dos votos. Em terceiro lugar aparece o democrata bilionário e ativista Tom Steyer, que contará com 21% dos votos.
“As pessoas no grande estado da Califórnia, na maior nação do mundo, falaram — alto e com orgulho. Não seremos comprados. Não sofreremos bullying. E nunca desistiremos. Novembro, aí vamos nós”, disse Becerra em comunicado, citado pelo USA Today, após as primeiras notícias de que será o primeiro candidato a passar à segunda ronda, que acontece em novembro.
No sistema californiano de escolha dos governadores, os eleitores votam numas primárias que incluem candidatos de todos os partidos. Os dois mais votados passam à eleição final, onde o sucessor do governador democrata Gavin Newsom, que se tem destacado pela oposição feroz a Donald Trump e que não pode voltar a candidatar-se devido à limitação de mandatos, será escolhido.
Como lembra a imprensa norte-americana, esta é uma reviravolta que seria difícil de antecipar há uns meses, quando Becerra aparecia numa posição fraca nas sondagens, com percentagens de apenas um dígito. Entretanto, o antigo elemento da administração Biden, que chegou também a ser procurador geral da Califórnia e congressista durante 12 mandatos, baseou a sua campanha na sua experiência política, retratando-se, como escreve a NBC, “como um democrata mainstream e moderado“.
Becerra beneficiou entretanto da saída da corrida do também democrata Eric Swalwell, em abril, depois de ter sido acusado de abuso sexual, acusações que negou. Mas também enfrentou dificuldades, como as críticas dos antigos colegas da administração Biden, que levantaram dúvidas sobre a sua competência e capacidade para enfrentar o sistema administrativo extremamente burocrático da Califórnia.
Este é o quinto dia em que estão a ser contados votos, desde que a votação presencial terminou, na terça-feira. O sistema californiano é complexo e ora é elogiado pelas garantias de segurança e transparência que dá aos eleitores, ora criticado pela demora e pelas dúvidas que cria a quem desconfia do sistema: cada eleitor recebe um boletim de voto no correio e pode enviá-lo até ao dia das eleições, chegando até sete dias depois, o que prolonga a votação. Além disso, os eleitores têm uma margem de 22 dias (chegaram a ser 26) para corrigir erros nos respetivos boletins.
Quem já começou a queixar-se do processo é Donald Trump, que apoiou Hilton e já veio dizer, sem apresentar provas, que os democratas estão a “roubar os votos”, tendo o Departamento de Justiça do governo norte-americano enviado um representante para observador o processo de contagem dos votos. A acusação é habitual quando a contagem dos votos acontece na Califórnia, tendo em conta a sua lentidão.
O próprio governador atual, Gavin Newsom, tem avisado de que o “passo de tartaruga” da contagem, como lhe chama o The Guardian, se está a tornar um risco para a confiança do público no processo, numa altura em que as teorias da conspiração são cada vez mais frequentes e surgem mesmo a partir da Casa Branca.
Mas o que os especialistas indicam é precisamente o contrário: que o sistema demorado deste estado previne fraudes e assegura que os votos são todos contados e que os eleitores podem corrigir erros. Cada boletim é verificado tanto eletronicamente como por pessoas que fazem parte da contagem.
Ao The Guardian, o vice-presidente da empresa Political Data Inc, Paul Mitchell, que trata dados dos eleitores, argumenta: “Não há muita gente que eu conheça que diga: ‘Não, eu prefiro saber quem ganhou mais rápido do que ver o meu voto contado. Por isso, qual é a pressa? O foco deve estar em facilitar o voto ao máximo. Os únicos que se queixam são os que perdem. A conspiração à volta disto é uma coisa dos conservadores”.