Sala meio vazia, congressistas a desistir, alguns resistentes a subirem ao palco para serem ouvidos por umas dezenas de companheiros de partido. O cenário era típico do final cansado de um dia inteiro de congresso, normalmente já sem grande história, mas a maior surpresa do dia estava guardada para o fim. Coube a Miguel Albuquerque, no papel de presidente da mesa do congresso, anunciar que viria aí uma “surpresa agradável”. E de repente, com pouca pompa e em passo rápido, Santana Lopes entrava ao lado de Hugo Soares no Velódromo Nacional, em Anadia, já perto da meia-noite, confirmando o seu regresso oficial (e aguardado) ao partido.
A notícia ia-se antecipando há anos, desde que Santana desistiu do projeto do partido Aliança e que as reaproximações ao PSD foram sendo notadas — nos últimos anos, também por esforço de Luís Montenegro, que logo no primeiro dia como líder foi à Figueira da Foz para tentar convencer o autarca a regressar ao partido de sempre. E desta vez Santana voltou mesmo, admitindo sentir uma “emoção especial”, com agradecimentos ao PSD e a Montenegro mas também com uma certeza: não pedirá “desculpa” por ter saído do partido, porque tomou essa decisão de acordo com a sua consciência, após a luta pela liderança que perdeu contra Rui Rio.
Subindo ao púlpito depois de um abraço ao primeiro-ministro, e dirigindo-se pela primeira vez desde 2018 a um congresso do partido em que se filiou há 50 anos, Santana teceu rasgados elogios ao “estadista” Montenegro e à sua governação. Elogiou-lhe a capacidade e a equipa de ministros; destacou a “coragem enorme” da ministra da Saúde, por fazer a “extraordinária” reforma dos médicos tarefeiros; e, numa farpa a Pedro Passos Coelho, garantiu a Montenegro: “Candidatasse-se quem se candidatasse, tu ganhavas por largo”.
“Temos de nos orgulhar do caminho que o PPD-PSD fez sob a liderança de Luís Montenegro”, disse às dezenas que o ouviam, atirando depois à oposição: “Quando se fala em reformar mais, preciso que cada um que diz isso diga quais e com quem”, sublinhou, recordando o “espetáculo que se viu” com a reforma laboral e o chumbo inesperado de André Ventura. A propósito de Ventura e do Chega, quis lembrar que tinha razão ao “adivinhar” que com o “encosto” de Rui Rio ao centro-esquerda apareceria uma nova direita. “Lembram-se do pacto com António Costa? Eu disse que era um erro crasso. E sabemos o que aconteceu à nossa direita”.
Sobre o presente político, Santana Lopes apareceu alinhado com o Governo, recusando que se fale em crise política ou eleições antecipadas e recordando que “felizmente elegeu-se um Presidente da República que disse expressamente que as legislaturas são para ser cumpridas — essa é uma garantia de que o sistema poderá funcionar corretamente”.
“Temos duas hipóteses: estarmos na nossa concha e não ouvirmos a loucura em que o mundo está mergulhado ou, pelo contrário, assumirmos responsabilidades e dizermos que estamos presentes para o combate e para construir o futuro”, afirmou — mais uma vez, na linha do que o partido tem defendido, contra a “irresponsabilidade” que aponta às oposições.
Santana tem ouvido “teorias sobre o PPD-PSD” e quis notar que o partido “não estava previsto” na sua génese — “Nós dizíamos que somos o mais português dos partidos portugueses. Muitos vaticinaram maus tempos… o PPD-PSD cá está.”
“Adivinhei o futuro. Olhei para ele [Montenegro] e disse ‘este tipo não engana’. Está cá e é estadista. Felicito-te pela forma como tens aguentado. Quando está o centro-direita no poder há sempre suspeitas sobre as nossas honras”, sugeriu. Mesmo que tarde e com pouco público, Santana disse-se emocionado por voltar e abraçou Montenegro, num regresso que confirma que é o filho pródigo do PSD.
Ouça aqui a intervenção de Pedro Santana Lopes