A democrata Melat Kiros, de 29 anos, derrotou, de forma surpreendente, a experiente congressista Diana DeGette nas eleições primárias que decorreram esta terça-feira no 1.º distrito do estado do Colorado. Esta é a mais recente de uma série de vitórias de representantes da ala mais à esquerda do Partido Democrata nas primárias para a Câmara dos Representantes, com vista às eleições intercalares de novembro de 2026.

Num distrito fortemente democrata, Melat Kiros recolheu 51,3% dos votos nas primárias, vencendo por uma margem de 10 pontos percentuais em relação a Diana DeGette, que teve 41,7% dos votos, de acordo com a NBC News. DeGette, de 68 anos, está a cumprir o 15º mandato consecutivo como representante do 1º distrito do Colorado na Câmara dos Representantes.

A vitória de Kiros garante-lhe praticamente a eleição para a Câmara dos Representantes, em novembro, uma vez que o 1.º distrito do Colorado, que abrange a área urbana da cidade de Denver, vota de forma esmagadora no Partido Democrata. Em 2022, Diana DeGette venceu a eleição para o Congresso com mais de 80% dos votos frente à republicana Jennifer Quali.

Se for eleita em novembro, poderá tornar-se a primeira mulher da geração Z (que compreende pessoas nascidas entre 1997 e 2012) a ser eleita para o Congresso, em Washington.

O triunfo de Kiros ocorreu uma semana depois de os eleitores de Nova Iorque terem eleito três candidatos independentes e ligados à ala socialista do Partido Democrata, apoiados pelo presidente da câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani.

Candidatos progressistas apoiados por Mamdani vencem primárias democratas em Nova Iorque

A advogada e estudante de doutoramento, Melat Kiros, de 29 anos, nasceu na Etiópia em 1997, mas foi para os Estados Unidos ainda bebé, depois de o pai ter obtido autorização de residência no país. Kiros formou-se em direito pela Universidade de Notre Dame, no Indiana, em 2022, detalha o Guardian.

Melat Kiros chegou a ser despedida por ter escrito texto a defender manifestantes pró-Palestina

Desde aí que tem assumido frequentemente posições anti-Israel. Logo no ano seguinte, escreveu um texto num blog em que rejeitava as acusações de antissemitismo dirigidas aos estudantes das universidades dos EUA — que protestaram contra a resposta militar israelita na sequência dos ataques do 7 de outubro e participam em manifestações pró-Palestina. O escritório de advocacia de Nova Iorque onde a jovem advogada trabalhava demitiu-a depois de Kiros se ter recusado a apagar a publicação.

“Jamais me esquecerei das mensagens que recebi nos dias seguintes [à demissão], vindas de advogados de todo o país, dizendo que gostariam de ter podido manifestar-se também”, disse Kiros numa entrevista.

Numa outra entrevista, à rádio pública do Colorado, a agora nomeada do Partido Democrata acusou Israel de cometer genocídio em Gaza e pediu que os Estados Unidos impusessem um embargo na venda de armas ao país, defendendo o fim da ajuda militar prestada por Washington a Telavive. DeGette também se opõe ao fornecimento de armas de guerra a Israel, mas disse acreditar que o país tem o direito de existir e se defender.

Kiros venceu a eleição no Colorado mesmo apesar da forte oposição de grupos pró-Israel. Segundo a revista Time, grupos externos gastaram mais de um milhão de dólares nas últimas semanas em anúncios para derrotar Kiros, mas sem sucesso. O Pro-Choice Majority Action, um grupo de ação política, financiado pelo Comité de Assuntos Públicos Israelo-Americano, foi um deles.

Entre as declarações mais polémicas de Melat Kiros está uma relacionada com os atentados do 11 de setembro. A advogada afirmou publicamente que considerava os ataques, ocorridos em 2003, como “inevitáveis” para os Estados Unidos, devido à política externa norte-americana no Médio Oriente. “Desestabilizámos grande parte do Médio Oriente, o que levou as pessoas a acreditarem que um ato de violência era a única resposta”, disse Kiros.

No campo económico e social, a jovem democrata — que foi apoiada durante a campanha pelo conhecido senador Bernie Sanders — está alinhada também com a ala mais à esquerda do partido. Apoia a existência de um sistema de saúde e de uma rede de creches de acesso universal e gratuito e defende a extinção do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla inglesa). “Para mim, o socialismo significa que temos de deixar isto claro: temos necessidades básicas”, disse Kiros à rádio pública do Colorado. “Em que tipo de sociedade queremos viver? Não precisa de ser tão difícil as pessoas conseguirem sobreviver”, atirou.