Portugal é um dos países da zona euro onde existe uma maior proporção de consumidores que fazem compras em plataformas chinesas de comércio eletrónico, aponta um estudo divulgado esta segunda-feira pelo BCE. Cerca de três em cada quatro (mais de 70% dos consumidores portugueses) inquiridos afirmaram já ter recorrido a plataformas como a Temu, a Shein ou a AliExpress, o que coloca Portugal entre os mercados onde estas plataformas registam uma maior penetração, a par da Grécia e de Espanha.
O estudo divulgado pelo Banco Central Europeu (BCE) surge poucas semanas depois de ter entrado em vigor, a 1 de julho, uma taxa fixa de três euros nas encomendas de fora da UE – uma mudança que poderá alterar os comportamentos dos consumidores, incluindo em Portugal. Usando dados recolhidos antes da entrada em vigor destas novas taxas, o estudo tenta perceber aquilo que leva os consumidores a estas apps e a estas plataformas – e, também, aquilo que os afasta delas.
O estudo é feito por quatro economistas do BCE e é publicado no site da autoridade monetária – porém, não vincula, necessariamente, a própria instituição às conclusões obtidas. Ainda assim, o trabalho teve por base o Inquérito às Expectativas dos Consumidores feito pelo próprio BCE em abril de 2026. Esse estudo concluiu que mais de metade dos consumidores da área do euro já utilizou plataformas chinesas de comércio eletrónico.
Portugal está muito acima da média da zona euro na utilização destas plataformas. FONTE: BCE
Se em Portugal, Grécia e Espanha, a percentagem supera os 70%, a utilização é inferior a 50% na Alemanha e em França, o que “evidencia diferenças significativas entre países nos hábitos de consumo, notoriedade das plataformas, infraestruturas de entrega, níveis de confiança e alternativas oferecidas pelo comércio local”, afirmam os economistas do BCE.
Porque é que as pessoas compram nestes sites/apps?
O estudo identifica o preço como o principal fator que leva os consumidores a recorrerem a estas plataformas. Os inquéritos convidaram as pessoas a dizerem, por palavras suas, porque é que usavam estas plataformas e palavras como “preço”, “barato” e “mais barato” surgem de forma recorrente.
A variedade da oferta aparece, de acordo com o estudo, como outro grande motivo apontado pelos utilizadores. Os consumidores valorizam a possibilidade de encontrar uma vasta gama de produtos, incluindo artigos de nicho, acessórios e outros bens difíceis de encontrar nas lojas locais. Para o BCE, a combinação entre preços baixos e uma oferta muito diversificada representa a principal vantagem competitiva destas plataformas.
O que mudou a 1 de julho?
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A partir do último dia 1 de julho, passou a ser aplicada nas compras online uma taxa fixa de direitos aduaneiros de três euros por tipo de produto nas encomendas de baixo valor (até 150 euros) que venham de fora da União Europeia (UE). Um valor sobre o qual ainda incide IVA.
No fundo, terminou a 30 de junho a chamada regra “de minimis” de isenção nas encomendas de baixo valor, que vigorava há vários anos, com o objetivo de “evitar encargos administrativos desproporcionados para as autoridades aduaneiras, as empresas e os particulares”, segundo a Comissão Europeia.
Pelas contas da Comissão, só em 2025 entraram em território europeu 5,9 mil milhões de artigos de baixo valor, que foram diretamente expedidos de países de fora da UE sem o pagamento de valores aduaneiros, criando uma situação de “concorrência desleal”.
As compras concentram-se sobretudo em vestuário, artigos para o lar e equipamentos eletrónicos, categorias em que os consumidores tendem a ser particularmente sensíveis ao preço. O valor das encomendas é geralmente reduzido: quase dois terços das compras não ultrapassam os 25 euros e nove em cada dez ficam abaixo dos 50 euros. Além disso, um em cada cinco inquiridos afirma fazer compras nestas plataformas pelo menos uma vez por mês.
O estudo admite que esta procura por bens de baixo custo, comprados nas plataformas chinesas, poderá ter contribuído para limitar a subida dos preços em algumas categorias de produtos de consumo. Os economistas apuraram que em muitos dos bens mais adquiridos através destas plataformas, a inflação média registada em 2025 foi próxima de zero ou, mesmo, negativa.
Por outro lado, entre os consumidores que não recorrem às plataformas chinesas, as principais razões apontadas prendem-se com dúvidas sobre a qualidade dos produtos, falta de confiança e preocupações sobre o impacto ambiental destas compras. Muitos receiam que os artigos não correspondam às expectativas em termos de durabilidade ou fiabilidade, enquanto outros manifestam reservas quanto à segurança dos dados pessoais, aos meios de pagamento, ao serviço pós-venda e à fiabilidade das próprias plataformas.
As preocupações ambientais também surgem frequentemente nas respostas, designadamente devido ao impacto do transporte de longa distância, ao excesso de embalagens, às devoluções e às condições de produção. Muitos inquiridos afirmam ainda preferir comprar produtos europeus para apoiar empresas locais e proteger o emprego na Europa.
O que parece ter pouca importância, na mente dos consumidores, é o clima de tensões geopolíticas. Apenas cerca de um em cada cinco consumidores afirma que as preocupações com o papel político da China – devido a matérias como a colaboração com a Rússia ou o Irão – o tornam menos propenso a utilizar plataformas chinesas.
Para a maioria, fatores como o preço, a conveniência e a diversidade da oferta continuam a prevalecer. E isso é especialmente verdade em países com rendimentos per capita menores. “Os consumidores com orçamentos mais exíguos podem ser especialmente recetivos a ofertas de preços baixos”, afirma o BCE, acautelando, porém, que “muitas famílias com rendimentos mais elevados também compram em plataformas chinesas”.
Banco de Portugal também estudou este fenómeno
Em paralelo com o estudo feito pelos economistas do BCE, o Banco de Portugal também divulgou, recentemente, uma análise que mostrou que mais do que triplicou, no espaço de três anos, o valor gasto em Portugal em encomendas de baixo valor oriundas da China.
Dados do supervisor financeiro mostram que as compras feitas pelos portugueses em sites/apps como AliExpress, Temu e Shein cresceram 227% entre 2022 e 2025 – um aumento que supera, até, o crescimento de 188% calculado para as importações que entraram na União Europeia provenientes destes comerciantes online chineses.
As conclusões foram incluídas no último Boletim Económico do Banco de Portugal, publicado em junho. O supervisor inclui uma análise que demonstra que “as importações de encomendas de baixo valor ganharam peso no total das importações de bens oriundas da China”. “Em Portugal e na União Europeia (UE), eram residuais antes da pandemia e atingiram cerca de 5% em 2025”, refere o relatório.
Comércio online. Encomendas de baixo valor vindas da China mais do que triplicaram em três anos
O departamento de estudos económicos do Banco de Portugal admite que “dada a natureza destas importações — encomendas de baixo valor realizadas online — a informação estatística disponível é escassa”. Isto porque, de um modo geral, “estas transações não são reportadas nos formulários do comércio internacional porque estão abaixo dos limiares de reporte impostos às empresas e têm frequentemente como destinatário o consumidor final”.
Ainda assim, os dados permitem tirar algumas conclusões sólidas sobre este fenómeno. O Banco de Portugal diz que “este tipo de comércio permite maior escolha e comodidade aos consumidores e facilita o acesso de empresas de menor dimensão aos mercados internacionais”, mas, por outro lado, “contorna regras de segurança, ambientais e de combate à contrafação, pode implicar custos ambientais não internalizados e permite a evasão de barreiras tarifárias, criando concorrência desleal face às empresas que usam os canais comerciais tradicionais”.