O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, disse esta quarta-feira que Espanha tem de se preparar melhor para “ataques híbridos” como aquele de que foi alvo em Ceuta, com a entrada ilegal de mais de 70 mil pessoas. “O Estado tem de melhorar a forma como está preparado perante ataques híbridos desta natureza”, disse Sánchez, numa entrevista à televisão RTVE.

As cidades de Ceuta e Melilla são as únicas fronteiras terrestres de Espanha e da Europa no continente africano, o que lhes dá “uma singularidade muito importante”, sendo necessário “investir muito mais no controlo e no perímetro da fronteira”, acrescentou.

Segundo Sánchez, o investimento já feito no reforço dessas fronteiras dos dois enclaves de Espanha no norte de África nos últimos anos e outro previsto para os próximos meses ascende a 180 milhões de euros.

O presidente do Governo considerou logo nos dias da entrada ilegal de pelo menos 72 mil pessoas em Ceuta, em 30 e 31 de julho, que o episódio foi um ataque à integridade territorial de Espanha.

Esta quarta-feira voltou a garantir que o Governo que lidera não recebeu qualquer aviso, por parte de forças de segurança ou serviços de informações, de que podia haver uma avalanche com a dimensão da que se registou em Ceuta no final de julho. Um relatório da Polícia Nacional espanhola divulgado nos últimos dias diz que o Centro Nacional de Imigração e Fronteiras de Espanha emitiu a 29 de julho um alerta de “risco extremo” de entrada “de forma coordenada” em Ceuta, “previsto para o dia 30 de julho”, que terá sido enviado aos postos fronteiriços espanhóis na região. O Executivo espanhol prometeu divulgar esta quarta-feira todos os relatórios confidenciais dos serviços de informação espanhóis sobre este tema.

Sánchez defendeu que Espanha tem também de melhorar e aumentar as infraestruturas para acolhimento temporário de migrantes em cidades como Ceuta e Melilla, que lidam com uma “realidade estrutural” de tentativas de entradas ilegais em fronteiras onde existem desigualdades muito significativas entre os dois lados (o europeu e o africano). O primeiro-ministro sublinhou que só com centros de acolhimento é possível fazer as triagens exigidas pelas leis nacionais e europeias e acionar os processos de repatriamento ou asilo.

Sánchez elogiou, por outro lado, a atuação das forças de segurança espanholas na fronteira de Ceuta com Marrocos nos dias 30 e 31 de julho, quando perante uma avalanche de pessoas incontrolável não recorreram à força nem “dispararam tiros”. Se tivesse sido outra a atuação das forças de segurança, a crise seria hoje “ainda maior”, não apenas em Ceuta como a nível das relações bilaterais com Marrocos e da imagem internacional de Espanha, o que seria “bastante lamentável”, considerou.

Face às acusações da oposição e também de partidos aliados do Governo de subserviência a Marrocos ou de que está sob chantagem de Rabat, Sánchez defendeu que tem tido ao longo dos anos uma “política externa coerente” e de respeito pelo Direito Internacional e deu como exemplo as posições que tem assumido em relação a Gaza ou às políticas dos Estados Unidos de Donald Trump. “Este Governo obviamente não aceita nenhuma chantagem”, afirmou.

Sánchez, que tem dito não ter qualquer prova do envolvimento de Marrocos no ocorrido em Ceuta — ao contrário do que constaria no relatório da Polícia Nacional, que aponta para o envolvimento dos guardas fronteiriços marroquinos —, defendeu ainda que Espanha, “ao estar em África” e na “primeira linha” de fronteira com um continente onde “faltam oportunidades”, tem “uma realidade migratória com que tem de trabalhar”, o que inclui cooperar com países de origem e trânsito de pessoas que querem alcançar a Europa. “E isto não é incompatível” com “a defesa da soberania” espanhola de Ceuta e Melilla, acrescentou.

Referindo-se às eleições na região alemã da Saxónia-Anhalt, Sánchez considerou que “há uma ameaça real para a democracia que é a extrema-direita” e “é evidente que há uma internacional de extrema-direita” que quer fazer cair também o atual governo de esquerda de Espanha.

Neste contexto, reiterou que redes sociais ligadas à Rússia e a Israel e think tanks (grupos de reflexão) dos EUA participaram, “não na origem”, mas na “expansão e amplificação” de desinformação sobre Ceuta.