Centenas de pessoas concentraram-se esta quinta-feira em Caracas para exigir à Presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, que permita o regresso da líder opositora e Nobel da Paz, Maria Corina Machado, liberte os presos políticos e convoque eleições presidenciais.

“Maria, regressa, Caracas espera-te”, “Maria estamos à tua espera” e “Eleições presidenciais já” cantarolavam em coro os manifestantes, a maioria deles simpatizantes do partido Vente Venezuela, da líder opositora.

Entre os manifestantes estava o luso-venezuelano e ex-preso político William Dávila, que denunciou que a líder opositora está a ser vítima de violação dos seus direitos e que já fez sete tentativas frustradas para regressar à Venezuela.

“É uma concentração de solidariedade com Maria Corina Machado que é vítima de uma violação flagrante do seu direito humano à livre circulação e, ao mesmo tempo, de entrar no seu país”, declarou à Lusa, questionando “quais as razões legais que existem para impedir a sua presença no seu país”.

“Nenhuma! Apenas a arbitrariedade política, a perseguição, a impedem de estar efetivamente na Venezuela. É por isso que saímos hoje [quinta-feira] para uma manifestação em sinal de solidariedade”, frisou.

William Dávila acusou de cinismo a atual Presidente interina da Venezuela, afirmando que esta tenta enganar a comunidade internacional.

“É aí que se contrasta o cinismo do discurso de Delcy Rodríguez ontem [quarta-feira] na ONU, quando vemos que não deixam Maria Corina entrar, simplesmente por razões políticas. Então, em que consiste a normalização e o apelo à paz, à unidade e à união de todo o povo venezuelano que faz, se não deixam entrar a principal e única líder da oposição? Por isso, condenamos e repudiamos essa atitude do regime”, disse.

Frisou ainda que exigem a realização de eleições presidenciais livres no país, por ser “a única forma de avançar com os processos de transição política de que o próprio Marco Rubio [secretário de Estado dos EUA] disse que existiam na Venezuela”.

“Ele falou de uma fase de transição política que culminaria em eleições livres. Mas, ao mesmo tempo, estabeleceu uma série de passos. Acreditamos que essas eleições podem ser realizadas e temos de exercer pressão nas ruas para que isso aconteça, porque, caso contrário, vamos deixar o tempo passar, e essa é a estratégia que usa Delcy Rodrigues para se manter no poder”, disse.

William Dávila disse ainda estar a participar na concentração como ex-preso político, para exigir a liberdade de todos os prisioneiros de consciência na Venezuela.

“Vim para exigir também a libertação total dos mais de 350 presos políticos entre civis e militares, que estão nas diversas prisões do país. Exijo a sua libertação e o direito à reparação das vítimas, que não se esqueça [delas] e a garantia de que estes factos não se repitam, para que possamos ter um processo claro de transição que nos conduza a uma paz duradoura e a uma reconciliação nacional”, concluiu.

Por outro lado, Marcos Velazo, do partido Vente Venezuela, explicou aos jornalistas que a concentração “é um grito dos venezuelanos para que o mundo saiba que querem que Maria Corina Machado regresse ao seu país”.

Quarta-feira, a Presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, prometeu, durante o primeiro discurso na Assembleia Geral da ONU desde que assumiu o poder, realizar eleições e afirmou que o povo do país determinará o “momento certo”.

“Quero deixar isto muito claro perante esta Assembleia Geral: haverá eleições na Venezuela”, disse Delcy Rodríguez, acrescentando que o Governo iniciou um “diálogo político com setores da oposição” para garantir um “processo baseado em condições de igualdade para todos”.

Rodríguez afirmou que o povo venezuelano vai determinar o melhor momento para dar início às eleições e garantiu às Nações Unidas que, quando chegar a altura, as instituições do país “estarão preparadas para garantir um processo inclusivo e transparente”.

Neste sentido, prometeu eleições com “o exercício responsável e pleno da política” e “condições reais de participação em todas as forças políticas do país”.

Na Venezuela, a oposição acusa o regime de estar a ponderar convocar eleições presidenciais apenas para 2028 e insiste que deveriam ser feitas já em 2027.

Segundo a oposição venezuelana, Maria Corina Machado terá tentado sete vezes, sem sucesso, regressar ao seu país desde que em dezembro passado – após ter permanecido cerca de um ano na clandestinidade para evitar ser detida -, saiu da Venezuela para receber, na Noruega, o Prémio Nobel da Paz.

Uma das tentativas mais recentes ocorreu após o duplo terramoto que assolou a Venezuela no passado dia 24 de junho.

A 29 de junho, a líder da oposição acusou o Governo venezuelano de ter fechado o espaço aéreo comercial para impedir o seu regresso ao país a partir da Cidade do Panamá, quando planeava viajar para a Venezuela para apoiar as vítimas dos terramotos.