A D-EVOLUÇÃO é a iniciativa nacional de restauro ecológico da WWF Portugal. Nasce em 2025 com o propósito de restaurar ecossistemas degradados e mobilizar cidadãos, empresas e decisores públicos para um compromisso coletivo com a recuperação da natureza. O Lidl Portugal é o parceiro impulsionador desta iniciativa, tendo financiado o estudo que identificou as nove áreas prioritárias para restauro em Portugal, tanto em terra como no mar, bem como permitiu a criação da plataforma digital da iniciativa e da campanha de comunicação associada.
A primeira área de intervenção foi o Parque Nacional da Peneda-Gerês. Através da venda de sacos solidários, disponíveis em todas as lojas Lidl, foram angariados cerca de 180.000 euros para restaurar 30 hectares. Depois de atingido este objetivo, foi aberta uma nova votação para que colaboradores e clientes Lidl pudessem decidir o próximo destino de apoio. É então que é eleito o Estuário do Tejo, com a missão de proteger cavalos-marinhos e habitats subaquáticos.
Mas onde entram os carrinhos de supermercado nesta equação?
Já lá vamos. No passado dia 7 de setembro, todos os caminhos foram dar ao antigo presídio da Trafaria, onde foi apresentado o plano de trabalhos para esta intervenção, que contou com a presença de Ângela Morgado, Diretora Executiva da WWF Portugal; Duarte Mata, diretor do Departamento de Intervenção Ambiental, Clima e Sustentabilidade da Câmara Municipal de Almada; Sandra Chaíça, Presidente da Junta de Freguesia da Trafaria; Gonçalo Silva, mergulhador científico e investigador responsável pela intervenção subaquática da MARDIVE; Vanessa Romeu, Diretora de Corporate Affairs do Lidl Portugal; Rita Sá, Coordenadora de Oceanos e Pescas da WWF Portugal; e Representantes da Associação EDA.
“O que nós estamos a fazer, aqui na Trafaria, é instalar abrigos para que esta espécie possa permanecer no estuário, observando-a, para a conseguirmos recuperar. Nós não restauramos uma espécie sem restaurar todo o habitat. E o habitat também é a comunidade, também são as pessoas. Por isso, desafiamos empresas, instituições, pessoas em geral, comunidades, a trabalhar connosco para voltar a trazer natureza ao nosso país”. Ângela Morgado foi a responsável por conduzir a apresentação do projeto e, ao longo da manhã, foi possível perceber que passos já tinham sido dados e aqueles que irão fazer parte de um futuro próximo.
Mas porquê o Estuário do Tejo?
↓ Mostrar
↑ Esconder
O Estuário do Tejo destaca-se como uma das zonas húmidas mais extensas e biodiversas da Europa, sendo, simultaneamente, uma das mais afetadas pela pressão humana. Na frente ribeirinha de Almada, a escassos metros da cidade e da intensa circulação de embarcações, sobrevive uma população rara e valiosa: os cavalos-marinhos. Ali coexistem duas espécies: o cavalo-marinho-de-focinho-comprido (Hippocampus guttulatus) e o cavalo-marinho-comum (Hippocampus hippocampus). Fatores como a poluição, o ruído subaquático, o lixo marinho e as obras planeadas para a zona colocam em risco este ecossistema delicado. A gravidade da situação ficou evidente em 2022, quando foi necessário resgatar, em regime de urgência, dezenas destes animais, num sinal claro de que a ameaça é concreta e se tem intensificado.
Durante o processo de trabalho científico, desenvolvido pela parceira do projeto – MARDIVE -, foi possível observar que os cavalos-marinhos utilizavam diferentes estruturas artificiais e resíduos presentes no fundo do estuário para se estabelecerem. E é aqui que entram os carrinhos de supermercado.
“Quando mergulhei pela primeira vez, uma das coisas que me chamou à atenção foi a existência de muitos carrinhos de supermercado debaixo de água e de muito lixo. Ao vermos aqueles carrinhos, pensámos: se eles já existem aqui, e albergam os cavalos-marinhos, porque não criar primeiro condições para os cavalos-marinhos se estabelecerem nestes carrinhos, enquanto limpamos a zona, e depois, mais tarde, pensarmos num restauro natural, com o habitat natural?”, contou Gonçalo Silva, mergulhador responsável. E assim foi, os carrinhos de supermercado foram devidamente recondicionados, sendo retirados todos os seus plásticos e criados pontos de fixação para “fixarmos ao fundo e não criarmos problemas a outros habitats”. O melhor de tudo é que este processo envolveu também a comunidade, uma vez que a transformação dos carrinhos foi feita com a ajuda de dois serralheiros locais. Foi então construído um circuito com nove carrinhos, distribuídos por três locais.
Então, se isto é o que já foi feito…
- Diagnóstico para ouvir a comunidade local;
- Censos de cavalos-marinhos;
- Construção dos abrigos;
- Colocação dos abrigos na Baía da Trafaria;
- Mergulhos de monitorização.
…o que é que ainda vai acontecer?
- Mergulhos de monitorização;
- Comunicação do projeto;
- Ações de Educação Ambiental.
O papel da insígnia em todo o projeto
O que é certo é que nada do que aconteceu teria sido feito, sem o impulso transformador do Lidl Portugal. Ao longo da manhã, os agradecimentos rumaram sempre no mesmo sentido e Vanessa Romeu não perdeu a oportunidade de fazer um balanço do caminho percorrido até aqui. “A nossa jornada neste projeto começou há coisa de ano e meio. Desde então, já percorremos muitos quilómetros e já vendemos muitos sacos solidários, o chamado saco da tartaruga. E isto já nos permitiu investir cerca de 300.000 euros nesta iniciativa. Importa aqui frisar que restaurar não é a mesma coisa que reflorestar. Não estamos aqui a falar de plantar árvores, estamos a falar de fazer um trabalho muito mais profundo que exige investimento. E o nosso compromisso foi definir aquilo que é prioritário, em nome da eficiência, que é algo que está muito no ADN do Lidl”.
Para a Diretora de Corporate Affairs do Lidl Portugal, este é um projeto que traz consigo um bónus de economia circular: o facto de ser possível dar uma segunda vida a carrinhos que estavam a chegar ao fim do seu ciclo de utilização. “ Isto demonstra que a inovação e a criatividade também estão de mãos dadas quando se trata de biodiversidade. E promover a biodiversidade é promover o nosso amanhã, é promover os nossos ecossistemas e garantir que, do nosso lado, vamos continuar a conseguir oferecer alimentos de qualidade. Porque sem biodiversidade, o nosso futuro alimentar também fica condicionado”, reforçou a responsável.
Esta é uma iniciativa que tem o seu âmbito de ação previsto de abril de 2026 até março de 2028 e para monitorizar o seu progresso, Gonçalo Silva e a sua equipa de mergulhadores, em conjunto com a WWF Portugal, continuarão a dar seguimento aos mergulhos de monitorização, de forma a perceber o uso que a espécie dará a cada um dos carrinhos.
A apresentação terminou com uma visita até à Baía da Trafaria, onde uma equipa de três mergulhadores se preparava para entrar dentro de água. Uma prova de como a conservação da natureza é um processo contínuo, sem dias de folga, e onde a ajuda de todos pode mesmo fazer a diferença. Afinal, alguma vez imaginou que seria possível encontrar Cavalos-Marinhos do outro lado da ponte?