O cardeal Luis Antonio Tagle alertou neste sábado para os riscos de manipulação associados à inteligência artificial, defendendo que a tecnologia deve servir o bem comum e não ser usada para disseminar desinformação ou aprofundar divisões sociais.
Numa intervenção pública no âmbito das comemorações dos 450 anos da Diocese de Macau, onde participa como enviado do Papa Leão XIV, o novo decano do Colégio Cardinalício afirmou que os responsáveis pelo desenvolvimento da inteligência artificial detêm atualmente “muito poder e autoridade”.
“Agora apercebemo-nos de que as pessoas que controlam a tecnologia digital e a produção de inteligência artificial têm muito poder e autoridade. Como está a ser usado esse poder?”, questionou.
Tagle disse que a principal preocupação passa por saber se essa influência é colocada “ao serviço do bem comum” ou se é utilizada para “manipular as pessoas, aumentar as desigualdades” e transformar indivíduos em “escravos das notícias falsas”.
O cardeal relatou um episódio pessoal em que um antigo aluno que exerce funções num seminário em África lhe enviou a imagem de uma suposta conferência atribuída ao prelado, que ele nunca realizou. Noutro caso, uma mulher agradeceu-lhe alegados vídeos publicados na plataforma YouTube sobre medicamentos para a artrite. “Eu disse-lhe: ‘Não, eu nunca fiz isso. Sou bispo, não sou farmacêutico'”, revelou.
Para Tagle, estes casos mostram uma crescente confusão entre realidade e conteúdos digitais manipulados.
“Fiquei triste porque percebi que aquela pessoa tinha sido totalmente manipulada”, afirmou, acrescentando que a mulher insistia que os vídeos eram autênticos mesmo depois de ele lhe garantir pessoalmente que eram falsos.
“A Igreja não é contra o uso da tecnologia digital nem dos avanços da ciência. Pelo contrário, a Igreja é uma das promotoras da ciência e da tecnologia”, sublinhou. “Mas, por favor, não percamos o sentido de humanidade na comunicação e na tecnologia.”
As declarações do cardeal alinham-se com a posição assumida pelo Papa Leão XIV, que tem colocado a IA entre as prioridades do seu pontificado.
Em setembro, o pontífice apelou ao desenvolvimento de sistemas de IA que contribuam para a paz e não aprofundem as divisões sociais, defendendo que esta tecnologia deve ser orientada pela “sabedoria” e pela “solidariedade” num mundo marcado por conflitos.
No primeiro grande documento do seu pontificado dedicado ao tema, divulgado em maio, pediu uma regulamentação internacional mais exigente e advertiu para os perigos das armas autónomas e da perda de controlo humano sobre decisões críticas.
Na intervenção deste sábado em Macau, Tagle estabeleceu também uma ligação entre os conflitos armados atuais e a ascensão do tribalismo, das divisões étnicas e da discriminação.
“O aumento do tribalismo, das lealdades étnicas, da discriminação e do racismo está a chegar, por vezes, à violência. Muitos dos conflitos em várias regiões do mundo, e atrevo-me a dizer até as guerras atuais, se forem analisados, têm causas tribais”, afirmou.
“As armas são muito sofisticadas. Já não são espadas nem arcos e flechas, mas drones e mísseis. Mas continua a ser tribalismo. Sentem-se e dialoguem. Essa é a coisa mais natural a fazer, não matar”, acrescentou.
Tagle reforçou recentemente a sua posição na hierarquia da Igreja Católica, com o Papa Leão XIV a aprovar a eleição do cardeal filipino como novo decano do Colégio Cardinalício, tornando-o o primeiro asiático a ocupar o cargo.
O decano preside ao colégio dos cardeais e desempenha um papel de destaque na vida institucional da Igreja, incluindo durante os períodos de transição entre pontificados.
Antigo arcebispo de Manila e responsável por importantes organismos da Cúria Romana desde 2020, Tagle foi amplamente apontado como um dos principais papáveis no conclave que, em maio de 2025, elegeu Leão XIV após a morte do Papa Francisco.
Com o Papa Leão XIV, de 71 anos, a recuperar de uma cirurgia para a remoção de um adenocarcinoma pulmonar no pulmão direito realizada este mês, Tengle voltou a ser referido como um dos principais candidatos à sucessão no Vaticano.