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AFP/Getty Images

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A ciência explica (mas por pouco) aquele golo de Cristiano Ronaldo

Pernas de velocista, físico de um atleta de meia distância e pés rápidos como um helicóptero. Ronaldo marcou um golo histórico que desafia as leis da física. O segredo está nas coxas. E no instinto.

Foi como se o tempo ficasse em suspenso: Cristiano Ronaldo parecia flutuar a onze metros da baliza de Buffon. Naquele pontapé de bicicleta, o pé direito do futebolista transformou-se numa arma e a bola numa bala que atravessou a rede a 72 quilómetros por hora. O estádio rebentou em palmas: nenhum adepto do Real Madrid nem da Juventus ficou indiferente ao golo histórico que o português tinha acabado de marcar a quase 2,40 metros do chão. Ficou ali ponto assente que aquela jogada podia facilmente conquistar o próximo prémio Puskás. E que Cristiano Ronaldo só podia ter asas — e pólvora — nos pés.

O movimento que Cristiano Ronaldo protagonizou na última terça-feira à noite não é muito diferente daquele que ocorreu durante o Campeonato da Europa de 2016 frente ao País de Gales. Nesse jogo, o futebolista madeirense elevou-se 74 centímetros a partir do relvado e levou a cabeça até aos 2,61 metros, para depois disparar a bola contra a baliza adversária a 71,3 quilómetros por hora. Em menos de um segundo, a bola já estava na rede e a seleção portuguesa dava um passo em frente no Euro. Parecia uma repetição das meias-finais contra a Holanda no Euro 2004, quando o avançado cabeceou uma bola vinda dos pés de Deco e pôs Portugal na final do campeonato.

Desta vez, sabe-se que a bola chutada por Cristiano Ronaldo chegou à baliza adversária a uma velocidade de 72 quilómetros por hora: como estava a onze metros do guarda-redes no momento que o pé direito embateu na bola, isso significa que ela chegou à rede ao fim de apenas 0,55 segundos. Mais impressionante do que a velocidade da bola são os dados que mostram as medições do jornal espanhol Marca: no momento do pontapé de bicicleta, o pé de Ronaldo estava a 2,38 metros do solo e o corpo do jogador estava paralelo ao chão com as costas a 1,41 metros do relvado. Isto significa que a bola foi chutada a uma altura de apenas seis centímetros abaixo da trave da baliza: estavam reunidas as condições para um golo memorável.

No momento do pontapé de bicicleta, o pé de Ronaldo estava a 2,38 metros do solo e o corpo do jogador estava paralelo ao chão com as costas a 1,41 metros do relvado. Isto significa que a bola foi chutada a uma altura apenas seis centímetros abaixo da trave da baliza

Não estamos perante um recorde pessoal de Cristiano Ronaldo: em 2011, já com a camisola do Real Madrid, o jogador cabeceou a uma altura de 2,93 metros frente ao Manchester United. São números estrondosos tendo em conta que um atleta masculino de salto em altura precisa de pular pelo menos 2,30 metros para se apurar para os Campeonatos do Mundo de Atletismo, que a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro foi para um atleta que saltou 2,38 metros de altura; e que até para se qualificar no evento era preciso saltar pelo menos 2,31 metros. Mesmo que no slato em altura o corpo todo tenha de passar por aquela barreira, não se medindo apenas o ponto mais alto a que chega uma parte do corpo.

[Veja no vídeo imagens 3D do épico pontapé de bicicleta de Ronaldo, que saiu a 72 km/hora]

Só que Cristiano Ronaldo é um jogador de futebol e o físico que tem é muito diferente das características de um atleta de salto em altura. Por outras palavras, Ronaldo tem muito mais massa muscular e um peso muito maior ao de qualquer atleta olímpico de salto em altura, mas ainda assim consegue fazer o mesmo. “O Ronaldo não tem o perfil muscular de um saltador. Por norma, os saltadores até podem ser altos mas são mais franzinos, mais leves e têm menos músculo no corpo. É por isso que eles conseguem elevar o corpo a mais de dois metros de altura em relação ao chão. Mas Cristiano Ronaldo é mais pesado e tem mais massa muscular que eles”, sublinha Sérgio Gonçalves, biomecânico do Instituto Superior Técnico.

Vários aspetos justificam este fenómeno. Quando o avançado português salta, levanta os joelhos e as pernas para a parte de trás do corpo, o que eleva o centro de gravidade durante o tempo suficiente para permanecer no ar, receber a bola e pontapeá-la para dentro da baliza, explica ao Observador o físico teórico Carlos Fiolhais. “O que se passa é que a trajetória do centro de gravidade do atleta é basicamente uma parábola“, ou seja, igual à trajetória de um corpo sem resistência do ar. No momento em que Cristiano Ronaldo parte do chão, depois de percorrer uma distância em aceleração, vai com uma determinada velocidade e atinge uma altura máxima proporcional ao quadrado desta velocidade. Depois, metade do tempo de um salto é passado nos pontos mais altos a que ele pode chegar, enquanto a outra metade do tempo é dividida entre o tempo da ascensão (em que o atleta contraria a força da gravidade) e o tempo da descida (em que o atleta obedece à força da gravidade, que atrai os corpos para a Terra).

No pontapé de Ronaldo, a perna atinge uma velocidade rotacional de 1800 graus por segundo e é capaz de completar cinco revoluções completas em apenas um segundo. É praticamente a velocidade dos rotores de um helicóptero. 

Essa altura, explicou Carlos Fiolhais, depende do impulso que é comunicado pelo chão, algo que obedece à Terceira Lei de Newton, que diz o seguinte: de cada vez que um corpo exerce uma força sobre outro corpo, este segundo também exerce uma força sobre o primeiro; e essa força tem a mesma intensidade e a mesma direção, embora tenha sentidos diferentes. Isto também é válido para o pontapé de bicicleta de Cristiano Ronaldo: a perna direita do jogador atinge uma velocidade rotacional de 1800 graus por segundo, ou seja, é capaz de completar cinco revoluções completas (cinco voltas de 360º) em apenas um segundo. É praticamente a velocidade dos motores de um helicóptero. Mas nem toda a perna vai à mesma velocidade, explica o biomecânico do Instituto Superior Técnico: o pé viaja a uma velocidade muito maior do que a coxa, por exemplo, porque tem de percorrer uma distância maior no mesmo espaço de tempo. “É o mesmo que acontece quando abrimos uma porta. A zona onde está a maçaneta é mais veloz do que a de dentro, porque tem um espaço maior para percorrer no mesmo intervalo de tempo”, exemplifica Sérgio Gonçalves.

Mas, desta vez, Cristiano Ronaldo não se limitou a saltar: ele empurrou o corpo para trás de modo a conseguir levantar a perna direita e chegar à bola, enquanto o resto do corpo se mantinha paralelo ao chão. O impulso de que o futebolista se muniu para o salto é o que lhe vai permitir gerar força nos quadríceps, que são os músculos da coxa das pernas, e rodar no ar de acordo com a força centrífuga — uma força que se manifesta em qualquer corpo em rotação. Do ponto de vista da física, ao obedecer a esse movimento, Cristiano Ronaldo está sujeito a uma aceleração especial: é a aceleração centrípeta, que é constante porque o movimento é uniforme; e que é perpendicular à velocidade, tal como acontece num satélite em redor da Terra. Essa aceleração mantém-se constante durante 95% do movimento, até que o corpo do jogador começa a ceder à gravidade e a cair.

Só que, em campo, não basta contrariar a força da gravidade e manter o corpo em rotação: há que conseguir transferir uma energia acumulada — a energia potencial — para a bola. Ao longo do movimento circular, é preciso manter balanço suficiente (a ciência chama a esse balanço momentum linear”) para que a energia seja transferida para a bola e depois resultar numa velocidade grande o suficiente para a levar ao longo de 11 metros, a distância a que Ronaldo estava da baliza.

O perímetro dos gémeos é muito inferior ao normal. Tem pernas longas como as de um velocista, o físico delgado de um atleta de meia distância e a estatura de um atleta de salto em altura. Isso resulta numa taxa de sucesso nos duelos aéreos de 66%.

Claro que Cristiano Ronaldo não fez nenhum destes cálculos quando decidiu aproveitar o cruzamento de Carvajal: o português faz isto tudo quase por instinto, mas também com uma boa dose de auxílio das suas características físicas. É que, apesar de ter 84 kg, 1,851 metros de altura e um perímetro de coxa superior à média, o perímetro dos gémeos é muito inferior ao normal. O avançado madeirense tem pernas longas como as de um velocista, o físico delgado de um atleta de meia distância e a estatura de um atleta de salto em altura. E isso tudo resulta numa taxa de sucesso nos duelos aéreos de 66%.

Isto são conclusões de um estudo feito com físicos desportivos apoiado pela Castrol. De acordo com as conclusões dessa investigação, quando Cristiano salta sem impulso e sem a ajuda dos braços, não consegue saltar mais que 44 centímetros através de uma força apenas 1,5 vezes maior que o peso do seu corpo. Mas em situação de jogo consegue elevar-se a 78 centímetros do chão – mais alto que a média dos jogadores de basquetebol da NBA – e com uma força cinco vezes maior à do seu peso – 5G -, tanto quanto um astronauta quando parte da Terra em direção ao espaço.  Além disso, Ronaldo tem menos 3% de gordura corporal que um supermodelo e muita força: com uma coxa com 61,7 centímetros de perímetros, Cristiano Ronaldo consegue levantar o peso equivalente a dezasseis carros Toyota Prius durante um treino intensivo de pesos. Os cientistas descobriram que um pontapé livre de Ronaldo pode ser quatro vezes mais rápido que a velocidade da Apollo 11 quando partiu da Terra. E que, numa época apenas, Cristiano consegue acelerar 900 vezes mais que um atleta olímpico.

Os tempos de reação do português quando está em campo conseguiriam circum-navegar o mundo 31 horas mais depressa de um comboio de alta velocidade.

O fenómeno Cristiano Ronaldo não é apenas talento: exige muito trabalho. O biomecânico Sérgio Gonçalves diz que, ao longo da carreira, o jogador evoluiu de um tecnicista “hábil mas sem carga, como era no Sporting” para um “atleta com mais massa muscular, que funciona tanto como extremo como ponta de lança”. O trabalho de ginásio que faz obriga-o a trabalhar mais as pernas, armazenando grande parte da força que tem na zona inferior do corpo.

Mas o cientista também admite que nem tudo vem do físico: uma boa parte também vem da mente. “O que o torna excepcional é o tempo de reação muito curto que lhe permite uma capacidade de antecipação incrível do perigo“, descreve Sérgio Gonçalves. Isso mesmo é o que prova o estudo patrocinado pela Castrol, onde o jogador é posto num campo e vê a bola a ser chutada na sua direção. Assim que a bola é chutada, os cientistas desligaram as luzes do campo para testar a capacidade de antecipação e instinto de Ronaldo e os resultados falam por si: os tempos de reação do português quando está em campo conseguiriam circum-navegar o mundo 31 horas mais depressa de um comboio de alta velocidade. “Ele adivinha onde a bola vai cair, calculando o momento certo de salto. Essa é uma noção intuitiva que o próprio não conseguirá explicar, mas que todos vemos. Ele está no sítio certo à hora certa. Digamos que sabe ler o jogo, isto é, tem uma atenção permanente à posição e à velocidade da bola, assim como às posições dos seus companheiros”, descreve Carlos Fiolhais.

É esta a fórmula que faz de Cristiano Ronaldo uma força da natureza que, no final de contas, desafia ao mesmo tempo as leis da física.

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