Artigo publicado originalmente a 8 de julho de 2016, e agora republicado depois de Ronaldo ter feito mais um dos seus golos “aéreos”: saltou 71 cm até aos 2,56 m para dar a vitória da Juventus frente à Sampdória.

Do “CR7 Air Jordan” ao “Bem-vindo ao espaço aéreo”: Ronaldo saltou 71 centímetros e não passou ao lado de ninguém

Tão alto quanto um urso pardo, mais veloz que um coiote. Foi assim o golo com que Cristiano Ronaldo estreou o marcador frente ao País de Gales. Perante o passe certeiro de Raphael Guerreiro, o capitão elevou a cabeça até aos 2,61 metros de altura e encaminhou a bola para a rede adversária a uma velocidade de 71,3 quilómetros por hora. A bola chegou à baliza apenas sete décimas de segundos depois do remate. Havia de ser o primeiro passo para a nossa viagem rumo a Paris e festejar a conquista do Euro 2016.

LYON, FRANCE - JULY 06: Cristiano Ronaldo of Portugal scores the opening goal during the UEFA EURO 2016 semi final match between Portugal and Wales at Stade des Lumieres on July 6, 2016 in Lyon, France. (Photo by Stu Forster/Getty Images)

O golo de Cristiano Ronaldo na quarta-feira no jogo das meias-finais frente ao País de Gales. O salto monumental de Cristiano Ronaldo conquistou a atenção internacional. Outra vez. Créditos: Stu Forster/Getty Images

O golo de Ronaldo a voar sobre os centrais correu o mundo. Os jornais internacionais disseram que Portugal tinha “conquistado o céu” com os “altos voos” do avançado madeirense. Mas a verdade é que não foi a primeira vez que Cristiano mostrou que tinha asas nos pés: o golo marcado nas meias-finais do Euro 2016 foi muito parecido (quase igual, mesmo) ao que o melhor do mundo marcara nas meias-finais do Euro 2004 perante a Holanda.

Há doze anos, Cristiano Ronaldo recebera a bola cruzada por Deco, saltara nas alturas e cabeceara para a baliza inimiga. Foi o primeiro golo português na partida e com ele também chegaríamos à final do campeonato europeu que se realizava em Portugal. Mas dessa vez, foi o tal de má memória e amargo sabor grego.

Esta quarta-feira, Ronaldo repetiu o feito. Aos 34 anos, a jogar em Génova frente Sampdória, Ronaldo voltou a “voar sobre os centrais”. Saltou 71 centímetros a uma altura de 2,56 metros para apontar de cabeça o 2-1 da vitória da Juventus. “CR7 Air Jordan!”, escreveu o próprio jogador nas suas redes sociais, comparando-se a um dos melhores basquetebolistas de sempre, Michael Jordan.

Um pássaro? Um avião? Não, era apenas Ronaldo – a marcar pelo quinto jogo seguido e a dar a vitória à Juventus

O enorme sucesso de Cristiano Ronaldo nos céus, sempre que está perante a baliza contrária, deve-se em grande parte às suas características físicas (o resto é treino). CR7 tem 1,851 metros de altura, 80 kg de massa, um perímetro de coxa muito superior à média, mas um perímetro de gémeos inferior ao normal. E é disto que são feitas as asas do jogador português: longas pernas de um velocista, o físico delgado de um atleta de meia distância e a estatura de um atleta de salto em altura. Foram estas as conclusões a que chegaram os especialistas em física desportiva da “Castrol Edge Rankings“, que em 2012 foram perceber porque é que Ronaldo é um dos futebolistas mais valiosos do mundo. E dos que salta mais alto.

A gordura corporal de um supermodelo

Mostrar Esconder

Cristiano Ronaldo tem menos 3% de gordura corporal que um supermodelo.

Os cientistas quiseram perceber o que tinha contribuído para o facto de a taxa de sucesso nos duelos aéreos de Ronaldo ter aumento dos quarenta para os 66%. E encontraram a resposta na física. Quando Cristiano salta sem impulso e sem a ajuda dos braços, não consegue saltar mais que 44 centímetros através de uma força apenas 1,5 vezes maior que o peso do seu corpo. Em situação de jogo, no entanto, Ronaldo torna-se num jogador alado: consegue elevar-se a 78 centímetros do chão – mais alto, de facto, que a média dos jogadores de basquetebol da NBA – e com uma força cinco vezes maior à do seu peso – 5G -, tanto quanto um astronauta quando parte da Terra em direção ao espaço. Essa força, no caso de Ronaldo e tendo em conta a Segunda Lei de Newton, é de 3920 N.

A lei de Newton

Mostrar Esconder

A Segunda Lei de Newton (ou o Princípio Fundamental da Dinâmica), a força que atua sobre um corpo é sempre diretamente proporcional à multiplicação entre a massa desse corpo e à aceleração a que ele está sujeito. No caso de um salto de Ronaldo, essa aceleração é igual ao valor da gravidade. Na Terra, o valor da gravidade é de 9,8 N.

Quando o avançado português salta, tende a levantar os joelhos e as pernas para a parte de trás do seu corpo. Isto permite elevar o centro de gravidade temporariamente, mas durante o tempo suficiente para permanecer no ar, receber a bola e cabeceá-la para dentro da baliza. Claro que esse período de tempo em que Cristiano Ronaldo permanece no ar não é tão grande como parece. É um “ilusão de ótica”, como esclarece o físico Carlos Fiolhais ao Observador. “O que se passa é que a trajetória do centro de gravidade do atleta é basicamente uma parábola”, ou seja, igual à trajetória de um corpo sem resistência do ar (que, embora exista, é tão pequena que pode ser desprezada dos cálculos matemáticos).

E as outras medidas sobrenaturais

Mostrar Esconder

Com uma coxa com 61,7 centímetros de perímetros, Cristiano Ronaldo consegue levantar o peso equivalente a dezasseis carros Toyota Prius durante um treino intensivo de pesos. Os cientistas descobriram que um pontapé livre de Ronaldo pode ser quatro vezes mais rápido que a velocidade da Apollo 11 quando partiu da Terra. E que, numa época apenas, Cristiano consegue acelerar 900 vezes mais que um atleta olímpico.

Ora, sempre que um jogador de futebol salta do chão, parte com uma posição inicial e com uma velocidade. É a componente vertical da velocidade que detém a resposta para o milagre dos saltos de Ronaldo: a altura máxima é proporcional ao quadrado desta velocidade. A “ilusão da suspensão” de Cristiano é assim explicada pela matemática. No futebol, tal como no basquetebol, metade do tempo de um salto é passado nos pontos mais altos a que ele pode chegar, enquanto a outra metade do tempo é dividida entre o tempo da ascensão (em que o atleta contraria a força da gravidade) e o tempo da descida (em que o atleta obedece à força da gravidade, que atrai os corpos para a Terra). É por isso que ao espetador parece que o atleta flutua.

Uma questão de Ação-Reação

Mostrar Esconder

A Terceira a Primeira Lei de Newton, ou o Princípio da Ação-Reação, diz que quaisquer dos corpos dotados de massa são atraídos um pelo outro através de uma força que, embora tenha a minha direção, vai ter intensidade e sentido opostos. Em suma: a maçã de Newton foi atraída para a Terra, mas a Terra também estava a ser atraída pela maçã.

Carlos Fiolhais explica ainda que a altura do salto depende do impulso que é comunicado pelo chão, algo que obedece à Terceira Lei de Newton. Mas não depende só disso: a magia também se faz pelos músculos. “Ronaldo tem geneticamente um corpo de atleta, mas desenvolve o seu corpo com exercícios no ginásio” onde trabalha muito a coxa. É da força que Ronaldo armazena na zona inferior do corpo que vem grande parte da energia com que ele se eleva nos céus. Daí e da mente também. É que Cristiano Ronaldo tem uma extraordinária visão do campo e reage rapidamente: os tempos de reação do português quando está em campo conseguiriam circum-navegar o mundo 31 horas mais depressa de um comboio de alta velocidade. “Ele adivinha onde a bola vai cair, calculando o momento certo de salto. Essa é uma noção intuitiva que o próprio não conseguirá explicar, mas que todos vemos. Ele está no sítio certo à hora certa. Digamos que sabe ler o jogo, isto é, tem uma atenção permanente à posição e à velocidade da bola, assim como às posições dos seus companheiros”. É quanto vale uma experiência de 15 anos.

LISBON, PORTUGAL - MAY 24: Cristiano Ronaldo of Real Madrid celebrates scoring their fourth goal from the penalty spot during the UEFA Champions League Final between Real Madrid and Atletico de Madrid at Estadio da Luz on May 24, 2014 in Lisbon, Portugal. (Photo by Lars Baron/Getty Images)

Cristiano Ronaldo é um atleta completo, concordam os cientistas. Num só corpo consegue ter a eficiência de um velocista, de um corredor e de um atleta de salto em altura. E a musculatura definida (com menos gordura que um supermodelo), unida a 13 anos de experiência, justificam o sucesso de Ronaldo. Créditos: Lars Baron/Getty Images

O que Cristiano Ronaldo faz é notável, mas não é exclusivo do mundo do futebol. Atletas como os basquetebolistas ou os jogadores de voleibol treinam profundamente as técnicas associadas aos saltos: só assim é que conseguem marcar pontos. É isto que nos explica Roberto Reis, jogador de voleibol pelo Benfica e um dos melhores jogadores portugueses de sempre da modalidade. A disponibilidade para este tipo de exercícios não é inata: tem de ser trabalhada. “O Cristiano é um jogador extremamente explosivo que consegue aliar perfeitamente a técnica à execução. A coordenação dele é perfeita”, avalia Roberto. Mas apenas o é porque, tal como no voleibol, essa capacidade é treinada antes das performances oficiais: “Durante os treinos somos sujeitos a exercícios de força e de musculação. O voleibol é feito essencialmente a saltar, por isso a impulsão que damos em campo é consciente. E é preciso ter mais resistência”, explica o atleta benfiquista.

Carlos Fidalgo, jogador de voleibol pelo Vitória de Guimarães, internacional português e filho do guarda-redes António Fidalgo, subscreve as palavras do seu colega de profissão. Explica ele ao Observador que “é impressionante o que Cristiano Ronaldo faz, porque em princípio não treina tanto o salto como um atleta de voleibol ou de basquetebol”. É que, pelo menos no voleibol, os saltos por treino são incontáveis. “É algo que vamos melhorando, embora a capacidade de saltar também tenha a ver com a carga genética ou com uma certa aptidão desde o início”, acrescenta Carlos. O salto é normalmente treinado com trabalho pliométrico, que procura que os atletas utilizem os músculos no seu máximo expoente. São “exercícios de explosão e de reação” que buscam uma preparação física ao nível dos grandes atletas.

Mas como é que esse potencial é demonstrado durante uma jogada? Aqui é que reside a grande diferença em relação a outros desportos. No voleibol, a impulsão é conseguida através da “chamada”: o atleta dá três passos de apoio e depois eleva-se no ar com a ajuda dos braços e das pernas em coordenação. E tem de reagir rapidamente, para conseguir equilibrar o tempo da preparação com a chegada da bola.

E depois há Ronaldo. Sempre a voar sobre os centrais.