Intervenção de José Manuel Pureza

no encerramento da XIV Convenção do Bloco de Esquerda

Há um último agradecimento especial que eu quero fazer e sei que o faço em nome de todo o Bloco. À Mariana Mortágua. E quero agradecer-lhe algo muito concreto que resume tudo o mais. A Mariana foi asperamente atacada por ter ido a Gaza. Pois eu digo-vos com toda a convicção: a ida da Mariana na flotilha só pode ser um orgulho para todas e todos nós e um orgulho para Portugal.

O discurso de José Manuel Pureza começa com um agradecimento à antecessora e uma certeza: apesar do mau resultado das últimas eleições e do percurso de declínio do partido, Mortágua continua, como esta convenção mostrou, a ser muito popular junto das bases do partido; e ninguém lhe apontou diretamente o dedo pelo momento do Bloco, falando-se sempre em responsabilidades coletivas. Ao mesmo tempo, Pureza quis assegurar que o partido não vai deixar cair a causa de Gaza, causa de sempre do partido, que levou Mortágua à flotilha em tempo de eleições em Portugal e a tornou alvo de críticas (mais externas do que internas). No seio do Bloco acredita-se que a dedicação à causa não prejudicou o partido; o que pode prejudicá-lo é, por exemplo, a divisão e fragmentação nos movimentos de apoio à Palestina. Essa será uma das tarefas que o partido quererá desempenhar agora, num momento em que quer trabalhar para unir a esquerda.

Saberemos rimar igualdade com unidade. Estaremos onde for necessário, com quem pensa diferente de nós, mas que esteja sintonizado no combate ao governo mais à direita que este país já teve depois do 25 de abril.

Este excerto resume boa parte do que foi o discurso de Pureza, e do que pretende que seja a sua liderança: trabalhar para a “unidade”, dialogar mais dentro e fora do partido, rejeitar os “sectarismos” que o novo líder acredita que têm prejudicado a esquerda. É também para isso que foi escolhido pelo partido, que olha para o percurso de Pureza — de diálogos e entendimentos com pessoas de fora do Bloco em movimentos pela legalização da eutanásia, contra a troika ou de diálogo com a Igreja, por exemplo — como uma vantagem importante para tempos difíceis. Por isso fala no Governo “mais à direita” que alienará, acredita, muito mais possíveis eleitores do que apenas os que ainda estão com o Bloco — e é para esses, incluindo os que se desencantaram nos últimos anos com o partido, que os bloquistas querem falar.

Em nome do Bloco, peço desculpa ao nosso povo porque a esquerda não conseguiu ainda vencer a direita extrema que estrangula o país. Mas garanto-vos que o Bloco de Esquerda vai à luta com toda a sua energia.

Houve vários momentos em que Pureza dedicou o seu discurso ao mea culpa: o Bloco não fez tudo bem, “longe disso”; cometeu erros e sabe que está numa posição muito difícil. A narrativa central da convenção foi essa, levando críticas e autocríticas ao palco de forma constante. Pureza sabia que não podia fugir a isso, com um partido em mínimos e com uma única deputada; tentou arrumar o assunto logo no princípio do discurso, avançando depois para um tom com mais energia e otimismo (“Isto vai”, prometeu, citando Miguel Portas).

Terão visto que houve quem tentasse reduzir as eleições presidenciais de Janeiro à disputa entre quatro candidatos: um da extrema-direita, dois da direita e até outro que, sendo do Partido Socialista, acha que a esquerda é uma “gaveta” que não lhe assenta bem. Tentaram reduzir as eleições presidenciais a isso, mas não conseguiram. Não conseguiram porque, entre o marasmo que vai da extrema-direita ao extremo-centro, ouviu-se firmemente uma voz de esquerda.

O desejo do Bloco de Esquerda para estas eleições presidenciais era outro: o partido queria, e defendeu publicamente, que houvesse um candidato agregador à esquerda e que esta avançasse toda junta para Belém. Nada feito. António Filipe avançou, António José Seguro também — hesitando em encaixar-se na “gaveta” da esquerda –, e para o Bloco tornou-se importante marcar o seu espaço, tendo Catarina Martins avançado na corrida. Aqui, Pureza fala dos outros candidatos defendendo que, perante este panorama, a antiga líder será uma opção forte para quem se assumir de esquerda e neste “marasmo” não vir alternativas.

A força desta Greve Geral será a de juntar, sem sectarismos, todos os trabalhadores, incluindo quem trabalha por turnos ou quem trabalha nas plataformas, contra um pacote laboral que é a maior agressão aos direitos do trabalho do tempo da democracia em Portugal.

Uma das conclusões mais claras desta convenção é que o próximo desafio que o Bloco vai usar para se tentar reanimar é a greve geral de 11 de dezembro, até porque um dos seus grandes compromissos é tentar unir a esquerda — em parte a partidária, mas sobretudo os movimentos de esquerda e os movimentos sociais. Além de — especialmente relevante — precisar de reforçar seriamente a sua implantação nos sindicatos, que vários bloquistas a partir do palco avisaram continuar a ser deficitária. As questões laborais, sobretudo numa altura em que o pacote do Governo merece tanta contestação à esquerda que une CGTP e UGT, serão um teste para pôr à prova a capacidade de estes setores se unirem. Já durante a convenção Pedro Filipe Soares lembrava as pressões na rua que resultaram, no tempo da troika, em vitórias concretas para argumentar que o Bloco consegue “assustar” quando consegue representar as “maiorias sociais”.

Digo-vos o que penso, sem hesitações ou tibiezas: o Bloco precisa mesmo de mudar o seu funcionamento interno, para juntar à democracia formal de que nos orgulhamos a participação militante que a concretiza.

Outro assunto que ocupou e muito esta convenção foi a (falta de) democracia interna no partido, um problema que é há anos apontado pelas oposições minoritárias dentro de Bloco mas que pela primeira vez foi reconhecida pela corrente maioritária — e agora pelo novo líder. Pureza quis responder às críticas que tanto ocuparam o palco, sobre o centralismo excessivo do Bloco e a falta de atenção aos núcleos e estruturas locais do partido, e fazer uma série de promessas: a direção alargada servirá para tomar decisões reais, e não decisões previamente tomadas por um núcleo dirigente muito mais restrito, como até aqui; e o líder quererá dedicar-se a ouvir “todo o partido, em todo o país”.

Temos de envolver pessoas independentes e até de outros partidos e movimentos, ouvir muito, aprender muito, discutir muito para assim escrevermos um novo programa político para o Bloco de Esquerda. Estamos quase a entrar no segundo quartel do século XXI e esse programa deve enfrentar questões velhas num mundo novo em que o trabalho é precário e em que quem tem mais qualificações é mais desqualificado.

Pureza quer construir um “novo programa” para o Bloco e não é o único: por toda a convenção se foram ouvindo atuais dirigentes a admitir que a campanha das últimas eleições legislativas não funcionou — e mesmo Francisco Louçã apontou que faltou “concretização” para as ideias do partido. Nos corredores do partido comenta-se que lemas como “taxar os ricos” leem mal os tempos que correm, em que a ideias liberais ganham tração, e que é preciso reformular a política e a mensagem — ideias como “congelar as rendas” podem não ser bem recebidas se não forem acompanhadas de outras soluções com o mesmo destaque. O Bloco afunilou tanto a mensagem que não soube ler o país, vai-se admitindo. Agora Pureza quer renovar o programa, com focos como a Habitação e a Saúde à cabeça.

Não viramos a cara a ninguém, vamos disputar os jovens à extrema-direita em cada escola, vamos atrás de todas as mentiras, vamos mostrar como a corrupção está instalada nos interesses que financiam os préfascistas, os pósfascistas e os fascistas completos.

Com o Chega como grande inimigo assumido — e um inimigo partilhado por todos os militantes, que ouviram com entusiasmo o debate aceso entre André Ventura e Catarina Martins — a convenção continuou a assumir que combater André Ventura será um objetivo permanente, mas com Pureza a pedir que o partido não se deixe levar por distrações (até porque uma grande parte do diagnóstico do que falhou tem a ver com o Bloco ter-se tornado mais “reativo” e defensivo, numa conjuntura político mais virada à direita). Como Pureza explica aqui, um dos grandes objetivos será, por num lado, tentar mostrar a quem trabalha e ao “povo” que os inimigos não são minorias como os imigrantes, mas grandes interesses que “financiam” partidos como o Chega; por outro, esse discurso tem de ser levado, por exemplo, às associações de estudantes, numa altura em que o partido de Ventura ou a Iniciativa Liberal conquistam cada vez mais eleitores jovens.