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A fuga e o exílio à direita: os clandestinos do PREC /premium

Como e onde se organizavam as redes da contra-revolução no pós 25 de Abril. O Observador publica um excerto do novo livro de Riccardo Marchi.

“À Direita da Revolução: Resistência e contra-revolução no PREC (1974-1975)” é o título do novo livro do investigador e professor Riccardo Marchi. É sobre o imediato pós-25 de Abril que o autor se debruça, focando atenções sobre as movimentações de civis e militares politicamente e ideologicamente alinhados à direita. Quem foram os protagonistas, o que fizeram e que consequências se delinearam a partir de atos e afirmações.

Neste excerto que o Observador publica (o livro está à venda desde 22 de setembro), Marchi aborda “a fuga, a deserção, o exílio e a clandestinidade” nas diferentes direitas durante o período revolucionário português.

A capa de “À Direita da Revolução”, de Riccardo Marchi (Objectiva)

A fuga, a deserção, o exílio e a clandestinidade tornaram-se referências constantes nas direitas portuguesas logo nos primeiros meses após o 25 de Abril. A este respeito, são sintomáticos os trajectos, na Metrópole e no Ultramar, de três jovens vindos da militância nacionalista dos anos 60 e 70, e que continuarão politicamente activos no pós-25 de Abril. Em Lisboa, no próprio dia do golpe, José Carlos Craveiro Lopes diz que se apresentou, com os seus camaradas legionários da Força Automóvel de Choque (FAC) e da Formação Legionária Académica (FLA), no quartel-general da Legião, na Penha de França, para recuperar armas no paiol fornecido, inclusive, de armas antitanques. Perante a recusa do comandante-geral da Legião, o general Raul Pereira de Castro, em abrir o paiol, o grupo recua para evitar a chegada dos Comandos de Jaime Neves e começa, de imediato, a acção contra-subversiva.

Alguns elementos do grupo tentam recuperar armas em vários locais: numa casa da zona de Almeirim que funcionava como «poço de armas» da rede, numa quinta onde residia o coronel belga Jean Schramme, veterano do golpe do Katanga — já em fuga com todo o seu arsenal —, e no 3.º andar do edifício em frente à sede da PIDE — já inalcançável pela presença na rua de populares e do MFA —, onde a polícia armazenava as armas apreendidas em África (kalashnikov, PPSH-41, RPG, minas). Outros preocupam-se com a protecção dos contactos, tentando, nos dias seguintes, retirar a documentação da sede da Aginter Press, na Rua das Praças, n.º 13-Cv., no bairro da Lapa, tendo os franceses, nomeadamente o líder Guerín Serac, fugido para o estrangeiro. Também esta operação é abortada devido à vigilância do MFA — que entra na sede da organização a 22 de Maio de 1974737 —, alegadamente alertado pelo antigo militante nacionalista José Castelo Branco, detido a 2 de Maio de 1974 na operação contra a FAC.

Em África, os camaradas nacionalistas integrados nas Forças Armadas seguem percursos semelhantes. O capitão miliciano dos Grupos Especiais Pára-Quedistas (GEP), Luís Fernandes, em Moçambique desde 1972, recusa-se a aderir ao MFA no 25 de Abril e enceta, de imediato, contactos com militares das direitas e elementos da DGS para resistir aos eventos, nomeadamente fazendo desaparecer os ficheiros e parte do arquivo da Acção Nacional Popular daquela província ultramarina. Regressado à Metrópole em Setembro de 1974, em licença, começa a conspirar com o grupo de militares reunidos à volta do general Kaúlza de Arriaga, viajando e tecendo as ligações com camaradas de armas na África do Sul, na Rodésia e de novo em Moçambique, onde é preso pelo MFA a 18 de Outubro de 1974. Entregue pelos militares revolucionários à FRELIMO, Luís Fernandes é feito recluso, num campo de reeducação no mato moçambicano, até ao início de 1976. Militar em Angola desde Junho de 1974, Jaime Nogueira Pinto pensa de imediato em montar uma OAS à portuguesa em Luanda, à sombra do governador Silvino Silvério Marques, «para uma reviravolta na metrópole». Com a chegada do novo governador de Angola, o almirante Rosa Coutinho, em finais de Julho de 1974, Nogueira Pinto cria, com Nuno Cardoso da Silva e o major Mariz Fernandes, a Frente de Resistência de Angola (FRA).

Apesar do progressivo alargamento das redes clandestinas, de Abril de 1974 até ao final de 1975 o número de operacionais clandestinos é muito inferior ao dos encarcerados em Portugal e refugiados no estrangeiro. As estimativas vindas das direitas apontam para 2 mil a 4 mil presos políticos e para 20 mil a 30 mil expatriados.

Após o 28 de Setembro, com ordem de captura do COPCON em Lisboa, resolve desertar das Forças Armadas, passando para a África do Sul, Brasil e, por fim, Espanha, sempre integrando as redes clandestinas da resistência anticomunista. Estes três percursos de clandestinidade são comuns a dezenas de indivíduos vindos da militância na direita radical do antigo regime, mas também a civis e militares sem envolvimento político no Estado Novo, radicalizados em reacção à escalada revolucionária dos comunistas e da extrema-esquerda do MFA

Muitas das primeiras tentativas de organizar redes clandestinas embatem na facilidade com que o MFA detectava os operacionais, através de informadores internos do meio militar ou nacionalista. Por exemplo, José Carlos Craveiro Lopes recorda ter encontrado, na sede da ANP da Juventude, no bairro do Arco do Cego, ocupada após o 25 de Abril pelos jovens do MFP/PP, uma antiga namorada do legionário José Castelo Branco, já marginalizada pelo grupo do MAP pelas suas ligações ao capitão-tenente Carlos de Almada Contreiras. Naquela ocasião, a jovem alertou o militante do MAP para as informações passadas pelo antigo namorado ao MFA sobre as armas da rede, denunciando, assim, a sua função de agente provocadora no meio nacionalista. Noutro exemplo, a detenção do capitão Luís Fernandes, em Lourenço Marques, deve-se à cilada ao MFA por parte de algum dos participantes — nunca identificados — nas várias reuniões que o capitão miliciano teve naqueles dias com antigos camaradas políticos e de armas para organizar a resistência em Moçambique.

A capacidade organizativa e operativa das redes clandestinas vai-se aperfeiçoando ao longo dos meses graças à radicalização do processo de transição e ao aumento da repressão, mas, também, à fragmentação do MFA entre os otelistas do COPCON, os gonçalvistas do PCP, os meloantunistas e o Grupo dos Nove. A contra-revolução alcança, assim, o seu ápice organizativo e operativo no período, relativamente curto, entre Julho e Dezembro de 1975. Segundo o chefe da 5.ª Divisão, João Varela Gomes, no Verão de 1975 o avanço da contra-revolução armada procede da Região Militar Centro, devido à permissividade do seu comandante, Franco Charais, para a Região Militar Norte, onde a oposição do comandante Eurico Corvacho só é vencida em Agosto de 1975. De facto, nesta fase as relações de força mudam progressivamente em favor das direitas, com a substituição de Vasco Gonçalves por Pinheiro de Azevedo na chefia do governo, em Setembro de 1975, e com o contragolpe de 25 de Novembro de 1975, pondo as condições para o fim da resistência armada.

Pinheiro de Azevedo, que substituiu Vasco Gonçalves na chefia do governo, em Setembro de 1975

Apesar do progressivo alargamento das redes clandestinas, de Abril de 1974 até ao final de 1975 o número de operacionais clandestinos é muito inferior ao dos encarcerados em Portugal e refugiados no estrangeiro. As estimativas vindas das direitas apontam para 2 mil a 4 mil presos políticos e para 20 mil a 30 mil expatriados. Segundo dados fornecidos à imprensa pelo porta-voz da JSN, o major Sanches Osório, em Maio de 1974 encontram-se já detidos 1200 indivíduos, sendo 900 da PIDE e 300 da Legião Portuguesa. A Comissão de Averiguação de Violências contabiliza, pelo menos, mil presos, sublinhando que tal número corresponde a «sete vezes mais do que no fim do Estado Novo». Estes números tornam-se uma constante nas publicações das direitas, que contrapõem os cerca de 80 detidos que saíram de Caxias no dia 27 de Abril com os quase 2 mil que encheram as prisões nos meses seguintes.

Embora seja certo que largas centenas de indivíduos foram detidos em diferentes picos de repressão, dificilmente podem ter chegado aos dois milhares, pela própria consistência das fileiras tanto das estruturas paramilitares do regime como das direitas militantes. Acerca dos refugiados, o antigo director do Tempo Novo, José Hipólito Vaz Raposo, detido a 28 de Setembro de 1974 e refugiado em Madrid em 1975, escreve dois textos para a nova série do jornal, prevista para 26 de Março de 1976, mas que nunca chegará a sair. O texto, «Portugueses exilados em Espanha», retrata a situação dos refugiados desde o 25 de Abril de 1974 até ao final do PREC. O texto «Informação completa acerca do MDLP, ELP e outros agrupamentos» descreve as redes clandestinas do ELP e do MDLP. Trata-se de dois testemunhos valiosos sobre o assunto, escritos por um observador directamente envolvido nos eventos narrados.

O investigador e professor universitário, Riccardo Marchi, também autor de “A Nova Direita Anti-sistema: o Caso do Chega”

No que diz respeito aos refugiados, Hipólito Raposo recorda como o número de portugueses em Espanha rondava, em Agosto de 1975, as 20 mil unidades, das quais cerca de 18 mil em Madrid. Francisco van Uden avança a cifra — exagerada em comparação a outras fontes — de 80 mil refugiados políticos, até um máximo de 100 mil, ou mais, de acordo com alguma historiografia. Em qualquer dos casos, já em 1976 o número tinha diminuído sensivelmente. Antes do 25 de Abril, a comunidade portuguesa em Espanha era composta apenas por algumas centenas de pessoas, com posições socioeconómicas elevadas. As comunidades presentes nas Astúrias, Galiza e Huelva eram compostas também por antigos mineiros, pescadores, técnicos e operários da indústria conserveira, trazidos pelos empresários portugueses destas áreas.

No que diz respeito aos refugiados do pós-25 de Abril, três são as grandes vagas de saídas: a primeira logo a seguir ao golpe militar, a segunda causada pela repressão de 28 de Setembro e a terceira pela de 11 de Março. Estas três vagas são intercaladas por fluxos devidos a picos pontuais de repressão. A esmagadora maioria dos protagonistas destas três vagas não emigrou de Portugal devido às ligações e responsabilidades no antigo regime, mas sim na sequência da radicalização do processo revolucionário pós-golpista. A primeira vaga é constituída por um pequeno número de altos funcionários do antigo regime, elementos da PIDE/DGS, inclusive de Angola e Moçambique, e por legionários e elementos das Forças Armadas demitidos ou que abandonaram o cargo em desacordo com a nova situação.

Embora seja plausível uma certa colaboração entre clandestinos das direitas e elementos externos ao meio nacionalista, a questão permanece controversa, inclusive na direita radical. O então primeiro-tenente Nuno Barbieri, por exemplo, nega o envolvimento de pessoas ligadas ao PS, PPD e CDS na ajuda aos militantes nacionalistas em fuga.

Estas fugas são frequentemente de cariz individual, embora existissem, na extrema-direita, já antes do golpe, planos traçados para uma eventual passagem à clandestinidade. O operacional do ELP José Campos — nome da clandestinidade aqui utilizado para proteger o anonimato pedido — recorda que, em Junho e Julho de 1974, o MAP tinha identificado uma série de vias de fugas, casas de apoios e passadores, graças à colaboração de Germano Pedro (irmão do Edmundo Pedro), conhecedor do meio dos contrabandistas. A colaboração vinha da antiga amizade de Germano com o militante nacionalista, João Paulo Abreu Lima, artista gráfico da revista Panorama e do Secretariado Nacional de Informação (SNI). Contudo, os militantes fugidos às detenções do 28 de Setembro — inclusive os do MAP, como Rodrigo Emílio, José Carlos Craveiro Lopes e José Miguel Granadeiro — não utilizam esta rede. Embora seja plausível uma certa colaboração entre clandestinos das direitas e elementos externos ao meio nacionalista, a questão permanece controversa, inclusive na direita radical. O então primeiro-tenente Nuno Barbieri, por exemplo, nega o envolvimento de pessoas ligadas ao PS, PPD e CDS na ajuda aos militantes nacionalistas em fuga.

A segunda vaga é muito mais consistente e composta, em muitos casos, por pessoas sem ligações ao antigo regime. Alguma historiografia inclui, nesta vaga, uma série de agentes da PIDE/ /DGS alegadamente avisados por Spínola, impossibilitado de lhes garantir protecção após a derrota de 28 de Setembro. Estas fileiras engrossam com os militares e civis abarcados pela repressão, quer tenham estado envolvidos no 11 de Março ou fossem alheios à intentona spinolista. A estes junta-se, ao longo dos meses, um número crescente de técnicos especializados, desempregados pelas falências ou saneamentos das fábricas, e de refugiados do Ultramar, espoliados dos patrimónios e também em situação de desemprego.

Uma vez chegados a Madrid, os refugiados procuram residência dependendo dos seus recursos. Os menos abastados procuram alojamento no Convento Residência de Santa Zita, no bairro de Campamento. Os mais abastados, após uma estadia nos hotéis e pensões à volta da Gran Via, acabam para arrendar casas nos bairros novos junto da Plaza de Castilla. Nesta zona, torna-se célebre o arranha-céus Torre Renta, na Calle Capitán Haya, n.º 41, habitado por muitos portugueses. Fora de Madrid, os refugiados alentejanos e algarvios preferem as localidades mais próximas de casa, como Huelva, Sevilha, Badajoz e Cáceres. Os do Norte de Portugal preferem a Galiza, em particular Vigo. Aqui, os refugiados chegam a adquirir alguns apartamentos. A selecção das localidades também depende da presença de familiares ou amigos espanhóis que proporcionem abrigo. A sobrevivência da generalidade dos refugiados é bastante complicada do ponto de vista económico, sendo o custo de vida em Espanha mais elevado do que em Portugal. Os portugueses com cursos superiores técnicos têm uma certa dificuldade em arranjar emprego, uma vez que a política espanhola pautava-se por um forte proteccionismo em favor dos quadros nacionais, apesar de a industrialização do país ser bem mais acentuada que a portuguesa. Por esta razão, muitos refugiados em Espanha rapidamente transferem-se para o Brasil, mais aberto à empregabilidade dos portugueses.

A este respeito, Miguel Freitas da Costa recorda as dificuldades do seu pai, Eduardo, em encontrar um emprego, apesar da amizade pessoal com o director-adjunto da Rádio Nacional de España, José Luís Echarri. Em carta aos colaboradores do Tempo Novo, que reclamavam salários atrasados, José Hipólito Vaz Raposo explica ter saído de Portugal em meados de Abril de 1975 por ter a casa vigiada desde o 11 de Março e não ter podido regressar, como desejava, devido ao perigo de detenção imediata. Assim, em Madrid conseguiu somente um trabalho numa empresa de publicidade, cujo ordenado lhe permitia uma mera sobrevivência. Além disso, as suas contas bancárias haviam sido congeladas pelas autoridades revolucionárias. Jaime Zúquete da Fonseca, pelo contrário, sublinha a relativa facilidade com que foi contratado, no Brasil, como piloto civil, graças aos contactos com Carlos Lacerda.

Em 1975, o então príncipe Juan Carlos de Borbón terá garantido que não seriam levantados problemas legais aos portugueses recém-chegados a Espanha

AFP via Getty Images

Dos portugueses que permanecem em Espanha, apenas algumas dezenas conseguem, à data de 1976, integrar as hierarquias das empresas e fazer alguma carreira. Os sectores que mais empregam portugueses são, em Madrid, a grande distribuição alimentar, o turismo, a construção civil, as oficinas de precisão e a importação-exportação, em Sevilha o petroquímico e comercial, em Badajoz o agro-industrial. Embora haja casos de empreendimentos montados por portugueses em Badajoz e na Galiza, na maioria das situações os refugiados têm de aceitar trabalhos inferiores à sua formação, como empregados domésticos, tradutores, serventes de fábricas e de restaurantes. Ao lado desta massa, existem os refugiados da alta burguesia, que não precisam de trabalhar e que vivem à custa das transferências para Espanha de grandes montantes de capitais, ou graças às suas contas em bancos espanhóis, já existentes antes da revolução.

A condição de refugiado afecta a composição dos núcleos familiares: há casos de mães com filhos, cujos maridos ficaram em Portugal para trabalhar, querendo, contudo, poupar a família ao clima revolucionário — em particular a agitação nas escolas —, e há maridos a trabalhar em Espanha temendo os mandados de captura, enquanto as famílias continuam em Portugal. José Hipólito Raposo refere também a presença de alguns simpatizantes comunistas que começaram a chegar a Espanha no período quente dos assaltos às sedes do PC. Em definitivo, apesar dos números consistentes, a emigração política portuguesa em Espanha é um fenómeno de elite, constituído principalmente por elementos da burguesia média, média-alta e alta: «industriais, lavradores, banqueiros, profissionais liberais, oficiais de alta patente, professores universitários».

No que diz respeito às ajudas, os refugiados da primeira vaga prestam assistência aos que pertencem às suas redes de contactos. Os militantes políticos, por exemplo, podem contar com as ligações de elementos destacados do Estado Novo, já em Madrid, com os meios franquistas e dos serviços secretos da Marinha espanhola. É o caso de Manuel Cotta Dias, Américo Cortez Pinto, Pedro Soares Martínez e os inspectores da PIDE/DGS, José Manuel da Cunha Passo e Agostinho Barbieri Cardoso. Entre os franquistas mais activos na ajuda aos portugueses encontram-se o banqueiro José María Aguirre Gonzalo, Nicolás Franco, Pilar Primo de Rivera, Alfonso Osório, Juan Calvo de Mora e Ramon García de Blanes, estes dois últimos esposos das portuguesas Maria Inácia Brito e Cunha e Maria do Carmo Burnay de Vilhena, respectivamente.

A benevolência das autoridades espanholas enquadra-se, contudo, numa posição oficial absolutamente legalista: em Maio de 1975, o ministro dos Assuntos Exteriores reitera a liberdade dos refugiados portugueses para permanecerem em Espanha, desde que se sujeitem às leis daquele país e não interfiram com a sua «rigorosa neutralidade política».

É difícil confirmar o real envolvimento destas pessoas no apoio aos portugueses, uma vez que, por exemplo, em 1975, Nicolás Franco tinha mais de oitenta anos e Pilar Primo de Rivera quase setenta. Noutro plano, Francisco van Uden recorda ter chegado a Madrid no início de Outubro de 1974 e ter sido posto em contacto, pelo seu primo, o príncipe Juan Carlos de Borbón, com elementos da Dirección General de Seguridad (DGS) e da Guarda Civil para organizar, junto da fronteira, o acolhimento das centenas de portugueses que estavam a entrar em Espanha. O esquema de Van Uden passa por acolher os portugueses em Vigo, Vilar Formoso, Caia e Badajoz e distribuí-los por outras localidades do interior, tentando evitar a entrada de comunistas, cuja infiltração entre os refugiados preocupava as autoridades espanholas. Também José Hipólito Raposo sublinha o papel de Juan Carlos de Borbón. O príncipe terá garantido que não seriam levantados problemas legais aos portugueses recém-chegados. De facto, no caso dos portugueses, as autoridades espanholas não fazem cumprir os prazos legais de permanência em território nacional, nem as proibições de arranjar trabalho aos proprietários de carros com matrícula estrangeira, nem cobram as multas previstas para a utilização, por um período superior aos dois meses, de carros com matrícula estrangeira.

A benevolência das autoridades espanholas enquadra-se, contudo, numa posição oficial absolutamente legalista: em Maio de 1975, o ministro dos Assuntos Exteriores reitera a liberdade dos refugiados portugueses para permanecerem em Espanha, desde que se sujeitem às leis daquele país e não interfiram com a sua «rigorosa neutralidade política».

Sempre na área da assistência, os refugiados mais abastados, com o patrocínio de espanhóis ligados a Portugal, criam a Fundação Nossa Senhora de Fátima, com sede nas Torres de Madrid, na Plaza de España (no escritório n.º 3, piso 10, propriedade de um austríaco com ligações a Portugal), e delegações em Sevilha (responsável Magalí Toro y Delgado), Vigo, Badajoz e Cáceres. A fundação de direito espanhol, subsidiada por fundos espanhóis mas gerida por portugueses (dois elementos a tempo inteiro e três a tempo parcial), é fundada por D. Beatriz Tornos Zubiría, D. Magdalena Toro Delgado, D. Rafael de Medina y Villalonga, Rafael de Atienza y Medina (marquês de Salvatierra) e D. Jesus Alonso de Noriega. A infanta Dona Pilar de Borbón assume a presidência honorária, sendo director o decorador Duarte Pinto Coelho, residente em Madrid havia largos anos, e que se tornaria um dos maiores apoiantes dos refugiados portugueses.

Elementos da PIDE/DGS integraram as diferentes vagas de refugiados do pós-25 de Abril

Joshua Benoliel/ Arquivo Municipal de Lisboa

No acto de fundação, a solidariedade para com os portugueses é considerada uma obrigação perante a memória da ajuda portuguesa aos refugiados espanhóis durante a Guerra Civil de Espanha. Dedicada principalmente à assistência, a Fundação intervém também em assuntos políticos sensíveis: aquando do assalto à Embaixada de Espanha em Lisboa, a 27 de Setembro de 1975, a instituição emite um comunicado de solidariedade para com Madrid, publicado em todos os órgãos da imprensa espanhola. Segundo Hipólito Raposo, o embrião da fundação começa já em Abril de 1974 e, em Outubro de 1975, conta com uma disponibilidade financeira de um milhão e 500 mil pesetas. O dinheiro, depositado numa conta corrente do Banco Ocidental, vem de donativos e cotizações mensais de vários empreendimentos comerciais de portugueses. Na generalidade, contudo, os que foram assistidos não contribuíram com qualquer ajuda, e a maioria dos mais abastados nunca apoiou financeiramente a instituição. Assim, o relatório de Abril-Julho de 1975 da Fundação reconhece a exiguidade da ajuda prestada, atribuindo-a à escassez das contribuições recebidas:

A modéstia dos números é significativa: reflecte
a generosidade de poucos e a indiferença de muitos. Algo
ficou por fazer, muito se poderá fazer ainda. Não faltarão
críticas pelo pouco alcance destas actividades. A Fundação

não entesourou nem tem saldos. O que tem gasta,
como pode e como julga melhor.

Em particular, naquela data, a Fundação tinha sido procurada por 590 portugueses, que receberam alojamento, roupa e comida, perfazendo um total de 800 mil pesetas. Muitos portugueses chegaram a Espanha apenas com a roupa que tinham no corpo, como no caso dos agentes da PIDE/DGS fugidos de Alcoentre a 29 de Junho de 1975. A Fundação encontra alojamento para cerca de 60 famílias e 80 indivíduos, cria uma escola infantil e primária para 37 crianças e, através da Cruz Vermelha Espanhola, garante assistência médica gratuita a 320 portugueses. Na verdade, estes números são escritos à mão no relatório, sendo que o original faz referência a números mais modestos: 210 apresentados, 104 assistidos medicamente, 28 famílias ajudadas economicamente, 24 indivíduos colocados. No que diz respeito aos gastos, 333 mil pesetas são utilizadas para ajuda económica directa, 41 846,50 pesetas para a abertura das delegações de Sevilha, Cáceres, Vigo e Badajoz, 28 829,40 pesetas para despesas de expediente, 626,30 pesetas para medicamentos, 152 626 pesetas para a escola, 400 mil pesetas para encargos da fundação.

A frustração pela exiguidade da ajuda prestada é perceptível à luz das considerações de José Hipólito Raposo, segundo o qual «a maior parte dos refugiados provinham de camadas de portugueses de relativo desafogo económico em Portugal». Ao lado destes, coexistiam outras duas categorias de refugiados: por um lado, «um considerável número de inadaptados que nada tinham a ver com a política», e, por outro lado, «os «conspiradores» que procuravam as casas escuras e os becos estreitos, fugiam a todo o convívio e usavam um código nas conversas, certamente por causa das “denúncias”». Neste último grupo restrito actuam alguns dos animadores dos partidos e movimentos de direita do pós-25 de Abril. O aumento considerável das suas fileiras, com a chegada a Espanha dos militares e civis do 11 de Março, alimenta os boatos acerca da iminente invasão de Portugal por um exército de contra-revolucionários, reforçado também por anticomunistas estrangeiros, como os cem cubanos anticastristas à disposição do ELP. Embora esta hipótese circulasse nalguns sectores dos refugiados politicamente activos, a generalidade das direitas em Espanha sempre considerou a acusação fantasmagórica. A este respeito, José Hipólito Raposo desmente qualquer possibilidade de incursões armadas em massa a partir de Madrid, pela simples razão de não haver um número suficiente de portugueses para tal. Dos 20 mil refugiados no pico do fenómeno, apenas 2 mil têm as características necessárias para serem mobilizados numa acção bélica e, mesmo assim, tratava-se de «homens de discutível aptidão e motivação operacional».

Sectores da direita militar e civil espanhola, do Movimiento franquista, colaboram do ponto de vista operacional com os activistas clandestinos portugueses, mas a atitude do governo espanhol enquadra-se mais nas políticas de acolhimento de refugiados entre países ocidentais, ou seja, garante o abrigo a indivíduos, mas não a grupos organizados.

Acerca da quantificação dos operacionais mobilizáveis, o quadro do MFP/PP, posteriormente do MDLP na clandestinidade, José Luís Andrade, liquida como pura imaginação qualquer referência a «milhares de militantes», como é o caso dos números avançados pelo capitão Hugo Maia, pseudónimo de um operacional da rede clandestina spinolista, segundo o qual a rede do antigo Presidente da República contava com 85 mil membros, dos quais 30 mil prontos para acções armadas. Em segundo lugar, o governo espanhol, embora não simpatize com as autoridades revolucionárias de Lisboa, opõe-se terminantemente a qualquer hipótese de invasão de Portugal a partir do seu território. Sectores da direita militar e civil espanhola, do Movimiento franquista, colaboram do ponto de vista operacional com os activistas clandestinos portugueses, mas a atitude do governo espanhol enquadra-se mais nas políticas de acolhimento de refugiados entre países ocidentais, ou seja, garante o abrigo a indivíduos, mas não a grupos organizados. O asilo político garantido permite uma certa actividade conspirativa dos refugiados, por omissão das autoridades nacionais, mas sempre nos limites que evitem o incidente diplomático.

A ideia de um exército de refugiados pronto a invadir Portugal tem origem, portanto, na imprensa sensacionalista portuguesa e estrangeira, com a manipulação de provas empíricas como as fotografias de fincas espanholas destinadas ao treino militar, de camiões alegadamente prontos para o transporte de tropas ou de reuniões preparatórias da invasão. José Hipólito Raposo admite a presença, em Espanha, durante o PREC, de muita gente interessada em organizar-se e actuar contra a situação portuguesa, por razões ideológicas ou por reacção aos saneamentos prisões e exílios sofridos. Os residentes estáveis em Madrid, contudo, representam os vértices da pirâmide organizativa, tendo as bases permanecido maioritariamente em Portugal, onde actuam.

Assim, os projectos de grupos de choque preparados em caso de levantamento popular, e de utilização dos Açores e da Madeira para concentrar tropas aerotransportadas com apoio dos norte-americanos e dos movimentos independentistas locais — estas são, pelo menos, as informações dos serviços secretos militares portugueses da DINFO e das propostas do general Spínola aos aliados ocidentais, nomeadamente brasileiros e norte-americanos —, nunca saíram da fase teórica por manifesta inexistência de meios. Esta perspectiva é confirmada por outras duas testemunhas directas do meio clandestino spinolista: o capitão Hugo Maia confirma a localização, em Portugal, de quase toda a base da organização spinolista, e a inexistência de campos de treino no estrangeiro. José Luís Andrade refere a existência de um lugar de treino da rede spinolista na serra perto de Burgos, em Espanha. Com o nome de código «Ninho da Águia», esta base era frequentada apenas por uma dúzia de pessoas entre os dezassete e os setenta anos, dirigidas pelo antigo legionário septuagenário António de Sevres. Independentemente da inviabilidade dos exércitos contra-revolucionários, existiram, de facto, redes clandestinas organizadas, nomeadamente o Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), o Exército de Libertação de Portugal (ELP) e o Plano Maria da Fonte. As duas primeiras com sede em Espanha e a terceira em Portugal, estas redes integram a ampla frente de resistência anticomunista activa em Portugal principalmente no ano de 1975.

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