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Em maio de 2025, Montenegro conseguiu a proeza de juntar antigos líderes do PSD à mesma mesa. Mendes não está a conseguir o mesmo no partido
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▲Em maio de 2025, Montenegro conseguiu a proeza de juntar antigos líderes do PSD à mesma mesa. Mendes não está a conseguir o mesmo no partido

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

▲Em maio de 2025, Montenegro conseguiu a proeza de juntar antigos líderes do PSD à mesma mesa. Mendes não está a conseguir o mesmo no partido

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A "gaiola das malucas" voltou e fez uma nova vítima: Marques Mendes

A "máquina de triturar líderes", ou, como um dia lhe chamou Morais Sarmento, a "gaiola das malucas", está bem viva nesta eleição. Rivalidades antigas, resistências a Mendes e fator Passos partem PSD.

Cavaco, Durão, Menezes e Ferreira Leite estão com Luís Marques Mendes. Balsemão também o apoiou antes de morrer. Rio está com Henrique Gouveia e Melo. Santana elogia Cotrim, elogia Seguro e até elogia Ventura — só não elogia Marques Mendes. Passos está mergulhado num absoluto silêncio, mas na boca de toda a gente. O PSD voltou a ser um partido de poder, mas nem por isso perdeu os vícios da velha máquina de triturar líderes que sempre foi. No momento em que poderia garantir o pleno nas instituições do país, os sociais-democratas surgem nesta eleição presidencial tão divididos como sempre.

Com todos os sucessos que têm atingido (Governo, autarquias, regiões autónomas) seria de esperar que a reconquista da Presidência da República fosse o suficiente para mobilizar os sociais-democratas. Mas não. O PSD é, por estes dias, uma família estranhamente desavinda. Para lá dos antigos líderes, os barões e baronetes escolhem lados diferentes. Moedas, tal como a improvável dupla Relvas – Pacheco Pereira, apareceu ao lado de Mendes. Os ministros de Montenegro, Salvador Malheiro, o king maker de Rio, e o amuleto Sebastião Bugalho também andam pela caravana laranja.

Em contrapartida, Isaltino, Carreiras, Cadilhe, Justino e Jardim estão com Gouveia e Melo. Júdice está desde o primeiro minuto com João Cotrim Figueiredo. Vasco Rato, uma figura do passismo, está com Seguro. Miguel Morgado, antigo assessor político de Passos, influente figura no universo social-democrata, não se compromete — mas são indisfarçáveis as reservas em relação a Mendes. E a lista de dissidentes poderia continuar.

Uma divisão que se prolonga pelas estruturas intermédias do partido. Montenegro bem tentou mobilizar a máquina que lhe permitiu vencer três eleições nacionais em quatro possíveis. Mas pareceu tiro de pólvora seca. Hugo Soares, o homem que tem a chave do aparelho social-democrata e do acesso ao primeiro-ministro, apareceu como bombeiro de serviço, dramatizou e ameaçou os dissidentes — segundo o Expresso, convocou deputados e autarcas e pediu-lhes empenho na eleição de Mendes. Se sentiu necessidade de o fazer nesta altura do campeonato, é sinal de que, ao contrário do que aconteceu noutras eleições, o montenegrismo não está devidamente blindado.

Haverá várias razões para isso. Mas há uma difícil de ignorar: ao contrário do que acontece noutras eleições, em que não estar com o líder significa imediato e futuro ostracismo político, um candidato à Presidência da República tem pouco ou nada para oferecer além de um abraço de amizade. Hugo Soares e os demais homens de Montenegro podem pressionar os deputados, os autarcas e os caciques locais, mas o voto é bem mais livre do que noutras eleições. Por outras palavras: o chicote partidário está mais lasso e os incentivos à deserção são muito maiores.

Para lá da natureza própria da candidatura presidencial, que incentiva um voto mais livre, para lá das rivalidades mais e menos antigas que existem e que ditam apoios e cumplicidades, há outro fator que pode ajudar a explicar o porquê de a família social-democrata estar tão dividida: o próprio Luís Marques Mendes

Santana e Rio desgastam Mendes

Depois, existem rivalidades que nunca se esquecem, sobretudo num partido a que um dia Nuno Morais Sarmento chamou de “gaiola das malucas”. A rivalidade mais evidente é a que existe entre Rui Rio e Luís Marques Mendes. O primeiro nunca gostou do segundo e o segundo nunca escondeu o desprezo pelo primeiro. A coisa piorou muito quando Mendes fustigava Rio na SIC e alimentava conspirações na sombra.

A obsessão foi ao ponto de Rio ter arranjado forma de Castro Almeida, hoje ministro de Montenegro e um amigo de sempre de Mendes, ter saído da sua direção por não aguentar mais — o líder social-democrata achava que Castro Almeida era uma toupeira que passava tudo ao então comentador Luís Marques Mendes.

Nesta campanha presidencial, é ver quem está ajudar Gouveia e Melo no terreno para perceber o que está em causa: João Montenegro, homem com muita experiência operacional, com muitos contactos no PSD profundo e uma peça fundamental nas vitórias internas de Rui Rio (inclusive contra Luís Montenegro), é o todo o terreno do almirante. Também José Silvano, o verdadeiro braço direito de Rio no PSD, já foi visto na campanha do militar.

Em muitos aspetos, o duelo particular que Mendes e Gouveia e Melo estão a travar não deixa de ser uma reedição do confronto a dois tempos entre Montenegro e Rui Rio. Até os argumentos utilizados trazem ecos de um passado recente no PSD — a política, os negócios, as insinuações, as suspeitas, o banho de ética. O score, esse, é clarinho: Rui Rio 2 — Luís Montenegro 0.

Mas a rejeição de Mendes no PSD é ainda mais antiga. A forma como afastou autarcas quando era líder deixou feridas que nunca foram verdadeiramente saradas — Isaltino Morais é o exemplo mais evidente disso mesmo, mas há muitos mais. Noutro aspeto, a rivalidade com Pedro Santana Lopes, por exemplo, é pública e conhecida há anos. Nem de propósito, o presidente da Câmara da Figueira da Foz não resistiu em fazer uma maldade a Mendes já nesta corrida, sugerindo que a Presidência ficaria muito bem entregue a Seguro.

Tal como José Manuel Durão Barroso, estes dois são criaturas do cavaquismo e enfrentaram-se uma vez pela liderança do partido. Começaram juntos, a subir a escadinha da política ao mais alto nível e foram-se medindo ao longo dos anos. Eram os “três rapazes do 6.º andar da presidência do Conselho de Ministros” e, como escreveu um dia o Independente, “odiavam-se“.

“[Marques Mendes] percebeu que não tinha muito a ver com Santana e Durão. Estes faziam capelinha e não escondiam a cumplicidade de muitos anos. ‘Elitistas, sulistas e liberais’, olhavam Mendes com ironia, troçavam dos fatos às riscas e da pose do jovem nortenho”, escrevia o mesmo jornal. Quando foram os três a votos, na sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa, Durão venceu, Santana perdeu e Mendes, a terceira via, consolidou-se como nome a ter em conta no futuro.

E o futuro bateu à porta mais cedo do que o previsto. Barroso foi para a Europa, Santana ficou no seu lugar e Mendes, que tinha ido para o governo de Barroso, bateu com a porta e afirmou-se como um crítico assumido de Santana. O resto da história é conhecido: Santana estatelou-se, Sócrates venceu as legislativas, Mendes chegou à liderança do PSD e por lá ficou, sempre contestado, até ser derrubado por Menezes. Santana ficou a lamber as feridas e teve depois várias vidas políticas. Apesar de tudo, há um traço da personalidade do autarca que é bem conhecido: pode até perdoar, mas não esquece.

Depois, e para lá da natureza própria da candidatura presidencial, que incentiva um voto mais livre, para lá das rivalidades mais e menos antigas que existem e que ditam apoios e cumplicidades, existe outro fator, porventura o mais importante, que pode ajudar a explicar o porquê de a família social-democrata estar tão dividida nestas presidenciais: o próprio Luís Marques Mendes.

Mesmo com todos os apelos à união, haverá dirigentes, simpatizantes e militantes do PSD que simplesmente não compram o antigo líder. Não gostam da imagem, não gostam do que ele era como comentador, não gostam do seu passado profissional. Num outro plano, acharão que é uma cópia menos feliz do atual inquilino de Belém, que já foi bem mais apreciado naquele que ainda é o seu partido. Para muitos, Mendes é “o Marcelo dos pobres“, como lhe chamou um dia José Miguel Júdice.

Os sinais deste desencanto estiveram sempre lá. No dia em que Luís Montenegro tentou fazer de Luís Marques Mendes a estrela do congresso social-democrata, a reação fria da sala foi notícia em todos os órgãos de comunicação social. Pelo contrário, Pedro Santana Lopes, que entrou mais ou menos ao mesmo tempo no pavilhão, foi recebido de forma efusiva — ele que deixou o PSD para fundar um outro partido. Noutra ocasião, mais concretamente no 51.º aniversário do partido, que coincidiu com um dos dias da última campanha de Montenegro, Mendes foi um dos antigos líderes menos aplaudidos num jantar-comício que reuniu mais de 1.800 pessoas na antiga FIL

Antes de entrar na corrida, até alguns dos mais próximos de Mendes torciam o nariz à ideia da candidatura. Mas Mendes estava decidido. Nas semanas e meses que se seguiram, a máquina laranja foi conseguindo maquilhar essa resistência, em grande medida graças ao empenho de Montenegro, aos bons desempenhos de Mendes nos debates e às sondagens positivas que existiam. Até que se dá o debate com Gouveia e Melo e toda a chuva de críticas e de acusações que se seguiu. O trambolhão nas sondagens fez o resto e as perceções mais negativas que porventura existiam vieram ao de cima. Como um espelho a partir.

Em silêncio desde outubro, mas não seguramente indiferente ao que dizem sobre ele, Passos tornou-se uma das personagens principais nesta campanha — e o grande vilão da corrida do candidato social-democrata . No PSD, é já indisfarçável o agastamento com o antigo primeiro-ministro

Passos envia os seus cumprimentos

Existe, por fim, o fator P de Pedro Passos Coelho, cujo silêncio se tornou um dos grandes temas da campanha. Os dois conhecem-se há muitos anos e já foram muito próximos. Aliás, na tal eleição interna que juntou Durão, Santana e Mendes, Passos atravessou-se pelo último mesmo sabendo que era uma candidatura alternativa, sem hipóteses reais de vencer.

Já na qualidade de antigo líder da JSD e respeitado quadro do partido, Passos não pouparia elogios a Mendes, um “homem combativo” que trazia “muita esperança” – seria mesmo o candidato de Mendes ao cargo de secretário-geral do PSD se este vencesse aquela eleição. Curiosamente, Miguel Relvas, o braço direito de sempre de Passos e que hoje apoia Mendes, esteve com Barroso.

Quando Luís Marques Mendes chegou finalmente à liderança do PSD, em 2005, foi buscar Pedro Passos Coelho para a sua direção. Durou pouco tempo. Em janeiro de 2006, Passos, tido com um dos mais indefectíveis do mendismo, saiu com estrondo, acusando a liderança de, entre outras coisas, estar a falhar na oposição a José Sócrates — antes de o fazer, chegou a admitir publicamente que não falava com Mendes há um par de meses e que só não saíra mais cedo para não contaminar as campanhas eleitorais então em curso.

Os anos passaram e os dois conheceram sortes diferentes. Mendes saiu da política ativa e tornou-se uma das figuras mais influentes do comentário; Passos chegou à presidência do PSD, tornou-se primeiro-ministro, liderou o país durante a intervenção da troika, teve nova vitória em 2015, mas caiu graças à ‘geringonça’ de Costa, despedindo-se do partido em 2017, depois de umas eleições autárquicas catastróficas.

Nesses anos difíceis, Mendes nunca deixou de criticar algumas decisões do então primeiro-ministro — como Cotrim já fez questão de lembrar nesta campanha presidencial com a história do “catavento“. Depois das tais autárquicas que deixaram o partido em choque, Mendes, na SIC, espetou o punhal: “Há neste momento um problema de liderança. Se Passos não sair, a vida dele vai ser um inferno e vai ter muitas dificuldades numas diretas”. Passos saiu pelo próprio pé, mas, tal como Santana, pode perdoar, só que não esquece.

Na recente entrevista que deu ao Observador, Luís Marques Mendes disse ter a certeza que Pedro Passos Coelho não apoiaria outro candidato nesta corrida eleitoral. Cotrim, como se tem visto, discorda e não tem parado de falar sobre o antigo primeiro-ministro. Ventura colou-se a Passos logo no arranque da sua candidatura, dizendo que só avançava porque o social-democrata decidiu ficar em casa.

Recusando todas as solicitações para falar ou emitir opinião, continua a valer a declaração que Passos fez ao Expresso, ainda em outubro de 2025: “Sinceramente, não vejo razão alguma para me amarrar à obrigação de um dia me vir a pronunciar sobre apoio a um candidato presidencial, nem para jurar nunca o vir a fazer”.

Uma frase quase fatal para Mendes. Em silêncio desde então, mas não seguramente indiferente ao que dizem sobre ele, Passos tornou-se uma das personagens principais nesta campanha — e o grande vilão da corrida do candidato social-democrata. Tanto que, no PSD, é já indisfarçável o agastamento com o antigo primeiro-ministro.

Agastamento que não é de agora, nem está apenas relacionado com Marques Mendes. Há muito que Passos se distanciou de Montenegro e das suas escolhas. O mesmo se pode dizer do atual chefe de Governo, que escolheu Aníbal Cavaco Silva — e não Passos — como o seu santo padroeiro e promoveu Mendes, o seu padrinho político, a candidato presidencial. Por estas e outras razões, Passos não quer ter nada a ver com este filme.

Ninguém, além do próprio, saberá que planos tem para o futuro. E os que dizem saber, muito provavelmente estarão errados. Mas se Passos ainda quer ter um futuro político — e isso o antigo primeiro-ministro nunca afastou, antes pelo contrário — o montenegrismo tem de cair. Ter um Presidente da República hostil ao Governo (ou, pelo menos, mais exigente e interventivo) pode produzir esse efeito catalisador. Derrotar Mendes seria a primeira peça do dominó. Não apenas para Passos, mas para todos aqueles que, no PSD, querem derrotar Luís Montenegro.

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