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"Marcelo foi um dos piores Presidentes da III República"
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▲"Marcelo foi um dos piores Presidentes da III República"

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

▲"Marcelo foi um dos piores Presidentes da III República"

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

José Miguel Júdice: "Constâncio deu dez anos de maioria a Cavaco. Pedro Nuno está a fazer o mesmo"

Em entrevista, José Miguel Júdice diz que Pedro Nuno cometeu um erro idêntico ao de Constâncio e pode ter mudado curso da história. Fala ainda da sua desilusão com Marcelo e pede ousadia a Montenegro.

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Foram mais de cinco décadas ligadas à política, à análise e ao comentário, sempre com a advocacia como pano de fundo. Tornou-se uma voz tão inconfundível como provocadora da direita portuguesa. Somou a sua dose generosa de inimizades e de adeptos.  Despediu-se do espaço público há seis meses e diz que não pretende voltar. “Estava cansado e estou farto. E uma das coisas que me leva a estar farto é a total e absoluta falta de qualidade que sinto de cada vez que abro a televisão ou leio um jornal”, diz. Garante que esta é a última entrevista política que dá — a menos que lhe dê uma nova “fúria” e aja contra a sua “própria vontade de ser sensato”.

Nesta entrevista ao Observador, José Miguel Júdice fala sobre o momento que o país atravessa e perspetiva o que pode acontecer nos próximos meses e anos. Para o advogado, que viu nascer (e combateu) o cavaquismo, Pedro Nuno Santos (“medíocre”, “incompetente”, “radical”) cometeu um “erro histórico” idêntico ao de Vítor Constâncio e pode ter mudado o curso da história. “A derrota de Pedro Nuno Santos foi uma derrota de uma estratégia de radicalização do PS. Se publicasse um livro com tudo o que os meus amigos e conhecidos do PS disseram de Pedro Nuno Santos antes e depois de ser secretário-geral, o livro tinha 200 ou 300 páginas só com citações. Não houve uma pessoa no PS que fosse capaz de dizer: ‘O rei vai nu'”. [Pode ouvir aqui o Sob Escuta com José Miguel Júdice]

Assume estar muito preocupado com o risco de extinção que o PS enfrenta e assinala a importância de António José Seguro (já não acredita em António Vitorino) chegar à segunda volta das próximas eleições presidenciais contra o “melão” Henrique Gouveia e Melo, óbvio vencedor antecipado. Luís Marques Mendes, o “Marcelo dos Pobres”, não entra na equação de José Miguel Júdice. “É uma pessoa de quem gosto. Mas não tem as qualidades necessárias para as funções a que deseja chegar.”

Não alinha em visões apocalíticas sobre a chegada de André Ventura ao poder e duvida que algum dia o líder do Chega se modere o suficiente para ser palatável à maioria dos eleitores. Diz que Luís Montenegro “deve ter a ousadia de querer ficar na história”, “algum sonho” e algum rasgo, e acredita que, terminado o ciclo, se o PS tiver juízo e paciência, haverá uma alternância de poder natural, como aconteceu, precisamente, depois do cavaquismo.

Numa entrevista em que criticou várias vezes e duramente o papel daquilo a que chama jornalistado e comentariado, José Miguel Júdice termina com uma reflexão sobre Marcelo Rebelo de Sousa, agora em fim de ciclo. “Foi para mim a grande desilusão que tive em relação ao Presidente da República. Digo sinceramente. Tinha expectativas excecionais em relação a ele. Tinha todas as condições para isso e falhou. Foi um dos piores Presidentes da III República.”

“O combate político foi entre Montenegro e a comunicação social”

Em novembro de 2024, quase seis anos depois, deixou o espaço de comentário que mantinha na SIC. Porque é que decidiu fazê-lo?
Porque estava farto e porque estava cansado. Aliás, esta é provavelmente a última entrevista que vou dar sobre temas políticos. Aquilo exigia muito, porque era preparado com tempo, com muita leitura, trabalhava completamente sozinho e estragava muitos fins de semana. E também estou farto. Farto pelo estado em que está o que eu chamo de comentariado e jornalistado. Nem todos os jornalistas fazem parte do jornalistado, nem todos os comentadores fazem parte do comentariado, mas são manifestamente maioritários. Comecei-me a sentir mal no meio daquilo. Podiam-me confundir com eles.

Teremos tempo de falar em concreto sobre as últimas eleições legislativas. Mas acredita que aquilo a que nós chamamos bolha mediática desempenhou um papel importante na noite de 18 de maio?
Digo mais: o grande combate político, sociológico, estratégico, não foi entre Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos. Pedro Nuno Santos é medíocre. Toda a gente sabia menos a comunicação social ou o
jornalistado, que o protegeram. O combate foi entre Luís Montenegro e a comunicação social. E foi derrotada essa comunicação social. Devia aprender, emendar-se e depois tentar perceber que estão a contribuir de uma forma gravíssima para essa deriva que esses comentadores e esses jornalistas, rasgando as vestes, dizem que não querem. E que vai chegar.

Mas não há aqui um equilíbrio difícil? É preciso escrutinar um primeiro-ministro em funções…
Escrutinar é essencial. Mas atenção: não é só o primeiro-ministro; é preciso escrutinar todos. Essa ideia tonta de que Luís Montenegro tinha tido uma falha ética… Luís Montenegro teve um erro político de principiante. Não antecipou que aquilo iria acontecer e, quando aconteceu, cometeu de novo outro erro, julgando que as coisas acabariam por si. Mas isso foi um erro. Não foi uma falha ética e não foi manifestamente um caso criminal. Acho bem que se escrutine, mas acho mal que só se escrutine uma pessoa. Aliás, vocês [Observador] começaram um trabalho, mas depois desinteressaram-se, que era ver o que é que está por trás de Pedro Nuno Santos. Repare, acho isto inconcebível e inadmissível, escrutínio não é isto; mas pronto, [assim sendo], então era essencial fazer perguntas a Pedro Nuno Santos sobre origens do dinheiro. Vocês suscitaram o problema. Foram o único órgão de comunicação social a fazê-lo. Depois, os jornalistas rasgam as vestes: “Não se fala de Justiça, não se fala de Educação, não se fala de Habitação, não se fala de Saúde”. Mas quem é que faz as perguntas? Algum jornal ou alguma televisão é obrigada a cobrir Pedro Nuno Santos a andar de moto, Luís Montenegro a atirar-se para o chão a jogar voleibol e todos os outros disparates que vocês, sobretudo as televisões, nos dão? Não tem mal nenhum, acho quase divertido. Não podem é fazer isso e depois queixarem-se de ser só isso.

Estava a falar sobre isto ter sido uma vitória de Luís Montenegro contra a bolha…
Não é contra a bolha; é contra o jornalistado e contra o comentariado.

Mas é suposto termos um primeiro-ministro que, durante a campanha eleitoral, não dá uma única entrevista a um jornal ou a uma televisão de referência? Não estará também Luís Montenegro a alimentar essa hostilidade para com a comunicação social?
A pergunta que deve ser feita para os jornalistas é: porque é que ele faz isso? Ele não faz isso porque é tonto ou estúpido.

Porque os jornalistas têm má fama.
Ele faz isso porque acha que isso é bom politicamente para ele. E enquanto a comunicação social não perceber isso, não está a perceber coisa nenhuma. A comunicação social irrita-se e reagem como meninos mimados. Reage com agressividade. Estão habituados aos políticos que os alimentam permanentemente. O grande especialista nisso é Marcelo. Os jornalistas, como é natural, adoram políticos que falam com eles. O que é compreensível. Acho bem que estejam irritados e que não gostem de Luís Montenegro. Mas acho bem que pensem porque é que ele não fala convosco. E, de facto, a comunicação social está em muito mau estado. Na minha opinião, os dois maiores vícios da comunicação social são os seguintes: em primeiro lugar, o não dizerem “vou votar democrata ou vou votar republicano [como acontece nos EUA]”. Isso é transparente. Porque a ideia de que os jornalistas são imparciais e independentes é falsa. Segundo erro: quebrou-se a fronteira entre jornalista e comentador. Os jornalistas fazem comentários e não fazem informação. Um jornalista, se quer ter algum sucesso, deve evitar isso. E isso é a grande lição que talvez devam tirar dessas eleições. Se quiserem. Para mim, é completamente indiferente, como podem imaginar.

"Saí da SIC porque estava cansado e farto. Farto pelo estado em que está o que eu chamo de comentariado e jornalistado. Nem todos os jornalistas fazem parte do jornalistado, nem todos os comentadores fazem parte do comentariado, mas são manifestamente maioritários. Comecei-me a sentir mal no meio daquilo. Podiam-me confundir com eles"

“A incompetência de Pedro Nuno via-se e cheirava-se”

A noite de domingo significou  — ou acentuou — uma mudança profunda no sistema político-partidário tal como o conhecíamos. Vamos falar dos principais partidos, mas comecemos pelo PS. A hecatombe socialista é fruto de quê? Do ciclo de oito anos de poder de António Costa? Da forma como Pedro Nuno Santos liderou o partido? Ou era uma inevitável consequência do ar dos tempos?
Há sempre muitas causas em relação a tudo o que se passa no mundo. Agora, neste caso concreto, a causa principal é aquilo que me levou, antes de começar a saber os resultados, a pôr o grande dilema de saber se se aplicava ou não a Pedro Nuno Santos uma célebre frase do Henry de Montherlant sobre D. Pedro I, numa peça de teatro em que ele põe o pai, que se chama Ferrante e não Afonso IV, a dizer ao filho, furioso: “Deves ser condenado pelo crime da mediocridade”. Como é que é possível que um político com o mínimo de experiência, e ele tem-na, não fizesse aquilo que era óbvio? Dizer: “Sim senhor, concordo, vamos reduzir a comissão de inquérito a 90 dias”. Foi a última proposta que foi feita pelo PSD, contra o não avançar a moção de confiança. Portanto, o governo mantinha-se, o PS podia estar a grelhar durante 90 dias o primeiro-ministro e depois, se quisesse, apresentar uma moção de censura e deitava-o abaixo. Foi um sinal da mais total incompetência. E o que é extraordinário é que não ouvi, a não ser nos últimos dias da campanha, durante dois meses, um único comentador, um único jornalista, a dizer: “Pedro Nuno Santos é completa, total e absolutamente incompetente”. O problema é esse: a incompetência dele via-se, cheirava-se. E depois tem outra coisa que é importante: ele pode tentar sair do radicalismo, mas o radicalismo não sai dentro dele.

Fazendo de advogado do diabo: Pedro Nuno Santos viabilizou um Programa de Governo, um Orçamento do Estado, chumbou duas moções de censura. Estava a tentar dar esse sinal.
Quero lá saber que tenha feito esforços. No esforço essencial falhou. Só dele se pode queixar. Por isso é que fez aquela coisa típica do menino mimado e, ao sair na noite eleitoral, tentou condicionar o futuro do seu partido dizendo aquilo que o Brecht dizia com grande sentido de humor: “Quando o povo discorda do governo, deve-se demitir o povo”. No fundo, disse o mesmo que outros membros do comentariado, um rapaz chamado Nuno Jonet…

João Maria Jonet. 
Maria João Jonet?

João Maria Jonet.
Ora bem, ele não deixou de dizer o seguinte: “Se Luís Montenegro não perder as eleições, é porque o compasso ético dos portugueses não presta”. Isto é, em vez de reconhecerem os erros, passam a 10 milhões de portugueses o atestado de serem desonestos, de não respeitarem as normas éticas. O que Pedro Nuno Santos disse sobre Luís Montenegro é a opção clara da estratégia da extrema-esquerda e da extrema-direita em todo o mundo e em todas as gerações. Uma das coisas que mais me preocupa em Portugal é a iliteracia histórica das pessoas que chegam ao espaço público. Toda a estratégia dos partidos extremistas na Europa e no mundo foi transformar questões altamente subjetivas, como são as questões éticas, na fundamentação política da ação. Quando os partidos mainstream, quando os partidos moderados, optam por essa estratégia, neste caso, quando o PS aderiu à estratégia do Livre, fazem obviamente o jogo todo dos extremistas. A política e a ética são categorias diferentes. Por um acaso, estava a ler um livro, uma grande biografia sobre Nixon, quando vi Rui Tavares a propor o que seria o impeachment de Luís Montenegro. Mas é preciso ter um bocadinho de contexto: o que é que reservariam então para Nixon? Os que acham que ter uma empresa familiar a fazer umas consultadorias é motivo para provocar uma crise eleitoral… Isto é tão estúpido e foi tão útil para Luís Montenegro que quase penso que foi de propósito. O que não percebo é que pessoas que eram manifestamente contra Luís Montenegro não tivessem percebido que lhe estavam a fazer completamente o jogo. Uma das coisas que me leva a estar farto é a total e absoluta falta de qualidade que sinto de cada vez que abro a televisão ou leio um jornal.

"O que é extraordinário é que não ouvi, a não ser nos últimos dias da campanha, durante dois meses, um único comentador, um único jornalista, a dizer: “Pedro Nuno Santos é completa, total e absolutamente incompetente”. O problema é esse: a incompetência dele via-se, cheirava-se. E depois tem outra coisa que é importante: ele pode tentar sair do radicalismo, mas o radicalismo não sai dentro dele"

“António Costa era o oportunista-mor do reino”

Perguntava-lhe por António Costa e pelo ar dos tempos porque isto que aconteceu agora ao PS, independentemente da liderança de Pedro Nuno Santos, tem acontecido por essa Europa fora. Não foi aquele ciclo de oito anos de irreformismo também um fator decisivo para o resultado do PS?
Sem dúvida. António Costa era o oportunista-mor do reino. O que é uma qualidade, mas, sozinha, torna-se um defeito. Não é só o problema de ele se ter desinteressado completamente de montar uma estratégia de
mudança quando teve maioria absoluta. Pior do que isso, teve uma estratégia que já fez mal à esquerda noutros países, que foi pensar assim: “Se der fogo nas asas ou nas velas de um partido radical de direita, vou manter-me permanentemente no poder”.

Era a tal mexicanização do regime.
Porquê? Porque a extrema-direita ia comer a direita moderada. Foi uma estratégia deliberada do PS e que depois foi continuada com enorme alegria por Pedro Nuno Santos. É a estratégia da extrema-esquerda de “quanto pior, melhor”. Isso é normal nos radicais e nos extremistas. Agora, que os partidos moderados entrem nisso, é que eu não consigo entender. Outro fator foi, claramente, o azar. Há épocas que correm melhor, outras que correm pior. E depois o PS tornou-se arrogante. Como, aliás, o cavaquismo se tornou. Fui um crítico permanente do cavaquismo apesar de apoiar Cavaco. Porquê? Cavaco também tentou fazer isso. Cavaco não falava com o PS, falava com as confederações sindicais e os cavaquistas davam força ao Partido Comunista. A mesma ideia. Em 1986, antes da primeira volta das eleições presidenciais, escrevi o seguinte: “Pefiro que Freitas do Amaral perca na segunda volta com o Soares do que ganhe contra o Zenha ou contra a Maria de Lourdes Pintasilgo”. Vejo a política desta maneira. E os moderados devem ver a política desta maneira. O PS fez o muro de Berlim entre ele e o PSD para, com isso, provocar a derrocada de qualquer fronteira entre o PSD e o Chega.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 1.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

E acabou no prato.
E acabou a pagar o preço. Os portugueses não são parvos. A democracia tem uma natureza de sabedoria popular média. Evita grandes problemas e resolve outros. A derrota de Pedro Nuno Santos foi uma derrota de uma estratégia de radicalização do PS. E a falta de coragem não é só nos meios de comunicação social; é também dos políticos. Se publicasse um livro com tudo o que os meus amigos e conhecidos do PS disseram de Pedro Nuno Santos antes e depois de ser secretário-geral, o livro tinha 200 ou 300 páginas só com citações. Agora, não houve uma pessoa no PS que fosse capaz de dizer: “O rei vai nu”. Quando havia o Bloco Central, uma das coisas que salvou o PSD foi haver um bando de miúdos que resolveram dizer alto o que pensavam baixo: “Nós achamos que o Bloco Central é uma má solução. Quando o Bloco Central fracassou, havia dentro do PSD”. Uma elite de pessoas estruturadas, que tinham um pensamento estruturado também, para um novo tempo. Não há no PS ninguém para esse novo tempo, porque todos optaram por ficar calados.

Fernando Medina, quando a moção de confiança foi chumbada, assinou uma declaração de voto condenando aquilo.
Mas devia ter tido a coragem de dizer: “Vou-me abster na moção de confiança porque isto vai dar aquilo”. Ele sabia. Tive uma uma grande professora de Direito que dizia que eu tinha a inteligência do óbvio. E gostei muito de ouvir isso. E acho que é aquilo que tenho. O que é a inteligência do óbvio? É a capacidade de dizer: “O rei vai nu”. É preciso muita inteligência e muita coragem para dizer que o rei vai nu. E ninguém no PS disse isso. Alguns setores da ala moderada, não vou dizer nomes, foram apoiar entusiasticamente Pedro Nuno Santos. Porque a tese era esta: “Ele vai ganhar. Se nós estivermos ao lado dele desde o primeiro momento, talvez possamos moderá-lo”.

Está a pensar em Álvaro Beleza, em Francisco Assis…
Não estou a pensar em ninguém. Nem estou a denunciar ninguém. Estou apenas a dizer que há uma cultura. Como aquela cultura de Pedro Adão e Silva, que é um dos tipos inteligentes na zona do PS, que escreveu um artigo que me deixou estupefacto e que não vi ninguém comentar. Ele dizia isto: “A melhor solução para nós de esquerda é que o PS ganhe ao PSD, para com isso Luís Montenegro ir embora e vir um novo líder do PSD que faz um acordo com o Chega e depois a seguir nós ganhamos”. Isto foi escrito. É uma estratégia que outros não disseram, mas pensavam. Não vi um membro do comentariado ou um membro do jornalistado a dizer: “Mas o que é isto?” Isto é hipocrisia, é o cinismo e o contrário de tudo o que afirmam publicamente mas que desejam. Ainda agora, uma jornalista chamada Leonete Botelho escreveu sobre o PSD. Hugo Soares disse o seguinte: “Não vamos pôr o Chega no governo, nem vamos fazer nenhum acordo de incidência parlamentar”. Como é que ela descreveu aquela entrevista? “PSD só recusa o Chega no Governo”. Isto ou é incompetência ou é má fé. Porque ele tinha dito exatamente o contrário. O que o PSD sempre disse é que nunca faria um acordo de incidência parlamentar com o Chega e nunca faria um acordo do Governo com o Chega.

Aliás, na última legislatura, quem se autoexcluiu das negociações pontuais foi André Ventura.
Claro. Mas o que quero dizer é que, passado um ano, com um homem a dizer isto todos os dias, ainda se vê jornalistas, aqueles que andam a correr, não sei se são pagos à frase, se conseguem uma resposta ganham mais 5 euros, a apanhar as pessoas, mas o “‘não é não’ ainda é não?” Mas o que é isto? Isto é jornalismo?

"A derrota de Pedro Nuno Santos foi uma derrota de uma estratégia de radicalização do PS. E a falta de coragem não é só nos meios de comunicação social; é também dos políticos. Se publicasse um livro com tudo o que os meus amigos e conhecidos do PS disseram de Pedro Nuno Santos antes e depois de ser secretário-geral, o livro tinha 200 ou 300 páginas só com citações. Agora, não houve uma pessoa no PS que fosse capaz de dizer: 'O rei vai nu'"

“Só vai haver novas eleições em 2029”

Falemos de Luís Montenegro, que é o inequívoco vencedor das eleições, mas num ano em que distribuiu um generoso excedente que tinha herdado e em que apagou os principais focos de contestação, não foi além de um crescimento de 140 mil votos. Não é um crescimento demasiado curto? Sobretudo porque não se antecipa um ano ou um ciclo tão positivo como o anterior.
Uma das coisas que muito me espantou foi dizer-se depois das eleições ficou tudo na mesma. A única coisa politicamente importante era o seguinte: será que a AD (com ou sem IL) fica com mais deputados do que a esquerda. Ora bem, o resultado foi o seguinte: o PSD sozinho ficou com mais deputados de que toda a esquerda e também a Iniciativa Liberal. Ora, se isto não é uma grande vitória, eu não sei o que é uma grande vitória. Mas não fujo à pergunta. Ele cresceu pouco? De novo, a literacia histórica. Uma situação de tripolarização, que é aquela que vivemos há um ano, o partido central dificilmente tem mais do que o suficiente para ser um partido inevitável de governo e só governa porque não há alternativa a esse mesmo governo. Portanto, a circunstância de ter mais 140 mil votos ou mais 300 mil é politicamente irrelevante. Agora, ele distribuiu muita coisa? Não. É curioso, porque acho que Luís Montenegro não podia adivinhar a estupidez do PS e do comentariado e do jornalistado — não tenha dúvida, o PS foi atrás do jornalistado e do comentariado porque, ao princípio, o PS não se queria meter nisso.

Aliás, o primeiro a ter a ideia da comissão parlamentar de inquérito foi o Chega e o PS era contra.
Exatamente, era inteligente. Depois perdeu a inteligência porque não resistiu à pressão do comentariado e do jornalistado, aquilo a que vocês chamam de bolha mediática. Seja como for, Montenegro não podia imaginar que ia haver isto. Achava que as eleições iam ter lugar em junho de 2026. Nunca falei com ele desde a tomada de posse, mas tenho a certeza que ele tinha uma estratégia para distribuir o bodo aos pobres, como sempre se fez na política portuguesa e mundial, nos primeiros seis meses de 2026. Não era agora. Isso seria uma estupidez fazê-lo. O que ele fez foi resolver problemas para montar uma estratégia de paz social — e fez
bem. Portanto, distribuiu, com certeza que distribuiu, mas vai continuar a distribuir porque é o que tem de fazer para ganhar eleições.

Mas a pergunta vai nesse sentido. Essa estratégia, que não é um exclusivo de Luís Montenegro, permitirá que no futuro não continuemos neste ciclo de frustrações e de ressentimentos?
Sim e não. Porque, repare, o problema é este: tudo o que se dá às pessoas…

É insuficiente.
É insuficiente. Era um grande amigo de Nuno Brederode Santos. E quando Cavaco Silva fez um aumento da função pública antes das eleições do Parlamento Europeu, sem aproveitar para fazer uma reforma da administração pública e sem exigir mais, critiquei duramente. Estava a falar com Nuno Brederode Santos e disse-lhe: “Isto é um erro político, porque no dia em que der isto e as pessoas receberem, no dia seguinte passam a querer mais”. E ele disse-me que tinha toda a razão. A vida política funciona assim. Portanto, sim e não. É evidente que há que continuar a dar mais. O país precisa de dar mais, mas também precisa de reformas. Só vai haver eleições em 2029…

Daqui a quatro anos?
Daqui a quatro anos. Disse-o na noite eleitoral e estou convencido de que sim. Claro que pode haver um grande disparate do Chega ou do PS, ou de ambos, que deem uma nova oportunidade ao Luís Montenegro, uma nova eleição. Mas acho que eles agora aprenderam. Sabe qual foi para mim o maior erro estratégico da política portuguesa antes deste? Foi quando Vítor Constâncio, coitadinho, resolveu fazer um acordo com o partido eanista [PRD] e deitar abaixo o governo minoritário de Cavaco Silva, convencido, na sua ilusão, que o Mário Soares ia dar o governo ao PS, lixando a sua reeleição presidencial passado dois anos e indo contra aquilo que o país pensava. Mário Soares sabia mais a dormir do que estes todos juntos… Ora, o que é que aconteceu? Por causa disso, houve uma maioria absoluta de Cavaco Silva e houve oito anos de maioria absoluta. E se Cavaco não tivesse cometido alguns erros, teria havido dez anos seguintes de Presidente da República. Esse foi um erro histórico de Vítor Constâncio, que é um homem deslumbrantemente inteligente em coisas pequenas. O segundo grande erro é o de Pedro Nuno Santos. Constâncio deu 10 anos de maioria absoluta, mudou a História de Portugal. Este está a fazer o mesmo. Como é que é possível que um erro deste seja feito e ninguém o tenha visto chegar? Porque ninguém o viu chegar. Eu vi, mas estava calado. Tudo o que tinha dito sobre Pedro Nuno de Santos, disse-o disse antes de ele ser ministro, quando ele era ministro, depois de ele ser ministro, antes de ser eleito e depois de ser eleito. A mim não me surpreendeu minimamente. Como não me surpreende que Rui Tavares venha agora dizer: “A nossa grande luta é limitar a revisão constitucional”. Já vi sinais de impotência menos evidentes.

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

“A normalização do Chega foi feita pelo PS”

Falemos do Chega.
Vamos falar do Chega.

Como é que se explica que depois de um ano em que o partido André Ventura se viu atolado em todo o tipo de escândalo e em que ajudou a derrubar um governo de centro-direita, consiga ainda assim crescer e transformar-se na segunda força política? Falávamos há pouco de história, também sabemos o que aconteceu ao PRD depois de ter ajudado a travar a Cavaco Silva. Aqui a história não se repetiu.
Se não me leva mal, sei que tem de fazer essa pergunta, mas a pergunta é estúpida.

Não levo nada a mal.
Porquê? Porque não acredita que a resposta seja outra do que aquela que vou dar. Por isso é que posso dizer que é estúpida; se não não diria, estaria a ser desagradável consigo. O problema é este: na hora de votar, a questão de um deputado do Chega ter sido, aparentemente, apanhado em alguma coisa que seria um caso de pedofilia, ou de um senhor ter sido apanhado a roubar malas, aparentemente, é razão para votar ou não votar num partido. Não é.

Mesmo num partido com as características do Chega?
Em qualquer partido. Ventura fez um mea culpa. “Afastei-os logo.” Se, na hora de votar, perguntar: “Estão de acordo em que um deputado Chega faça não sei o quê?” 90% dos portugueses dirão que não estão de acordo. Mas não é por isso que deixam de votar em Ventura. Sobretudo num partido que é um partido completamente unipessoal. A história do PRD teria sido diferente se o general Eanes, depois de sair do poder, tivesse ido ele a encabeçar o PRD. Porque o voto do PRD foi um voto no general Eanes, uma espécie de D. Sebastião. Quando o general Eanes não se materializou numa manhã de nevoeiro, o PRD desfez-se. Agora é a mesma coisa. Se Ventura não fosse a votos, essas coisas eram todas importantes. Quando vai a votos, a única coisa que é importante é as pessoas acharem que o Ventura é a pessoa em quem se deve votar ou não.

Vamos então à origem. O que é que explica este crescimento do Chega?
De novo, muitas coisas. Tudo isto é multifactorial e não lhe vou fazer perder muito o seu tempo a dizer coisas que são óbvias. São muitos fatores. Mas diria que o principal fator da vitória que teve em 2024 foi a estratégia do PS de tentar colar PSD ao Chega. A normalização do Chega foi feita pelo PS. É ao contrário do que parece, mas foi. Porque as pessoas que votam no PSD não o acham um partido extremista. Vi, quando Cavaco foi eleito líder, um importante quadro do PSD, na primeira fila, aos gritos a chamar-lhe “fascista, fascista, fascista”.

Como chamaram a Pedro Passos Coelho.
Pois. Mas isto era um dirigente do PSD não era um tipo de oposição. Portanto, quando se diz que o PSD se vai coligar ao Chega, uma parte substancial do país vê isto como não sendo uma má ideia. Segundo factor: o fracasso da maioria absoluta. Houve azar, não estou a dizer que não. Aliás, para António Costa foi ótimo que tivessem saído aquelas duas linhas [no comunicado da PGR]. Se não, é evidente que se tinha de demitir no dia seguinte por causa da história das notas. E agora foi a estratégia do PS. Quando o PS agarra a estratégia do Chega e diz exatamente o mesmo que o Chega diz, que o primeiro-ministro não tem idoneidade, que o primeiro-ministro não é sério, que o primeiro-ministro anda a ter avenças, coisas disparatadas ou falsas… O Chega teve um ato de grande inteligência política. Calou-se. Aliás, no debate entre o Chega e Luís Montenegro, André Ventura não falou disto. E não falou porque o PS estava a falar por ele. Qualquer pessoa, mesmo um tipo com a inteligência rastejante como eu tenho, a tal inteligência do óbvio, vê isto.

"Vítor Constâncio, coitadinho, resolveu fazer um acordo com o partido eanista [PRD] e deitar abaixo o governo minoritário de Cavaco Silva, convencido, na sua ilusão, de que Mário Soares ia dar o governo ao PS. Mário Soares sabia mais a dormir do que estes todos juntos… Ora, o que é que aconteceu? Houve uma maioria absoluta de Cavaco Silva e houve oito anos de maioria. Esse foi um erro histórico de Vítor Constâncio, que é um homem deslumbrantemente inteligente em coisas pequenas. O segundo grande erro é o de Pedro Nuno. Constâncio deu 10 anos de maioria absoluta, mudou a História de Portugal. Este está a fazer o mesmo"

“Montenegro deve ter ousadia de ficar na história. Não o vejo fazer isso”

Chegados aqui, como é que Luís Montenegro consegue governar com o Chega em crescimento de um lado e um PS em francas dificuldades do outro?
Olha, sabe aquela história de alguém perguntar: “Como é que consegue comer um leitão inteiro?” A resposta é: “À força de muito pão”. A situação de um partido minoritário no centro do espectro político é complicada.
Mas é mais complicada se tiver numa das pontas, como é óbvio. Luís Montenegro tem de ser, em primeiro lugar, muito esperto. Acho que ele é esperto. Como sempre, o comentariado e o jornalistado menosprezou-o. Como menosprezou Cavaco, como menosprezou Passos Coelho. Vi amigos meus a menosprezar essas pessoas. Todos os meus amigos no PSD, quando perguntei “como é que é este Passos Coelho”, disseram que não servia para nada, que não ia a lado nenhum. Menosprezar as pessoas é um erro.

Marcelo Rebelo de Sousa também menosprezou Luís Montenegro? A história do rural…
Claro. Mas eu acho que Marcelo Rebelo de Sousa tem um enorme defeito: é a pessoa mais inteligente que conheci — a outra seria Adriano Moreira. Mas como todas as pessoas deslumbrantemente inteligentes, faltam-lhe todas as características para interpretar a realidade. E joga xadrez. Ele faz as 30 jogadas políticas seguintes, mas pensa que todos os outros jogadores são grandes mestres como ele. Não são. São muito incompetentes. Ele não põe incompetência na sua equação porque ele não é incompetente. Portanto, e voltando a Luís Montenegro, ele tem de ser esperto, muito esperto. Depois tem de ser muito pragmático. Tem de não fazer aquilo que lhe estão a exigir. O Livre já fez exigências. É um menino pequenino e já faz exigências. Não deve aceitar nunca dizer: “Eu só falo com o PS ou eu só falo com o Chega”. Não. Se o Chega ou o PS não quiserem falar com ele, não falem. Ele tem de falar com todos. Ele tem de falar com todos. Tem de ter uma estratégia e ir buscar os votos onde eles estão. Deve ter um programa de mudança de país. Algumas coisas que é preciso mudar é quase impossível que o PS não concorde. Outras coisas que é preciso mudar é quase impossível que o Chega não concorde. Depois deve ter alguém muito competente a negociar por ele. Alguém que esteja permanentemente a falar com esta gente. Deve negociar com todos, negociar tudo, permanentemente. E deve apresentar coisas que os portugueses querem que sejam feitas.

Por exemplo?
Não me ponha agora como uma espécie de assessor de Montenegro.

Pergunto-lhe isto porque um dos tema que gente que pensa a estratégia da AD foi notando é a questão da imigração.
É um exemplo. Deve levar até ao fim uma estratégia para a imigração. Os portugueses querem. Essa estratégia não será a que o Chega quer e provavelmente não é a que o PS quer. Mas ele põe na frente. E os partidos da esquerda e da direita devem perceber o seguinte: “Vamos fazer acordos em coisas que são melhores para nós do que era antes”. Se não quiserem, o Governo paralisa e Luís Montenegro vai acumulando capital. Portanto, isso é uma das coisas que ele deve fazer. Em terceiro lugar, deve ter uma ousadia de ficar na história. Até agora não senti que Luís Montenegro esteja a perguntar a si mesmo: “O que é que vão pensar de mim depois de eu morrer?”. O que é uma qualidade. O mundo está cheio de malucos que acham que são Napoleões. Portanto, é saudável que os políticos não sejam assim. Mas deve ter alguma ousadia, algum sonho, alguma coisa a dizer. Eu digo: “Gostaria que os meus netos se lembrassem de mim”. Um político deve dizer: “Gostaria que os netos dos outros se lembrassem de mim”.

Mas isso é verdadeiramente premiado? Falávamos há pouco de António Costa. Acha que teve ou quis ter essa ousadia?
Não, não.

Acabou por ser premiado como a maioria absoluta. Não é um espelho do país que temos?
Mas estou a pensar a 50 anos. Gostaria que Luís Montenegro pusesse um delta na sua ação que é “eu quero fazer coisas que são essenciais para serem feitas e que vão me agradecer depois de já cá não estar”. Isso é o que falta. Não o vejo a fazer isso. Também não podia, não tinha condições mínimas. Estava na situação em que bastava que o Chega se abstivesse para que o PS pudesse bloquear tudo. Ora, isso acabou. Agora, se quiserem bloquear, têm de votar em conjunto. E votar em conjunto é cada vez mais complicado, porque no PS alguns aprenderam que não se brinca com o Chega. Porque andaram a brincar com o Chega este tempo todo. Montenegro deve arriscar. Já tem mais capital e deve pôr capital a render. Porque é que chamava “Tio Patinhas” a Marcelo Rebelo de Sousa? Sempre adorei o Tio Patinhas, era um personagem belíssimo, o homem mais rico do mundo. E tinha um prédio, arranha-céus, 30 ou 40 andares, cheio de moedas de ouro. Nadava nas moedas de ouro. Mas qual era o problema? Tinha talentos, as moedas de ouro, mas não os punha a render. Marcelo Rebelo de Sousa não pôs a render nenhum dos seus talentos. Portanto, não vai ficar na história. Tinha tudo para ficar na história e acho que Marcelo queria ficar na história. Tem o complexo do bom aluno — eu fui sempre o segundo melhor, é menos exigente. Mas o número um é uma pessoa que, obviamente, não aceita o falhanço, não aceita o erro. Considera-se perfeito. E tem razão para se considerar. Portanto, Montenegro tem de ousar um bocadinho mais. Tem de ser um bocadinho menos conservador. Mas tem de gerir ao dia. Tem de gerir com um tacticismo absoluto. E não deve ligar muito ao comentariado. Não deve ligar muito ao jornalistado. Não deve perder muito tempo a dar entrevistas, não deve responder àquelas perguntas tontas que são feitas quando uma pessoa sai de uma porta e que os jornalistas não deviam fazer. Deve negociar com toda a gente e não ceder às exigências de ninguém. Vai conseguir ou não vai conseguir? Não sei. Mas a grande força dele é que agora o PSD está ao centro. Neste momento, a minha grande preocupação não é sequer o PSD. Porque se Luís Montenegro falhar e o PS se transformar num partido moderado, estou tranquilo, estou calmo estou feliz. Olhe, provavelmente a minha filha sai da política, o que me daria alguma alegria — não porque ela não esteja a gostar muito, mas porque não é vida que um pai queira para um filho. Mas se o PS fizer uma moderação verdadeira, não é treta da moderação que fez Pedro Nuno de Santos, coitadinho, com enorme boa vontade, com enorme esforço.

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

“Rui Rio era um caso de mediocridade política absoluta”

Nesta nova dinâmica parlamentar, como é que fica o Partido Socialista? É verdade que até agora não ouvimos ninguém no Partido Socialista a defender uma linha que não fosse de diálogo e de colaboração…
Mesmo aqueles que há 15 dias diziam o contrário.

Mas não se coloca sempre o seguinte dilema: se o PS se transformar num apoio ao Governo, o papel de liderança da oposição não se reforça no lado do Chega?
Com todo respeito, digo o que disse há bocadinho. Sei que não espera que dê a resposta que está implícita na sua pergunta. Está a fazer bem o seu papel. Mas isto é uma pergunta estúpida objetivamente. A política não funciona assim. Esta ideia de que se o PS fizer aquilo que os portugueses querem que o PS faça e com isso demonstrar que é um partido tão razoável, tão credível, tão de acordo e em sintonia com o que os portugueses querem, é uma derrota para o futuro, é um disparate. A ideia de que o Chega a ficar sozinho na oposição faz com que a seguir venha a ser governo é outro disparate. A política não funciona assim. O PS pode apoiar o governo e sair desse apoio com um resultado vitorioso. Desde que faça isso bem feito. Para que fique muito claro: o que desejo é que quando acabar o ciclo do PSD, comece o ciclo do PS.

Faço esta pergunta com uma abordagem mais cínica da história.
Como convém a qualquer jornalista.

Não houve um único líder da oposição que, tendo estado disponível para o diálogo, tenha vencido eleições seguintes ou tenha sobrevivido internamente. Marcelo Rebelo de Sousa, Luís Marques Mendes, Rui Rio.
Tem de olhar para os políticos de que está a falar. Rui Rio era um caso de mediocridade política absoluta. Não gosto de Rui Rio, já o disse publicamente, mas digo isto apesar de não gostar dele. Marques Mendes é uma pessoa de quem gosto, mas digo o mesmo: não tem as qualidades necessárias para as funções a que deseja chegar. Desculpem dizer assim, mas é o que penso. Marcelo Rebelo de Sousa falhou como político. Ganhou sempre como analista político e comentador. Foi o melhor, mas de longe. Ele é o número um. Sempre foi e nunca haverá outro número um. Agora, não tem jeito para a política. Não tem jeito. Um político não negocia com os jornais. Um político não põe cachas nos jornais. Um político não põe pessoas a dizer coisas para ver se acontecem outras para que ele faça as seguintes. Os grandes políticos portugueses, de um modo geral, ligaram muito pouco à comunicação social. Todos tiveram sucesso. Porque é que falei no João Maria Jonet? Porque é que falei na Leonete Botelho? Porque isso é paradigmático. Quando um político começa a entrar em marmeladas com a comunicação social, perdeu a qualidade essencial do político: ser respeitado mesmo quando odiado. Por outro lado, a história nunca se repete. Às vezes parece que se repete. Se o líder do PS fizer um bom papel, se mostrar ao país que foi responsável, se criticar com serenidade, porque os portugueses não gostam da gritaria… Vocês gostam. Disse ao meu querido amigo Bernardo Ferrão [diretor da SIC], e ele ficou muito zangado comigo, que eles passam a vida a promover o Chega como passaram a vida a promover o Bloco de Esquerda. Por uma razão, não é? E ele dizia: “Você sabe que eu não sou…” É claro que ele nunca votaria no Bloco de Esquerda, nem no Chega. Tenho a certeza. Havia uma série de televisão chamada “Dallas” e havia um senhor que era o J.R. Ewing, que se dizia que era o homem que nós amamos odiar. Porque é que o Dallas tinha muito sucesso? Por causa desse tipo. As pessoas agarravam-se àquilo por causa daquela pessoa. Porque é que as pessoas se agarram às televisões para ouvirem o Chega?

É a história do acidente de viação.
Como é que é possível que as televisões estivessem a transmitir em direto o rabo de uma ambulância que ainda por cima nem era a ambulância do líder Chega? Porque isso é que dá espetáculo, isso é que dá teatro, tensão. É óbvio. Acho muito bem que o façam. Se fosse diretor de um jornal, provavelmente dizia para fazer isso. Não é isso que estou a discutir. Mas os portugueses não querem a política feita assim. A gritaria na Assembleia da República é uma coisa que as pessoas não gostam. Porque são muito conservadoras. Se o PS souber fazer oposição serena e apoiar umas coisas e não apoiar outras, e, quando não apoia, explicar porque é que não apoia, quando o PSD cair, que vai cair um dia, os socialistas estão ali e os portugueses vão olhar para eles. Agora, se entrarem na gritaria, não.

"Marcelo Rebelo de Sousa não pôs a render nenhum dos seus talentos. Portanto, não vai ficar na história. Tinha tudo para ficar na história e acho que Marcelo queria ficar na história. Tem o complexo do bom aluno — eu fui sempre o segundo melhor, é menos exigente. Mas o número um é uma pessoa que, obviamente, não aceita o falhanço, não aceita o erro. Considera-se perfeito. E tem razão para se considerar"

“Se o Chega não se moderar, nunca vai passar”

Não alinha com os mais céticos ou os menos otimistas, dependendo da perspetiva, de que isto pode ser o fim do PS.
Pode, é claro que pode. A história mostra que isso pode acontecer. O PSD teve épocas em que podia acabar.

Falámos sobre isso depois da derrota de Rui Rio, em 2022.
Exatamente. Era o estado a que o PSD estava a chegar. E porquê agora no PS? Por causa da abstenção. As pessoas que se abstiveram eram pessoas votantes do PS. Eram pessoas importantes nas comunidades, por esse país fora. Ouvi dizer, e que não era uma, nem duas, nem três pessoas, que vinham dizer: “Olhe, toda a vida votei no PS e este ano não vou votar. Não gosto do barbas”. Portugal é assim. Portugal é isto e ainda bem que é isto. Portanto, o PS pode acabar e estou muito preocupado que o PS acabe. As presidenciais são muito importantes para a sobrevivência do PS

Mas acredita que nas próximas eleições legislativas…
Se for daqui a quatro anos, o PS pode ganhar. Se for daqui a um ano ou dois, não.

Então não serão discutidas entre Luís Montenegro e André Ventura?
São discutidas entre todos. Mas o PS pode herdar o fracasso ou o não sucesso do PSD. Um dia vai acontecer. Não esquecer: Cavaco foi, para mim, o melhor primeiro-ministro de Portugal; [no final], as pessoas não o podiam ver. Depois da derrota de Fernando Nogueira, Cavaco juntou quatro ou cinco pessoas para falar um bocadinho por causa da campanha presidencial. Estava Durão Barroso, estava Pinto Leite, estava eu, estava Pacheco Pereira — ele tem qualidades e defeitos, não é propriamente um santo da minha devoção, mas é um tipo muito capaz e há 30 anos era mais. Como eu. Eu agora também sou pior. Lembro-me de Pacheco Pereira ter dito uma coisa: “Não se equivoque, senhor primeiro-ministro; quem foi derrotado por Guterres não foi o Nogueira; foi você”. Portanto, as pessoas não podiam ver Cavaco Silva. Há-de haver um dia em que as pessoas já não possam ver Montenegro. Nesse dia, o PS deve estar preparado. Não antes, não precipitadamente. Se o PS esperar o seu momento, renovar os seus quadros, ir buscar pessoas à sociedade civil…  Qual é a profissão da generalidade dos deputados dos partidos?

A advocacia.
A advocacia é o que as pessoas dizem.

Sim.
Mas e aqueles que trabalham no Estado? O PS é um partido de gente que… Veja-se Pedro Nuno Santos. Nunca fez nada na vida a não ser política. Não conhece o mundo. Portanto, se o PS esperar a sua altura, vai chegar lá. Agora, se começar a concorrer com o Chega na gritaria, não chega lá.

E o Chega pode chegar lá?
Pode, claro que pode. O Chega tem um dilema: tem de optar entre ser um Salvini ou uma Meloni.

Preferiu ficar com Salvini e teve a oportunidade de se aliar a Meloni. 
E o estilo dele é o Salvini. Outro exemplo, Marine Le Pen. A Marine de Le Pen é como Pedro Nuno de Santos. Vão ambos ficar ofendidos, mas são tão parecidos… Querem ser moderados, querem deixar de ser radicais, mas tudo o que dizem, mesmo quando dizem “vou ali comprar um croissant“, surge como um ato de grande radicalismo. Porque não sabem ser diferentes. Está lá dentro deles. Pedro Nuno de Santos é um homem forte, cheio de energia. Tem 44 anos, está com a testosterona toda em alto nível e dá-lhe para a política. Não muda, não vai mudar, não consegue. Repare, o que é que ele fez na noite eleitoral? Foi um momento de grande descarga de testosterona. “Eu vou-me embora, estou farto disto. Se pudesse ia embora agora”. Em vez de dizer ‘tenho muita pena, lamento, errei, falhei, fui incompetente’. “Não, vamos já embora, estou farto. O partido não me respeita, o país também não, vamos embora.”

Mas termina com um “até breve”.
Exatamente. Não se enxerga. É um revolucionário. O Lenine dizia o seguinte: “É quando se perde a apoios que se está a ganhar”. É a mesma coisa. É a lógica do revolucionário. Aquela senhora Mariana Mortágua, em vez de dizer “sou completamente incompetente, os portugueses olham para mim e não gostam da minha cara”, não, veio dizer “o fascismo e o extrema-direita deram cabo de nós”? Mas o jornalistado e o comentariado sempre tratou Mariana Mortágua como uma pessoa altamente respeitável. Eu sempre achei que era completa e totalmente infrequentável e incompetente. E as pessoas olhavam para mim com um ar ofendido. O Francisco Louçã era o Papa da comunicação social portuguesa. Os jornalistas babavam-se de gozo quando faziam uma pergunta. Agora até saltou de paraquedas [nesta campanha das legislativas], uma coisa de grande testosterona também. É velho, mas saltou de 5 mil metros, como o Bush também saltava. Não sei se têm alguma coisa em comum… Foi-se candidatar em Braga e acho que baixou o que tinha tido o Bloco de Esquerda. As pessoas não aprendem com isso. A esquerda radical, na qual incluo o Livre, como é evidente, é uma bolha, onde aquilo se vai redistribuindo. Portanto, se o PS tiver juízo, pode chegar lá. Se não chega lá o Chega, se Ventura fizer uma estratégia à Meloni. Mas ele não consegue. Não consegue deixar de ser um Salvini. Se não se moderar, acreditem em mim, nunca vai passar.

"Rui Rio era um caso de mediocridade política absoluta. Marques Mendes é uma pessoa de quem gosto, mas digo o mesmo: não tem as qualidades necessárias para as funções a que deseja chegar. Marcelo Rebelo de Sousa falhou como político. Ganhou sempre como analista político e comentador. Foi o melhor, mas de longe. Ele é o número um. Sempre foi e nunca haverá outro número um. Agora, não tem jeito para a política. Não tem jeito" 

“Marques Mendes é o ‘Marcelo dos Pobres'”

O ainda Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, tem responsabilidades no resultado destas legislativas?
Só tem responsabilidade. Um dos principais responsáveis dos vários resultados nas legislativas foi Marcelo Rebelo de Sousa. Como é que é possível que um homem tão inteligente como ele tivesse dito, quando deu posse a António Costa, “se o senhor se for embora, eu convoco eleições”? Agustina Bessa-Luís tinha uma frase, entre outras, que nunca mais esqueci: “A indefinição sobre os nossos motivos é a nossa liberdade”. Como é que um político, um Presidente da República, anuncia que vai fazer daí a dois anos se acontecer uma coisa que ele não controla? Um erro absoluto. Ele nunca deveria ter feito eleições em 2024. Tinha um governo de maioria absoluta. Mas já não podia deixar de o fazer porque tinha dito que o fazia. Depois foi agora. Marcelo Rebelo de Sousa está cansado e percebo perfeitamente que esteja. Sobretudo, está desiludido
e desanimado. Agora, durante este ano de governo de AD, devia ter publicamente tentado fazer consenso entre o PS e a AD. Teria que garantir que o país soubesse que ele queria isso e que estava a fazer isso. Não fez nada nesse sentido. É fácil dizer ‘eles não querem’. Mas o Presidente da República, com a força que ele já teve, agora já não tem, é verdade, pode fazer essas coisas. Acho que nas presidenciais isto é muito simples: tudo indica que quem vai ser eleito é o almirante Henrique Gouveia e Melo. Não acredito que haja qualquer hipótese de outra maneira. E também não acredito que seja à primeira volta, felizmente. O grande problema aqui é saber quem é que vai à segunda volta. Lembre-se do que eu disse sobre 1986 e que citei há instantes. O futuro da política portuguesa será diferente consoante vá à segunda volta Luís Marques Mendes ou António José Seguro — não acredito que, depois do que António Vitorino viu, ele se candidate. O que desejo é que a segunda volta seja entre o almirante Gouveia Melo e António José Seguro.

Mas só por isso ou porque também não acredita nas qualidades de Luís Marques Mendes?
Não acredito nas qualidades de Luís Marques Mendes. Sinceramente. Acho que não tem as qualidades para o que deseja. Ele podia ser o melhor candidato possível, podia não ser uma espécie de Marcelo II. Marques Mendes, politicamente, e isto não é nada de ofensivo, é o que se chama o “Marcelo dos Pobres”. Tem algumas das qualidades do Marcelo, mas não as tem todas. E as que não tem fazem falta. Portanto, é o sucessor de Marcelo. Se Marcelo tivesse sido o que podia ter sido, Marques Mendes tinha condições para suceder. Assim, não acredito. Mas seja como for, um dos elementos essenciais para que o PS recupere e que o se PS transforme um partido moderado é que António José Seguro vá à segunda volta — António José Seguro é, por definição, o membro do PS mais moderado que conheci, porque foi moderado na altura em que os outros ainda não eram.

E pagou o preço do preço.
Pagou o preço. Portanto, ficaria muito mais contente do ponto de vista do sistema político que o almirante Gouveia e Melo, que acho que vai ganhar, derrotasse na segunda volta o candidato de PS. Estou a ver Marques Mendes a dizer que Gouveia e Melo é um “perigo para a democracia”. Mas não percebe que isto é uma afirmação de um homem desesperado? Gouveia e Melo pode ser um tonto, pode ser um homem que não é capaz de negociar, pode ser um homem que não aprendeu a ouvir críticas, pode ser um homem habituado a obedecer e habituado a mandar. Pode ter todos os defeitos que pode imaginar. Mas não é um perigo para a democracia.

Mas é sintoma de alguma coisa que alguém com as características de Gouveia e Melo esteja em melhores condições do que qualquer outro candidato apoiado pelos partidos?
Posso abster-me, mas não vou votar no almirante Gouveia e Melo. Pensei, ponderei, falei com ele, conheci-o, respeito-o, pareceu uma pessoa perfeitamente capaz, mas não vou votar nele. Agora, ele é, por um conjunto variado de razões, o grande vencedor destas eleições legislativas.

Há quem tenha uma tese contrária. Há quem considere este resultado do Chega como uma espécie de vacina contra futuros experimentalismos. No caso, Henrique Gouveia Melo seria um desses experimentalismos.
Desculpe rir-me. Arranjem argumentos melhores. O sinal que o país deu ao país, através das eleições, foi basicamente isto: “Isto tem de mudar”. Não estou a dizer que tenham razão. Os últimos 50 anos foram um caso de sucesso. O PSD e o PS tiveram grande sucesso a levar Portugal para a frente. E subscrevo isto a 100%. Falharam, critiquei-os muitas vezes, muitas vezes fui injustíssimo a criticar. Mas sou assim e peço desculpa e peço desculpa a sério, não é aquele pedido de desculpa de só para ‘não me lixem mais’. Mas, de facto, isto está muito melhor. A História de Portugal é uma história de sucesso, em muitos aspetos. Agora, os portugueses querem mudar e não querem ter nada a ver com os partidos. Os portugueses estão cansados. E Gouveia e Melo está a explorar a ideia do homem providencial. Tenho uma teoria. Sabe o que é que distingue os políticos magros dos gordos? E os magros são todos muito parecidos, embora ideologicamente diferentes: Salazar, Eanes, Cavaco, Passos Coelho, Gouveia e Melo… são todos muito parecidos caracterologicamente. E os portugueses gostam disso. É claro que se disser que os portugueses gostavam de Salazar, é considerado uma coisa… Mas gostavam.

Gostavam tanto que até ganhou um concurso de popularidade.
Isso aí é muita miudagem a gozar e os salazaristas. Eu fiquei em terceiro lugar a defender o homem que salvou os judeus e muitos outros na Segunda Guerra Mundial. O que quero dizer com isto é o seguinte: as condições para Gouveia e Melo são melhores do que eram se o resultado tivesse sido outro. Aliás, ninguém confunde o Gouveia e Melo com o Chega. Ou, pelo menos, Gouveia e Melo vai fazer tudo para que não seja confundido. Ouvi-o dizer que é um homem que está entre o PSD e o PS, que é o sítio onde todos estão. Isso significa alguma coisa: é onde os portugueses gostam de se ver.

E o que devemos esperar dele se for de facto eleito?
Esse é o o problema dos melões. É uma incógnita. Mas Marcelo foi para mim a grande desilusão que tive em relação ao Presidente da República. Digo sinceramente. Tinha expectativas excecionais em relação a ele.  Tinha todas as condições para isso e falhou. Não tenho nenhuma expectativa em relação a este homem, com franqueza. Logo se vê. Sampaio ultrapassou muitas expectativas que tinha dele. Ainda hoje continuo a dizer que Jorge Sampaio foi claramente o melhor presidente da III República. Tenho hoje uma visão do Eanes muito melhor do que tinha na altura. Enganei-me, errei, fui exagerado, fui excessivo, não fui independente. Fui parte do comentariado.

"Tudo indica que quem vai ser eleito é o almirante Henrique Gouveia e Melo. Não acredito que haja qualquer hipótese de outra maneira. O grande problema aqui é saber quem é que vai à segunda volta. O futuro da política portuguesa será diferente consoante vá à segunda volta Luís Marques Mendes ou António José Seguro. O que desejo é que a segunda volta seja entre o almirante Gouveia Melo e António José Seguro"

“Marcelo foi um dos piores Presidentes da III República”

Começámos este bloco de perguntas sobre Marcelo Rebelo de Sousa querer ficar na história. Como é que acha que a história o vai lembrar?
Eu não sou a história. A única coisa que posso dizer é que o que acho que a história vai lembrar. Vai lembrar várias qualidades que ele tem. A sua generosidade. A sua preocupação pelos mais desfavorecidos — a patifaria que tentaram fazer no caso dos gémeas, com a imprensa, com o comentariado, todo em cima, todo a apoiar, a dar relevo, uma coisa sem nenhuma importância… Generoso. Uma pessoa muito cordial, que gosta de ser gostado, o que é uma qualidade enorme. As pessoas que não gostam de ser gostadas, tornam-se azedas. Ele não é azedo. Fiz-lhe bastantes críticas, algumas delas duríssimas, reconheço, e sempre que me cruzei com ele, deu uma grande lição humana, tratando-me como se nada disso acontecesse. Valorizo essa qualidade. Agora, vai ficar demasiado ligado às selfies, vai ficar demasiado ligado àquilo que agora os jornalistas criticam mas divulgam: aos banhos de mar ou ao limpar-se diante das televisões… Foram as televisões que começaram essa moda. E agora todos dizem “isto é inconcebível, só se fala de voleibol”. Vi jornalistas a dizer isto… Mas não se enxergam? Bom, voltando a Marcelo. Acho que não vai ficar como uma grande figura do regime. Vai ficar ligado a alguns fracassos, a coisas que não sei se poderia ter evitado, mas não é claro que não o pudesse, demasiadas eleições, crescimento fortíssimo da extrema-direita e direita radical. Para mim, foi um dos piores Presidentes da III República. Mas admito que esteja enganado. Vamos ver.

Disse que não pretende estar mais no espaço público. Faço-lhe, portanto, esta pergunta sobre si: como é que acha que o país vai olhar para si, para a marca que deixou à direita portuguesa?
O país não vai olhar para mim, pode ter a certeza. Um colega seu, que agora está numa editora, veio-me desafiar a escrever as minhas memórias. Eu disse: “Você vai ganhar um brinde: como é o primeiro a propor, convido-o para almoçar”. Não faço memórias. Tenho a noção das coisas. Não sou um pobre homem, porque podiam pensar que estava a comparar-me ao Eça de Queiroz. Não, não, não. Este país não vai pensar em mim. Se os meus filhos, os meus netos e, se Deus me der saúde, os meus bisnetos, ainda se lembrarem de mim, já fico muito contente. Tive uma fase na minha vida que terminou. Graças a Deus, ainda estou bem da cabeça. Quero dedicar-me àquilo que foi sempre a minha profissão enquanto não houver um amigo mais corajoso que venha dizer: “Epá desiste, tu não percebes que já não estás em estado?”. Mas o espaço público acabou. Não vou dar mais entrevistas — a não ser que, a certa altura, posso ter uma fúria e, contra a minha própria vontade de ser sensato, vir dizer qualquer coisa. Mas resisti seis meses a dizer tanta coisa que me apeteceu dizer que, provavelmente, vou resistir. Portanto, a última entrevista provavelmente é consigo. Agradeço-lhe muito a sua gentileza e simpatia em ter-me convidado para isso.

E obrigado por ter vindo ao Observador.
Muito gosto. Apesar de tudo, e com os seus defeitos, que critiquei muitas vezes, o Observador ainda está entre o menos mau da comunicação social portuguesa.

Obrigado pelo elogio. Vou encará-lo assim. 

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

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