Na ciência, uma teoria é uma proposição que define as relações entre elementos de um universo; para ter validade científica, uma teoria deve ser falsificável (devemos poder criar uma teoria que seja a antítese da teoria inicial) e testável empiricamente. Isto significa que “O mel é bom” não tem utilidade teórica para a ciência, mas “Uma corrente elétrica induz um campo magnético” ou “Um campo magnético variável induz uma corrente elétrica” são proposições teóricas cientificamente válidas. As duas últimas, aliás, constituem o corpo essencial do Eletromagnetismo, a mais difícil das cadeiras de engenharia, devidamente sustentadas pelas Equações de Maxwell, que as provam.
Mas, no mundo não-científico, uma teoria é um bicho com muitas cabeças – e serve, sobretudo, para que quem afirma alguma coisa possa demonstrar a sua imensa originalidade: se eu, proponente de uma teoria, estou a afirmar algo que nunca foi afirmado, é porque eu, proponente da teoria, sou (basicamente) incrível e vi mais longe.
Que não se interprete esta introdução como uma tentativa de diminuir as teorias não-científicas – mal estaríamos se tudo fosse reduzido a ciência, isso seria um cercear absurdo e inútil da criatividade humana. Exemplificando: quando os Geese começaram a aproximar-se do mainstream, houve quem aventasse que eles eram uma produção da indústria de modo a oferecer aos membros da classe média branca algo (uma banda rock de classe média branca) que eles conhecem pelos pais e tios, mas que nunca fruíram como coisa própria. O que nos leva à primeira derivação da teoria acima descrita: os Geese são a primeira banda que a Gen Z toma, reclama, como sua.
[o álbum “Getting Killed” está disponível na íntegra no Bandcamp:]
Sobre isto (a primeira derivação, não a teoria principal) julgo que podemos estar todos de acordo: não havendo dados oficiais sobre o assunto, em princípio será pacífico afirmar que, até agora, os Gen Z — que vivem numa confusão de géneros musicais que outras gerações, mais limitadas na oferta, não conheceram – não tinham ainda adotado uma banda rock como sua. Os Geese podem não ter o número de streamings de (digamos) Bad Bunny, mas basta uma conversa com o meu filho de 16 anos para perceber que é a primeira vez que ele e os amigos apanham com uma banda rock no exato instante em que esta explode para o mainstream e todos ao mesmo tempo a celebram.
O que nos leva à primeira teoria: serão os Geese um produto da indústria para capitalizar na falta que os Gen Z eventualmente têm de bandas a que possam chamar suas? A resposta não é simples.
Os Geese não caíram do céu como um raio divino, nem explodiram no Tik Tok por um daqueles milagres inexplicáveis cujo segredo só os algoritmos das redes sociais podem explicar, nem surgiram como uma epifania criada num esgoto punk de um subúrbio industrial. Eles vêm de Manhattan, o que em termos de CV artístico é, por vezes, olhado de soslaio. O seu líder, Cameron Winter, é filho de uma escritora (Molly Roden Winter), enquanto o pai (Stewart Winter) é compositor.
Isto é, e colocando as coisas em termos não-científicos: os miúdos dos Geese (que, já agora, conseguiram, com Getting Killed, criar o mais importante disco indie-rock desde Crooked Rain, Crooked Rain, dos Pavement) vieram de escolas privadas, de apartamentos com livros, aquecimento central e pais que sabiam o que era um currículo artístico e que provavelmente nunca tiveram de escolher entre pagar a renda ou comprar uma guitarra.
E isso, pelo menos para as Pessoas Que Têm Uma Teoria, importa – e importa porque o rock sempre elegeu para heróis os desgraçados – mesmo que Lou Reed não fosse realmente um pé descalço ou Iggy Pop não fosse realmente um analfabeto. O que o rock fez foi pegar na história de alguns (por exemplo, os Ramones) e fingir que essa devia ser a história original de todos. No fundo, o rock – ou quem criou a narrativa sobre o que é aceitável no rock – resolveu propor que a miséria era pré-requisito para a genialidade, o que não é obrigatoriamente verdade.
Podemos até oferecer a visão contrária: a liberdade (coisas aparentemente menores como o tempo para criar, o dinheiro, a segurança) é muitas vezes condição essencial para produzir arte. Rilke teve quem lhe pagasse as contas; Byron nasceu rico; Stefan Zweig também. Nem todos tiveram de produzir para sobreviver, como Camilo Castelo Branco – muitos houve que usaram a sua vantagem social para criar em sossego.
Cameron Winter e companhia cresceram rodeados de referências, estímulos, concertos, discos, cultura. Não precisaram de sobreviver, é certo; puderam experimentar. E experimentar é a palavra-chave para entender os Geese: ouvimos Getting Killed com atenção e percebemos o quão as comparações com os Strokes são disparatadas. No fundo, os Strokes são os Ramones com melhores instrumentos e tempo para criar melodias; mas os Geese são garotos deixados à solta na fábrica de brinquedos e se há coisa que se nota na sua música é o prazer que têm em brincar com os ritmos, as pausas, as sequências inusitadas de acordes, as harmonias. Cada melodia em que Cameron Winter prolonga uma sílaba ou entra no tempo “errado” é uma elegia à criatividade humana.
Aventemos a seguinte possibilidade: os Geese não são são filhos da indústria, mas são filhos do privilégio. Há uma diferença, aqui: a indústria constrói bonecas; o privilégio oferece possibilidades.
Quando pensamos em como surgiu Heavy Metal, o disco a solo de Cameron Winter, a ideia de que esta gente é um produto da indústria (de certa maneira) desmorona-se: a edição do disco foi empurrada para o Natal de 2024, uma altura em que a competição era de tal monta que inevitavelmente foi soterrado pela dita. Ninguém – mas mesmo ninguém – quis saber do disco, e nessa altura os Geese já tinham música editada, da qual ninguém – mas mesmo ninguém – quis saber (A Beautiful Memory, de 2018; Projector, de 2021; 3D Country, de 2023. O que se seguiu é estranho, mas não único: o passa-a-palavra tornou Heavy Metal um daqueles álbuns de que os conhecedores falavam. Quando Trinidad, a faixa de abertura de Getting Killed saiu, meses mais tarde, foi como se a nossa fé neste rapaz tivesse sido vingada: afinal, eles eram mesmo bons.
▲ Os Geese são obcecados. Obcecados com som, com energia, com excesso, com aquela sensação elétrica de uma banda que parece prestes a implodir em palco
Rolling Stone via Getty Images
É dúbio pensar nos Geese como um produto montado num laboratório, de modo a vender T-shirts e hoodies a miúdos brancos de classe média — eles surgiram como uma explosão caótica de ideias, riffs tortos, vozes possuídas e um apetite voraz por tudo o que o rock já foi e ainda pode ser. A indústria não os inventou; a indústria seguiu-os como um predador a farejar carne fresca. E a ajudar à estranheza do fenómeno, duas gerações juntaram-se: a minha (gente entre os 40s e os 50s) que cresceu a ouvir bandas influenciadas pelas mesmas bandas que os Geese ouvem, e a do meu puto, que tem 16 anos, e cresceu a ouvir as bandas que o pai ouviu e as bandas que influenciaram as bandas que o pai ouviu.
Se os Geese são a primeira banda rock que os Gen Z tomam como sua? É muito possível. Mas também são, em simultâneo, a última banda rock que os Gen X sentem como sua – temos 50 anos, não nos resta muito tempo de vida vivida e vital: é muito possível que nunca mais venhamos a sentir a excitação que estamos a sentir agora.
A voz de Cameron Winter é uma espécie de diálogo com os fantasmas do rock: um pouco de Bowie, um pouco de Reed, um pouco de Iggy, muito Van Morrison na altura de Astral Weeks e um colapso nervoso num quarto de hotel às três da manhã. Ele não interpreta canções – encarna crises existenciais com um microfone à frente. (Digo isto admitindo que não entendo metade das letras). E isso não se fabrica. Isso nasce quando alguém que cresce a ouvir discos suficientes para perceber que a única coisa que ainda vale a pena é gritar até que a voz nos doa. Quando Cameron grita “There’s a bomb in my car” em Trinidad, não sei o que o move – mas sei que é urgente e sinto essa urgência. Nada mais importa.
Tudo OK, são miúdos privilegiados. Isso não é um problema: se alguém tem um privilégio e o usa para criar algo belo, então parabéns. O problema é se quem não tem privilégio consegue criar – e é sobre isso que temos de pensar.
E, sim, são brancos. E, sim, vêm de um mundo onde o fracasso artístico raramente significa fome. Mas o rock não é uma olimpíada da miséria – é uma olimpíada da obsessão. E os Geese são obcecados. Obcecados com som, com energia, com excesso, com aquela sensação elétrica de uma banda que parece prestes a implodir em palco.
São uma invenção da indústria? Não sei. Mas sei que são uma invenção da fome criativa. Daquela voragem de criar alguma coisa que ainda não tem nome nem rótulo. A indústria pode ter-lhes dado um megafone – mas só depois de eles já estarem a gritar e, acima de tudo, depois de eles já estarem a ser ouvidos.
E talvez por isso sejam a primeira banda que a Gen Z sente como “sua”. Não porque sejam perfeitos, mas porque são estranhos, intensos, exagerados, dramáticos, confusos – como todas as gerações. A ansiedade dos Geese faz todo o sentido no contexto a que chamamos rock: eles soam como o mais estranho feed do TikTok transformado em guitarra com pedais adjacentes.
O que nos leva à seguinte proposição: não me parece que Cameron Winter cante para agradar; não entendendo eu metade do que ele canta (até porque neste momento há uma bomba no meu carro), eu diria, por instinto, que ele canta para sobreviver emocionalmente, mesmo que eu não saiba ao quê. Talvez isso ressoe numa geração que cresceu entre crises climáticas, colapsos económicos, genocídios, populistas e timelines infinitas. Cameron é teatral, exagerado, quase caricatural – mas acreditamos nele e nunca o tomamos por falso. O rock sempre foi um teatro de excessos, uma ópera para amplificadores, e é nessa exata declaração de variáveis que a proposição dele se torna eficaz.
E sim, se calhar o indie rock está a voltar ao mainstream, com a brutalidade de quem quer ocupar espaço: os Geese, os Wednesday, os Turnstile — sendo que os Turnstile já vão a meio dos trinta e têm dez anos de carreira. Cada um à sua maneira trouxe o barulho de volta para o centro da sala, no lugar que antes era ocupado pelo avô – ou pelo r’n’b. São bandas que exigem atenção como um acidente de carro filmado em câmara lenta.
Os Wednesday trouxeram a melancolia do sul dos EUA, as vidas falhadas, a desesperança, a distorção emocional, a country ferida. Os Turnstile vieram com a violência luminosa do hardcore. E os Geese oferecem-nos uma espécie de caos intelectualizado: riffs que parecem errados até se tornarem inevitáveis.
[os Geese ao vivo na série “From The Basement”:]
Talvez estejamos perante uma pequena mudança de paradigma, em que a música já não é – como foi durante a hegemonia do r’n’b ou do reggaeton – sobre polimento, mas antes sobre intensidade. Já não é sobre perfeição; é sobre presença. Estas bandas não pedem licença: arrombam a porta e os teus sentimentos que se fodam. Faz sentido, na era do ICE.
Que mais não seja, os Geese, os Wednesday, os Turnstile, relembram-nos que que o rock nunca foi sobre humildade – foi sempre sobre excesso. Foi sempre sobre ego. Foi sempre sobre querer ser ouvido numa sala cheia de ruído. Ser a voz mais alta no meio de uma multidão aos berros. Cameron Winter não pede desculpa por ocupar espaço – ele exige-o e merece-o. E isso é profundamente rock’n’roll.
Os Geese são privilegiados? Provavelmente, sim. São produtos da indústria? Desconfio que não. Representam uma demografia da juventude que não quer mais sons neutros, nem emoções filtradas, nem artistas domesticados. Quer barulho. Quer drama. Quer canções que soem como colapsos emocionais com guitarras.
O indie rock não morreu. Apenas ficou em coma durante uns anos enquanto o mundo se afogava em playlists algorítmicas e pop pasteurizada. Agora voltou com cicatrizes, com raiva, com fome. Voltou com bandas que soam como se ainda acreditassem que a música pode ser perigosa.
E os Geese soam como se quisessem incendiar a própria reputação, antes que alguém os transforme num produto inofensivo. Soam como uma banda que sabe que o rock só é interessante quando recusa rédeas e arreios.
Cameron Winter não é um herói. É um catalisador, uma enzima, um condutor de energia, um tipo que percebeu que, num mundo saturado de imagens, a única forma de ser visto é ser excessivo, estranho, intenso, quase ridículo – mas sempre honesto no seu ridículo. E isso, meus amigos, isso é a matéria de que o melhor rock’n’roll sempre foi feito.