A história do politicamente correto: estou certo ou estou errado?

Dos dilemas democráticos às questões fraturantes que surgem numa viagem de transportes públicos, o que a maioria considera certo pode ser errado. É uma história antiga e Carlos Maria Bobone recorda-a.

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Uma genealogia perfeita da ideia de politicamente correto teria de abarcar quase toda a produção teórica do mundo, da inviolabilidade da consciência em S. Paulo aos combates contra o racismo no século XX. Alguns historiadores mais sensatos começaram, portanto, a fazer História das Ideias apenas a partir do batismo. Só a partir do momento em que tivesse nome, em que fosse realmente conhecido como “politicamente correto”, é que devia ser estudado enquanto tal.

Ora, acontece que o politicamente correto é uma ideia reativa e portanto não pode ser estudado a partir do momento em que Bill Lind e outros comentadores começaram a usar a expressão para depreciar a linguagem dessorada da contemporaneidade. Não foi nenhum pensador que, encantado com a sua linguagem diplomática, a decidiu condecorar com tão pomposo nome; a expressão é usada como crítica e por isso, logicamente, é posterior ao fenómeno que motiva a crítica.

Não nos interessa, portanto, perceber quando é que se começou a chamar politicamente correto ao modo de falar cuidadoso, idealmente neutro e inclusivo – isso seria como querer biografar um herói apenas a partir do seu elogio fúnebre, ou decretar o princípio da História no princípio da escrita sobre ela; interessa-nos perceber porque é que as pessoas sentiram a necessidade de rombar a língua para não ferir ninguém. E, por muitos ramos que pudéssemos puxar da árvore genealógica, há dois que nos parecem especialmente importantes.

O barroco da democracia

O politicamente correto é o barroco natural da democracia. A forma eleitoral, já de si, beneficia este tipo de discurso. Mesmo que um certo exagero acabe por favorecer a posição contrária, a tendência democrática é a da junção do maior número possível de apoiantes. O discurso é, assim, pensado para alienar o menor número de votantes que se conseguir.

O partidarismo teórico, a apresentação de alternativas ideológicas em concurso para método de governo, esbarram com a realidade. A existência de uma definição ideológica exclui tudo o que lhe escapa, de tal forma que todos os partidos com verdadeira ambição de governar querem ser – e fazem mesmo gala disso – pouco ideológicos.

Percebe-se: a definição faz-se por exclusão, separa um ponto de todo o resto. A definição de Homem implica que todas as plantas, animais, rochas e planetas não são também Homens. Um sistema alicerçado na escolha da maioria não pode, por conseguinte, esperar daqueles que o querem dominar grandes definições: estas são, por regra, minoritárias.

Seria errado, porém, olhar para o politicamente correto apenas como um cinismo de cúpula, arma escondida de políticos interesseiros. Isto porque o politicamente correto entra no próprio espírito fundador da democracia. 

O discurso político democrático é, assim, feito de tal modo que não se possa identificar com nada mas também nada exclua. Especializou-se nas formas neutras, no assentimento comum e nos sentimentos vagos que constituem a primeira fase da linguagem politicamente correta.

Seria errado, porém, olhar para o politicamente correto apenas como um cinismo de cúpula, arma escondida de políticos interesseiros. Isto porque o politicamente correto entra no próprio espírito fundador da democracia. A democracia é o sistema que não reconhece certezas: se houvesse uma forma certa e conhecida de governar, não haveria plebiscito nem alternância.

Não há democracia a respeito daquilo que é certo – o nome de uma pessoa, a sua idade, etc. Ora, este reconhecimento do mesmo estatuto de cada opinião — nenhuma é certa – é a pedra basilar e a única certeza democrática. Para o democrata é mais importante a ideia de que nenhuma opinião é certa do que a sua própria opinião.

O espírito dominante da democracia é, como diziam os iluministas, o espírito da tolerância. A tolerância é a verdadeira ideia, a única superior, da democracia. É mais importante o respeito pelas ideias dos outros do que as nossas ideias. A ideia – ou mais propriamente a não ideia – de tolerância torna-se assim a força motriz de uma linguagem que lhe corresponde. Que não consiste em afirmar nada senão a não ofensa.

Escusado será dizer que a linguagem é um exemplo acabado do problema da tolerância. Com a superioridade deste princípio, a preocupação em que todos possam dizer o que querem torna-se facilmente uma forma de ninguém poder dizer nada. Qualquer opinião que não seja uma forma mais ou menos elaborada do princípio de que todos as devem ter colide com alguém.

A linguagem neutra, não ofensiva de minoria nenhuma – sejam elas desfavorecidas ou não – é uma consequência do princípio da tolerância na sua forma paradoxal: para que todos possam dizer o que querem, ninguém pode afirmar verdadeiramente alguma coisa.

A linguagem neutra, não ofensiva de minoria nenhuma – sejam elas desfavorecidas ou não – é uma consequência do princípio da tolerância na sua forma paradoxal: para que todos possam dizer o que querem, ninguém pode afirmar verdadeiramente alguma coisa.

Esta parece-nos, assim, a principal característica da linguagem politicamente correta: mais do que uma ou outra palavra mais agressiva que a boa educação mandasse conter, o politicamente correto é uma linguagem de fundo cuja principal característica é a demissão da afirmação. É a linguagem vaga, consensual, que matiza a opinião.

Claro que se pode ser assanhado na defesa do politicamente correto: isto, porém, não significa verdadeiramente ter uma opinião. Há quem perca as estribeiras pelos direitos de uns ou outros, mas de uma forma que não é realmente afirmativa.

Na defesa politicamente correta a homossexualidade é um direito, não um benefício, o aborto não é bom, é apenas uma escolha. O politicamente correto enquanto opinião consiste, assim, no direito a tê-las no maior grau e no máximo número possível, não numa verdadeira defesa das coisas.

O politicamente correto ativo

Esta é a primeira, e mais natural, forma de politicamente correto, decantada do iluminismo. Há outra forma, porém, mais complexa e mais interessante, que se tem instalado nas consciências de uma forma mais curiosa.

A linguagem sempre foi uma das questões mais excitantes para o estruturalismo. Por muito que Foucault tenha estudado a loucura e o crime, por mais que Barthes se tenha entretido com lutadores de Wrestling e câmaras fotográficas, por mais que Lévi-Strauss as tenha procurado no parentesco das sociedades primitivas, nada expressa tão bem as premissas do estruturalismo como a gramática e a semântica.

Foucault, logo em As Palavras e as Coisas, procura mostrar através de Port-Royal a forma como a gramática espelha a filosofia de um tempo; Barthes, porém, vai mais longe. A língua é o exemplo perfeito de uma estrutura oculta, antiga e duradoura, como já o mostrara Saussure, que molda o pensamento.

O Homem não se apercebe de que pensa nos moldes que o campo epistemológico da língua lhe oferece, que é impossível pensar completamente no abstrato, sem o auxílio da língua, e que esta tem um peso muito superior ao indivíduo e burila o seu modo de olhar para as coisas.

É curioso que, depois de todos os desentendimentos entre a escola de Sartre e Beauvoir e a escola Foucault, os seus pontos de vista casem tão bem no modo de olhar para a língua. Os estruturalistas sempre criticaram em Sartre e Beauvoir a excessiva fé no indivíduo, a crença no poder da vontade, no para-si, e a ideia de que o Homem é capaz de se libertar das condições sociais ou biológicas para criar a sua própria identidade. A forma ideológica de olharem para a língua, no entanto, acaba por redundar em algo semelhante.

É natural, assim, que a linguagem seja rígida, preconceituosa (funciona sempre a partir de generalizações) e resistente à mudança. A língua absorve aquilo que é novo e assemelha-o ao já conhecido.

A língua, para Barthes, expressa e determina um modo de pensar estruturalmente reacionário. Como explica Umberto Eco na sua Obra Aberta, a língua, enquanto forma de comunicação, procura sempre aquilo que há de comum, de conhecido, em detrimento da novidade.

É o paradoxo da linguagem: a informação, para ser dada, nunca pode ser completamente nova, tem de adaptar-se a signos já conhecidos, perder alguma originalidade para caber em conhecimentos comuns. Quanto mais conhecida, melhor é percebida, quanto menos novidade tem, mais próxima está de ser compreendida.

É natural, assim, que a linguagem seja rígida, preconceituosa (funciona sempre a partir de generalizações) e resistente à mudança. A língua absorve aquilo que é novo e assemelha-o ao já conhecido. Para Barthes, então, como para Eco, a língua é íntima e estruturalmente reacionária e influencia o nosso modo de olhar para o mundo. Todo o progresso, todo o novo, toda a diferença, encontram uma forte resistência logo na linguagem.

Contrariamente às ideias da esquerda tradicional há, para os mais famosos estruturalistas, uma ideia de natureza que é superior ao Homem e favorece um modo de ver preconceituoso. A linguagem é anterior ao indivíduo, define-o e dá-lhe uma natureza reacionária.

O conservadorismo já não é apenas obra de uns poucos Homens hábeis e manipuladores: é uma tendência fortíssima e comum, uma espécie de patologia Humana, provocada por estruturas discretas e difíceis de destruir, que deve ser combatida. A linguagem deixa de ser apenas um correlato de um modo de pensar ou uma manha de político – é uma condição do modo de pensar e que, para mais, inclina o pensamento para o lado errado.

A libertação do modo de pensar sugerido pela linguagem exige, assim, uma verdadeira ascese e um esforço constante, já não apenas neutral, mas de verdadeira oposição ao modo natural de falar. Já não é apenas o pensamento errado que leva a linguagem errada, o preconceito que leva às expressões preconceituosas; a questão da linguagem é especialmente importante porque a língua procura naturalmente expressões preconceituosas que moldam opiniões preconceituosas.

Ninguém, mesmo entre os batedores do politicamente correto, contesta a naturalidade e a inocência de certas expressões. Contesta, isso sim, a validade da natureza e a bondade desta inocência.

O politicamente correto há de nos parecer sempre minoritário e excessivamente agarrado a padas escolásticas por isso mesmo: minoritário porque o esforço de correção é contrário ao modo natural de falar, excessivo porque acredita que as fórmulas expressivas resultam em opiniões. Ninguém, mesmo entre os batedores do politicamente correto, contesta a naturalidade e a inocência de certas expressões. Contesta, isso sim, a validade da natureza e a bondade desta inocência.

Ora, o que parece estranho é que, sem o argumento da naturalidade, não há verdadeiro critério para definir a bondade da Natureza. Na tese de Beauvoir sempre havia este escudo – um património natural do eu, superior à biologia e ao subconsciente, que se deveria emancipar; o estruturalismo transformou a linguagem numa versão atualizada da luta de classes, com a língua como exploradora, mas sem definir verdadeiramente os termos da sua opressão. Mais, ao fazer da língua a estrutura dominante, pôs o Homem na mesma posição que criticava em Sartre: a de um Hércules que pode escapar sozinho à monumental força da natureza.

O politicamente correto e os seus críticos

Os críticos do politicamente correto têm transformado a questão num jogo de boas-maneiras, centrado nos excessos e nas loucuras passageiras. É óbvio que Mark Twain é estudado por escrever bem e não por escrever como um racista. Por muito capcioso que seja, a tese contrária suportada no mesmo argumento – não é por ser racista que escreve bem, nem o racismo tem importância para a sua literatura, pelo que se pode substituir sem dolo da obra a palavra “nigger” por “black” –, por muito destemperadas que sejam algumas das investidas sanatórias, aplica-se também aqui o princípio de Carl Schmitt: nenhuma vida é unidimensional, nenhum Homem é só racista ou só preconceituoso.

A dimensão capaz de provocar guerra, de recalcar todas as outras, é a dimensão política, aquela que verdadeiramente domina. O facto de ponderarmos rasurar obras históricas em nome de sensibilidades identitárias mostra, então, duas coisas: que estas se converteram no ponto cardeal da política moderna e que a linguagem não deve ser tomada apenas como um entretém de alguns maníacos.

A primeira preocupação é a da linguagem e ela tem sempre uma filosofia por detrás; não é preciso ler nenhuma distopia das mais conhecidas para saber que é desta guerra que sai a nota dominante do nosso futuro enquanto sociedade.

Carlos Maria Bobone é licenciado em Filosofia. Colabora no site Velho Critério.

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