A mãe desatenta, a preocupação doentia com as doenças e o divórcio de Francisco: pré-publicação da primeira biografia de Sophia /premium

04 Maio 20192.522

Os primeiros anos na casa de família, o casamento e os filhos. A poesia, a política, o reconhecimento e a morte. O Observador faz a pré-publicação de "Sophia de Mello Breyner Andresen" de Isabel Nery.

Na introdução do livro, Isabel Nery explica que escreveu a primeira biografia de Sophia de Mello Breyner Andresen “através de muitas entrevistas, mas também da consulta de arquivos em Portugal, na Dinamarca e na Alemanha, além de dezenas de livros, páginas de jornais, artigos científicos, teses, filmes e documentários”. É a primeira biografia porque, como Eduardo Lourenço terá dito à autora, “o estatuto social [de Sophia] não era de grande proximidade”.

O objetivo desta biografia, explica Isabel Nery, é o de deixar em papel a vida de uma das figuras mais importantes da cultura e da história portuguesas do século XX. Ao mesmo tempo, é viajar pela evolução do país, de um Portugal que recebeu imigrantes, que viu mudar as suas cidades, que se transfigurou à medida das vontades políticas e que teve sempre espelho maior na literatura, aqui especificamente na poesia.

O Observador faz a pré-publicação de “Sophia”, no ano de comemorações do 100.º aniversário, revelando excertos de diferentes capítulos, ou seja, recuperando momentos distintos da vida da poeta, do nascimento, em 1919, à morte, em 2004. O livro é publicado a 7 de maio.

“Sophia de Mello Breyner Andresen”, de Isabel Nery (A Esfera dos Livros)

O nascimento

Tal como a morte, o nascimento não se adia, nem se atrapalha com momentos históricos mais ou menos atribulados. Simplesmente acontece. E a Sophia aconteceu-lhe às 11 horas e 20 minutos do dia 6 de novembro de 1919, em casa dos pais, na Rua António Cardoso, nº 170, no Porto.

Nesse mesmo 6 de novembro de 1919, Tomás de Mello Breyner deixa Lisboa às 8 e meia para apanhar o comboio rápido – que levava oito horas a chegar – até ao Porto. É na estação de São Bento, onde aporta às 4 horas da tarde, que recebe a notícia do nascimento: «Soube que a minha rica filha Maria Amélia tinha tido uma rapariga, às 11h. De manhã e com toda a felicidade.»

À hora a que Sophia nasceu, o avô Tomás viajava no comboio de Lisboa para o Porto e o pai preparava-se para erguer perante a matilha dos seus cães de caça a primeira filha. Sem mais delongas, e apesar do frio agreste de um novembro no Norte do país, João Henrique Andresen entendeu urgente levar a recém-nascida ao alpendre para a apresentar ao universo. Talvez um momento premonitório da relação quase mística que a poeta viria a acalentar com a natureza, uma constante na sua obra e um traço marcante da sua personalidade.

Apesar do frio agreste de um novembro no Norte do país, João Henrique Andresen entendeu urgente levar a recém-nascida ao alpendre para a apresentar ao universo. Talvez um momento premonitório da relação quase mística que a poeta viria a acalentar com a natureza.

Agasalhado por mantas, o novo ente inalou o ar inaugural a partir do topo da escadaria de pedra, enquanto o terceiro Andresen em Portugal o anunciava à matilha com que perseguia as presas a abater, a mesma que, dali a trinta anos, o veria morrer durante uma caçada. Diz-se que os cães ganiram à presença da neófita. Mas o resgate veio pronto, que travar conhecimento com o mundo num dia de inverno, quando nem ainda se tinham descoberto os milagres da penicilina, era ato de loucura punível com risco de morte.

Para a embalar no novo mundo, que tanto lhe daria o prazer e a inquietude de observar, Sophia tinha à sua espera o berço de madeira nórdica, escura, maciça, com um metro por 40 centímetros. O sono inicial seria suportado por pequenas rodas douradas e encimado por uma fina cabeça de cegonha. No bico, pontiagudo e longo, sustentava-se o véu branco que protegia a bisneta do comerciante dinamarquês. A peça, mandada fazer por João Henrique no Norte da Europa, especialmente para receber Sophia, embalaria os pequenos Andresen nascidos em solo nacional, e continuaria a ser usada por várias gerações.

Logo a 11 de novembro o jornal A Monarquia tornava público o acontecimento: «Deu, na sua casa do Porto, à luz uma menina a sra. D. Maria de Mello Breyner Andresen, esposa do sr. João Andresen. Mãe e filha encontram-se bem.»

Era um bairro de família. Os primos saltavam os muros para irem a casa uns dos outros, assustando os animais no galinheiro ou acariciando os cães de caça de João Andresen, guardados nos canis. Todos juntos chegavam para enfurecer o jardineiro Martinho e a percetora Clara Branca das Neves, que tomava conta das crianças com mão pesada.

Embora extremamente atento à vida política (de tal forma que os seus diários são hoje considerados registos históricos), a ocasião era bom pretexto para Tomás de Mello Breyner fazer um interregno nas – justificadas – apoquentações com a situação do país. Afinal, tratava-se do nascimento da descendente que tanta «ternura» lhe fazia, primeira filha da sua querida Mary.

Emocionado, e inquieto por conhecer a quarta neta, o médico vai direto para casa de Maria Amélia. «Eram cinco horas quando beijei a querida filha e a querida neta. Às 7 apareceu o médico parteiro, Dr. Alberto Gonçalves, que é simpático e pareceu sabedor.» É também pelo avô que ficamos a saber quem foram as primeiras pessoas a conhecer a futura poeta: a bisavó Frau Lehman, a avó D. Joana Andresen e várias tias. Nos dias que se seguem, a bebé terá cólicas, como todos os recém-nascidos, e a mãe febre, como a maior parte das mulheres, com a subida do leite. Rapidamente recupera e quatro dias depois do parto Maria Amélia come já com vontade a sua costeleta.

Rendido ao amor pela mais nova Mello Breyner – «Estive muito tempo com a rica neta ao colo. Querida e que amor ela é! Que ternura me faz!» –, o avô Tomás aproveita os dias passados no Porto para convidar Alfredo Viana, grande amigo dos Andresen, para padrinho de Sophia.

Mas não só: dava consultas a quem o procurasse em casa da filha, assistia aos atendimentos dos colegas de Dermatologia no Hospital de Santo António, no Porto, e visitava presas da Cadeia da Relação, sem deixar de notar os problemas de higiene do estabelecimento prisional. Três dias antes do batizado, o avô Mello Breyner e o coronel de Artilharia António Bernardo Ferreira são testemunhas no registo civil, na Restauração, de que a recém-nascida «se ficou chamando Sophia».

O batismo, católico, apesar da educação protestante do pai, aconteceu num dia lindo, mas frio, em que os termómetros registavam zero graus, às três da tarde de 16 de novembro. Como madrinha, a avó materna, Sophia Burnay de Mello Breyner, e como padrinho Alfredo Viana, amigo do pai, João Henrique Andresen.

A vida na casa Andresen

A rua onde cresceu era essencialmente habitada por Andresens. No número 170 Sophia e os pais, na casa geminada Olga Andresen, um pouco à frente a pintora naturalista Teodora Andresen. Quando, mais tarde, se inaugurou o elétrico, o pavimento resumiu-se ao espaço entre os dois carris, por isso o trajeto principal continuou a ser de terra. Todas as noites vinha um funcionário acender as lâmpadas da António Cardoso, uma por uma.

Era um bairro de família. Os primos saltavam os muros para irem a casa uns dos outros, assustando os animais no galinheiro ou acariciando os cães de caça de João Andresen, guardados nos canis. Todos juntos chegavam para enfurecer o jardineiro Martinho e a precetora Clara Branca das Neves, que tomava conta das crianças com mão pesada.

Um dia, toda a rua acorreu ao som dos gritos da criada, depois de uma tromba de água preta lhe ter caído pela chaminé da cozinha quando o pai de Sophia resolveu tentar apagar um fogo disparando tiros de caçadeira. O plano, arrojado e algo fracassado, era libertar a fuligem e com ela extinguir as chamas.

Ao contrário de Sophia, Ruben A., o primo que nasceu apenas seis meses depois da poeta, em maio de 1920, viveu vários anos na Casa Andresen. O edifício imponente, os jardins e os mundos que deles brotavam não só o inspiraram, como justificaram muitas das páginas dos seus diários, publicados na década de 1960 e hoje edições difíceis de encontrar.

Neles, o escritor demora-se na descrição da quinta que «começava ao fim da subida que vem de Vilar, dando como marco a casa dos Jennings; transformava‐se em planalto acompanhando a margem direita do Douro e indo morrer na descida da Quinta e da Rua do Campo Alegre que vai calmamente desembocar na Igreja de Lordelo do Ouro». Do outro lado, o clube dos ingleses, campos de râguebi, críquete e ténis. Em frente da propriedade, a «rua em forma de corda bamba, com árvores frondosas de ambos os lados e lá ao fundo, a linha do elétrico que nos levava para a cidade ou para a Foz, conforme íamos a trabalho ou ver o mar».

Mais do que uma habitação, o palacete, como lhe chamavam as padeiras, foi mandado construir no século XVIII por João da Silva Monteiro, que não chegou a habitá-lo. O avô de Sophia ordena profundas remodelações, «decerto com dinheiros vindos do Brasil», antes de se tornar o segundo e último proprietário da enorme quinta, onde não faltava o court de ténis, um dos espaços preferidos para receber convidados e fechar negócios.

[…]

Se o avô de Sophia transformou a Casa Andresen num edifício icónico, é a avó Joana Henriqueta Lehman, que havia recebido formação artística na Alemanha, onde crescera, apaixonada por flores e jardins à inglesa, a desenhar o roseiral e a empenhar‐se em trazer para a quinta novidades botânicas de toda a Europa: túlipas da Holanda, junquilhos e lírios de Inglaterra, japoneiras, avencas e até morangos, que chegam a merecer fama. Ou espargos, servidos nos jantares que o casal tanto gostava de dar.

Nas palavras de Ruben A., a mata, o souto de castanheiros, os altos muros de camélias, os milheirais em vários andares e as rosas encarnado escuro, que Sophia colhia quase todos os dias em casa da avó, fizeram deste o jardim mais impressionante acima do Mondego.

A mata, o souto de castanheiros, os altos muros de camélias, os milheirais em vários andares e as rosas encarnado escuro, que Sophia colhia quase todos os dias em casa da avó, fizeram deste o jardim mais impressionante acima do Mondego.

O apogeu da Quinta do Campo Alegre correspondeu ao enriquecimento da família; a venda da propriedade, ao seu declínio. Para muitos dos familiares, a culpa da ruína foi do segundo marido da avó Lehman, viúva aos 36 anos. De tal maneira odiado pelas crianças, Severiano José da Silva ficou conhecido por Belzebu, e terá contribuído para a falência dos Andresen. No entanto, a crise do comércio da borracha, que se tinha tornado um dos principais negócios da família, dona de frotas de navios na Amazónia, terá também contribuído para o delapidar da fortuna iniciada por Jan Hinrich Andresen.

O mundo mágico do Campo Alegre não era perturbado pela instabilidade política do país, que teimava em não sarar. Durante a infância de Sophia, os governos caem a um ritmo pouco mais do que mensal e as ditaduras tornam-se a mancha prevalecente em boa parte da Europa. Primeiro o fascismo italiano, em 1922, depois o Estado Novo português em 1926, para longos 48 anos de vida que Sophia ajudará a extinguir.

A Granja da Casa Branca e dos primeiros poemas

A pequena Andresen vai inaugurar o Colégio Sagrado Coração de Jesus, no número 1354 da Avenida da Boavista, onde gostou «imensíssimo» de estudar e foi das melhores da escola. Via-se a si própria como uma boa aluna, embora inibida e, sobretudo, distraída. Corriqueiro era apontarem-lhe cadernos que não estavam em dia e fardas sem o aprumo para que foram concebidas, além de golas perdidas.

No Sagrado Coração, a futura poeta foi a criança que talvez nunca devêssemos deixar de ser. Chegava muitas vezes atrasada – traço que se manteve toda a vida –, descia pelo corrimão e fazia asneiras que lhe valiam alcunhas. Um dia, numa brincadeira de garotas, mete a cabeça debaixo da torneira e sai da casa de banho com o cabelo a pingar. De então em diante passa a ser conhecida por Bocage, poeta que aparecia numa foto do livro de leitura em figura similar.

[…]

A transmissão oral dos versos, mesmo antes de saber ler, levaria Sophia a afirmar ter crescido a acreditar que a poesia tinha existência própria, depois de um primeiro contacto com as palavras de Antero de Quental e de Camões que o avô Tomás de Mello Breyner lhe ensinava. E que a pequena Sophia não compreendia ainda, mas reconhecia.

Chegava muitas vezes atrasada – traço que se manteve toda a vida –, descia pelo corrimão e fazia asneiras que lhe valiam alcunhas. Um dia, numa brincadeira de garotas, mete a cabeça debaixo da torneira e sai da casa de banho com o cabelo a pingar. De então em diante passa a ser conhecida por Bocage, poeta que aparecia numa foto do livro de leitura em figura similar.

Embora tivesse a preocupação de evitar a discriminação dos outros netos relativamente a Sophia, o avô Tomás, que recebia a visita da neta em Lisboa e ia sempre vê-la ao Porto por altura do aniversário, em novembro, também não conseguia deixar de registar as especificidades da pequena. «Admirável na maneira como recita.» Um «assombro.» Depois de anotar no seu diário como Sophia tinha passado no exame da escola com distinção, Mello Breyner volta a espantar-se com a queda da criança para as letras: «Quando há dias estive no Porto vi-a decorar um soneto de Antero de Quental depois de o ouvir apenas três vezes. Que encanto de pequena!» Com apenas dez anos, Sophia passeava-se com uma edição de Os Lusíadas na algibeira e já fazia furor perante as visitas, que ficavam «de boca aberta» quando a ouviam recitar.

É, portanto, desde muito pequena que Sophia começa a treinar a sua arte de dizer (mesmo antes de escrever) poesia.

Durante o ano, a família Andresen vivia paredes-meias entre a Rua António Cardoso e a Quinta Grande. Nas férias, rumava à Granja.

Na infância e juventude de Sophia, o mundo à parte que era a Casa Andresen e o Campo Alegre mudava-se para o outro mundo à parte que era a Granja, para muitos a praia mais aristocrática do país.

Terra de veraneio de duques, duquesas e empresários, a quinta albergava patrícios como os Burnay ou os Cálem, e escritores como Eça de Queirós ou Ramalho Ortigão. Depois de receber a visita do rei D. Luís I, em 1869, é a famosa figura da Geração de 70 que tece os mais rasgados elogios ao clube de férias nascido graças à veia empreendedora de Frutuoso Ayres, decidido a transformar a quinta que fora de frades agostinianos em «estancia de repouso ou regalo». Em 1876, Ortigão dedica sete páginas do livro As praias de Portugal ao areal eleito por boa parte da elite portuguesa da época, numa altura em que só os muito endinheirados faziam férias junto ao mar. «A Granja é uma povoação diamante, uma estação bijou, uma praia de algibeira. Ao chegar tem a gente vontade de a examinar ao microscópio; ao partir apetece levá-la na mala, entre as camisas, como um sachet.»

Tareco e Xixa, o início

Sophia abandona o curso [estava inscrita nas cadeiras de cadeiras de Curso Elementar de Grego, Língua e Literatura Latina, História de Portugal, História da Antiguidade Oriental e História da Antiguidade Clássica], ao que tudo indica sem chegar a concluir qualquer cadeira, logo no ano seguinte ao ingresso, em 1938. Não sendo obrigatório apresentar nenhum documento para desistir da licenciatura, importa notar que o último documento sobre Sophia no processo do aluno, arquivado na Universidade de Lisboa, data de 25 de novembro de 1938, indicando que nada mais houve a registar depois dessa data.

Longe dos estudos na capital, tinha agora oportunidade de viver apenas entre ela própria e a palavra. A poesia já a rondava desde criança, instalada sob a forma de projeto de vida. Busca. Salvação. «Comecei a escrever aos 12 anos. Depois aos 14 escrevi mais. Entre os 16 e os 23 escrevi mais do que em todo o resto da minha vida», dirá em entrevista a José Carlos Vasconcelos.

Sete anos depois de abandonar a universidade lança o primeiro livro, Poesia, até hoje considerado obra essencial da autora. Fez-se uma edição de 300 exemplares,19 patrocinada pelo pai, que, mais tarde, se confessará espantado ao receber os cheques da editora compensando a despesa. Reaver o investimento não estava nos planos de quem ouvia da mulher: «Se ela é poeta, a culpa é tua.»

Sete anos depois de abandonar a universidade lança o primeiro livro, Poesia, até hoje considerado obra essencial da autora. Fez-se uma edição de 300 exemplares, patrocinada pelo pai, que, mais tarde, se confessará espantado ao receber os cheques da editora compensando a despesa. Reaver o investimento não estava nos planos de quem ouvia da mulher: «Se ela é poeta, a culpa é tua.»

A capa de “Poesia” na edição da Assírio & Alvim

Porém, o apoio revelar-se-ia premonitório. A filha, que parecia viver nas nuvens, ao ponto de os pais discutirem sobre a responsabilidade dolosa da inclinação para tal arte, tinha encontrado como materializar o voo dos seus pensamentos.

Sobre a edição de estreia, Poesia, a mãe, Maria de Mello Breyner Andresen, escreve-lhe uma carta. Ainda a habituar-se à ideia de ter uma filha poeta, dá-lhe os parabéns pelo novíssimo exemplar «tão lindo», que não só leu e releu, como dormiu «com o livrinho debaixo do travesseiro». Na missiva que lhe deixa acrescenta ainda que a estreia literária comoveu os avós e os tios, que lhe dão os parabéns. E despede-se: «Da sua mãe do coração.»

A poesia será também pretexto para a vivência do amor. Depois de se conhecerem na Granja, e namorarem em Lisboa, onde ambos estudavam, a relação apaixonada com a palavra que já partilhavam leva Francisco Sousa Tavares a escrever a primeira recensão à obra da poeta.

Uma crítica do futuro marido e pai dos cinco filhos que podia ser ela mesma um ensaio sobre esse dom do verbo que só uns raros bafeja: «Nunca se definiu, nem definirá poesia. A poesia é, vive ou paira, existe ou não existe. E acompanha a vida. É talvez um acréscimo de vida como toda a arte. Uma maneira íntima de adivinhar as coisas, de fundir o ritmo do mundo com o ritmo da nossa alma, numa pura e estranha intuição da verdade.»

Tal como Sophia, também Francisco via nesse modo de escrita e na ética uma ligação simbiótica. «Todo o mundo é poético quando visto em verdade. Todas as coisas são maravilhosas quando as compreendemos. E a poesia limita-se afinal a iluminar a verdade, a beleza secreta que há em tudo aquilo que existe.»

Seriam ainda precisas quase duas décadas para a ditadura cair, mas Sophia nunca mais deixaria de lutar pela mudança – pela liberdade. O Centro Nacional de Cultura (CNC), criado por um grupo de jovens católicos em 1945, é presidido pelo marido, Francisco Sousa Tavares, desde 1957, tornando-se uma sede de oposição ao regime.

Sophia de Mello Breyner surge a Sousa Tavares como aquele autor raro que é simplesmente poesia, que diz humildemente o que sentiu quando um dia lhe aconteceu a vida. «Alguém que não quis fazer versos; mas que precisou de dizer as visões maravilhosas que trazia, o entendimento misterioso do universo que nela cantava num ritmo intenso.» O futuro marido recorre a uma das palavras preferidas da poeta para descrever a sua escrita «duma pureza inexcedível», sem teorias, nem gestos inúteis. «É uma intenção, uma revelação de beleza. Sofia Andresen escreveu o seu mundo e o mundo que lhe entrou pelos olhos extasiados, tudo fundido naquele ritmo de música e dança, de harmonia clara que é para ela uma exigência e um estilo.»

As mãos horrorosas dos fascistas

Apesar da popularidade das histórias para crianças, sistematicamente reimpressas nos últimos 60 anos, algumas a somar dezenas de edições, Sophia identificou-se sempre como essencialmente poeta. Não porque escrevia versos, mas porque queria assumir a responsabilidade de estar no mundo. A obra que vai acrescentar à sua poesia o carimbo do ativismo político é Mar Novo. Se imaginarmos possível indicar num calendário a data de entrada de Sophia na oposição ao regime ditatorial, seria 1958, ano da publicação desse livro. De então em diante, a poeta assume a rutura. Sem retorno.

“Mar Novo”

O contexto político, com greves, contestações e conspirações, geralmente pouco eficazes, mas debilitantes do regime, era já promotor de reacção, quando um acontecimento familiar alimenta em Sophia uma consciência acrescida das injustiças e arbitrariedades da ditadura.

O contexto político, com greves, contestações e conspirações, geralmente pouco eficazes, mas debilitantes do regime, era já promotor de reacção, quando um acontecimento familiar alimenta em Sophia uma consciência acrescida das injustiças e arbitrariedades da ditadura. Em 1956, o irmão João Andresen ganha o concurso para a construção de um monumento ao Infante D. Henrique, com construção prevista para Sagres, a que o arquiteto chamou «Mar Novo». No entanto, em dezembro, Salazar recusa o resultado, como tinha feito já várias vezes com anteriores propostas de outros artistas, e comunica que o Conselho de Ministros havia decidido não construir a obra. Em vez disso, seria edificada em Lisboa uma reprodução, definitiva e em pedra, da escultura inicialmente prevista para ser exibida apenas durante a Exposição do Mundo Português, em 1940, o Padrão dos Descobrimentos.

Que Sophia tenha, dois anos depois (em 1958), dado ao seu livro de poesia o mesmo nome não será coincidência. Chocada com a injustiça da decisão que afeta o irmão, e que considera política, deposita no livro um ato de revolta e insurreição. O caso tem sido até, por vezes, associado à morte prematura do arquiteto, aos 46 anos. Mas o enfarte agudo só acontece em junho de 1967, nove anos depois do episódio com «Mar Novo».

Este é o tempo
Da selva mais obscura

Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura
Esta é a noite densa de chacais
Pesada de amargura

Este é o tempo em que os homens renunciam

O próprio título é atualmente visto por alguns estudiosos como significativamente provocador. Sendo o mar o desígnio histórico dos portugueses, acrescentar-lhe a palavra «novo» em tempo de ditadura trazia implícita a urgência de mudança de regime.

A melhor prova do ponto de viragem que este livro vem trazer às intenções da escrita está nos próprios poemas aí publicados, como «Porque» (vide pág. 157) claramente antirregime, havendo mesmo quem veja na publicação o verdadeiro momento de iniciação à poesia de Sophia. O momento em que se compromete mais com o tema da responsabilidade ética.

Seriam ainda precisas quase duas décadas para a ditadura cair, mas Sophia nunca mais deixaria de lutar pela mudança – pela liberdade. O Centro Nacional de Cultura (CNC), criado por um grupo de jovens católicos em 1945, é presidido pelo marido, Francisco Sousa Tavares, desde 1957, tornando-se uma sede de oposição ao regime. No ano seguinte, o chamado «general sem medo» apresenta-se às eleições presidenciais e o casal apoia essa candidatura de Humberto Delgado, adversário do ditador. Quando questionado por um jornalista, a 10 de maio de 1958, sobre o que aconteceria a António Oliveira Salazar se ganhasse as eleições à presidência da República, Delgado garantiu: «Obviamente, demito-o».

Mãe distraída, talvez mesmo desatenta, Sophia deixava as ralações mundanas com vestuários e refeições para as criadas, encarregadas de levar as crianças à escola para que pudesse dormir até tarde. De tal forma que era comum ouvir Luísa, a empregada minhota de sempre, alardear com ironia a falta que fazia à família: «Se não fosse eu, nesta casa comiam-se versos.»

A afronta não passaria despercebida aos vigilantes do regime. Mas Delgado mantém o papel de oposicionista. Em 1959, os apoiantes do militar de Torres Novas tentam derrubar o regime com uma investida que ficou conhecida como Golpe da Sé, frustrada a 11 de março, levando muitos dos apoiantes à prisão. Entre os detidos estavam o poeta Jorge de Sena, grande amigo de Sophia, e o marido, Francisco Sousa Tavares.

A quase eleição de Humberto Delgado e o número crescente de movimentos contra Salazar, nomeadamente vindos da população católica, tiveram o efeito perverso de tornar a ditadura mais alertada – e mais violenta. As eleições, consideradas fraudulentas, dão a vitória ao candidato do regime, Américo Tomás, acabando por ditar o exílio e, mais tarde, o assassinato do general pela PIDE, em 1965. Com Marcelo Caetano no poder, a partir de 1968, a tão falada abertura não só fica pelo caminho, como provoca o movimento contrário. Como concluiu a investigadora Irene Flunser Pimentel: «Apesar das afirmações de Caetano, os métodos de detenção arbitrária e de tortura não sofreram alterações, tendo mesmo endurecido.»

À crescente contestação e exigências de mudança, o Estado Novo responde com maior repressão e fortalecimento da capacidade de intervenção da PIDE através do decreto n.º 40550, que alarga o âmbito das «medidas provisórias de segurança». De então em diante a polícia política persegue, prende e tortura com impunidade reforçada. Sophia, Francisco Sousa Tavares e muitos dos seus amigos passam a estar sob constante vigilância da Polícia Internacional e de Defesa do Estado.

Para os agentes, tudo era digno de registo. Desde os factos mais banais, como as pessoas recebidas em casa, até encontros públicos para apresentações de livros. Os telefonemas eram escutados, as entradas e saídas vigiadas e o correio intercetado. Em carta a Jorge de Sena, em 1962, Sophia lamenta-se: «A PIDE esteve em nossa casa revistando e levou todas as suas cartas.»

Para os agentes, tudo era digno de registo. Desde os factos mais banais, como as pessoas recebidas em casa, até encontros públicos para apresentações de livros. Os telefonemas eram escutados, as entradas e saídas vigiadas e o correio intercetado. Em carta a Jorge de Sena, em 1962, Sophia lamenta-se: «A PIDE esteve em nossa casa revistando e levou todas as suas cartas.»

Também a poeta foi detida para ser interrogada pela polícia política, como confirmam os espólios depositados na Torre do Tombo.

O divórcio litigioso e o beijo da paz que faltou

Mãe distraída, talvez mesmo desatenta, Sophia deixava as ralações mundanas com vestuários e refeições para as criadas, encarregadas de levar as crianças à escola para que pudesse dormir até tarde. De tal forma que era comum ouvir Luísa, a empregada minhota de sempre, alardear com ironia a falta que fazia à família: «Se não fosse eu, nesta casa comiam-se versos.»

Intimidades de filhas adolescentes e o recordar dos aniversários da prole eram entregues à guarda de Luísa, que trabalha mais de 40 anos para a família. No colégio, as freiras, confrontadas com aquela forma invulgar de estar nas obrigações familiares, chegavam a perguntar: «Mas a menina não tem mãe?»

Distraída, desligada ao ponto de ir à escola onde o filho Miguel estudava apenas uma vez durante uma escolaridade de oito anos ou de mandar a secretária de Francisco comprar sapatos às crianças, Sophia era uma mãe intelectual e uma mulher pouco dada a gestos de ternura, incumpridora sempre que a maternidade implicasse ações mais burocráticas, como o controlo dos assuntos escolares. Mas, chegados à idade adulta, tornou-se claro que «nenhum de nós queria outra mãe».

Apesar de algo ausente do quotidiano filial, a abordagem maternal de Sophia transfigurava-se quando o assunto eram as doenças da prole. Talvez por se tratar do cenário que mais a afligia – as enfermidades –, a poeta era capaz de passar horas num consultório à espera de um especialista que visse os filhos todos de uma vez ou que aplicasse vacinas protetoras se a iminência de alguma doença evitável a preocupava.

Apesar de algo ausente do quotidiano filial, a abordagem maternal de Sophia transfigurava-se quando o assunto eram as doenças da prole. Talvez por se tratar do cenário que mais a afligia – as enfermidades –, a poeta era capaz de passar horas num consultório à espera de um especialista que visse os filhos todos de uma vez ou que aplicasse vacinas protetoras se a iminência de alguma doença evitável a preocupava. Perante a nefrite da filha Sofia, para quem começa a inventar O Rapaz de Bronze, ou o sarampo dos restantes, Sophia não arredava pé. Dessa inquietação nasceram, como foi já referido, os primeiros contos infantis.

“O Rapaz de Bronze” (Porto Editora)

Embora menos desatento, Francisco Sousa Tavares também se escusa a visitar a escola do filho mais velho. Mas, impetuoso na vida pública, agia em coerência dentro de casa. Dele vinha uma atenção parental que potenciava o medo e que seria preferível evitar. Sobretudo quando se aproximava a chegada das notas escolares, então enviadas pelo correio. Nem as boas classificações da maioria em Português acalmavam os ânimos do pai, capaz de ficar nervoso ao ponto de lhes bater se os filhos se portavam mal. Mais comuns, as classificações negativas em Matemática eram, no entender do pai Sousa Tavares, bom pretexto para castigo.

Nessas alturas, a mãe temperava os ânimos: «A culpa é do ensino e dos livros, que estão péssimos.» Mas o pai, capaz de saber de cor a matéria dos manuais de Ciências ou Geografia, não tolerava uma resposta errada, e podia puxar o braço bem atrás, garantindo que aterrava com toda a força daquela figura encorpada na cara de Miguel.

Sophia e Francisco discordavam amiúde, o que podia significar gritos e coisas a voar por cima das cabeças dos filhos. Bastava um entender que a palavra certa era «pero» e outro «maçã» ou que não tivessem a mesma perspetiva dos problemas do país. Ele argumentava muito; ela arrumava os assuntos com uma palavra. A relação turbulenta e as discussões, sempre empolgantes, marcavam a relação entre a poeta e o advogado. Mas o dia seguinte seria já de esquecimento.

[…]

Depois do 25 de Abril, algo piora, aumentando a frequência e gravidade das discussões. Gonçalo Ribeiro Telles vai para o Governo, Sophia para a Constituinte e Francisco, que tinha tido um papel mais ativo, fica de fora. Pela coragem de combater a ditadura, esperava ser reconhecido, mas, pelo contrário, sente-se ostracizado. Mal amado. Por assumir posições menos radicalmente de esquerda, Francisco era acusado de ser um social-democrata burguês. Embora tivesse lutado pelo fim do Estado Novo, ao contrário de Sophia o advogado não é chamado pelo Partido Socialista nem por nenhum outro partido para concorrer às eleições de 1975 à Assembleia Constituinte, provocando fricções entre o casal.

A política tornou-se, aliás, um ponto de discórdia hoje valorizado pelos estudiosos da obra da autora. Um fator desgastante num casal que era já de pessoas antagónicas. Incompatíveis. Amigos, cúmplices, embora de temperamentos muito diferentes – «ela tranquilidade e poesia»; ele «impulsivo» –, tinham uma «grande admiração um pelo outro, mas Sophia vivia fora da realidade».

A política tornou-se, aliás, um ponto de discórdia hoje valorizado pelos estudiosos da obra da autora. Um fator desgastante num casal que era já de pessoas antagónicas. Incompatíveis. Amigos, cúmplices, embora de temperamentos muito diferentes – «ela tranquilidade e poesia»; ele «impulsivo».

[…]

Primeiro caiu o político. Em consequência de um escândalo relacionado com ilícitos cambiais, Sousa Tavares é acusado pelo Ministério Público no processo que ficou conhecido como caso DOPA (Dragagens e Obras Públicas), por tráfico de divisas através da empresa com o mesmo nome. A suspeita de exportação de capitais tinha surgido por ser advogado de um ex-rei da Roménia, que lhe pagou em cheque. A lei, posteriormente considerada errónea, acabaria por ser alterada em 1993 e o ministro estreante absolvido.

Mesmo internado nos Cuidados Intensivos do Hospital Santa Maria, em Lisboa, com um coágulo no cérebro, ninguém lhe tirava o frenesim de uma pena afiada. Numa tentativa de acalmá-lo, os médicos pedem a Rudolfo Iriarte, chefe de redação de A Capital, para lá ir. «Tinha sido operado à cabeça, estava todo entrapado, mas preocupado com um texto que queria publicar. Gritava: “Eu quero escrever!”»

Mas quando estala o escândalo, Sousa Tavares reage sem levar em consideração os conselhos avisados de Proença de Carvalho, que tenta conter os estragos persuadindo-o a não falar publicamente sobre o assunto. Morreria por si. Porém, como bem sabia o amigo, Francisco era impossível de disciplinar. «Ninguém conseguia influenciá-lo. Não era maleável. Não tinha jogo de cintura.» À primeira oportunidade, o recém-empossado governante põe-se ao telefone com jornalistas.

Tarde demais. Para manter o cargo ministerial. E o casamento com Sophia.

[…]

Amelia Clotilde Brugnini Garcia Lagos Sousa Tavares e Francisco ainda fazem algumas viagens, mas não lhes sobrou muito tempo de paz entre a boda e os primeiros sinais de saúde periclitante. Após começarem a viver juntos, Melucha telefona ao casal Iriarte a pedir ajuda. Francisco tinha-se sentido mal. «Depois do casamento, comecei a notar-lhe falhas de memória. Nunca queria ir ao médico. Tinha uma falência total do fígado, não por alcoolismo. Só bebia vinho às refeições. Entre os 20 e os 30 anos deve ter tido uma hepatite mal curada, que lhe foi dando cabo do fígado. Degenerou numa insuficiência renal, que lhe provocava encefalopatias. Chegava a ter crises duas vezes por dia. Ausentava-se e não se lembrava de nada.»

Mesmo internado nos Cuidados Intensivos do Hospital Santa Maria, em Lisboa, com um coágulo no cérebro, ninguém lhe tirava o frenesim de uma pena afiada. Numa tentativa de acalmá-lo, os médicos pedem a Rudolfo Iriarte, chefe de redação de A Capital, para lá ir. «Tinha sido operado à cabeça, estava todo entrapado, mas preocupado com um texto que queria publicar. Gritava: “Eu quero escrever!”»

Talvez por isso Manuel Alegre o tenha recordado como aquele que mesmo depois de morto estaria lá em cima a «desinquietar a ordem estabelecida das coisas».

Se o divórcio foi assunto tabu para Sophia, que não deixa transparecer o tema para a obra e nem com os melhores amigos – nem mesmo frei Bento Domingos – abordava o tema, a morte do homem com quem tinha vivido mais de trinta anos e de quem teve cinco filhos, foi guardada num daqueles baús das emoções que não têm fundo. Recusa-se a visitar o ex-marido, mesmo contrariando os conselhos de alguns amigos. Não comparece ao enterro.

Se o divórcio foi assunto tabu para Sophia, que não deixa transparecer o tema para a obra e nem com os melhores amigos – nem mesmo frei Bento Domingos – abordava o tema, a morte do homem com quem tinha vivido mais de trinta anos e de quem teve cinco filhos, foi guardada num daqueles baús das emoções que não têm fundo. Recusa-se a visitar o ex-marido, mesmo contrariando os conselhos de alguns amigos. Não comparece ao enterro.

Mas Francisco, homem com o coração para fora, voz da coragem e da liberdade, dedica-lhe a última crónica que publica no Diário de Notícias, num texto que pode ser entendido como uma derradeira homenagem. Uma despedida pública, já que Sophia recusou considerar a privada.

Sophia, o mito

A poeta que encantara os franceses na Sorbonne e que lera textos de Eduardo Lourenço em Bordéus era a mesma autora que viajava carregada de malas e comprimidos, vivendo obcecada com pequenas maleitas. Uma peculiaridade desconcertante para todos aqueles que sentiam estar perante o mito Sophia. A preocupação obsessiva com a compra de repelente num país da Europa continental, e o simples facto de escolher como tema de conversa um assunto tão terreno como a picada de insetos, assombrou o poeta Al berto em Bordéus: «Mas os mosquitos também picam a Sophia!?»

Em 1999, torna-se a primeira mulher portuguesa a receber o Prémio Camões.

Sophia (ao centro) no Parlamento. (Fotografia de Inácio Ludgero, 1975, Arquivo Fotográfico da Assembleia da República)

Por ser a forma mais imediata à época, a boa nova deveria ter chegado por telefone. Isto se a poeta não tivesse deixado o auscultador fora do descanso, causando alvoroço entre os que a tentavam contactar. Inquieta pela responsabilidade de ser a guardiã de tão importante nova e sentindo-se impedida de a partilhar, à meia-noite Maria Velho da Costa põe-se a caminho. Desloca-se pessoalmente à Travessa das Mónicas para transmitir à amiga como a 11.ª edição do Prémio Camões tinha sido decidida por unanimidade no Brasil, em Salvador da Baía. Apanhada de surpresa e ainda descrente, questiona:

– «O Prémio, Maria? Qual Prémio?»

Ao que a amiga romancista respondeu:

– «O Camões».

Porque a madrugada não seja boa companheira, nem mesmo para notívagos como Sophia. Ou porque tudo aquilo – e àquela hora – parecia vir a despropósito, só lhe ocorre comentar:

– «Mas agora?»

Como dirá ao jornal Público e em várias entrevistas, «pensar muito em prémios é um mau pensamento». Mas Sophia dava importância ao facto de ser reconhecida em vida e gostou especialmente de receber o Prémio Camões. Até porque era muito criteriosa com tudo o que publicava. Crítica com os outros como com ela, era a primeira a exigir de si própria.

Preparada para gerir o choque da poeta, a coautora de Novas Cartas Portuguesas, com Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno, fica pela Travessa das Mónicas a receber os telefonemas, apresentando-se como secretária de Sophia, com quem celebra até às duas da manhã com cerejas e vinho branco.

A distinção, criada para destacar anualmente um escritor que tivesse contribuído para o enriquecimento do património literário e cultural da língua portuguesa, na altura ainda apenas em Portugal ou no Brasil, valia 10 mil contos (50 mil euros). Nesse ano, em que o júri era presidido por António Alçada Baptista, o nome de Sophia havia sido proposto pelos portugueses e logo aceite pelos brasileiros.

Quando o dia clareou, Sophia recebeu, além dos telefonemas e telegramas, enormes ramos de rosas vermelhas, as suas favoritas, como as oferecidas pelo casal amigo Ana e João Bénard da Costa. Juntos, aproveitam a ocasião festiva para planearem uma viagem à Grécia, que nunca chegaria a acontecer por Sophia se sentir já debilitada e sem coragem para longas caminhadas ou escadarias, ainda que a prometerem encontros com os deuses.

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Embora gostasse de prémios, especialmente deste, e a poucos meses de completar 80 anos, Sophia mantinha o seu lema de vida: «Não é o importante, é o que importa.» Talvez defeito de poeta, nunca deixara de se focar no que realmente contava: «Eu para escrever preciso de paz, silêncio e liberdade… faltando essas coisas não se pode escrever.»

No dia da entrega do prémio, 19 de novembro de 1999, pela mão do Presidente da República, Jorge Sampaio, Sophia escolheu alhear-se dos salamaleques oficiais para dedicar tempo ao filho do irmão Gustavo, então nos seus 18 anos. Perante a pergunta de Sampaio e Maria José Rita sobre se precisava de alguma coisa, pediu: «Sim, que chame o meu sobrinho Tomás». Queria mostrar os jardins do Palácio de Belém ao Andresen mais novo, aquele que já não imaginava vir a conhecer quando o irmão foi pai pela quarta vez, aos 60 anos. Escolheu a família para viver o momento. Representada por um adolescente, a quem podia levar pela mão e revelar o que tanto a encantara na sua própria infância: a natureza e os jardins. Agora não os do Campo Alegre, mas os da residência oficial da mais alta figura do Estado, no Palácio de Belém.

Também no seu discurso da cerimónia de entrega do Prémio Luís de Camões, o presidente mencionou as gerações futuras, considerando que, ao distinguir Sophia, homenageava um símbolo da língua portuguesa que era uma referência. «De uma beleza tão alta e exata, a sua obra é, no século agora a terminar, uma das criações em que nos revemos e de que nos orgulhamos. Nos poemas, nos contos, nas histórias infantis, nos testemunhos de sabedoria, Sophia fala-nos da nossa cultura e da nossa civilização como memória, vida e futuro. Fala-nos da luz do sol e da sombra que é o seu espelho, da elevação das montanhas e da imensidão do mar, das estátuas gregas e dos atos humanos. Fala-nos do trigo que sacia a fome aos homens, das obras imortais que são capazes de criar e também dos campos de concentração onde matam. Fala-nos da beleza, da generosidade e da vergonha que não pode ser esquecida para não ser repetida.»

Antes de entregar a distinção que leva o nome do autor de Os Lusíadas, o chefe de Estado assinala a importância do sentido de justiça na obra da poeta: «De todos nós deve ser a pergunta que Sophia põe na boca de um dos três Reis do Oriente. “Que pode crescer dentro do tempo senão a justiça?”» E enfatiza o seu papel de combate à repressão recorrendo aos versos da própria autora:

«Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades»

[…]

Sophia morre fisicamente no Hospital da Cruz Vermelha, na freguesia do Lumiar, concelho de Lisboa, no dia 2 de julho de 2004, depois de um internamento de duas semanas. A missa do funeral é celebrada pelo amigo frei Bento Domingues na Igreja da Graça, aquela que fica a poucos metros da morada de uma vida na Travessa das Mónicas, e cuja porta principal dá para o largo que passou a chamar-se Miradouro Sophia de Mello Breyner Andresen – Poeta. Encavalitado na colina, a deixar fruir daquela Lisboa que vai do Castelo de São Jorge à ponte sobre o Tejo, com um suspiro no olhar.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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