Quase trinta anos depois da morte de Diana, as solicitações de entrevistas não param de chegar à caixa de correio de Charles Spencer, uma insistência que tem recusado em toda a linha, e que motivou a obra que começou a agitar as águas do reino mesmo antes de ver a luz do dia. “Isto convenceu-me a pôr por escrito os meus pensamentos e memórias de uma vez por todas, em vez de ser sujeito ao incómodo de tornar a ler as opiniões de outros, muitas das quais baseadas em inverdades que se tornaram aceites ao longo dos anos.”. Para já, os trechos revelados nos tablóides britânicos levaram até Buckingham a quebrar a criteriosa regra de não reagir.
Em setembro de 1997, na abadia de Westminster, os olhos do mundo que seguia as cerimónias fúnebres da princesa do Povo partilharam a dor do irmão cujo discurso é recordado até hoje. Dir-se-ia que o tempo tudo cura, mas os últimos anos no seio da coroa britânica não têm sido propriamente sinónimo de trégua duradoura. Se Diana é uma eterna ferida por curar, os destinos dos príncipes William e Harry não têm gerado menos fricção num clã sob permanente teste. No mesmo dia em que o Daily Mail começava a folhear esta obra, o marido de Meghan Markle convidava a uma leitura nas entrelinhas após o seu primeiro discurso no regresso a solo britânico.
O livro é publicado em Portugal pela Penguin. 368 páginas / PVP: 25,45 euros
Depois de A Very Private School, titulo lançado em 2024, testemunho dos primeiros anos que expunha os abusos sofridos na infância, em O Canto do Cisne: Diana, a minha irmã Charles Spencer fala aberta e extensamente sobre a sua irmã. O Observador pré-publica a introdução da obra com selo da Penguin que promete mais polémica para os próximos dias.
“Trata-se de um livro da maior importância, por contar a história de uma das figuras mais icónicas e culturalmente relevantes do século XX, mas também pela singularidade de ter sido escrito pelo conde Spencer, de uma perspetiva tão íntima. Charles Spencer é, além de um irmão querido, um aclamado escritor de memórias e um reputado historiador.”, distingue Daniel Bunyard, o editor do livro, que chega às livrarias portuguesas esta terça-feira, dia 22 de setembro. “Embora estas páginas contenham inúmeras revelações que irão atrair uma atenção considerável, os leitores encontrarão também, pela primeira vez, e para todo o sempre, um tributo à altura da mulher adorada que foi a princesa Diana.”, continua.
A minha mãe disse-me muitas vezes que achava que ninguém conhecia melhor Diana do que eu. Crescemos juntos, eu e ela, sendo os elementos mais novos de uma família dividida pelo divórcio e ensombrada pela morte de um irmão.
No entanto, quando me perguntam, como tantas vezes acontece, «Como foi crescer com Diana?», o primeiro pensamento que me ocorre sempre é: «Mas eu não sei como teria sido não crescer com ela. Vivemos debaixo do mesmo teto, todas as noites, durante os primeiros sete anos da minha vida, e depois de entrarmos para o colégio interno passámos quase todas as férias juntos até Diana fazer dezasseis anos e eu treze.»
Em muitos aspetos, tínhamos uma relação convencional entre irmã mais velha e irmão mais novo. Eu era quase três anos mais novo do que ela e, sendo rapaz, fui sempre claramente mais imaturo. O Canto do Cisne é um livro que parte do sentimento de admiração que sentia por ela — em particular tendo em conta a dinâmica prevalecente em Park House, a casa onde passámos uma infância extremamente feliz e onde ela era não apenas a minha companheira de todas as horas, como, de certo modo, a minha principal cuidadora. Nos últimos anos, cumprimentava-me ou referia-se a mim na presença de terceiros como «maninho», apesar de eu já a ter ultrapassado uns bons 15 centímetros em altura.
Diana sempre teve um forte instinto maternal. Depois de a nossa mãe ter saído de casa, passou a estar mais atenta às minhas necessidades do que seria de esperar de uma irmã mais velha. Pelo que pude perceber das histórias contadas pelos adultos que conviviam connosco na época, embora se queixasse de ter de passar ainda mais tempo com o irmão mais novo, na verdade gostava bastante da minha companhia na maior parte do tempo.
Éramos ambos muito reservados na presença de estranhos e extremamente extrovertidos quando estávamos com amigos. Reagíamos com igual teimosia natural quando nos sentíamos pressionados — em particular quando essa pressão nos parecia injusta. Tendíamos a proteger-nos um ao outro, com frequência de forma muito acirrada. Criámos laços fortes desde muito cedo.
O elemento inesperado, que tornou a nossa relação fraternal tão invulgar na segunda metade da sua vida, infelizmente demasiado curta, foi o facto de ela ter casado com um membro da família real britânica. Em 1981, quando surgiu vestida de noiva na Catedral de São Paulo, caminhou até ao altar de braço dado com o meu pai como minha irmã e saiu aclamada por uma multidão em delírio como uma princesa que cativara o mundo inteiro. As pessoas queriam um conto de fadas e, naquela manhã, Diana foi consagrada como a heroína de uma fantasia global. Naquele momento, porém, ninguém além dela tinha consciência de quão diferente era a sua realidade.
▲ Carlos e Diana em 1986, com os filhos Harry e William
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Muitos dos leitores serão demasiado jovens para se lembrarem de Diana tal como era. Para eles, ela não passará de um rosto bonito da história — uma figura trágica do passado que, embora tocada pelo manto da realeza, morreu, à semelhança de um milhão de pessoas todos os anos, infelizmente, num desastre de automóvel. Foi a pensar nesses leitores que me empenhei em reconstituir, em O Canto do Cisne, o verdadeiro contexto da vida de Diana, para que possam apreciá-la de forma mais completa.
Quanto aos leitores na casa dos trinta ou mais anos, liguei propositadamente retalhos da vida de Diana a frases retiradas do meu elogio fúnebre — o texto de homenagem que escrevi nos dias que se seguiram à sua morte e que proferi em seu nome no funeral, no sábado seguinte. Alguns temas de O Canto do Cisne serão familiares para esse público mais velho, mas talvez a perspetiva que apresento seja nova.
Naquele elogio fúnebre, procurei falar em nome da minha irmã num momento em que ela tinha sido privada para sempre da sua voz — de um modo tão repentino que nunca teve oportunidade de entoar o seu canto do cisne. Quis recordar ao mundo as qualidades de Diana, como é próprio do autor de um elogio fúnebre.
No entanto, também tinha esperança de mobilizar pessoas poderosas a protegerem os seus filhos, que ela tanto amava, dos aspetos mais sombrios da sua vida. O meu principal objetivo era poupá-los à tortura a que Diana foi regularmente sujeita nos últimos anos de vida pelos mais detestáveis sectores da comunicação social.
Quando Diana fez a sua entrada triunfal na arena da realeza, eu era apenas um jovem de dezassete anos, inundado de hormonas e dominado pelo egocentrismo da adolescência. Não tinha grande interesse no que se passava fora do meu círculo mais próximo e nunca me sentira muito cativado pela realeza — a não ser como força poderosa da história de épocas passadas, quando era um elemento central para uma verdade humana mais ampla.
Naquela época, não me lembro de ter pensado muito na ascensão social de Diana. Creio que apenas presumi que a minha irmã mais velha se iria adaptar muito bem ao seu novo papel. Sabia que ela era uma boa pessoa, com uma noção clara do certo e do errado. Quando alguém fazia um comentário indelicado sobre outra pessoa, uma das suas expressões preferidas era: «Não julgues os outros por ti mesmo!» Adorava esse seu modo de pensar e acreditava que essa consciência tão enraizada lhe seria muito útil numa vida que seria claramente muito diferente daquela em que ambos tínhamos crescido.
Também considerava que ela seria um complemento bem-vindo para uma instituição ancestral que a minha família servira sem reservas durante séculos, por patriotismo e não com bajulação. No plano político, os Spencer situavam-se tradicionalmente no campo do partido Whig: respeitavam a Coroa, mas não tinham receio de responsabilizar os seus detentores em nome de interesses sociais e políticos mais abrangentes (incluindo os seus).
Todos estes pensamentos me passaram pela cabeça sem que me detivesse longamente neles. No fundo, concluí que a minha irmã mais velha se sairia bem no que era claramente um novo e intimidante papel e que ela acabaria por ser benéfica para o país.
Em momento algum me ocorreu que ela causaria, de facto, tamanha sensação em todo o mundo.
Muitos outros, mais velhos do que eu, também subestimaram Diana. É provável que tenha sido escolhida como futura rainha por descender da linhagem certa e por ser jovem o suficiente para não ter um histórico no plano amoroso. Estes aspetos eram muito mais importantes em 1981 do que hoje se imagina.
Todavia, a grande incógnita na época era o espírito único de Diana. Possuía uma força extraordinariamente original que explodiu na cena mundial, repleta de carisma, realçada por uma aparência atraente e sustentada por um dom absolutamente natural para se relacionar com as pessoas. A combinação surpreendeu quando começou a despontar e cativou assim que se revelou por completo.
Diana exalava o carisma próprio das grandes estrelas, mas, ao contrário de uma atriz de primeira linha ou de uma princesa da cultura pop, nunca precisou de vender um produto para permanecer no centro das atenções. Membro da realeza por casamento, possuía um poder e um estatuto únicos, que perdurariam até ao seu último suspiro.
E foi isso que fez dela um ativo de um tipo diferente — um ativo mediático. Grande parte das notícias a seu respeito foram extremamente positivas em todo o mundo. O seu casamento foi acompanhado por 750 milhões de pessoas, mas isso foi apenas o começo. Apareceria na capa da revista People, nos EUA, quarenta e cinco vezes ao longo da sua vida. O seu funeral — seguido por cerca de 2,5 mil milhões de espectadores — é um dos acontecimentos mais vistos da história da televisão.
▲ A imagem do príncipe Carlos a caminhar lado a lado com os filhos, o irmão de Diana e o pai, o duque de Edimburgo, tornou-se uma das mais emblemáticas (e controversas) do funeral da princesa
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Tudo isto para uma rapariga nascida numa discreta família aristocrática inglesa, a terceira dos quatro filhos sobreviventes dos nossos pais. Como tal, estaria provavelmente destinada a casar com alguém de origens sociais semelhantes às suas e a desfrutar do tipo de vida habitualmente reservado aos membros da alta sociedade — vivendo, quem sabe, num casarão e dedicando-se a atividades em prol da comunidade local.
Em vez disso, chamou a atenção do príncipe de Gales. Não se conhecia um modelo moderno para esta posição — não havia uma princesa de Gales desde 1910 —, mas poderia ter-se revelado uma função muito pouco exigente, embora muitíssimo privilegiada, centrada em ter filhos e no apoio a algumas causas seguras e dignas. Ela poderia ter-se acomodado a uma vida mimada de luxo, adulada por cortesãos e mantendo-se discreta. No entanto, havia a possibilidade de fazer muito mais, e essa perspetiva adequava-se à personalidade e à visão de Diana. Ela jamais se contentaria com uma vida de prazeres fúteis. Iria sempre desafiar os limites, numa tentativa de deixar uma marca positiva nas pessoas à sua volta.
Embora a sua carreira, por assim dizer, se desenvolvesse de forma orgânica, os seus valores fundamentais nunca foram abalados. Diana crescera com um objetivo claro em mente: casar por amor. Estava persuadida de que isso era o mais importante para conseguir evitar o divórcio que se abatera sobre os nossos pais e dedicar-se aos filhos que tanto desejava ter.
O leitor lerá decerto relatos que atestam o quão infeliz Diana foi na infância. Não foi essa a irmã que eu conheci. Ela foi objeto de um forte amor paterno, prodigalizado sobretudo num lar acolhedor e repleto de carinho. Os nossos pais podem não ter dito explicitamente que nos amavam, porque esse era o comportamento das pessoas da sua classe social naquela época, mas nós sabíamos que éramos amados.
Diana também era manifestamente feliz na companhia dos seus colegas de escola, não obstante debater-se com o peso terrível imposto por dificuldades de aprendizagem não diagnosticadas, que tornavam o ambiente académico um terreno árido desprovido de sinais de orientação úteis.
De certo modo, o objetivo de O Canto do Cisne é contar a verdade sobre Diana na perspetiva do seu irmão, tal como procurei fazer no elogio que proferi no seu funeral. Perante as inúmeras invenções e meias-verdades preguiçosas que circulam a seu respeito, ela merece os meus melhores esforços. Não li nenhuma das biografias de Diana, mas os fragmentos que me chegaram em pequenas doses através dos jornais nunca coincidiram com o que eu sabia e sei. Todas se destacaram pela imprecisão.
Porquê, então, escrever isto agora? Com o aproximar do trigésimo aniversário da morte de Diana, voltei a recusar os repetidos e intermináveis convites para participar em documentários sobre ela e isso levou-me a pensar: Sabes que mais? Em vez de sequer pensar em ser um mero comentador numa produção que seguirá as habituais linhas imperfeitas, obedecendo aos ditames de um produtor de televisão a quem nunca serei apresentado ou de um canal de televisão do qual nunca serei espectador, vou contar as coisas tal como as recordo, vou pô-las por escrito de uma vez por todas.
▲ Diana em 1986, num imagem saída de Royal Ascot
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Tal como no meu elogio fúnebre, quero falar em nome de Diana. Faço-o de uma forma declaradamente positiva. Não aprofundarei todas as dimensões da vida da minha irmã com o intuito de criticar. Não porque queira fazer de conta que ela era perfeita. É evidente que não era, como reconheci abertamente no meu elogio fúnebre. No entanto, percebo com clareza que muitos dos aspetos da personalidade de Diana que a levaram a afastar-se de todos os que a rodeavam — entre eles, eu e o resto da nossa família mais próxima em inúmeras ocasiões — tiveram origem nas pressões únicas a que foi sujeita durante os seus anos de fama. Muitas dessas pressões eram insuportáveis e admiro-a por ter conseguido lidar com elas. Dadas as circunstâncias, dificilmente teria feito melhor.
Além disso, quero fazê-lo agora porque já passei dos sessenta anos e tenho cada vez mais consciência da minha mortalidade — nenhum dos meus pais viveu até aos setenta anos. Sem querer cair no melodrama, desconheço quanto tempo me resta para registar esta história, por isso tenho a certeza de que é meu dever anotá-la agora, numa espécie de canto do cisne pessoal.
Escrevi oito livros de História e um volume de memórias, mas este é o trabalho que na realidade me interessa. De certo modo, é como se as minhas nove publicações anteriores me tivessem conduzido a este ponto sem que me tenha apercebido dessa progressão inevitável.
Espero que este livro seja do interesse dos muitos que continuam a estimar a memória de Diana quando ela era viva, e ficaria encantado se aqueles que são demasiado jovens para se lembrarem dela no seu auge sentirem — depois de o lerem — que «percebem» quem ela realmente era: uma pessoa única e dinâmica, cheia de amor, carisma e insegurança, que deu tudo por tudo na vida e fez do mundo um lugar muito melhor apesar de ter saído de cena ainda muito jovem.
Ela alcançou tudo isto sem nunca ter sentido a profundidade do amor pela qual sempre ansiou. Por isso, merece respeito e aplausos — e ofereço-lhe ambos em O Canto do Cisne.