O primeiro-ministro está exausto. Acaba de ler uma das intervenções mais difíceis de que tem memória. A vitória do rival é um golpe duro de absorver. A relação entre os dois é péssima e o chefe de Governo sabe que está numa situação de enorme fragilidade: afinal, lidera um governo minoritário e tem agora na Presidência um homem que escolheu como adversário. Fica duas horas sentado num cadeirão na residência oficial, sozinho e em silêncio. Quer pensar com maior clareza. Decide tomar um quarto de comprimido para dormir. Vai-se deitar sem saber o que o futuro lhe reserva.

Não, este não é o relato da noite de Luís Montenegro. Isto é o filme da noite de Aníbal Cavaco Silva depois da segunda volta das eleições presidenciais de 1986. Tal como Montenegro, também Cavaco se tinha empenhado pessoalmente na eleição de Diogo Freitas do Amaral. E, tal como Montenegro, também Cavaco acabou por perder de forma especialmente dolorosa a aposta. Apesar de tudo, com uma agravante: desta vez, 40 anos depois, o candidato da AD, movimento que conseguiu três vitórias nacionais em quatro possíveis, perdeu logo à primeira, não passando sequer à segunda volta. Não há como dourar a pílula: Montenegro é um dos grandes derrotados da noite.

Não tem de ser necessariamente uma fatalidade. Aliás, para Aníbal Cavaco Silva a crise transformou-se numa grande oportunidade. Em 1986, a vitória de Soares insuflou de tal maneira os ânimos do PS que o Largo do Rato, acreditando que tinha em Belém um cúmplice, se precipitou e provocou uma crise política que daria a primeira maioria absoluta a Aníbal Cavaco Silva. Será a esse o copo meio cheio a que Luís Montenegro se deve agarrar: a monumental derrota do seu candidato presidencial será apenas um erro na matrix; a AD continuará tão forte como estava a 18 de maio de 2025, quando derrotou de forma clara o PS e o Chega.

A direita procura um líder

Mas há um copo meio vazio que é impossível ignorar. O candidato apoiado pelo PSD (o CDS também o apoiou, sem esconder o sorriso amarelo) ficou em quinto lugar atrás de André Ventura, João Cotrim Figueiredo e Henrique Gouveia e Melo. Este resultado — uma hecatombe à luz de qualquer critério — coloca um evidente problema a Luís Montenegro: aparentemente, basta um tropeção, uma má campanha, um candidato menos adequado, e a liderança da direita passa para as mãos de outros protagonistas. Já tinha acontecido nas europeias, em maio de 2024; voltou a acontecer agora, em dimensões catastróficas.

Nos próximos dias multiplicar-se-ão as análises e as distribuições de culpa. Dir-se-á que o principal responsável pelo resultado foi Luís Marques Mendes. O próprio, aliás, fê-lo no seu discurso de aceitação de derrota. Dir-se-á que era um mau candidato, que fez uma péssima campanha, ponto final, parágrafo. Será, seguramente, parte da resposta para se entender o que aconteceu na noite de domingo. Mas esta eleição mostrou outra coisa mais profunda: não é líquido que o PSD seja o líder incontestado da direita. Basta ver o que conseguiram fazer os candidatos apoiados pela Iniciativa Liberal e, sobretudo, pelo Chega.

André Ventura foi o mais votado à direita. João Cotrim Figueiredo provou mais uma vez que se a Iniciativa Liberal não trocasse de líderes como quem troca de camisa teria margem para fazer diferente e fazer melhor. E isso é uma mensagem clara para Luís Montenegro, que escolheu, pessoalmente, o seu padrinho político como candidato presidencial. A sua sobrevivência no poder dependerá daquilo que estiver disponível para aprender com estas eleições.

No plano mais imediato, Luís Montenegro terá agora de passar pelo embaraço de ter de driblar a pergunta sobre se apoia António José Seguro ou André Ventura. É que não há boas respostas. Se preferir o primeiro, será acusado de trair a direita; se escolher o segundo, será acusado de trair o centro. A posição de equidistância a que se submeteu esta noite (“O PSD não estará envolvido na campanha eleitoral”), sendo a única possível do ponto de vista tático, é tão má ou pior do que as outras duas. Por uma entre muitas razões: a acreditar no que aconteceu nestas presidenciais, não será sequer capaz de mandar no seu próprio partido e pô-lo a falar a uma só voz.

Depois há que começar a encarar a triste realidade: acabou-se o sonho de ter no Palácio de Belém uma personagem coadjuvante. António José Seguro como Presidente da República a dar gás às causas do PS, o único partido que ainda suporta o Governo na Assembleia da República, será uma dor de cabeça. Imaginar André Ventura como Presidente da República é, para o primeiro-ministro, mais do que um pesadelo — é quase uma distopia. Em São Bento e na São Caetano, é tempo de acender velas a todos os santinhos.

Uma vitória do PS, uma derrota do PS

A indisfarçável alegria dos socialistas nesta noite é tão genuína como cínica. Depois de 20 anos afastado do Palácio de Belém, o PS está cada vez mais perto de voltar a eleger um Presidente da República. Acontece que vai eleger um homem que destratou quando era secretário-geral do partido e que desprezou quando se apresentou como candidato presidencial. Para uma grande parte do PS, toda a gente era melhor do que Seguro. Em dia de festa, no entanto, é vê-los, só sorrisos, ao lado do vencedor.

Nos corredores do Largo do Rato, já se vai salivando pelo fim prematuro do Governo da AD. Imaginam-se todo o tipo de proezas ao alcance do partido encavalitado no seu novo Presidente. No entanto, o histórico aconselharia outra prudência: o resultado desastroso das legislativas aconteceu apenas há meia dúzia de meses; a direita voltou a fazer uma grande demonstração de força nestas presidenciais; a esquerda à esquerda do PS conseguiu definir novos e humilhantes mínimos históricos. Por tudo isto, imaginar um cenário em que o PS consiga reunir condições de governabilidade a partir destes resultados está para lá da matemática; é arte abstrata.

Claro que será muito melhor para o PS ter António José Seguro em Belém do que Luís Marques Mendes, que estaria muito alinhado com os interesses de Luís Montenegro. O partido ganha um precioso foco de influência e de pressão sobre o Governo. Ganha, sobretudo, a centralidade que havia perdido com o terceiro lugar em número de deputados alcançado nas legislativas. Mas é preciso ter estado muito distraído do que foi esta campanha para imaginar António José Seguro como refém do Largo do Rato.

Salvo raríssimas exceções, os socialistas que se foram juntando à corrida do candidato apoiado pelo PS foram sempre personagens secundárias. Nestas presidenciais, António José Seguro não derrotou apenas os seus adversários diretos; derrotou também toda a nomenclatura do PS, a linha dura que controla o partido desde os tempos de José Sócrates. São sobretudo esses — e não necessariamente o grupo minoritário de Carneiro — que esperam agora que Seguro faça a vida negra a Montenegro. É altamente improvável que venha a acontecer, o que irá frustrar muita gente no PS.

Mas se há coisa que esta eleição provou em definitivo — e isso é um empurrão importante para Carneiro — é que o PS é bem mais eficaz quando se coloca genuinamente no centro-esquerda moderado do que quando se posiciona como o campeão das esquerdas. Cada eleição conta uma história diferente, é verdade, mas Livre, PCP e Bloco foram atirados para a irrelevância política sem que António José Seguro tenha sido forçado a descaracterizar-se. Esta eleição, tal como a última corrida à Câmara Municipal Lisboa, é, também por isso, uma derrota da ala mais à esquerda do PS. E isso também vai acelerar a transformação do partido.

Ventura cada vez mais líder

Primeiro, era uma piada. Depois, uma provocação inconsequente. Agora, uma realidade cada vez mais incontornável. Com o resultado que conseguiu nestas eleições presidenciais poucos se atreverão a dizer que André Ventura não é o líder de facto do espaço não socialista. Só ele tem conseguido crescer consecutivamente de ato eleitoral para ato eleitoral, sempre em nome próprio, sempre superando todos os prognósticos. “Sou o novo líder da direita”, gritou o líder do Chega.

A partir de agora, tudo será uma vitória para André Ventura. Primeiro, é muito provável que venha a crescer para lá dos 23,5% que atingiu nesta primeira volta, provando, mais uma vez, que consegue alargar a base eleitoral do Chega. Engolirá uma fatia generosa dos eleitores que votaram em João Cotrim Figueiredo (que, de forma reveladora, se manteve neutro), outros tantos que votaram em Henrique Gouveia e Melo e uma parte dos que entregaram o seu apoio a Luís Marques Mendes.

A seguir, e também por isso, André Ventura conseguirá embaraçar Luís Montenegro durante três semanas, repetindo as vezes que forem precisas que o líder social-democrata claudicou e desistiu de liderar a investida da direita contra os socialistas. Haverá uma parte da direita — não toda — que escolheu a AD para impedir que o PS se mantivesse no poder. Esses eleitores da AD não perceberão que o seu líder escolha outro adversário que não António José Seguro.

Em terceiro lugar, mesmo não ganhando a segunda volta, como todas as sondagens parecem sugerir, voltará ao papel de líder da oposição numa posição reforçadíssima. Tal como se previa, André Ventura teve o seu momento Le Pen (pai). Haverá um antes e um depois destas presidenciais, tal como houve um antes e depois dos 50 deputados, tal como houve um antes e um depois de conquistar a segunda maior bancada parlamentar.

André Ventura continua a quebrar barreiras e o resultado que atingir na segunda volta (30%? 40%?) fará dele um candidato natural ao cargo de primeiro-ministro. Se terá ou não condições de governabilidade para exercer o poder, é outra conversa. Mas é impossível continuar a ignorar aquilo que atingiu em apenas sete anos. Pelo que se pode legitimamente perguntar: e se André Ventura vencer as eleições presidenciais? Matematicamente não é impossível.

Nota final: Henrique Gouveia e Melo continua sem enterrar por completo a ideia de vir a formar um partido ou de concorrer novamente em 2031. Num contexto de grande fragmentação de candidaturas, os seus 12% são um resultado interessante, mas o cemitério político está cheio de projetos que prometiam muito. João Cotrim Figueiredo garantiu que não equaciona voltar à liderança da Iniciativa Liberal. Resta saber se o partido continuará, alegre da vida, a recolher resultados abaixo dos dois dígitos tendo em Cotrim uma figura que ficou à bica de ser Presidente da República.