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Perto de 30 mil pessoas já contraíram o coronavírus em Portugal

PACO SANTAMARIA/EPA

Perto de 30 mil pessoas já contraíram o coronavírus em Portugal

PACO SANTAMARIA/EPA

A primeira fase do desconfinamento não deixou a epidemia fora de controlo. Mas vem aí o maior teste /premium

Especialistas admitem que ainda há uma imagem incompleta do impacto do desconfinamento, mas os dados sustentam avanço para segunda fase. Aí, o teste será maior — e a margem para errar é pouca.

Ainda não é possível ter uma imagem completa sobre o impacto da primeira fase do desconfinamento na evolução da Covid-19 em Portugal. Contudo, especialistas consultados pelo Observador admitem que os números registados até agora indicam que tudo está a correr bem, pelo que faz sentido prosseguir para a segunda fase — mas aconselham cautela e uma atenção redobrada na monitorização, uma vez que a segunda fase (que implica a reabertura de restaurantes, creches, escolas e grandes espaços comerciais) será um momento ainda mais determinante para a evolução da epidemia.

Como o Observador escreveu na semana passada, há vários aspetos em que políticos e comunidade científica são unânimes: o desconfinamento leva inevitavelmente a um aumento do número de novos casos de Covid-19; esse aumento será tanto maior quanto mais atividades forem retomadas; o efeito de uma nova fase de desconfinamento faz-se sentir com maior incidência entre cinco e sete dias depois da abertura, embora só se deva refletir nos boletins diários aproximadamente após dez dias.

Vêm aí os dias D para perceber o impacto do desconfinamento na evolução da Covid em Portugal

Os efeitos da primeira fase do desconfinamento (que arrancou a 4 de maio com a reabertura das lojas até 200 metros quadrados, dos cabeleireiros, dos transportes públicos e de vários serviços públicos) começaram, assim, a sentir-se no último fim-de-semana e a refletir-se nos boletins diários a partir de quarta-feira desta semana. Uma análise dos números das últimas duas semanas mostra que esta primeira fase do desconfinamento não teve um impacto significativo na forma como o vírus se está a propagar em Portugal — à semelhança do que aconteceu noutros países europeus onde o desconfinamento já começou há mais tempo.

Números mantêm-se estáveis após desconfinamento

Nas duas semanas anteriores ao desconfinamento, o número de novos casos por dia oscilou entre o menos de 100 e os mais de 600, com uma média de perto de 300 casos novos por dia. Nas duas semanas que se seguiram à primeira fase do desconfinamento, um cenário muito semelhante: desse período, o dia 8 de maio foi aquele com mais casos num só dia (553), enquanto o dia 11 de maio foi o dia com menos novos casos (98). A média de novos casos diários ficou também abaixo dos 300.

O total acumulado de casos suspeitos também continuou a crescer sensivelmente ao mesmo ritmo que antes. Este é um indicador a monitorizar atentamente, uma vez que pode anunciar um aumento do número de pessoas a registarem sintomas antes de esse aumento se refletir no número de testes com resultado positivo.

Os números registados a partir de quarta-feira são os mais indicados para avaliar o impacto da primeira fase do desconfinamento, uma vez que foi aí que se cumpriram os 10 dias estimados pelos especialistas como o momento a partir do qual os efeitos do desconfinamento se refletiriam nos boletins. Foi, aliás, por causa disso mesmo que a reunião quinzenal entre políticos e peritos em saúde pública se realizou na quinta-feira (e não, como habitualmente, na terça-feira).

Na quarta-feira, registaram-se em Portugal 219 novos casos de Covid-19. Na quinta-feira, foram 187. E na sexta-feira, o número de novos infetados subiu para 264. Depois, no fim de semana, os números voltaram a cair, como costuma acontecer: 227 novos casos no sábado e 226 este domingo. São números em linha com aqueles registados na altura em que entrou em vigor a primeira fase do desconfinamento. A 4 de maio, eram 242 os novos casos de Covid-19 em Portugal; a 5 de maio, foram 178.

"Tivemos aqueles três dias consecutivos em torno dos 500, o que gerou alguma preocupação. Depois, voltou a descer para valores em torno dos 200. Ou seja, não estamos a entrar no tal crescimento exponencial que todos temíamos"
Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública

Entre os dias 6 e 8 de maio, registou-se o pico destas duas semanas, com 480, 533 e 553 novos casos por dia respetivamente. Na altura, a subida repentina do número de novos casos para mais do dobro do dia anterior foi explicada com correções que estavam a ser feitas a casos que não tinham sido reportados a tempo. Mas a persistência dos números em torno dos 500 preocupou alguns especialistas.

“Conclusões, ainda não podemos tirar nenhuma”, diz ao Observador o médico Ricardo Mexia, do Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) e presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública. “Aparentemente, não houve um aumento muito marcado do número de casos. Mas tivemos aqueles três dias consecutivos em torno dos 500, o que gerou alguma preocupação. Depois, voltou a descer para valores em torno dos 200. Ou seja, não estamos a entrar no tal crescimento exponencial que todos temíamos.

“No primeiro dia em que estivemos perto dos 400, a mensagem foi a de que estariam a corrigir dados para trás. Ou seja, casos que só foram notificados naquele dia, mas que correspondiam a dias anteriores. Mas quando tivemos mais dois dias seguidos com a mesma ordem de grandeza, pareceu-me mais estranho. Entretanto, os números voltaram a descer”, detalha Ricardo Mexia, sublinhando que em causa estão problemas no sistema de reporte e vigilância. “Não é o comportamento natural da doença.”

Também para o pneumologista Filipe Froes, consultor da Direção-Geral da Saúde e coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Médicos para a Covid-19, estas grandes variações (só entre 4 e 14 de maio, o número de novos casos oscilou entre os 98 e os 553) se explicam por razões de procedimento e não de disseminação natural do vírus. “As variações revelam atrasos no reporte, mas também o efeito fim-de-semana, em que são feitos menos testes, o atraso na realização de exames, eventuais surtos locais que tenham causado um aparecimento anormal de novos casos num sítio específico.

Líderes políticos e peritos têm-se reunido quinzenalmente no Infarmed para avaliar evolução da epidemia em Portugal. Esta semana, excecionalmente, foi à quinta-feira

MÁRIO CRUZ/LUSA

Por esse motivo, o médico aconselha a consulta também dos gráficos feitos construídos com a média dos números dos três dias anteriores. “Quando temos estas grandes variações, alguns países adotam a média dos três dias para tentar diluir as variações diárias”, explica. Um dos locais onde é possível consultar este gráfico para Portugal é a página Our World in Data, projeto desenvolvido pela Universidade de Oxford que tem reunido todo o tipo de estatísticas relacionadas com a pandemia.

Depois daquele pico de três dias em torno dos 500 casos diários, os valores voltaram a descer para números a oscilar à volta dos 200 casos novos por dia. A exceção ocorreu no dia 11 de maio, segunda-feira, em que o número de novos casos no boletim foi de apenas 98. Aqui, novamente, pode estar em questão o efeito fim-de-semana, descrito ao Observador pelo médico Filipe Froes, que pede que os números mais baixos registados à segunda-feira não sejam excessivamente valorizados: ao fim-de-semana, a média de testes realizados em todo o país é menor, porque há menos técnicos a trabalhar.

Decisão com incerteza, porque “não há risco zero”

A incerteza sobre o real impacto da primeira fase do desconfinamento foi reconhecida esta quinta-feira pelo Presidente da República e por todos os partidos políticos, à saída da reunião entre peritos e políticos no Infarmed. Marcelo Rebelo de Sousa admitiu que ainda há “poucos dados”, mas sublinhou que os indicadores são positivos e que a “diminuição de casos de internamento e taxa de letalidade” apontam numa direção mais confortável.

O mesmo foi repetido pelos vários representantes partidários: confiança, apesar dos dados ainda incipientes — e pela própria diretora-geral da Saúde, que afirmou na quinta-feira que a curva epidemiológica continua dentro do “expectável” e que não houve ainda “nenhuma influência” do desconfinamento na propagação do vírus, porque os portugueses têm mantido “as medidas de segurança”.

"O que podemos dizer é que, com base nestes dados, é legítimo que se proceda a uma nova fase do desconfinamento"
Filipe Froes, pneumologista, consultor da DGS

Dentro do auditório do Infarmed, os líderes políticos tinham ouvido os especialistas sublinhar que não há ainda “conclusões firmes” sobre a forma como o desconfinamento impactou a disseminação do vírus em território nacional. Mas, à saída, uma coisa pareceu certa: a não ser que algo mude radicalmente até à próxima segunda-feira, a segunda fase do desconfinamento vai avançar, com a reabertura dos restaurantes e o regresso das aulas presenciais para os 11.º e 12.º anos.

Para os especialistas consultados pelo Observador, a decisão de prosseguir com o desconfinamento antes de ter todos os dados é normal e faz parte da tarefa de governar perante a incerteza. “Estes números permitem-nos dizer que até agora está tudo a correr bem e que cada dia é um dia. Não podemos inferir o futuro com base nos dados de hoje. O que podemos dizer é que, com base nestes dados, é legítimo que se proceda a uma nova fase do desconfinamento”, considera o médico Filipe Froes.

Até porque nem haverá uma alternativa. Estes dados iniciais documentam que há uma estabilidade. Entre o equilíbrio de não abrir, a necessidade de abrir e o impacto de não abrir, há uma indicação clara de continuar a abrir, mas também uma indicação clara de continuar a avaliar”, continua Filipe Froes. “Claro que mais tempo permitiria ter dados com mais segurança, mas também é tido em conta o impacto económico de esperar mais tempo”, acrescenta, lembrando que o calendário “não é definitivo” e pode sofrer alterações. “Imagine que agora temos 300, depois 500, depois mil no domingo. Aí alguma coisa se passa.”

“Não há fórmulas perfeitas, temos de seguir com a incerteza. O problema do Governo é que tem de liderar e decidir com a incerteza. Não fazer nada ou adiar as decisões às vezes tem mais impacto do que arriscar fazer. O que pretendemos é que, com algum grau de incerteza, se possa tomar a melhor decisão possível. Mas não há nenhuma situação de risco zero. Temos de o minimizar e monitorizar cada vez melhor”, resume.

A diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, diz que o desconfinamento ainda não agravou a propagação do vírus em Portugal

LUSA

Ricardo Mexia entende que os números atuais conduzam a uma nova fase do desconfinamento, mas vinca a necessidade de redobrada cautela. “Em teoria, se temos 10 ou 12 dias entre a mudança das políticas e a repercussão nos números, há sempre o risco de podermos estar a tomar decisões com base em pressupostos que ainda não se concretizaram. Ter um pouco mais de tempo poderia ser útil”, explica o médico.

Mas nós até já tínhamos constatado que, independentemente do fim do estado de emergência, algumas pessoas já tinham retomado alguma atividade no exterior. Temos de ver até que ponto é que isto espelha a realidade. Claro que se agora até segunda-feira começarmos a observar um aumento do número de casos, é diferente. Mas isso já é especular. A correr tudo como está a correr até agora, devemos prosseguir, mas muito cautelosos”, diz Ricardo Mexia.

Para o médico, é fundamental não olhar apenas o número de novos casos. “Temos de analisar outros dados, como é o R”, ou número de reprodução de vírus, o número de casos a que, em média, cada infetado dá origem. É fundamental que este valor fique abaixo de 1, significando isso que o número de casos no país está a diminuir. “Desde que não ultrapasse o 1, continuamos a diminuir”, salienta.

Início do desconfinamento foi “muito contido” e dados são “ainda poucos”. R mantém-se próximo de 1

Mas o R atual não dá grande margem de manobra. Foi o próprio Presidente da República que anunciou esta quinta-feira que o cálculo da média nacional do R em Portugal estava nos 0,98, com diferenças regionais (sendo Lisboa e Vale do Tejo a região com maior contágio e o Norte a que tem o valor menor, com 0,91). O valor do R na região de Lisboa não foi revelado, mas, poucos minutos depois, o deputado do PSD Ricardo Baptista Leite revelou que “há regiões do país em que o R é superior a 1” — embora a média nacional esteja abaixo.

“Temos de ser cautelosos”, avisa o médico Ricardo Mexia. “O que era desejável era que os números baixassem mais. Apesar de tudo continuaremos estáveis ou com um decréscimo ligeiro. Mas o equilíbrio é muito ténue, estamos muito perto do 1”, diz o especialista ao Observador, salientando que é necessário aprofundar os mecanismos de monitorização para que sejam “muito mais ágeis e mais robustos”. Até porque, como acrescenta Filipe Froes, vem aí um desafio maior do que o primeiro: “Abrem mais lojas, mais estabelecimentos comerciais. As pessoas vão ter mais interação umas com as outras. Este desafio é fundamental”.

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