Primeiro a ciência, depois a política. A receita tem sido clara e tem corrido bem em Portugal: antes de tomarem uma decisão, os políticos têm de se informar com especialistas. Mas esta quinta-feira, na reunião do Infarmed, os líderes partidários trouxeram as notas incompletas, embora estejam a horas de ir a São Bento dizer o que pensam sobre o assunto ao primeiro-ministro. Os especialistas, segundo líderes partidários ouvidos pelo Observador, deixaram claro que são precisos 14 dias para avaliar o impacto do desconfinamento. Mas só passaram nove. Ora, isto significa, como o próprio Presidente da República confirmou cá fora, que há “poucos dados que permitam conclusões firmes”. Só a 18 de  maio — precisamente o dia em que está prevista a abertura — é que os cientista terão números mais concretos, mas nesse dia já haverá crianças a caminho das creches e alunos a caminho da escola secundária.

A interpretação de um líder partidário ouvido pelo Observador após ouvir os especialistas na reunião é que “deviam passar três semanas entre cada medida”. Outro líder partidário concorda que “não houve dados que permitam avaliar já o desconfinamento”. Por duas razões: portugueses não saíram muito e ainda não passou muito tempo.

Ainda à porta fechada, não fugindo do que diria cá fora, Marcelo Rebelo de Sousa registou que parece tudo estar a “correr bem”, mas pediu “prudência” e deixou claro que “é preciso voltar a avaliar as medidas em junho“. O próprio presidente sugeriu então, tendo também a ajuda do primeiro-ministro, que a próxima reunião entre os especialistas e a elite política seja apenas em junho.

A decisão vai, no entanto, ser tomada às cegas? Não. Há alguns dados que permitem perceber que a situação continua, para já, controlada: o R está ligeiramente abaixo de 1 em todo o país (0,98), diminuíram os internamentos (incluindo em cuidados intensivos), bem como a taxa de letalidade. Para já não soaram as sirenes de que é preciso recuar.

O R é, no entanto, superior a 1 em algumas regiões (como Lisboa e Vale do Tejo), o que o deputado do PSD, Ricardo Batista Leite, classificou, cá fora, como estar no “fio da navalha”. Já depois de o Presidente falar, António Costa quis voltar a perguntar sobre a importância dos surtos no aumento do R. A especialista da DGS Rita Sá Machado foi até ao computador e voltou a colocar um gráfico, no qual se nota que os surtos localizados contribuíram para o aumento do surto (caso dos hostels em Lisboa ou o caso de Moura). Os líderes partidários ouvidos pelo Observador não conseguiram, no entanto, interpretar a pergunta de Costa, sobre se seria “uma preocupação com o facto de vir a permitir eventos como o futebol” ou se era uma forma de “desdramatizar o R”, dizendo que só era superior a 1 devido a casos muito específicos. O R no Norte, por exemplo, é de 0,91, como Marcelo diria também aos jornalistas.

O parênteses na pandemia e o “quarto pastorinho de Fátima”

Houve elefantes na sala que se mostraram à frente das câmaras, à saída da reunião: Novo Banco e Centeno. Houve quem à saída não deixasse de falar no assunto, como por exemplo o líder do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, que lamentou que se perdesse tempo com “triste novela” entre António Costa e Mário Centeno em vez de se combater os efeitos da pandemia. À saída, ainda longe dos microfones, André Ventura questionou Marcelo Rebelo Sousa: “Quando é que anuncia a candidatura?”. O Presidente respondeu que a decisão “não é para agora” e que o próprio Ventura é que tinha de o assumir.

André Ventura reiterou que já a tinha tomado a decisão e que já tinha ouvido o primeiro-ministro a lançar a candidatura do atual chefe de Estado a Belém, que agora só faltava Marcelo assumir. Não ficaria sem resposta. Numa alusão ao tweet  de Ventura no dia 13 de maio em que o líder do Chega disse que a “sua missão política está profundamente ligada a Fátima” e que “é este, talvez” o seu “grande Segredo”, Marcelo comentou: “Não sabia que era o quarto pastorinho de Fátima“.

Portugueses desconfinaram pouco: “Não saíram à rua”

Voltando ao Covid-19, o Governo sempre disse que o fim do Estado de Emergência não implicaria o fim das medidas de restrição e os portugueses parecem ter respeitado as regras. A 4 de maio começou a primeira fase de “desconfinamento” e os portugueses não acorreram às ruas.

Os especialistas deixaram claro que, para já, não há razões para voltar atrás nas medidas de desconfinamento — o índice R (que mede o contágio por cada pessoa infetada) mantém-se, na média nacional, abaixo de 1, embora com variações regionais, e a situação parece “estável”. Mas alertam que ainda é cedo para avaliar com rigor os impactos da primeira fase de reabertura da economia — só no início da próxima semana, quando se completarem 14 dias do desconfinamento terão dados mais concretos, que serão distribuídos pelos políticos e parceiros sociais, eletronicamente. Mas nessa altura, já o país estará numa nova fase de retoma.

Um parceiro social nota, a partir dos dados dos especialistas, que “as pessoas estão conscientes da situação e não reagiram logo, rapidamente, ao desconfinamento: no dia 4, não saiu tudo para a rua“. A retoma estar a ser feita “lentamente”, com as saídas a acontecerem sobretudo para o trabalho ou compras, acrescenta outro parceiro social. De facto, segundo um inquérito cujos resultados foram apresentados na reunião, os portugueses continuam a manter-se em casa “sempre que podem”.

A segunda fase de retoma arranca já na segunda-feira (por exemplo, com a reabertura de restaurantes) e, seguindo o calendário, a próxima reunião dos peritos com a elite política e os parceiros sociais deveria acontecer dia 28. “Mas os especialistas dizem que a 28 de maio provavelmente não conseguem ter conclusões mais sólidas sobre os efeitos do desconfinamento de dia 18”, daí que seja “muito provável” que só voltem a reunir em junho, acrescenta um parceiro social.

Mais pobres são os mais afetados pela pandemia. Marcelo pediu dados sobre a relação entre rendimento e infeção

O efeito parece ser duplo, segundo um inquérito apresentado aos parceiros sociais e políticos: se as  pessoas com salários abaixo de 650 euros foram as que perderam mais rendimento, também são aquelas que estão mais expostas ao vírus (por desempenharem profissões em que o teletrabalho não é possível e que requerem a presença física dos trabalhadores — por exemplo, limpezas ou fábricas).

Os dados do número de infeção e de óbito foram apresentados por faixa etária, mas o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, sugeriu que o estudo passasse a introduzir a situação sócio-económica: para concluir se, efetivamente, os mais pobres estão a ser mais infetados por estarem mais expostos, dada a natureza da profissão. Os parceiros sociais ouvidos pelo Observador concordam que é “preciso termos um desenho mais preciso, até para perceber que medidas devem ser tomadas”.

Além disso, a incerteza nos portugueses sobre quando poderão retomar a “normalidade” está a crescer. Se há “cinco ou seis semanas”, explica um dos parceiros sociais, os portugueses diziam que rapidamente retomariam atividade, agora a maioria responde que “não sabe” — uma percentagem que duplicou nas últimas semanas.

O inquérito apresentado procurou ainda perceber como estão os portugueses a adotar as recomendações de segurança: apenas 4 a 5% não usa máscara, 30% a 40% usa, mas apenas em determinadas situações, e mais de 40% usa sempre que sai de casa.

Além disso, o país já realizou mais de meio milhão de testes e aumentou a capacidade de testagem dos laboratórios (públicos e privados). A 15 de março, 18 laboratórios conseguiam fazer 1.000 testes por dia; a 5 de maio, eram já 54 laboratórios com capacidade de 10.000 testes e no dia 12 passaram a 76 (também com capacidade de 10.000 testes).