As suspeitas surgiram quando a PSP de Lisboa recebeu um alerta: uma pessoa teria visto um estafeta com uma mochila verde característica a encontrar-se com alguém à entrada de casa. Nada anormal e até bastante frequente na capital portuguesa. Mas algo despertou a atenção do denunciante. O tempo dar-lhe-ia razão: passados alguns meses, a polícia desmantelou uma rede de tráfico coordenada por engenhosos informáticos que desenvolveram uma aplicação para vender droga criativamente — em gomas, chocolates ou vaporizadores.
Na última terça-feira, várias equipas do Comando Metropolitano de Lisboa da PSP saíram para a rua e detiveram os três informáticos que coordenavam as entregas e os três estafetas que se faziam passar por funcionários da Uber Eats para distribuir droga. No total, são cinco homens e uma mulher com idades entre os 30 e os 36 anos.
“A sociedade utiliza [as novas tecnologias]. É normal que este tipo de crime aconteça em formato digital. Este [grupo] está claramente visto que utilizava. Tinham competências, tinham conhecimento e tiraram partido disso mesmo para introduzir e vender a droga”, explicou aos jornalistas o comissário João Prisciliano. O maior anonimato do universo digital impede a polícia, por enquanto, de ter a certeza de quantos compradores teria esta rede, mas a quantidade de droga apreendida não deixa dúvidas: o leque de clientes seria vasto.
Além da astúcia de camuflar os traficantes entre os milhares de estafetas que trabalham em Lisboa — em Portugal estão registados cerca de 50 mil —, os cabecilhas procuraram esconder a droga em diversos formatos mais fáceis de transportar. Através da aplicação informática desenvolvida de raiz, conseguiram vender grandes quantidades de produto estupefaciente.
Dois dias depois das detenções, a PSP voltou à rua para dar o golpe (quase) final: fizeram buscas em sete casas e apreenderam mais de 21 mil doses individuais de haxixe, cocaína, liamba e MDMA; 307 gramas de cogumelos alucinogénios e mais de 15 mil euros em dinheiro. A investigação, contudo, não fica por aqui.
Informáticos desenvolveram aplicação para traficar droga. Tinham “conhecimentos avançados”
Os três cabecilhas eram “pessoas típicas”, integradas na sociedade e “com família”, revelou o comissário João Prisciliano ao Observador. A informática era, mais do que um gosto, a “área de trabalho” destes elementos que decidiram usar os “conhecimentos avançados” que tinham para enriquecer com a venda de droga.
Com “capacidade” para desenvolver uma aplicação de raiz, decidiram criar uma plataforma em tudo semelhante às utilizadas para encomendar comida. Através dessa ferramenta, os clientes podiam escolher entre as “várias tipologias de droga”, prever o “local de entrega” e pagar. Tudo digitalmente, sem ser necessário o contacto pessoal.
Mas ao contrário das aplicações normais, que podem ser descarregadas através das plataformas habituais, o sistema desenvolvido por estes narcotraficantes não estava ao alcance de todos. O primeiro acesso, explicou a PSP, teria de ser sempre intermediado por um dos envolvidos no esquema.
“O início do contacto seria através das redes sociais, em plataformas abertas, e depois era dado o acesso a determinada aplicação, transitavam para uma aplicação própria”. As comunicações podiam começar, por exemplo, por WhatsApp ou Telegram, mas depois ia passando para conversas mais exclusivas até chegarem ao produto final.
“A investigação disse-nos, através da interação com as testemunhas, que estas pessoas tinham a capacidade profissional e o método para desenvolver as aplicações”, acrescentou o comissário Prisciliano. Uma vez alertados para transações suspeitas a envolver falsos estafetas da Uber Eats, a PSP começou a seguir a rota do tráfico de droga em Lisboa que os levou até estes três informáticos. Tiveram esta rede na mira durante vários meses.
Os métodos são inovadores, o que levou a uma investigação “particular”. Porém, a polícia admite a existência de outras investigações que encontram “a utilização das novas tecnologias” para atividades ilegais. Tal como a sociedade, também no mundo do crime há uma adaptação ao formato digital. Neste caso, o sucesso da atividade dependia de outro fator.
Encontrada forma de arranjar novos clientes e vender o produto, faltava saber como transportar a droga em Lisboa sem que a polícia detetasse.
Traficantes passavam despercebidos entre os milhares de estafetas em Lisboa
É neste momento essencial do tráfico de droga que surgem outras três pessoas, com uma posição hierárquica na rede inferior aos informáticos, mas com relevância para o sucesso da operação. Não tinham relação familiar entre eles e, por enquanto, a PSP ainda não sabe como todos os intervenientes no grupo se conheceram — são quase todos cidadãos portugueses. “Os contactos eram feitos através dessas aplicações na internet e depois havia uma rede de distribuidores camuflados por Ubers que faziam as entregas das encomendas”.
Estes traficantes andavam por Lisboa de bicicleta, mota, carro ou a pé. Com eles, era imprescindível a mochila verde da Uber Eats, com a qual podiam distribuir produtos sem levantar suspeitas. A vinculação à empresa era apenas fictícia, nenhum dos detidos estava inscrito como trabalhador nas plataformas. “Utilizavam estes disfarces para passar no tecido social. Utilizavam as mochilas para que parecesse uma atividade lícita. (…) Tinham uma vasta capacidade de fazer entregas dentro da cidade”. “É normal à porta de um prédio ou de uma casa, em Lisboa, haver pessoas a entregar encomendas”, concretizou o comissário.
Esta técnica não apanhou a PSP de surpresa. É do conhecimento das autoridades que há várias pessoas a fingir prestar serviço de estafetas para conseguirem colocar droga no mercado. Recentemente, as autoridades detiveram um homem que também levava uma mochila da Uber Eats. “Informou os polícias que estava em deslocação para fazer uma entrega, mas apurou-se que tal não era verdade pois a mochila encontrava-se vazia e o produto que tinha na sua posse era destinado a ser vendido por várias zonas de Lisboa”, referiu a PSP através de um comunicado.
Esse estafeta levava com ele “cinco sacos herméticos de produto suspeito de ser estupefaciente”. Após ser pesado e analisado, confirmou-se, eram 28 doses individuais de cocaína. Apesar das semelhanças com a apreensão que resultou na queda da rede dos informáticos traficantes, a PSP garantiu ao Observador que esta detenção não está relacionada com o grupo. Ainda assim, é sintomático da maior procura por este método. Há pouco tempo, houve também um caso sinalizado por um polícia de folga que “viu um evento, com um motociclista da Uber que chamou à atenção”. “Sabemos que há mais”, confirmou João Prisciliano.
JOSE SENA GOULAO/LUSA
Quantidade e variedade de droga corresponderia a vasto leque de clientes
Perante os jornalistas, o comissário da PSP apresentou esta sexta-feira o produto apreendido. Foram 8.944 doses individuais de haxixe; 5.490 doses individuais de cocaína; 2.500 doses individuais de Liamba; 4.460 doses individuais de MDMA; 307 gramas de cogumelos alucinogénios; 1.5 kg de produtos de mistura química e 15.400 euros em notas.
O odor nauseabundo a drogas confirma a diversidade identificada pelas autoridades. A polícia não sabe, para já, quantos clientes tinha este grupo, mas garantem que, atendendo à quantidade apreendida, só poderiam ser muitos. “Temos o acompanhamento de bastantes [clientes]. Durante este tempo interagimos com muitos, muitos compradores”. No entanto, a procura pelo mundo digital — com o objetivo de escaparem às autoridades — impossibilita uma contagem mais definitiva deste número.
Além dos produtos, há vários objetos utilizados para o tráfico: a quadrada mochila verde, aparelhos para embalar sacos sem ar e muitos frascos com distinção do tipo de droga. Mais do que a quantidade, é a diversidade de oferta que impressiona a polícia neste caso. “O formato não é novidade, a novidade é venderem de tantas formas — isso indica-nos a longevidade nesta atividade”, explicou João Prisciliano. O habitual é as redes começarem com um determinado produto e irem diversificando a oferta à medida que vão ganhando estatuto e dinheiro.
CARLOS M. ALMEIDA/LUSA
“O normal é fazermos buscas e encontrarmos três ou quatro quilos de ervas. Estes tinham as ervas todas divididas por diferentes características. Tinham grande disponibilidade de droga, podiam chegar a clientes diferenciados — dentro da erva, da liamba, há drogas com efeitos diferentes. Este grupo tinha um stock grande”, acrescentou ao Observador.
A criatividade estava também na forma como apresentavam o produto. Pousadas sobre a mesa estão gomas, chocolates, vaporizadores e selos — todos com droga. Não é só a busca por um produto novo que pode beneficiar os traficantes, mas também a possibilidade de conseguirem transportar droga dissimulada em produtos tão banais como gomas, chocolates ou ‘vapes’.
Toda a droga era guardada nas casas das pessoas envolvidas na operação, tendo sido apreendidas quando a PSP realizou as buscas. “Apanhámos várias tipologias de liamba. Percebe-se a dimensão do negócio, haver alguém que consegue ter a capacidade de expelir para o mercado várias tipologias de liamba, é indicador que já está no mercado há algum tempo. Apanhámos várias tipologias de haxixe e também muita droga sintética, algumas delas camufladas em selos ou em gomas. Tínhamos aqui alguma inovação para apresentar ao mercado por parte desta rede”, rematou o comissário da PSP de Lisboa.
Todo o grupo foi constituído arguido. Quatro aguardam julgamento em prisão preventiva, os restantes estão sujeitos a apresentações periódicas. Contudo, a missão da PSP não pára: a investigação prossegue e as autoridades já analisam os computadores e telemóveis apreendidos para perceber, com mais detalhe, como funcionava a aplicação. Além disso, querem entender como é que este grupo tinha acesso a tanta diversidade de produto estupefaciente.