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AFP via Getty Images

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A segunda vaga ainda não chegou a Portugal, mas é "quase inevitável" que venha em setembro /premium

Vários países já anunciaram a chegada da segunda vaga. Especialistas continuam céticos e muitos dizem que ainda estamos no final da primeira. Mas chegará mais tarde ou mais cedo. E não será a última.

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Em Espanha, depois da tempestade veio a bonança. Após três meses com um número de novos casos diários de infeção pelo novo coronavírus na ordem dos milhares, o mês de junho trouxe uma acalmia que Portugal invejava, já quem com o surto de Lisboa e Vale do Tejo passou a ter mais contágios por dia do que os espanhóis. Era como se a Covid-19 tivesse dado tréguas a um país que chegou a lamentar a morte de quase mil pessoas num só dia.

Mas não deu. A partir de meados do mês passado vieram os ‘brotes’, com vários surtos em diversas regiões no país, e o número de novos casos de infeção pelo novo coronavírus voltou a subir para os quatro dígitos. As mortes continuaram por muito tempo a roçar o zero — a maior parte dos novos infetados eram jovens e, por isso, pessoas com menos probabilidade de pertencerem aos grupos de risco e muito menos mortalidade —, mas só na terça-feira foram registadas 26 vítimas num só dia. O fantasma da segunda vaga parecia ter chegado. E a Covid-19 ameaçava novamente com força os nossos vizinhos do lado.

Não são caso único. Do outro lado do mundo, na Austrália, após um outono controlado, os números dispararam em flecha. O gráfico que desenha a evolução de novos casos diários de Covid-19 no país não parece dar margem para dúvidas: há um pico entre março e abril, outro a partir de meados de junho até agora e, pelo meio, um vale onde se chegaram a registar apenas cinco novos contágios em 24 horas. Tem havido dias em que se identificaram mais novos casos de infeção do que quando a epidemia entrou na Austrália. Terá ela voltado?

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Perante a dúvida, o governo australiano decidiu assumir que a segunda vaga chegou ao país e, por isso, implementou medidas de contenção como o recolher obrigatório. Outros países tomaram decisões semelhantes: as Filipinas e o Japão vivem um panorama parecido; Croácia, Roménia e Albânia, que tinham passado mais ou menos sem problemas pelo início da pandemia, assistem agora a um aumento de casos; França e Países Baixos veem-se com um gráfico em subida contínua e admitem também a existência da segunda vaga.

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Pasi Penttinen, especialista em imunização do Centro Europeu de Prevenção e Controlo da Doença (ECDC), “evitaria usar a dicotomia de primeira e segunda onda”: “Estamos no meio da primeira onda na Europa e globalmente. Só vimos declínios [no número de casos] na Europa, por causa das medidas de distanciamento físico. O vírus não mudou a dinâmica. No momento em que relaxarmos essas medidas, vão criar-se oportunidades para o vírus se espalhar novamente”, respondeu ele ao Observador.

"Estamos no meio da primeira onda na Europa e globalmente. Só vimos declínios [no número de casos] na Europa, por causa das medidas de distanciamento físico. O vírus não mudou a dinâmica. No momento em que relaxarmos essas medidas, vão criar-se oportunidades para o vírus se espalhar novamente".
Pasi Penttinen, especialista em imunização do Centro Europeu de Prevenção e Controlo da Doença (ECDC)

Por isso é que estamos a ver um aumento significativo dos casos nestes países. E também em Portugal, aponta Pasi Penttinen. Por cá, o país chegou a ultrapassar os 1.500 casos diários de infeção pelo novo coronavírus num só dia, mas o número mais baixo de novos casos que se registaram num só dia foi 92, na véspera do desconfinamento nacional. Depois disso, os números voltaram a subir, embora sempre de forma controlada: os gráficos mostram uma espécie de monte achatado de maio até agora. Ao longo desse período, Portugal só ultrapassou os 500 casos diários uma vez, mas nunca baixou dos 106.

A verdade é que, à luz da epidemiologia, o termo “segunda vaga” nem sequer existe. “É um conceito, uma muleta que nos ajuda a expressar a ideia de que, nas doenças infecto-contagiosas, há uma fase de grande expansão, depois há uma retração e pode haver uma nova expansão. A essa nova expansão chamamos segunda vaga”, descreve Miguel Castanho, líder do grupo de bioquímica física de fármacos no Instituto de Medicina Molecular (IMM), ao Observador.

Existe, isso sim, o termo “epidemia”, que é um aumento anormal do número de casos numa determinada área geográfica durante um determinado período de tempo. É o que nos explica Manuel Carmo Gomes, professor de epidemiologia de doenças transmissíveis da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa: “Quando, num determinado país para uma determinada doença, aparecem duas epidemias seguidas, as pessoas falam de vagas. Mas a definição científica de ‘vaga’ não existe. Aquilo que para mim pode ser uma vaga olhando para um gráfico, para si pode não ser”.

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Por isso é que, mesmo entre os especialistas entrevistados pelo Observador, parece haver pouco consenso sobre em que fase da Covid-19 se está, tanto em Portugal como no resto do mundo. Para Gabriela Gomes, epidemiologista, investigadora da Escola de Medicina Tropical de Liverpool e do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto, a segunda vaga é “uma epidemia que, tendo recedido durante algum tempo, a partir de certa altura voltou a ter um crescimento sustentado da incidência da doença”. E, por isso, acredita que, de facto, “estamos na segunda onda”.

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Manuel Carmo Gomes, por outro lado, acredita que “estamos no fim da primeira vaga” porque “o número de novos casos terá tendência a diminuir, tal como “está a acontecer nas últimas três semanas”. E Miguel Castanho chama-lhes “flutuações dinâmicas do mesmo fenómeno”: “Para mim, em local nenhum entrámos em segunda vaga. Só se justificará falar em segunda vaga quando acontecer algo radicalmente diferente, algo que permita dizer que uma pessoa teve Covid-19 e a outra teve Covid-20; ou em que haja um aumento do número de casos que seja claramente uma nova fase em termos de infeção”.

"Quando, num determinado país para uma determinada doença, aparecem duas epidemias seguidas, as pessoas falam de vagas. Mas a definição científica de 'vaga' não existe. Aquilo que para mim pode ser uma vaga olhando para um gráfico, para si pode não ser".
Manuel Carmo Gomes, professor de epidemiologia de doenças transmissíveis da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

O termo “segunda vaga” vem dos tempos da Gripe Espanhola, há pouco menos de 100 anos. Nesse caso, a primeira vaga ocorreu nos Estados Unidos, depois alastrou para a Europa com o recrutamento de tropas durante a I Guerra Mundial. “A determinada altura, no inverno de 1918, quando começou a segunda vaga, aquilo que se nota é que, em áreas geográficas muito bem definidas, começou a morrer muita gente. A mortalidade associada à doença é muito maior do que se verificava antes. A partir daí, alastrou uma nova epidemia que se tornou pandémica e morreu muita gente”, conta Miguel Castanho.

Miguel Castanho, investigador do Instituto de Medicina Molecular e professor na Faculdade de Medicina de Lisboa

Filipa Bernardo/ Global Imagens

Aconteceu que, da primeira para a segunda vaga, houve uma diferença fundamental: o surgimento de uma nova estirpe do vírus, mais perigosa e com tendência a atacar os mais jovens com exceção das crianças. “Era um vírus que era mais inofensivo para as faixas etárias mais frágeis da população”, acrescentou o bioquímico. Atualmente, a maior parte dos novos casos também ocorrem nas camadas mais jovens da população: segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o número de jovens com Covid-19 triplicou em cinco meses. Mas nada indica que isso esteja a acontecer por causa do surgimento de uma nova estirpe do vírus. “O vírus não se foi embora, não foi limitado ao verão, mas baixou-se a guarda. É uma questão comportamental”, acredita Manuel Carmo Gomes.

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De resto, muito mudou desde os tempos da Gripe Espanhola, sublinha o epidemiologista: “Ainda não se sabia que os vírus existiam, não havia microscópios eletrónicos. As pessoas suspeitavam que se transmitia qualquer coisa mas ninguém sabia o quê; e não havia antibióticos. Havia muito mais mortes (estas infeções dão complicações bacterianas). Comparar é deitar para o lixo 100 anos de ciência. Nós estamos capazes de fazer muito melhor”.

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Nem todas as doenças infecciosas provocam estes padrões por vagas. “Depende essencialmente do número de pessoas que são suscetíveis à doença. Se introduzir uma doença infecciosa numa população onde toda a gente pode apanhar a doença, ela começa a aumentar os seus números”, descreve o professor de epidemiologista. Se esses números aumentarem rapidamente, há uma vaga — ou, na linguagem científica, uma epidemia. Se aumentarem lentamente, a linha dos novos casos é mais achatada.

Imagine que se colocam numa grande sala todas as pessoas que podem ser infetadas por uma determinada doença infecciosa. Por uma das portas saem as pessoas que, por já terem sido contagiadas no passado, desenvolveram imunidade contra o agente patogénico. Pela outra porta entram as pessoas que nascem (e estão, por isso, desprotegidas contra ele) ou que já perderam essa imunidade, podendo portanto ser infetadas novamente.

Manuel Carmo Gomes, professor de epidemiologia de doenças transmissíveis da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

Ora, a pandemia trouxe ao léxico mundial uma nova expressão: R, o valor que indica o número de outras pessoas que um infetado irá contagiar. Se o R de uma doença for muito alto, o número de pessoas que podem apanhar diminui rapidamente porque há muita gente a ser infetada a um grande ritmo — tão grande que nem o número de nascimentos, nem o número de pessoas que perde a imunidade conseguem repor a multidão dentro da nossa sala.

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Há doenças onde o R é pequeno e, por isso, a sala não esvazia rapidamente. É o caso da turberculose ou da hepatite B. Mas há doenças com o R muito alto, como o sarampo, a gripe, a papeira, a varicela e a Covid-19. “Estas doenças consomem as pessoas suscetíveis de forma tão rápida que o número de pessoas disponíveis diminui e o número de casos aumenta. Quando já não há pessoas suscetíveis, então o número de casos começa a descer. E há uma onda”, concretiza Manuel Carmo Gomes.

No caso da Covid-19, o surgimento de uma nova onda é possível porque a sala nunca se esgotou: continua a haver muita gente suscetível de apanhar a doença. “Confinámos as pessoas e todas as pessoas que podiam apanhar a doença ficaram fechadas em casa. Mesmo quando se começou a sair, as pessoas começaram a adotar medidas de proteção que evitam que haja contágios com tanta facilidade, como a utilização de máscaras ou o distanciamento físico”, acrescenta o epidemiologista.

É por isso que a primeira vaga não foi um pico súbito que se alastrou por todo o lado e teve um decréscimo muito grande, a roçar os zeros casos diários como observámos na Gripe Espanhola e noutras pandemias. “Nós tivemos um pico mas, com o desconfinamento, o vírus encontrou novamente condições para alastrar. Neste momento, estamos na primeira vaga, a meio de combate, à procura de um equilíbrio: o número de novos casos não desce muito, mas também não sobe muito”, defende Miguel Castanho.

"Nós tivemos um pico mas, com o desconfinamento, o vírus encontrou novamente condições para alastrar. Neste momento, estamos na primeira vaga, a meio de combate, à procura de um equilíbrio: o número de novos casos não desce muito, mas também não sobe muito".
Miguel Castanho, líder do grupo de bioquímica física de fármacos no Instituto de Medicina Molecular (IMM)

Mas algo de fundamentalmente diferente vai ocorrer já no próximo mês: o regresso às aulas presenciais, recorda Manuel Carmo Gomes. As crianças vão voltar às escolas, os pais regressam ao trabalho no lugar habitual, o frio do outono levará mais gente para dentro de espaços mal ventilados e, de um momento para o outro, o país entra no verdadeiro desconfinamento — aquele que põe o país a mexer a um ritmo muito semelhante ao que ocorria antes da Covid-19. Por outras palavras, a sala com pessoas suscetíveis de apanhar o vírus vai ficar sobrelotada. E o SARS-CoV-2 encontrará condições para provocar mais contágios.

Mais: para o bioquímico do IMM, “é plausível que venha uma segunda vaga no inverno, uma vez que as vias respiratórias ficam mais expostas ao ar frio e à humidade e ficam mais fragilizadas, mais suscetíveis de serem atacadas”: “Num raciocínio lógico, dir-se-ia que, sendo este um vírus respiratório e não tendo desaparecido no verão, é plausível que no inverno tenhamos mais casos por termos condições mais propícias à infeção”. Veja-se, por exemplo, o caso da Austrália, que está a atravessar o inverno agora e assistiu a um aumento de casos — embora quase todos em Melbourne.

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Há formas de manter essa possibilidade fora do horizonte: “Se nós formos muito rápidos a identificar os casos de doença, se formos muito rápidos a ir ter com essa pessoa, fazer um inquérito e perguntar com quem é que andou a contactar nos últimos dias; se formos muito rápidos a ir ter com esses contactos, a testá-los e a isolá-los, não há segunda vaga”, acredita Manuel Carmo Gomes. O problema? “Se alguma dessas coisas falhar, e é muito fácil que falhe, quase de certeza que vamos ter uma segunda vaga. É quase inevitável”.

É simples saber quando ela estiver a atingir Portugal: primeiro surgem os surtos, um aumento de casos numa área geográfica muito localizada; os surtos evoluem para clusters, em que o número de casos de um surto evoluiu para a ordem das dezenas ou das centenas; e, se não houver medidas para conter esses grupos, chega então uma nova epidemia. “A partir do momento em que virmos um aumento do número de novos casos todos os dias, em que o número hoje é maior do que o de ontem e ontem já era maior do que anteontem; e isto se repete por vários dias seguidos, estamos a entrar numa segunda vaga”, prossegue o epidemiologista.

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Mas ninguém pode prever a dimensão dessa onda: depende do número de testes, da capacidade de resposta do sistema de saúde, das medidas de contenção exigidas pelas autoridades e do grau de respeito da população por elas. No Japão, por exemplo, um país que controlou bem a primeira fase a epidemia, as medidas de contenção foram levantadas tão repentinamente que o número de casos disparou. Na Coreia do Sul, que tinha montado uma verdadeira operação de rastreamento para conter o vírus, bastou abrir as discotecas para a epidemia tomar conta do país.

"É muito difícil dizer quão grande será a próxima onda. O que fica bem claro é que, apesar de termos tantos casos notificados, apenas uma pequena parte da população dos países foi exposta ao vírus. Isso significa que o resto ainda é suscetível. O tamanho da onda vai depender de quantas pessoas podem juntar-se e em que condições, se ainda terão de manter o distanciamento, se continuarão a seguir os conselhos de higiene, se os casos ainda serão detectados precocemente, contactos imediatamente rastreados e isolados ou em quarentena"
Pasi Penttinen, especialista em imunização do Centro Europeu de Prevenção e Controlo da Doença (ECDC)

“É muito difícil dizer o quão grande será a próxima onda”, conclui Pasi Penttinen: “O que fica bem claro é que, apesar de termos tantos casos notificados, apenas uma pequena parte da população dos países foi exposta ao vírus. Isso significa que o resto ainda é suscetível”. Em suma, “o tamanho da onda vai depender de quantas pessoas podem juntar-se e em que condições, se ainda terão de manter o distanciamento, se continuarão a seguir os conselhos de higiene, quão precocemente são detetados os casos”.

Pasi Penttinen, especialista em imunização do Centro Europeu de Prevenção e Controlo da Doença (ECDC).

ECDC

E não termina aqui. As vagas de Covid-19 devem continuar uma atrás da outra enquanto não houver uma vacina ou um tratamento eficaz contra a doença provocada pelo novo coronavírus. “Não é que com a segunda onda, todo o assunto fica arrumado. Nesse sentido, estamos à espera de uma próxima onda. O número de casos notificados vai aumentar e depois diminuir consideravelmente. Cada um desses ciclos é uma onda”.

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