Os Estados Unidos continuam enterrados “até aos joelhos” na primeira vaga da pandemia de Covid-19, segundo Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas. Hong Kong enfrenta já a terceira vaga e a pior crise de saúde pública, segundo as autoridades de saúde no território. Pelo meio, a evolução da pandemia varia de país para país — ou dentro do próprio território. O que parece ser comum é um aumento do número de casos com a diminuição das medidas restritivas.

Quem se dedica às previsões de cenários com base nos dados existentes diz que é muito difícil perceber o que pode acontecer nos próximos meses, até porque cada país, e mesmo cada região, terá comportamentos próprios, relata o jornal El Confidencial. Mais claro parece ser que as potenciais novas vagas seguem uma tendência semelhante à primeira, pelo menos em termos de dispersão geográfica: começaram na Ásia e podem aparecer gradualmente no resto do mundo.

O difícil mesmo é definir o que é uma nova vaga (ou onda). “Não é especialmente científico: a maneira como se define uma onda é arbitrária”, disse à BBC Mike Tildesley, que trabalha com simulações da dispersão de doenças dos animais para os humanos na Universidade de Warwick. Miguel Castanho, investigador do Instituto de Medicina Molecular, disse à SIC Notícias que, ainda que os casos possam aumentar, não espera uma segunda vaga seja pior do que a primeira, porque estamos mais bem preparados.

Só se pode dizer que uma vaga chegou ao fim depois de o surto estar controlado e de o número de casos cair significativamente. Da mesma forma, para se falar de uma nova vaga é preciso, à partida, que os casos aumentem de forma consistente ao longo de um certo período de tempo. Altos e baixos no números de infetados, que se refletem num gráfico às ondas, não podem ser considerados novas vagas. E surtos localizados — como os mais de 200 surtos ativos em Portugal —, desde que controlados, também não.

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Estados Unidos, Brasil, Índia e África do Sul ainda não conseguiram abrandar primeira vaga

Os Estados Unidos, com quase 3,9 milhões de casos e mais de 143 mil mortes, e o Brasil, com cerca de 2,1 milhões de infetados e mais de 80 mil mortos, ocupam o topo da tabela dos países mais afetados pela pandemia. Em comum tem o facto de os seus Presidentes desvalorizarem o impacto da pandemia na saúde pública e as fracas medidas de contenção aplicadas. Em comum têm também os altos e baixos desenhados pelo número de novos casos diários.

Apesar das oscilações, há um mês que o Brasil não desce da marca dos 20 mil casos diários e os Estados Unidos ultrapassaram, na semana passada, os 75 mil casos num dia. Nenhum destes países dá sinais de ter a primeira vaga da pandemia sob controlo.

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A Índia, por seu lado, fechou-se em casa a partir de 22 de março na tentativa de controlar o aumento do número de casos, mas gradualmente começou a aliviar as restrições nas áreas menos afetadas a partir de 20 de abril. Com o fim do confinamento a 3o de maio na maior parte do território, os casos não pararam de crescer e quase todos os dias o país bate recordes no número de infetados. Esta segunda-feira ultrapassou os 40 mil novos casos, mais do dobro do que tinha registado no início do mês de julho. O país tem um total 1,16 milhões de casos e 28.084 mortos.

A África do Sul só viu o número de casos diários crescer a partir de maio, mas, neste momento, já é o quinto país com mais casos registados — 373.628 infetados conhecidos e 5.173 mortes. Também aqui os números oscilam, mas não mostram ainda tendência de descida.

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A Rússia e Peru com números altos, mas estáveis

Depois de ter registado mais de 10 mil casos diários nas duas primeiras semanas de maio, o número de casos por dia na Rússia tem descido, mas de forma muito ligeira — o que faz com que o registo se assemelhe mais ao do tantas vezes falado planalto. A Rússia, o quarto país com mais infetados, tem mais de 783 mil casos conhecidos e 12.580 mortes registadas relacionadas com a Covid-19.

Com um registo de casos diários muito irregular, mas mais ou menos constante há quase dois meses, está o Peru — em sexto lugar no ranking dos países com mais casos confirmados (mais de 357 mil). Esta segunda-feira, registou 4.091 novos casos e já registou um total de 13.384 mortes.

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Singapura

Singapura teve o número mais alto de infeções registadas a 20 de abril, com 1.426 novos casos. Desde aí que os novos casos têm diminuído, embora nunca tenham voltado a ser menos de 100 por dia. A partir da segunda semana de julho, o número de novos casos voltou a subir, tanto devido a transmissão comunitária como a casos importados, mas Kenneth Mak, diretor dos Serviços Médicos do Ministério da Saúde de Singapura, rejeita que o país esteja perante uma segunda vaga e justifica o aumento dos contágios com o aumento da interação social.

China

A China foi o primeiro país a ter de lidar com a pandemia e a encetar todos os esforços para manter o surto sob controlo. Quando uma segunda vaga ameaçou começar na cidade de Pequim — aparentemente a partir de um mercado, tal como a primeira vaga em Wuhan —, as autoridades extingiram-na antes que ela se pudesse afirmar e foram registados pouco mais de 300 casos. A zona envolvente ao mercado foi encerrada e foram feitos testes em massa a todos os potenciais contactos e às pessoas que circularam naquela zona.

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A situação mais preocupante agora é na região de Xinjiang, com uma área 18 vezes superior a Portugal, onde desde a semana passada se têm registados novos casos de transmissão comunitária. O metropolitano local foi suspenso, foram cancelados centenas de voos e deu-se início a uma campanha de testes para conter o surto.

Austrália

Até ao início de abril, a Austrália conseguiu ter o surto de SARS-CoV-2 sob controlo. O vírus não tinha desaparecido do país, mas o número de novos casos era pequeno. A situação mudou no final de junho e princípio de julho com um aumento do número de novos casos até valores próximos do pico da primeira vaga. Mas se em março os casos foram sobretudo importados, agora a transmissão é muito mais de base comunitária, logo mais difícil de controlar, diz Peter Collignon, professor de doenças infeciosas e médico no Hospital de Camberra.

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Japão

O Japão enfrentou o pico da pandemia durante o mês de abril, com o máximo diário a ser atingido no dia 12 de abril com 743 novos casos. A partir do final de maio, e durante quase um mês, o surto esteve controlado, mas desde 30 de junho que os novos casos são sempre superiores a 100, tendo chegado a 659 este sábado. Grande parte dos novos casos estão localizados na capital, Tóquio. Desde o início da pandemia (e até dia 18 de julho), o Japão tinha registados 25.096 casos, com 19.757 pessoas recuperadas e 985 mortes.

Coreia do Sul

Saber quando acaba uma vaga e começa outra não é fácil, sobretudo quando o número de novos casos não desaparece totalmente e o aumento depois disso é ligeiro. Durante muito tempo, a Coreia do Sul achou que, mesmo depois de ter controlado o número de infetados, continuava a assistir aos efeitos da primeira vaga, mas com poucos casos diários. A 22 de julho, no entanto, a interpretação passou a ser diferente: a segunda vaga teria começado num fim de semana de maio na área de Seul, depois dos ajuntamentos demasiado descontraídos nos bares. Para esta segunda vaga, o número mais alto de novos casos foi 79 no dia 27 de maio.

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Israel

Nas duas últimas semanas de maio, Israel parecia ter a pandemia sob controlo. Tinham passado cerca de dois meses desde o início do surto, que em duas semanas chegou a um máximo de 795 casos diários. Mas a segunda vaga, que até começou de forma menos acelerada, já chegou aos 1.931 novos casos num único dia (16 de julho). Israel registou, até ao momento, mais de 52 mil casos e 422 mortes.

Sérvia

As eleições na Sérvia, marcadas para dia 26 de abril, tiveram de ser adiadas para junho. Durante cerca de dois meses, o país fechou as escolas e impôs o recolher obrigatório, mas, segundo os críticos, o governo levantou as restrições demasiado rápido. Em causa estavam os eventos desportivos e as eleições a 21 de junho, dia em que se registaram 91 novos casos. A partir daí houve uma escalada no número de novos casos por dia, chegando a um máximo de 396 no domingo.

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Portugal, Espanha e França: surtos ativos não significam segunda vaga

Portugal tem 206 surtos ativos, disse esta segunda-feira, o diretor geral da Saúde, Diogo Cruz. Ter um surto ativo quer dizer, por um lado, que há (ou houve) transmissão comunitária; por outro, que ainda não passaram 28 dias sem registo de novos casos — só a partir daí o surto será considerado extinto. e mesmo com a situação que tem afetado a Área Metropolitana de Lisboa, Portugal não pode dizer que está perante uma nova vaga. Para evitar que isso acontecesse, no entanto, foi necessário voltar a impor algumas medidas restritivas, nomeadamente em 19 freguesias desta área.

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Com 400 ou 500 surtos ativos, um Rt de 1,2 e um aumento nas hospitalizações, França também decidiu aumentar as medidas de contenção do vírus, mas rejeita falar numa segunda vaga. A partir desta segunda-feira, passou a ser obrigatório usar máscara em todos os espaços públicos, além dos transportes, ou seja, estabelecimentos comerciais, centros comerciais, departamentos administrativos, bancos e mercados fechados.

Desde o início do desconfinamento, Espanha já registou mais de 200 surtos. As situações mais preocupantes estão, neste momento, nas regiões de Aragão e Barcelona, com o Governo a recomendar o confinamento voluntário e a limitar os ajuntamentos a 10 pessoas. Se estas medidas não resultarem, estas regiões voltam a ter as liberdades limitadas. Só esta segunda-feira, Espanha registou 4.581 novos casos — em parte justificado pela falta de atualização durante o fim de semana.

Hong Kong

De meados de abril até, mais ou menos, finais de junho, a situação em Hong Kong manteve-se controlada, com alguns picos diários, que nunca ultrapassaram os 30 novos casos. Mas a partir do início de julho, o número de novos casos por dia começou a subir gradualmente. Este domingo, o território atingiu um número recorde de novos casos (107) — o máximo durante a primeira vaga tinham sido 65 novos casos num dia. Neste momento, Hong Kong enfrenta uma terceira vaga, segundo as autoridades de saúde do território, tem 2.019 casos confirmados e 14 mortos.

Hong Kong diz estar já na terceira vaga da pandemia de Covid-19 — Google

Todos os números apresentados têm por base as estatísticas do Google.