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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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A vitória curta de Pedro Duarte soube a muito. A terceira derrota de Pizarro também

Pedro Duarte, que começou com expectativas baixas, acabou a festejar. Manuel Pizarro, que estava cheio de esperança, voltou a conhecer o sabor amargo da derrota. Chega ficou aquém, mas é peça-chave.

As primeiras palavras até pareciam antecipar uma derrota. Pedro Duarte chegou à sede de campanha, em plena Avenida dos Aliados, ao fim da tarde deste domingo e elencando uma série de frases que geriam expectativas, incluindo as piores. “Fiz campanha com as minhas convicções e quando é assim temos de estar tranquilos”, dizia, ao sair do carro; nem tinha preparado um discurso de vitória porque “tudo” podia acontecer; não “precisava” de ter Luís Montenegro ao seu lado durante a noite. Horas depois, o candidato que parecia hesitante voltaria a entrar numa sala em puro êxtase para se declarar “o líder do norte de Portugal”. Pedro Duarte tinha mesmo ganhado, ajudando o PSD a ter uma noite (muito) feliz e tornando-se sucessor de Rui Moreira, apesar das sondagens que inicialmente lhe apontavam uma derrota. Acabaria a noite abraçado ao velho amigo Luís Montenegro, numa vitória que superou as expectativas de ambos.

A noite foi, ainda assim, longa e renhida. “Ninguém vai falar antes do tempo”, ia-se avisando na equipa de Pedro Duarte. E neste caso isso incluiu qualquer tipo de reação: ao contrário do que é costume durante as noites eleitorais, não houve uma reação oficial aos números da abstenção, nem sequer às primeiras projeções das televisões. Pedro Duarte continuava no seu quartel-general pessoal, uma sala onde estava fechado só na companhia da família, a aguardar “serenamente” pelos resultados. No espaço da sede onde se iam juntando dezenas de militantes, menos comedimento: à primeira sondagem (da RTP) que apareceu no ecrã do plasma, às 20h, e que colocava Pedro Duarte à frente da corrida, a euforia instalou-se. Ouviram-se gritos de “vitória”, palmadas fortes em costas alheias, sucederam-se os abraços apertados. Mas pelo meio ouvia-se a voz de alguns apoiantes: “Calma, calma”. A noite estava (muito) longe de acabar.

E era mesmo preciso ter calma: a noite prosseguiu com indicações múltiplas, por vezes contraditórias, das várias candidaturas, que iam colocando ora PS ora PSD a liderar, com festejos ocasionais pela conquista de juntas de freguesia, intercalados com momentos de silêncio e expectativa. Do lado do PSD comentava-se que uma vitória por apenas umas centenas de votos “não chocaria ninguém”. A ordem era para refrear entusiasmos e esperar por confirmações. Mas o entusiasmo ia aumentando com as indicações que iam surgindo, vindas de outros concelhos: o PSD estava quase a ganhar Lisboa, o PSD conquistava Sintra, a previsível vitória de Gaia estava confirmada. Só faltava mesmo o Porto.

E a primeira indicação sólida foi a de Nuno Melo, que se deslocou brevemente à sede de Pedro Duarte para dar o “devido abraço” ao novo presidente da Câmara Municipal do Porto. No final da contagem apenas 2008 votos separariam as duas maiores candidaturas, mas nesta altura a noite avançava e Melo celebrava o significado da provável vitória para o espaço político do centro-direita. A sala estava em êxtase. Só faltava que o pano que a separava das salas em que Pedro Duarte, outros candidatos e convidados esperavam, subisse dramaticamente para revelar a descida do social democrata vitorioso, assim que a televisão deixasse de transmitir o discurso de derrota de Pizarro.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

A vitória pela qual o PSD suou confirmava-se, depois de meses de tentativas de conquistar o maior espaço político possível no centro-direita — com vários convites ao sucessor de Rui Moreira, Filipe Araújo, para que integrasse as listas e desistisse da sua candidatura; com sondagens iniciais a darem uma vantagem de três pontos ao repetente Manuel Pizarro; com o polémico arranque da candidatura no mesmo dia em que o Conselho de Ministros aconteceu no Bolhão; e com os outros candidatos a acusarem Duarte de ser um “candidato de ocasião” ou um “delegado do Governo”. Nas ruas, Duarte admitia que enfrentava as dificuldades próprias de um candidato que tinha lançado a campanha uns meses mais tarde e ainda sem grande notoriedade. Tinha de acelerar, mas acreditava que a campanha serviria para ultrapassar essas dificuldades.

E na noite deste domingo, depois de as sondagens terem, durante a campanha, começado a mostrar uma pequena inversão da dinâmica eleitoral e a colocar Pedro Duarte com uma ligeiríssima vantagem sobre Pizarro, a tendência confirmou-se: o amigo dos tempos de faculdade em que Montenegro apostou para agarrar o Porto, no renhido final de ciclo de Rui Moreira, derrotou Pizarro, mesmo que por pouco; a coligação de direita venceu em cinco das sete freguesias e ganhou na Assembleia Municipal; faltaria conhecer o número exato de vereadores para perceber como é que a governação do Porto vai ser gerida nos próximos tempos — acabaram por ser seis, exatamente o mesmo número conquistado pelo PS, o que pode fazer do Chega (um vereador) o fiel da balança.

Depois de corresponder aos pedidos de “salta, Pedro” dos apoiantes, o social democrata deixou as primeiras pistas: a primeira palavra foi mesmo para os adversários (“também são vencedores porque ganhou a democracia”) e especialmente para Manuel Pizarro, por quem expressou estima pessoal e admiração política, a quem reconheceu devoção política e descreveu como um “grande portuense”. Mais importante: Pedro Duarte confia que “Pizarro continuará disponível para ajudar a cidade” — e possivelmente a sua governação, que, vencendo por uma margem tão curta, poderá ser algo conturbada.

Mas se houve garantia que o social democrata foi deixando durante a campanha foi mesmo que é um homem de diálogos e consensos (chegou à candidatura do Porto abandonando, de resto, o cargo de Ministro dos Assuntos Parlamentares, que implica esse diálogo e relação com os outros grupos parlamentares) e desta vez manteve que quer governar caso a caso, sem acordos de fundo, procurando a aprovação das suas propostas de forma individual. Com os resultados “massivos” que teve, como descreveu — apesar de o colocarem a pouca distância, e com o mesmo número de vereadores, do PS –, não será preciso colocar “em cima da mesa qualquer espécie de acordo”; apenas contar com uma postura “construtiva” da oposição. Como já tinha dito, contará com todos os vereadores, independentemente dos partidos e sem traçar linhas vermelhas nesse diálogo caso a caso.

O resto do discurso foi de euforia: celebrou os votos conseguidos sem ligar aos “analistas políticos” e ao “politicamente correto”, numa campanha feita muito à volta do discurso sobre (in) segurança na cidade e da desconfiança sobre os dados oficiais nessa matéria (por não acreditar que a pequena criminalidade seja suficientemente reportada), assim como das críticas à imigração desregulada (chegou a referir que seria preciso evitar que houvesse uma “invasão de imigração ilegal” na cidade).

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Se para os adversários isto o colocou numa posição extremada e a roçar algumas posições do Chega, a campanha tinha encomendado focus groups e estava consciente de que os portuenses indicavam essas preocupações, por isso insistiu — e até foi endurecendo o tom. Já com a vitória confirmada, Pedro Duarte disse assim ter estado “sempre próximo das pessoas, a olhar para o interesse dos portuenses” e portanto a conduzir uma campanha “arriscada”, mas bem sucedida.

Assim, e prometendo ter noção da responsabilidade que tem em mãos e estar pronto para arregaçar as mangas e trabalhar, deixou uma mensagem motivadora à plateia: “O Porto não elegeu só um novo presidente da câmara, mas um novo líder para o norte de Portugal, uma voz que se vai levantar contra o centralismo exacerbado”. Minutos depois, o novo “líder do norte” recebia um abraço apertado de Luís Montenegro, que estava a acompanhar a noite na sede do PSD distrital — a sede nacional, em Lisboa, está em obras, mas esse constrangimento permitia-lhe estar por perto daquela que poderia ser uma das principais vitórias da noite, numa visita só confirmada dez minutos antes de acontecer. Assim, Montenegro, que já tinha feito questão de visitar duas vezes a campanha de Duarte e antecipado uma vitória — num momento de maior entusiasmo chegou mesmo a dizer que a maioria absoluta seria “possível” — fez questão de ir abraçar o amigo que lhe entregou uma das conquistas mais importantes da noite.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

O desafio de Duarte poderá agora passar por governar uma autarquia dividida, em que poderá tentar aprovar propostas ora com o PS de Pizarro, ora com o Chega de Corte-Real — o homem que tinha começado por tentar integrar nas suas listas, o vice independente Filipe Araújo, falhou a eleição como vereador. Os próximos tempos dirão se se queixará, como tem acontecido Carlos Moedas, de “bloqueios” da oposição à sua ação na câmara ou se, puxando da sua fama de homem dos “consensos”, conseguirá gerir a governação e aprovar propostas com facilidade.

Quanto a Araújo, apostou numa candidatura independente, sem querer absorvido pelos partidos da direita — e reclamando, sem sucesso, que eles se deveriam juntar para apoiar uma candidatura sua — e correu em registo formiguinha as ruas do Porto, mas não chegou ao resultado desejado: não sendo eleito vereador (teve 5,08% dos votos), não poderá tentar prosseguir os projetos que tinha lançado quando era o número dois de Rui Moreira. Não chegou a ter o apoio do até agora presidente de câmara, que negou publicamente que o apoiasse “intimamente”, expressão que Araújo costumava utilizar; mas, quanto às intervenções públicas de Moreira, houve-as também críticas do projeto que Pedro Duarte propunha para a cidade, pelo que nenhum dos dois se pôde proclamar herdeiro desse legado.

PS. A desilusão de uma terceira derrota

As primeiras projeções deram cabo da aura vencedora que guiavam a equipa de Manuel Pizarro nos últimos dias de campanha. No minuto em que os primeiros números foram projetados nas três televisões presentes numa das salas do quartel-general, os apoiantes e elementos da candidatura ficaram praticamente sem reação. Uma ou outra interjeição e um silêncio profundo. Durante a noite, de quando em vez, o resultado mais pomposo de uma ou outra freguesia ia renovando a esperança. Barbosa Ribeiro ainda chegou a acalmar os ânimos, dizendo que o cenário ainda estava “totalmente em aberto”. Mas o passar das horas tornaria o desfecho inevitável.

Pela terceira vez, Pizarro candidatou-se à Câmara Municipal do Porto. Pela terceira vez, saiu derrotado. Assumiu “inteiramente” essa derrota e recusou que a mesma seja atribuível ao atual líder do PS ou ao anterior, Pedro Nuno Santos, o responsável pela aposta no nome que já tinha falhado por duas vezes. “O PS não pode ser responsabilizado por esta derrota.”

Por muito que o candidato fosse o mesmo, desta vez, era tudo diferente: o fim de ciclo de Rui Moreira abria espaço para a mudança e o facto de ter na equipa “grande parte do moreirismo” permitia uma esperança extra. Pizarro chegou mesmo a assumir que sentia uma energia diferente nas ruas, o que, para alguém que tinha duas derrotas às costas, não era de desvalorizar. As sondagens com empates técnicos — e que retiravam a vantagem com que partiu para esta corrida eleitoral — não assustaram a comitiva que seguia, ação após ação, mais convicta de que a vitória estava cada vez mais próxima.

Aliás, os rostos de choque e desilusão refletiam o impacto de quem não estava mesmo à espera de perder. Na rua, enquanto se aguardava a chegada de Pizarro, sentia-se a revolta. E quando finalmente o candidato do socialista chegou ao quartel-general, ouviram-se os gritos e aplausos de quem não quer deixar cair um cabeça de lista.

Igor Martins

O candidato socialista passou a noite toda num hotel bem perto da sede de campanha e só apareceu para assumir a derrota, pelo seu próprio pé, recebido pelos gritos de quem já sabia que não havia nada a fazer. A euforia momentânea foi substituída por rostos de desilusão e olhos marejados. As palmas foram acompanhadas de várias lágrimas. Pizarro, o homem de sorriso fácil, estava de rosto pesado, a equipa mais próxima desapontada. O sorriso era forçado.

Depois de um curto discurso em que informou que já tinha ligado a Pedro Duarte para lhe dar os parabéns pela vitória, as questões sobre o futuro: em primeiro lugar, a garantia de que fica como vereador apesar da derrota; logo depois a incógnita sobre o que fará relativamente a um convite do novo autarca. O socialista procurou fugir à pergunta — argumentando que os portuenses escolheram quem queriam na governação e na oposição —, mas após várias insistências, lá justificou: “As circunstâncias são completamente distintas, quem venceu em 2013 foi um independente.” Nesse ano, Manuel Pizarro aceitou um convite de Rui Moreira para ser vereador com pelouro com a pasta da Habitação e Ação Social. Não acabou da melhor forma, saiu em rutura com o independente e candidatou-se novamente contra ele. Assinaria a sua segunda derrota. Poupou-se naquele que viria a ser o último mandato de Moreira.

Agora, mesmo que seja convidado para negociar, Pizarro insistiu na teoria de que os cidadãos do Porto escolheram “uma equipa para governar e outra para trabalhar na oposição”. Não se comprometeu, assegurou até que o PS “não vai ser uma força de bloqueio”, e passou a bola ao vitorioso: as perguntas devem ser feitas a Pedro Duarte.

Manuel Pizarro foi de poucas palavras, não se quis alongar nem responder a mais perguntas. Saiu rapidamente, pela porta pequena, entre abraços emotivos e lágrimas de quem o apoiou, mas sem se esquecer de referir que o PS duplicou o número de eleitores — de três para seis. Porém, não é de somenos o facto de ter saído de jogo o ativo mais valioso da política portuense dos últimos 12 anos, Rui Moreira, e era óbvio que o tabuleiro iria mexer. No final de contas, a esperança do PS transformou-se em desilusão e Pizarro voltou a falhar.

Igor Martins

Chega. Aquém das expectativas, mas como peça-chave

Há dois dias, no encerramento de campanha, Miguel Corte-Real reconheceu que a eleição de apenas um vereador no Porto seria uma “derrota” (teve 8,23%). Após a contagem dos votos e a polarização entre Manuel Pizarro e Pedro Duarte, o Chega cantou timidamente vitória por ter sido o único partido capaz de se intrometer e por se transformar numa peça-chave para a governação.

Tem pela frente um Pedro Duarte que recuou no que às conversas com o Chega diz respeito. Depois de ter dito, no Carpool do Observador, que “em termos autárquicos não faz sentido [haver] linhas vermelhas quanto a forças partidárias”, esclareceu que “nunca [aceitará] um acordo de governação com o Chega”. Mais do que isso, sugeriu que o PSD não reconhece o Chega como um “parceiro responsável”.

Por outro lado, Pedro Duarte considerou “perfeitamente compatível” governar com “acordos pontuais” e “olhar para os contributos da oposição”, seja a oposição quem for. E, nesse capítulo, Miguel Corte-Real pode partir em vantagem, sendo capaz de, com o seu voto, permitir ou não que medidas do executivo ou da oposição vejam luz verde. Torna-se, por isso, um trunfo na governação da cidade. O único, tendo em conta que nenhum outro partido ou independente conseguiu lugar na vereação.

Ainda que o resultado tenha ficado aquém das expectativas que o próprio definiu, acaba por ser o único, a par de Pedro Duarte, a poder cantar vitória na noite eleitoral. Como foi dizendo ao longo da campanha, o Chega ter o poder de decisão é também uma forma de contribuir. E, de facto, Pedro Duarte foi endurecendo o discurso relativamente a várias áreas, nomeadamente na questão da segurança e imigração, dois temas em que dificilmente não terá o apoio do Chega — e onde ambos podem trabalhar em conjunto.

No Porto, como um pouco por todo o país, as expectativas elevadas das legislativas promoveram esperanças que não se confirmaram, mas em termos de números, o partido cresceu de menos de três mil votos para 9.468, em quatro anos, ultrapassando Bloco de Esquerda e CDU, que ficaram sem representação na câmara.

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