Nos momentos difíceis o primeiro-ministro define a estratégia com a pessoa em quem mais confia na política: o seu amigo e líder parlamentar. O plano deste sábado começou a ser preparado ainda na quinta-feira, quando foi decidida a primeira etapa (o comunicado da Spinumviva, o Conselho de Ministros extraordinário e a declaração ao país em horário nobre), mas continuou a ser afinado até à última. Luís Montenegro e Hugo Soares afinaram os pormenores este sábado ao almoço no restaurante via 14, em Sacavém, para definir o plano de ataque. Montenegro ligou a Marcelo, mas só depois do anúncio final ao país e, sabe o Observador, o Presidente não atendeu a chamada.

A maioria dos ministros não sabia o que estava na cabeça do primeiro-ministro até muito perto da hora da declaração ao País. Montenegro e Hugo Soares estão agastados com a exposição de que o primeiro-ministro tem sido alvo, daí que a opção tenha sido parar com o “striptease” e virar o jogo da vida profissional (que acreditam que está “viciado”, já que as explicações “nunca vão ser suficientes”) para o jogo do combate político.

Depois da decisão no reduzido inner circle, a dois (mas que também envolveu a mulher e os filhos do primeiro-ministro), Montenegro quis garantir que seguia todos os passos para validar a decisão a nível institucional. Desde logo quis mostrar que tinha a confiança do partido, representado pelo secretário-geral Hugo Soares e pela primeira vice-presidente Leonor Beleza — que se juntaram ao núcleo duro antes de a decisão ser comunicada aos outros ministros. Foi essa, verdadeiramente, a reunião que importou. Durou duas horas e contou com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, com o ministro da Presidência, António Leitão Amaro, com o ministro Adjunto, Manuel Castro Almeida, e com o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento. O apoio a Montenegro foi total.

A reunião do núcleo duro fez atrasar o início do Conselho de Ministros em uma hora e vinte minutos, mas o Governo fez saber aos jornalistas que o horário das 20h00 seria cumprido à risca. Também isso faria parte da estratégia: o primeiro-ministro falar à hora da abertura dos telejornais, em horário nobre, para chegar ao maior número possível de pessoas. Ou seja: de eleitores (ou não fosse uma parte da intervenção em tom de pré-campanha, com as várias conquistas do Governo).

O plano de não continuar a expor as relações profissionais do primeiro-ministro também ganharia forma ainda antes da declaração, já que os jornalistas foram informados um minuto antes de ela acontecer que não teriam direito a fazer perguntas. E, para que não houvesse margem para fugir ao guião, assim que terminou a comunicação ao País, o primeiro-ministro saiu disparado da sala.

Prolongamento estratégico: cinco ministros em cinco televisões

Depois da primeira etapa da coreografia ensaiada entre os ministros – a entrada em grupo na sala da lareira, reservada às declarações mais solenes, em São Bento, para servirem de moldura humana ao primeiro-ministro – faltava a segunda. E essa não foi feita em São Bento, mas nos estúdios das televisões. Em poucos minutos, vários dos ministros do núcleo duro do Governo puseram-se a caminho dos estúdios de RTP (Miranda Sarmento), SIC (Paulo Rangel), CNN (Pinto Luz), CMTV (Leitão Amaro) e Now (Pedro Reis) e desdobraram-se em explicações coordenadas, em defesa da honra de Luís Montenegro.

Se Montenegro não quis responder a perguntas, o grupo de ministros próximos a quem deu a tarefa de o defenderem nas televisões fê-lo por si. E tiveram de ser ágeis a adaptar a mensagem, uma vez que enquanto decorria o desfile de governantes os partidos estavam a reagir, à mesma hora, à declaração de Montenegro – e portanto era preciso reagir e responder-lhes de forma coordenada e praticamente em tempo real.

Foi assim que vários ministros acabaram por esclarecer as dúvidas relativas à hipótese de o Governo avançar com uma moção de confiança: na CNN, Miguel Pinto Luz disse que, com a informação que existia àquela hora – e que já incluía a rejeição do PS de uma moção de censura, a apresentar pelo PCP –, o Governo queria “continuar a governar”; na RTP, Joaquim Miranda Sarmento foi ainda mais direto e disse que o chumbo de duas moções de censura seguidas já excluía a necessidade de uma moção de confiança. Já António Leitão Amaro disse que o “Governo não quer eleições”.

Os argumentos para uma espécie de clima de pré-campanha não ficaram, ainda assim, excluídos do guião: Miranda Sarmento admitiu que nunca se pode excluir a hipótese de haver eleições antecipadas, “nem devemos ter medo delas”; Pinto Luz acusou diretamente o PS de ter deixado “claro”, nas perguntas que foi dirigindo a Montenegro, que deseja partir para eleições; e Paulo Rangel pediu clareza à oposição, avisando que criar instabilidade política teria consequências graves. A passagem da responsabilidade para a oposição estava acordada e afinada na mensagem dos ministros.

O resto do discurso foi dedicado a defender a honra do primeiro-ministro: quase todos fizeram referências, em fórmulas semelhantes, ao “maior exercício de transparência” já feito ou a um “striptease inaudito” de Montenegro, quando respondeu no Parlamento às primeiras dúvidas sobre a sua empresa; defenderam que o primeiro-ministro esteve sempre em exclusividade, com Pinto Luz a considerar mesmo que manter suspeições é de uma “realidade paralela” – os ministros iam lembrando que Montenegro não tinha, quando criou a empresa, forma de imaginar que chegaria tão cedo ao topo do Governo; e classificaram o primeiro-ministro como um “pai de família” e um “homem sério”.

Com este último eixo discursivo, tentavam reforçar uma ideia que Montenegro também passou na sua declaração: que não precisava de responder a perguntas dos jornalistas, porque queria falar com os portugueses; e que os portugueses não percebem o frenesim à volta deste caso e conseguem identificar as intenções benévolas do primeiro-ministro ao criar uma empresa para assegurar o futuro profissional dos filhos.

A estes argumentos mais emocionais juntaram-se os da defesa pura e dura da ação do Governo, mais em modo campanha, com enumerações várias sobre as medidas mais positivas que o Executivo tem conseguido executar – e com promessas de querer continuar a fazê-lo. Desde que a oposição deixe, acrescentaram sempre.

A (inesperada?) ajuda do PCP

No plano inicial do Governo estava pressionar Pedro Nuno Santos e colocá-lo entre as eleições e a parede (de deixar o Executivo continuar a governar). Mas a estratégia tinha uma dose de risco: o líder do PS podia mesmo querer ir a votos — e o Executivo estava (e está) preparado para isso. O líder da oposição tinha de escolher entre dizer claramente que queria que o Governo continuasse em funções ou esperar a moção de confiança do Governo (que, em coerência com o que sempre defendeu, tinha de dizer que votaria contra).

A posição do PS já era complicada, mas o PCP decidiu encurralar ainda mais Pedro Nuno Santos. Antecipou-se e apresentou uma moção de censura, o que faz com que o Governo tenha argumentos para dispensar apresentar moção de confiança. Assim que Paulo Raimundo anunciou a censura, dirigentes sociais-democratas já trocavam mensagens: “Está feito”. Pedro Nuno Santos não teria outra opção, acreditava-se no Governo, senão dizer que votava contra a moção de censura. E foi exatamente isso que aconteceu. O perigo real e máximo de o país ir para eleições durou duas horas. O que não significa que o calvário de Montenegro tenha chegado ao fim. “Isto ainda não acabou”, comentava com o Observador fonte social-democrata.

Artigo corrigido às 19h16 de domingo: Na versão original deste texto era escrito que tinha havido uma conversa entre o primeiro-ministro e o Presidente da República na noite de sábado. Houve, de facto, um telefonema de Luís Montenegro para Marcelo Rebelo de Sousa, mas ao que o Observador apurou, o chefe de Estado não atendeu.