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Angela Merkel Campaigns In Berlin
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Angela Merkel. De Ossi subestimada à chanceler pragmática que deu nome a um verbo

Para uns, é a epítome de um grande político; para outros, uma líder que ficou sempre aquém. O consenso? Ao longo de 16 anos, Merkel moldou a Alemanha e a Europa como ninguém antes dela.

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Era a vez da pequena Angela mergulhar. Com os pés firmes na prancha, olhava para baixo e contemplava a enorme distância até à água. Recuou; voltou a avançar. Mais uma vez deu um passo atrás e depois outro à frente. Os colegas de turma começavam a ficar impacientes: ela que decidisse de uma vez se mergulhava ou não. E Angela continuava a hesitar. Os segundos iam passando e nada de uma decisão. Até que, inesperadamente, tocou a campainha que anunciava o final da aula. E foi aí que ela tomou a decisão, de repente: avançou, deu impulso e mergulhou. Finalmente.

É esta história que Ursula Weidenfeld gosta de escolher quando lhe pedem um momento que ilustre bem a personalidade de Angela Merkel, a chanceler alemã que dominou os destinos do país e da Europa durante 16 anos. A antiga jornalista do Tagesspiegel e da edição alemã do Financial Times sabe do que fala, ou não fosse também biógrafa da política — publicou em 2012 The Chancellor. Portrait of an Era (“A Chanceler: Retrato de uma Era”, sem edição em português).

Ao Observador, Ursula explica por que razão considera este momento um exemplo tão certeiro da personalidade de Merkel: “É uma história que explica muito da sua atitude. Numa crise, toda a gente entra em pânico, mas Angela Merkel não. Ela pensa sobre tudo uma e outra vez e no último momento — não demasiado tarde, mas também não demasiado cedo — age”, diz a jornalista. E não é por acaso, explica, que a própria Merkel gosta de contar esta história sobre si. Ela ilustra as qualidades que a própria chanceler gosta em si própria: calma, cautelosa, mas capaz de agir quando é necessário.

"Ela pensa sobre tudo uma e outra vez e no último momento — não demasiado tarde, mas também não demasiado cedo — age"
Ursula Weidenfeld, autora de The Chancellor: Portrait of an Era

Também não é por acaso que os alemães adotaram o verbo merkeln para descrever a ação de adiar constantemente. Uma postura que, ao longo de 16 anos, dividiu as opiniões dos europeus. Há quem elogie a capacidade de manter a cabeça fria e de medir cada passo e quem pense que essa hesitação custou muito caro — e que o adiamento torna-se por vezes em imobilidade. Agora, com Merkel a sair definitivamente da política alemã e mundial, é tempo de fazer o balanço. Que legado deixa esta mulher, a primeira chanceler mulher e do Leste da Alemanha?

A importância de ser uma Ossi

Se Ursula Weidenfeld não tem problemas em escolher o momento do mergulho na escola como definidor do caráter de Merkel, outro biógrafo tem mais dificuldades: “Não é possível capturá-la ou defini-la numa simples história”, afirma ao Observador Ralph Bollmann, autor de Angela Merkel: Die Kanzlerin und ihre Zeit (“Angela Merkel: A Chanceler e o seu Tempo”, sem edição em português). “Aquilo que creio que é muito importante para compreender o seu comportamento é a sua vida na República Democrática Alemã (RDA)”.

Angela Merkel nasceu em 1954 em Eimsbüttel, um bairro na ocidental Hamburgo, mas rapidamente partiu com a família para o Leste de uma Alemanha dividida. O seu pai, o pastor protestante Horst Kasner, decidiu estabelecer-se em Templin. A decisão de um pastor do Ocidente de se mudar para a RDA era, no mínimo, insólita — e marcou a vida de Angela desde cedo. “Ela sempre esteve numa posição de outsider”, resume Bollman. “O Partido Comunista desconfiava muito da religião e por isso ela tinha de ter muito cuidado com o que dizia na escola, por exemplo.” A sua infância e adolescência seriam marcadas pela duplicidade a que o regime obrigava: ora Angela se juntava aos pioneiros comunistas e repetia as prédicas do Partido, ora aproveitava uma visita de estudo para comprar o Yellow Submarine dos Beatles às escondidas.

Merkel, Angela - Politikerin DDR

Merkel cresceu na RDA, filha de um pastor protestante. Desde cedo aprendeu a não falar abertamente em público

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Como filha de um pastor vindo do Ocidente, Angela foi naturalmente abordada pela Stasi, que tentava obter informações. A história que a própria conta é de uma simplicidade desarmante: seguindo o conselho da mãe, mentiu dizendo que não sabia guardar segredos e que, por isso, seria uma péssima espia. Na Alemanha de hoje, muitos desconfiam que uma resposta dessas não seria suficiente para afastar a Stasi e que Merkel não estará a contar a história toda. Mas, décadas depois e com tantas credenciais pró-ocidentais na lapela, para a maioria dos alemães tal pouco importa. Aquilo que é inegável é que essa vivência a moldou de alguma forma: “A coisa mais importante que se aprende a viver na Alemanha de Leste é como ficar calado”, diria a própria Merkel.

Aluna brilhante na escola, com notas máximas a disciplinas como Matemática e Russo, a jovem Merkel decidiu optar pelas ciências exatas para evitar melindres com o regime e partiu para Leipzig para estudar Física na Universidade. Após o doutoramento em Química Quântica, mudou-se para Berlim Oriental para trabalhar como investigadora na Academia de Ciências — e, uma vez mais, a política do regime em que vivia ia marcando a jovem em silêncio. Segundo a própria, Angela guardava para si os seus pensamentos e na Universidade participava nos seminários políticos obrigatórios. Mas, quando fazia o caminho para casa e passava pelo Muro da cidade, sentia-se sempre incomodada.

Isso não fez com que Angela entrasse em euforia quando o Muro foi deitado abaixo naquela 9 de novembro. A história também é contada repetidamente como se ilustrasse todo um programa de vida: era quinta-feira e Merkel cumpria o seu ritual semanal de ir à sauna e depois beber uma cerveja; só depois de ter terminado a sua rotina habitual é que Angela se juntou à multidão e resolveu atravessar para o outro lado

Isso não fez com que Angela entrasse em euforia quando o Muro foi deitado abaixo naquele 9 de novembro. A história também é contada repetidamente como se ilustrasse todo um programa de vida: era quinta-feira e Merkel cumpria o seu ritual semanal de ir à sauna e depois beber uma cerveja; só depois de ter terminado a sua rotina habitual é que Angela se juntou à multidão e resolveu atravessar para o outro lado. A frieza é, como habitualmente, reveladora. Por um lado, a capacidade de manter a cabeça fria perante um momento histórico é louvável. Por outro, não seria de esperar maior entusiasmo de alguém que faria da política ocidental a sua vida?

Independentemente do julgamento sobre a sua personalidade, há um elemento importante a retirar do facto de Merkel ser uma Ossi (alemã do Leste) que viveu esse momento. “Ela compreendeu que os sistemas podem falhar. Muitos dos democratas ocidentais não conseguiam conceber que o sistema democrático liberal pudesse vir a estar em risco; e para ela sempre foi claro que tínhamos de ter cuidado se queremos manter a nossa forma de vida”, avisa Bollmann.

“Experienciei em primeira mão como tudo o que parece estar escrito em pedra pode de facto mudar.” Angela dixit.

Uma mulher entre os “Acólitos” da CDU

O facto de Merkel vir do Leste seria, de facto, um elemento que marcaria toda a sua vida política numa Alemanha ainda profundamente marcada pela divisão. Após a queda do Muro, Angela envolveu-se rapidamente na política, tornando-se porta-voz do Demokratischer Aufbruch (“Despertar Democrático”), um pequeno partido que acabaria por ser englobado na conservadora CDU. O seu caminho foi sendo feito de forma discreta: manteve funções de porta-voz, mas de governos, e foi eleita deputada em dezembro de 1990 pelo círculo eleitoral de Vorpommern Rügen-Greifswald, que ainda é o seu.

O facto mais marcante do seu percurso político seria o facto de se ter tornado a protégée de Helmut Kohl — o homem que, até hoje, ocupou o cargo de chanceler da Alemanha reunificada durante mais tempo. Mas se no início da década de 90 alguém arriscasse dizer que Merkel se tornaria a segunda chanceler a ocupar mais tempo o cargo, poucos acreditariam. Tímida e discreta, dificilmente se destacava. Para além disso, era mulher e do Leste num partido ainda hoje dominado por homens da Alemanha Ocidental, a quem chamam Die Messdiener Os Acólitos, em referência à matriz cristã da CDU.

Kohl , Helmut *03.04.1930-politician, CDU; Germany, Federal Chancellor 1982-1998, with Angela Merkel, march 1993

Angela Merkel e o seu padrinho político, Helmut Kohl. A jovem acabaria por contribuir para o derrubar da liderança da CDU

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“Havia muito sexismo”, garante sem margem para dúvidas Alan Crawford, editor sénior da agência Bloomberg que tem acompanhado a carreira de Merkel a partir de Berlim, sobre os seus tempos no governo como ministra da Juventude e depois do Ambiente. “Kohl costumava referir-se a ela como a Mädchen (rapariga) do seu governo. E era como se ela também fosse a mascote do Leste naquele governo, num país que ainda é dominado pela antiga Alemanha Ocidental”, diz ao Observador o jornalista e também autor de Angela Merkel: A Chancellorship Forged in Crisis (Angela Merkel: Uma Chancelaria Forjada na Crise, sem edição em português). “Tudo isto contribuiu para que ela fosse subestimada.”

Assim seria até 1999. Quando o todo-poderoso Kohl se viu envolvido num escândalo de doações ilegais ao partido, seria a pena de Merkel a dar-lhe a estocada final: com um artigo publicado no Frankfurter Allgemeine Zeitung, Merkel pediu a demissão do líder. Para muitos dentro da CDU, tal seria visto como o derradeiro “Vatermord” — um parrícidio, como diria um antigo membro do partido ao histórico correspondente do Times Roger Boyes.

“Kohl costumava referir-se a ela como a Mädchen (rapariga) do seu governo. E era como se ela também fosse a mascote do Leste, num país que ainda é dominado pela antiga Alemanha Ocidental. Tudo isto contribuiu para que ela fosse subestimada”
Alan Crawford, editor sénior da agência Bloomberg

Os que acompanham a carreira de Merkel destacam a importância desse momento para a afirmação desta mulher do Leste como política de peso. Para Ralph Bollmann, foi um dos momentos de clarividência e uso correto de timing da chanceler: “Não havia alternativa. Se ela não tivesse feito aquilo e separado os destinos da CDU do de Kohl, é possível que a CDU hoje nem sequer existisse”, diz, comparando a situação à dos democratas-cristãos italianos. “Quando se torna claro para ela que é necessário agir, ela consegue tomar decisões ríspidas. É como quando decidiu saltar para a piscina…”

Já Eric Langenbacher, professor de Política Comparada na Universidade de Georgetown e autor das obras The Merkel Republic (A República de Merkel, sem edição em português) e Twilight of the Merkel Era (O Crepúsculo da Era Merkel, também sem edição nacional), fala numa jogada tática “brilhante”: “Ela pegou naquilo que poderia ser um escândalo menor e tornou-o um evento definidor para Kohl, que resultou a seu favor”, resume ao Observador, apontando para o facto de essa decisão ter contribuído para que Merkel viesse a ser eleita como líder da CDU na sequência do artigo. “Ela é capaz de ser totalmente implacável nos bastidores — com Kohl, Schäuble, Merz, Koch e muitos outros. E é interessante que a maior parte destes momentos envolvam políticos homens. Acho que ela sabe usar as fraquezas dos homens contra eles.”

Merkel Meets Tunisian Prime Minister Chahed, Both Visit Terror Memorial

Num partido dominado por homens, Angela Merkel desde cedo aprendeu a ambientar-se por entre os "Acólitos" da CDU

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Para uma mulher que hesitou tantos anos em definir-se como feminista, Merkel sempre teve um olhar aguçado para compreender como sobreviver num mundo de homens. “Na presença de homens dominadores, sinto uma náusea física e quero sentar-me longe deles”, confessou uma vez à sua fotógrafa pessoal, ​​Herlinde Koelbl. Mas isso não a impediu de saber como se movimentar por entre os “Acólitos” da CDU: “Quando ela foi eleita como líder do partido, eles diziam ‘Não vai ser por muito tempo’ ou ‘Vamos deixá-la resolver este caso do Kohl e depois é a vez dos homens do Ocidente tomarem conta do partido de novo’”, conta o biógrafo Bollmann. “Depois perceberam que não ia ser assim e que Angela Merkel não ia sair da liderança da CDU tão depressa. Mas aí já era tarde para eles.”

Sem carisma, nem convicções fortes: “A ideologia dela é o pragmatismo”

O biógrafo destaca, contudo, que a CDU sempre foi o lugar onde Merkel esteve mais desconfortável. “É mais fácil para ela gerir a relação com a população e vencer eleições do que lidar com as questões internas do partido. Não é por acaso que ela deixou o lugar de líder da CDU em 2018, mas o de chanceler só agora”, analisa Bollmann.

Porquê? Bom, em primeiro lugar, porque Merkel não é uma conservadora típica. Desde que assumiu o cargo de chanceler, em 2005, que muitas das suas decisões arrastaram teimosamente o seu partido mais para o centro: foi assim com a Energiewende, quando decidiu abruptamente abandonar a energia nuclear após o desastre de Fukushima; com o aumento do salário mínimo; com o fim do serviço militar obrigatório; com o alargamento das licenças de paternidade; e até com a decisão de dar liberdade de voto aos deputados do seu partido em relação ao casamento gay, o que permitiu a sua aprovação. Torsten Albrig, membro dos sociais-democratas, chegou a questionar-se se o SPD necessitava do seu próprio candidato quando Merkel estava a fazer um trabalho “excelente”.

Desde que assumiu o cargo de chanceler, em 2005, que muitas das suas decisões arrastaram teimosamente o seu partido mais para o centro: foi assim com a Energiewende, quando decidiu abruptamente abandonar a energia nuclear após o desastre de Fukushima; com o aumento do salário mínimo; com o fim do serviço militar obrigatório; com o alargamento das licenças de paternidade; e até com a decisão de dar liberdade de voto aos deputados do seu partido em relação ao casamento gay

O grande mistério é saber o que motivou Merkel a tomar decisões como estas e a puxar a CDU tão para o centro. Estaremos perante uma política menos conservadora do que o habitual para os padrões do partido? Ou terá sido a chanceler puramente pragmática ao adotar medidas populares ou que considerava inevitáveis?

Ursula Weidenfeld não teve dúvidas do lado em que se coloca nesta questão: “Angela Merkel é uma política de poder”, diz, sem papas na língua. “Quando se considera que o poder é a coisa mais importante para um partido, uma pessoa torna-se cada vez mais pragmática e menos ideológica”. Uma análise que ganha respaldo se tivermos em conta um famoso artigo da Der Spiegel de 2014 que mostrava como o Governo de Merkel seguia atentamente as sondagens antes de tomar cada decisão: no caso da transição da energia nuclear, por exemplo, 58% dos alemães à altura era a favor de abandonar aquele tipo de energia.

Government Holds Balkan Conference
Angela Merkel nasceu em 1954 em Hamburgo, mas cresceu no Leste da Alemanha
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CDU General Party Congress
Formou-se em Física e Química Quântica em Leipzig e mudou-se para Berlim, onde assistiu à queda do Muro
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CDU Holds Party Congress, Elects General Secretary
Na CDU teve um início tímido e discreto — Kohl chamava-lhe a sua Mädchen (rapariga), apesar de ter uma pasta ministerial
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Germany Celebrates 25 Years Since Reunification
Depois de vencer as eleições de 2005, nunca mais deixaria o cargo de chanceler, até agora
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Ralph Bollmann considera que Merkel, na sua habilidade habitual, rejeitaria uma leitura binária de ideologia vs. pragmatismo: “A ideologia dela é o pragmatismo”, resume. “Temos de nos lembrar que já na RDA ela lia livros de Karl Popper e refletia sobre isto. Para ela, fazer compromissos é a natureza da política. Essa é a essência do seu pensamento político”. Uma capacidade extraordinária de ler o ar dos tempos, dirão alguns; uma completa falta de espinha ideológica, dirão outros. “Merkel acredita profundamente que as democracias precisam da mudança e da evolução para se manterem vibrantes. Por isso acho que ela tomou decisões destas por considerá-las necessárias para a renovação”, resume Eric Langenbacher. Assim se explica uma chanceler que vota contra o casamento gay, mas que faz uma jogada partidária que sabe que tornará este legal — porque, apesar de ser contra, Merkel considera que tentar travá-lo era igual a travar o vento com as mãos.

O pragmatismo acima de tudo, pois claro. Nada que surpreenda numa mulher que não é dada a grandes estados de alma e que não parece acreditar no poder da inspiração, da retórica, das emoções e dos grandes ideais na política. “A noção de que uma pessoa pode tocar tanto as outras com as suas palavras que as faz mudar de ideias não é uma noção que eu partilhe. Embora seja bonita”, confessou a própria em 2016.

Merkel prefere a preparação, o pesar de prós e contras, a negociação nos bastidores. O que a torna uma política pouco inspiradora. Não é por acaso que Alan Crawford a define como “a antítese de Barack Obama”: “A maioria dos políticos tenta embelezar a realidade para que ela se molde à sua mensagem. Merkel não é assim. Ela não tenta aparecer nas primeiras páginas dos jornais nem abrir os telejornais. Fica satisfeita em apenas dizer o que tem a dizer, sem grande dramatismo em torno disso.” É por isso, explica o editor da Bloomberg, que na sua cobertura das atividades da chanceler aprendeu a seguir cada passo que ela dá: “Ela não faz anúncios dramáticos; ela dá pequenos passos a cada discurso, até que se torna claro qual é a ideia dela.”

Germany v Portugal: Group G - 2014 FIFA World Cup Brazil

Merkel a festejar um golo da seleção alemã, um momento raro de emoção pública por parte da chanceler

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Um estilo pouco entusiasmante, mas que tem as suas vantagens: afinal, a seriedade com que Merkel encara o cargo também é a mesma que faz com que saia agora do poder sem nenhum escândalo de maior — algo difícil de conseguir ao fim de 16 anos no poder. Muito dos seus antecessores eram figuras marcantes e inspiradoras, mas saíram de cena manchados: foi o caso de Kohl, com o escândalo dos donativos, e também de Willy Brandt, que se demitiu depois de ser conhecido que um dos seus conselheiros mais próximos era um espião da RDA.

Em privado, dizem, Angela Merkel é cheia de sentido de humor, como comprovam as suas imitações de líderes mundiais, como Sarkozy, Berlusconi e Putin. Mas em público, nada disso transparece. Angela Merkel não inspira, não marca, não faz rir nem provoca lágrimas de emoção; mas, ao evitar ser uma heroína, também não cai do pedestal. É por isso que tantos dizem que não é exatamente uma política, mas sim “uma gestora de crises”.

Da “mancha no currículo” da crise grega à “liderança moral” da crise dos refugiados

A crise mais difícil de gerir foi a do euro. Isso mesmo confessou a própria há alguns dias, dizendo que sabe que “exigiu muito do povo grego”. Para Alan Crawford, não há dúvidas de que a forma como a Alemanha lidou com os países do sul durante a crise das dívidas soberanas e, particularmente, com a Grécia, é “a mancha no seu currículo”.

As críticas dos alemães aos gregos, com laivos moralistas, não caíram bem numa Europa desunida e em profunda crise económica. As condições duras impostas em troca dos resgates financeiros, que tiveram consequências sociais trágicas na Grécia, foram tidas como inegociáveis: Alternativlos, sem alternativa, foi a expressão frequentemente usada por Merkel para definir o formato definido para lidar com a crise financeira da União. Muitos, como o ex-ministro das Finanças Yanis Varoufakis, não lhe perdoam: “Ela nunca teve uma visão sobre o que fazer com a zona Euro depois de ela ser salva e a forma como ela a salvou foi muito polarizadora, tanto dentro da própria Alemanha como da Grécia”, disse recentemente à BBC o antigo ministro do Syriza.

Greek Labour Unions Hold Nationwide Strike In Protest Against Austerity Measures

Um dos vários cartazes que comparavam Merkel a Adolf Hitler nas ruas de Atenas, durante o pico da crise das dívidas soberanas

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Mas o próprio Varoufakis confessou na mesma entrevista que considera que Merkel foi “a responsável por ter mantido a zona Euro unida” nessa altura, ao afirmar-se claramente contra a saída da Grécia. Os especialistas ouvidos pelo Observador alinham pelo mesmo diapasão, destacando como Merkel teve de fazer um exercício de equilibrista no arame: ora puxando para não deixar a Grécia cair, ora impondo condições ao país para não perder apoio político em casa. “Ela tinha um parceiro de coligação, os liberais, que eram muito hostis à integração europeia. Tinha um Tribunal Constitucional com um presidente, Andreas Vosskuhle, hostil a mais integração europeia. E tinha um Bundesbank também hostil a essa ideia. Portanto não tinha muito espaço”, resume Ralph Bollmann.

O biógrafo puxa até de uma história antiga para ilustrar esse equilíbrio difícil: durante o pico da crise, Merkel terá tido uma conversa com Durão Barroso, à altura presidente da Comissão Europeia, em que lhe disse que se ela cedesse e o seu governo fosse derrubado, “isso seria o pior para a Europa” — “porque depois virá um chanceler muito menos pró-europeu do que eu”, acrescentou.

“Ela tinha um parceiro de coligação, os liberais, que eram muito hostis à integração europeia. Tinha um Tribunal Constitucional com um presidente, Andreas Vosskuhle, hostil a mais integração europeia. E tinha um Bundesbank também hostil a essa ideia. Portanto não tinha muito espaço”
Ralph Bollmann, autor de Angela Merkel: Die Kanzlerin und ihre Zeit

Mas desengane-se quem pensa numa história de conto de fadas, em que Angela Merkel se assume finalmente como a europeísta que tinha sido sempre e não podia revelar. Em 2020, a líder alemã que até então tinha dito claramente que consigo nunca haveria mutualização da dívida europeia assumiu-se a favor dessa ideia, perante a crise vindoura provocada pela Covid-19. Mas, para os que a seguem há anos, tal não vem de uma convicção apaixonada: “Merkel é acima de tudo uma cientista”, lembra Langenbacher. “Ela percebeu que, ao fim de décadas de oposição a esta ideia, havia aqui uma janela de oportunidade para experimentar uma política de dívida comum. Mas o mais provável é que ela olhe para isto como uma experiência e, se não resultar, que aconselhe o seu sucessor a abandonar a ideia.”

A História fará o balanço final sobre este momento e a importância de Merkel nele. Certo é que a chanceler nunca foi a maior fã de maior integração europeia e isso também terá tido um papel na sua hesitação durante a crise das dívidas soberanas. Mas, tal como nas políticas internas, Angela Merkel está atenta à direção para onde o vento sopra. Agora, o contexto político é outro: o parceiro da CDU no governo é o SPD e Vosskuhle já não está à frente do Tribunal Constitucional, por exemplo. Pode ser a altura de arriscar uma mudança, no caso de esta ser inevitável. Como o casamento gay ou o abandono do nuclear. Lembram-se? A sua ideologia é o pragmatismo.

Precisamente por esta personalidade analítica ser tão vincada é que outra decisão de Merkel no plano europeu espantou tantos: a de receber cerca de 800 mil de refugiados sírios em plena crise de 2015, com uma campanha intitulada Wir schaffen das! — “Nós conseguimos”. Tomada quase de improviso, sem coordenação prévia com outros países europeus nem nenhum plano posto em marcha nos Länder alemães, a decisão de acolher tantos refugiados de repente parece quase anti-Merkeliana. Desta vez, a chanceler mergulhou de cabeça na piscina, sem andar para trás e para a frente na prancha.

Merkel Visits Migrants' Shelter And School

Merkel com Anas Modamani, refugiado sírio na Alemanha

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Foi provavelmente o momento mais emotivo de 16 anos no poder, que renovou a fé de muitos na chanceler e fez até muitos céticos olharem-na de forma diferente. O pragmatismo ficou à porta e as convicções profundas vieram ao de cima: “Era um desafio moral para ela”, resume o professor Langenbacher, um ponto de honra que, ao contrário do habitual, não se poderia resolver com cimeiras tardias e horas de negociações. “Ela detesta a ideia de ver um novo Muro na Europa. A certa altura ela até perguntou ao seu vice-chanceler à altura, Sigmar Gabriel: ‘Nós concordámos que não íamos voltar a ter muros na Europa, não foi?’”, conta Ralph Bollmann.

Mas com Angela Merkel nada é totalmente sentimental: “Também foi uma forma de ganhar tempo, até o problema ser resolvido a nível europeu, com um melhor controlo das fronteiras externas — algo que ela conseguiu meio ano depois, com o acordo com a Turquia”, lembra o biógrafo. “E não nos podemos esquecer que isto aconteceu depois do último acordo com a Grécia. Numa altura em que muitos tinham a impressão de que a Alemanha tinha sido tão cruel com a Grécia, vermos imagens da polícia alemã a empurrar refugiados nas fronteiras teria contribuído para uma imagem ainda mais negativa da Alemanha.”

Dos tempos em que Merkel era retratada nas ruas de Atenas como Hitler renascido, a chanceler passava agora por um período de transformação da sua imagem. Os refugiados sírios acolhidos tentavam tirar selfies com ela — como Anas Modamani, com quem o Observador falou — e alguns davam o nome de Angela às filhas. “Um golpe de relações públicas brilhante, um triunfo do soft power e não inteiramente cínico”, resumiria Roger Boyes. A maior parte dos alemães estava com Merkel: em 2015, 79% dizia que o governo devia continuar a apoiar os refugiados ou até fazer mais por eles.

“Nunca irei esquecer Merkel.” A vida de Anas Modamani mudou depois da selfie com a chanceler, mas a Alemanha de 2021 não é a mesma de 2015

A decisão, porém, não trouxe um mar de rosas. Com as dificuldades de implementar um plano de integração a tão larga escala, surgiram os problemas e as desconfianças em relação aos refugiados. “Foi isto que deu asas ao movimento anti-imigração e ao Alternativa para a Alemanha [AfD na sigla original] e as pessoas irão sempre culpar Merkel por isso”, aponta Alan Crawford. Nas eleições seguintes, em 2017, o partido elegeu 94 deputados e tornou-se a maior força da oposição à CDU.

Crawford, porém, considera que o legado do crescimento da extrema-direita na Alemanha deixado por Merkel não é tão negro como se possa pensar: “Olhemos para França, onde Marine Le Pen tem sérias possibilidades de derrotar Macron”, aponta. “Na Áustria, o chanceler diz que não aceitará qualquer refugiado afegão. A Polónia e a República Checa estão na mesma situação. A Holanda está completamente dividida… E, perante este contexto, a AfD aqui não vai além dos 11% nas sondagens. Diria que Merkel tem conseguido manter o centro unido e isso não é de somenos.”

Uma política de consensos ou uma gestora sem visão? Tudo depende dos olhos de quem vê

Uma pragmática a jogar em casa, com resultados mistos no plano europeu. E a nível internacional? Ao longo de 16 anos, Angela Merkel foi recebida em várias capitais mundiais com pompa e circunstância. Era a visita da chanceler alemã, é certo, mas era mais do que isso: para muitos, era a representante máxima da Europa e até uma das principais líderes ocidentais.

Chanceler de uma Alemanha até aí tímida no plano internacional, ainda marcada pelas cicatrizes do passado, com Merkel o país assumiu-se como potência mundial. Para alguns, a sua postura como líder tornou-a um “bastião do liberalismo ocidental”, por contraste aos populismos crescentes em todo o mundo — “Quem não adora a fotografia icónica dela a enfrentar Donald Trump no G7?”, questiona Eric Langenbacher. “Mostra a sua estatura, segurança, coragem”. Mas o retrato está longe de ser assim tão simples.

Heads Of State Attend G7 Meeting - Day Two

A foto de Angela Merkel na reunião do G7 a confrontar Donald Trump

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Sim, Merkel teve momentos em que não hesitou e tomou uma posição de força. Foi o caso da sua postura firme contra a invasão russa da Crimeia, pressionando os restantes países da União Europeia a impor sanções a Moscovo: “Ninguém esperava isto à altura. É um exemplo de como as pessoas assumem muitas coisas sobre a Alemanha quando conhecem mal o país. E de como muitas vezes subestimam Merkel”, declara Crawford. O jornalista sublinha como a chanceler continua a fazer chamadas telefónicas com Vladimir Putin a cada seis semanas, onde a Ucrânia é sempre o tema principal. Fluente em russo, com a bagagem do seu passado na Alemanha de Leste, Merkel é para muitos uma Putinversteher, alguém que compreende Putin. Não porque concorde com ele, mas porque sabe lidar com ele.

A sua grande capacidade de manter o diálogo — “procuro a cooperação mais do que o confronto”, assumiu a determinada altura — é um trunfo, mas não resolve tudo. Afinal, sete anos depois da invasão da Crimeia, a península continua sob domínio russo e o leste da Ucrânia permanece mergulhado num conflito congelado com a Rússia. Sim, a Alemanha faz frente a Moscovo em vários temas, como a defesa do opositor Alexei Navalny, tratado em Berlim após ser alegadamente envenenado pelo Kremlin; mas, ao mesmo tempo, continua a negociar a instalação de um gasoduto russo em solo europeu, o Nord Stream 2.

A sua grande capacidade de manter o diálogo — “procuro a cooperação mais do que o confronto”, assumiu a determinada altura — é um trunfo, mas não resolve tudo. Afinal, sete anos depois da invasão da Crimeia, a península continua sob domínio russo e o leste da Ucrânia permanece mergulhado num conflito congelado com a Rússia

Também na relação com outros países Angela Merkel vai colocando o seu mote de diálogo e compromisso acima de tudo, com resultados mistos. Critica Viktor Orbán por querer erguer muros na Hungria, mas não usa o peso da Alemanha na UE para confrontar o país pelas violações aos tratados europeus, a par da Polónia. Merkel também defende a importância da relação transatlântica, mas hesita em hostilizar a China no mesmo tom em que os EUA o fazem — ainda em dezembro, sob a presidência alemã, a UE assinou um polémico acordo para o investimento com Pequim.

Isso não impede os biógrafos e jornalistas mais próximos de considerar o resultado final positivo. Ursula Weidenfeld, por exemplo, diz que Merkel é “a política alemã mais moderna do século XXI”, por ter conseguido estabelecer um novo lugar para a Alemanha como potência mundial: um lugar de “auto-confiança” pelo poderio económico do país na Europa, mas que não implica “dominar ou comandar os outros à volta”. Liderar, sim, ma non troppo. Afinal, Merkel é uma cientista. Cada problema é analisado ao pormenor, cada variável medida. E é uma política mais de compromissos do que de revoluções. O resultado não parece desagradar à maioria dos europeus, que dizem ter mais fé na chanceler do que em líderes como Emmanuel Macron e que a colocam ao mesmo nível do que Joe Biden.

G20 Nations Hold Hamburg Summit
Para alguns, Merkel é vista como "um bastião do liberalismo" por oposição ao populismo de líderes como Donald Trump
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Merkel And Putin Meet At Schloss Meseberg
Fluente em russo, há quem chame Merkel de "Putinversteher", alguém que compreende Putin
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German Chancellor Angela Merkel Visits Turkey
Com o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, com quem Merkel negociou um acordo para manter os refugiados fora das fronteiras externas da UE
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French President Emmanuel Macron Meets Angela Merkel In Berlin
O estilo de Merkel contrasta com o do francês Emmanuel Macron, mais pró-integração europeia e mais adepto de discursos emotivos
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O balanço final do legado de Angela Merkel é difícil de fazer e, talvez, seja necessário mais distanciamento histórico para afinar na precisão. As opiniões, por enquanto, dividem-se: uma líder firme e calma que conseguiu guiar a Alemanha e a União nos seus momentos mais difíceis? Ou uma política sem brilho nem visão, que se limitou a ir ao sabor do vento e dos acordos possíveis?

“Acho que essas avaliações dizem mais sobre as pessoas que as fazem do que sobre a própria Angela Merkel”, arrisca dizer Ralph Bollmann. A verdade é que, como em tudo, é impossível olhar para o legado de Merkel a preto e branco. O professor de Georgetown, Eric Langenbacher, foca-se nos pontos positivos: “Helmut Schmidt disse uma vez que ‘quem tem visões deve ir ao oftalmologista’. Com uma economia e um sistema político fortes, será que uma ‘visão’ é assim tão necessária? Com Merkel foi possível conseguir uma evolução discreta: a situação para as mulheres e minorias está melhor, o país deu mais passos para fazer a transição energética, a economia está bem e as finanças em ordem. E se foi possível conseguir tudo isto sem uma grande visão articulada, não me parece nada mal.”

"Com Merkel foi possível conseguir uma evolução discreta: a situação para as mulheres e minorias está melhor, o país deu mais passos para fazer a transição energética, a economia está bem e as finanças em ordem. E se foi possível conseguir tudo isto sem uma grande visão articulada, não me parece nada mal”
Eric Langenbacher, professor em Georgetown e autor de várias obras sobre Merkel

Já Ursula Weidenfeld sublinha um aspeto negativo dessa personalidade: “Tudo aquilo que são mudanças estruturais, como as alterações climáticas ou a reforma das pensões, ficaram por resolver. Merkel só toca nos problemas quando estes lhe chegam à mesa. Tudo o que puder esperar, espera — e às vezes essa espera é demasiado longa”, resume, pensando na rapariga que continua a caminhar para trás e para a frente na prancha, decidindo saltar só no último momento.

O seu colega da Bloomberg, Alan Crawford, não consegue dar uma resposta tão taxativa. Mas o único entrevistado para este trabalho que não é alemão puxa de um exemplo do seu país para contrastar com Merkel: Tony Blair, o trabalhista que promoveu a Terceira Via e assinou a paz com a Irlanda do Norte, mas que saiu com a reputação em cacos depois do envolvimento na Guerra do Iraque. “Diga-me outra pessoa que tenha estado tanto tempo no poder como Merkel e que tenha conseguido sair com tanta respeitabilidade política”, desafia o escocês, que acompanha a política alemã em Berlim desde que Merkel subiu ao poder, em janeiro de 2006. “Diz-se que todas as carreiras políticas terminam em derrota, mas Angela Merkel quase que desmente essa frase. Ela pode não sair no topo — mas está mesmo muito perto disso.”

Merkel Campaigns In Historic "Rheingold" Train

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