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A selfie de Anas Mondamani com Angela Merkel, em 2015, mudou a vida do refugiado sírio e tornou-se um símbolo da política acolhedora da Alemanha

A selfie de Anas Mondamani com Angela Merkel, em 2015, mudou a vida do refugiado sírio e tornou-se um símbolo da política acolhedora da Alemanha

"Nunca irei esquecer Merkel." A vida de Anas Modamani mudou depois da selfie com a chanceler, mas a Alemanha de 2021 não é a mesma de 2015

Quando viu Merkel pela primeira vez, o sírio confundiu-a com uma estrela de cinema. 6 anos depois, Mondamani diz que a chanceler lhe salvou a vida e teme pelo futuro dos refugiados com a sua saída.

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Há seis anos, dois segundos chegaram para mudar a vida de Anas Modamani. Uma mistura de coragem com curiosidade por tudo o que o rodeia fez o refugiado sírio, que em 2015 tinha 18 anos, avançar até à chanceler alemã Angela Merkel para tirar uma selfie. Nessa manhã de setembro, Modamami não só não sabia que estava perante a chefe do governo da Alemanha, como não fazia ideia de que essa fotografia iria marcar um ponto de viragem, não só para si, como para milhares de refugiados que encontraram um porto de abrigo na Alemanha.

Agora, sentado numa mesa do restaurante italiano La Stazione, em Berlim, Anas Modamani não tem dúvidas: “Merkel salvou a minha vida”. O jantar com o Observador foi acompanhado pela namorada, Anna, natural da Ucrânia, que ajuda com a tradução do alemão — que Modamani já domina — para inglês.

A escolha do restaurante não foi por acaso. Além de estudar, desde outubro de 2019, Comunicação Empresarial na HTW Berlin, Anas Modamani, hoje com 24 anos, faz um part-time numa caixa de um supermercado ao lado do La Stazione, e foi aí que conheceu o dono do restaurante, que viria a tornar-se um dos seus prediletos na capital alemã — que já conhece quase como a palma da mão. E é ali que o refugiado sírio, que em 2015 deixou amigos e família para trás em Derayya, nos subúrbios de Damasco, para procurar uma vida melhor e fugir da guerra civil na Síria, recorda aquela manhã de setembro que lhe ficará guardada para sempre na memória.

“É um momento que nunca vou esquecer. Estava apenas há dois dias num centro de acolhimento temporário para refugiados. Acordei e vi que algo se estava a passar. Estava imensa gente e fiquei surpreendido. Quis ir ao supermercado comprar comida, mas decidi esperar para ver o que ia acontecer e tentar perceber o que estavam todas aquelas pessoas ali a fazer”, recorda Anas Modamani, que na altura pensou que era uma “estrela de cinema”, rodeada de seguranças e de jornalistas, a fazer uma visita ao centro de refugiados.

A selfie com Angela Merkel tirada por Anas Modamani em 2015. Ainda hoje, guarda a fotografia e exibe-a com grande orgulho

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Ansiando por se fazer fotografar ao lado de uma celebridade, apesar de não fazer a mínima ideia de quem fosse aquela mulher, Modamani preparou o telemóvel e avançou para tirar uma fotografia, tendo sido imediatamente barrado pelos seguranças. No entanto, Angela Merkel viu o entusiasmo na expressão do refugiado sírio, e deu autorização para que este se aproximasse e tirasse a tão famosa selfie.

“Merkel teve um papel fundamental no acolhimento de refugiados na Alemanha e ajudou a salvar muitas vidas, incluindo a minha"
Anas Mondamani

O momento, além de captado pelo telemóvel do refugiado sírio, foi também registado por fotojornalistas no local, e a fotografia tornou-se imediatamente viral nas redes sociais, numa altura em que a crise dos refugiados estava a marcar a agenda europeia e alemã. Enquanto o resto da Europa enfrentava o que parecia uma crise existencial sobre como dar resposta aos milhões de refugiados que procuravam acolhimento na União Europeia, Angela Merkel fez o que nenhum líder europeu fez e decidiu abrir a porta da Alemanha a um milhão de refugiados, a grande maioria oriunda da Síria, mas também do Iraque e do Afeganistão. A selfie de Mondamani e Merkel tornava-se, assim, um símbolo da política acolhedora da chanceler.

“Merkel teve um papel fundamental no acolhimento de refugiados na Alemanha e ajudou a salvar muitas vidas, incluindo a minha. É uma pessoa importante para muita gente”, realça Anas Mondamani. “Ela deu oportunidade às pessoas para construírem uma nova vida aqui na Alemanha. Ela é a mulher mais poderosa na política”, acrescenta.

Depois da fama, as fake news e as mensagens de ódio

Assim que Mondamani publicou a fotografia nas redes sociais, começaram a chover mensagens de apoio, com várias famílias a oferecerem-se para o acolher nas suas casas. O jovem refugiado sírio tornou-se uma autêntica celebridade, e passado alguns dias acabaria por sair do centro de acolhimento para refugiados, onde tinha de partilhar um quarto com mais oito pessoas, passando a viver, durante o ano seguinte, com a família Möwe, que o tinha convidado para jantar dias antes — uma etapa fundamental para acelerar o seu processo de integração.

“Vai ser uma grande mudança para a Alemanha. Estou preocupado com o futuro. Merkel esteve sempre ao lado dos refugiados, mesmo quando foi criticada. Temo que as pessoas deixem de ser tão acolhedoras”
Anas Mondamani

Com a sua vida a mudar rapidamente, Anas sentiu-se cada vez mais motivado para aprender alemão, começando a frequentar aulas, e começou a fazer os primeiros part-time, ao mesmo tempo que preparava a entrada na universidade, que viria a concretizar-se em 2019.

Refugiado sírio perde processo contra o Facebook

Mas, apesar da fama, nem tudo foi fácil para Anas Mondamani e a selfie com Angela Merkel também lhe trouxe muitas dores de cabeça. Logo em 2016, começaram a circular fake news a associar Mondamani a terroristas que perpetraram atentados em Bruxelas e em Berlim. Com a divulgação de informação falsa, começaram também a chegar as mensagens de ódio, com um “volta para a tua terra” ou “não és bem-vindo aqui”, contraste absoluto com a receção calorosa que se seguiu à selfie com a chanceler.

Syrian Refugee Sues Facebook Over Misused Photos

Anas Modamani processou o Facebook em 2017 para que as suas imagens manipuladas fossem retiradas da rede social, mas perdeu nos tribunais

“Fiquei muito triste”, desabafa Mondamani, admitindo que há refugiados que “fizeram coisas más” e que nem todos se conseguiram integrar como ele na sociedade alemã. O que, sublinha, não é justificação para que sejam feitas generalizações e para hostilidade que ainda hoje se sente em alguns setores da sociedade alemã, dando como exemplo o discurso anti-imigração do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha, que nas eleições de 2017 foi o terceiro partido mais votado — o que fez com que liderasse a oposição, uma vez que a CDU e o SPD, os dois partidos mais votados, formaram uma grande coligação — e que para as eleições do próximo domingo tem, segundo as sondagens, cerca de 10% das intenções de voto. “Espero que a AFD nunca ganhe eleições nem que tenha muitos votos”: é este o desejo de Mondamani, que chegou a processar o Facebook, pedindo que a rede social removesse todas as montagens feitas com a sua imagem, embora tenha perdido o caso nos tribunais.

“Os alemães não estão tão disponíveis como estavam há seis anos”

Nas eleições do próximo domingo, Anas Mondamani ainda não vai poder votar, uma vez que, apesar de já ter solicitado a cidadania alemã, é expectável que tal, se tudo correr dentro do previsto, apenas aconteça em 2022.

Merkel diz que a Alemanha irá acolher um milhão de refugiados em 2015

Mas, apesar de não votar, o refugiado sírio de 24 anos acompanha o processo eleitoral com grande atenção, não fossem estas as eleições que vão pôr fim a um ciclo de 16 anos de Angela Merkel à frente do governo alemão. E a saída da chanceler, alerta Mondamani, vai garantidamente aumentar a incerteza sobre os refugiados na Alemanha.

"Penso que nos próximos anos vai ser cada vez mais difícil para os refugiados encontraram apoio aqui"
Anas Mondamani

“Com Merkel, as coisas eram previsíveis. Mas agora, não sei como vai ser com o próximo chanceler”, afirma o refugiado sírio, acrescentando: “Vai ser uma grande mudança para a Alemanha. Estou preocupado com o futuro. Merkel esteve sempre ao lado dos refugiados, mesmo quando foi criticada. Temo que as pessoas deixem de ser tão acolhedoras.” O que a acontecer, teme Mondamani, pode levar a recuos no processo de naturalização dos refugiados que nos últimos anos chegaram à Alemanha.

“Penso que nos próximos anos vai ser cada vez mais difícil para os refugiados encontrarem apoio aqui. Talvez aqueles que encontrem trabalho ou estejam a estudar tenham mais facilidade, mas os refugiados que vêm à procura de apoio vão enfrentar mais dificuldades”, antevê.

Para Mondamani, não há dúvidas de que a Alemanha de hoje já não é a Alemanha que o acolheu em 2015. “Os alemães não estão tão disponíveis como estavam há seis anos”, lamenta, dando como exemplo a falta de respostas do governo alemão aos refugiados afegãos que querem fugir do governo dos talibãs, que tomou o poder no Afeganistão em agosto.

2021, o ano da crise dos refugiados afegãos?

Mondamani vai mais longe, e denuncia a falta de discussão na campanha eleitoral sobre o tema dos refugiados. Se pudesse votar, admite que muito provavelmente optaria pelos Verdes, uma vez que o partido tem insistido na questão do acolhimento de afegãos além daqueles que colaboraram com as tropas alemãs na missão da NATO. Quanto à CDU, de Angela Merkel, Mondamani não esconde alguma desilusão, notando que membros do partido têm dito, em relação à questão dos refugiados oriundos do Afeganistão, que o que aconteceu em 2015 com o acolhimento de um milhão de refugiados não se poderá repetir em 2021. “Não gosto deste discurso. É perigoso”, alerta.

Apesar de denunciar a pouca importância dada pelos partidos ao acolhimento de refugiados e da mudança que se tem verificado na Alemanha quanto à política de portas abertas, durante todo o jantar, Mondamani não fez qualquer crítica a Angela Merkel. Pelo contrário, sempre que o nome da chanceler surgia, notava-se um sorriso na cara do refugiado sírio.

E nem o facto de muitas famílias sírias terem dado o nome de Angela, Angie ou Merkel às filhas nascidas na Alemanha depois de 2015 — em homenagem à política migratória da chanceler — o deixa admirado. E voltam os elogios.

Merkel avisa. “Consequências” para quem não aceitar refugiados

“Não me surpreende. Merkel salvou a vida de muitas pessoas, que lhe estão muito agradecidas”, afirma, dando uma gargalhada quando questionado sobre se seria capaz de dar o nome da chanceler alemã a uma filha sua. “Não!”, responde na sua vez a namorada, também entre risos. “Mas nunca irei esquecer Merkel”, insiste Mondamani, para que não restem dúvidas da gratidão que tem pela mulher que há seis anos confundiu com uma estrela de cinema.

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