Na primeira sessão de celebração do 25 de Abril com um Parlamento dissolvido, como fez questão de recordar Marcelo Rebelo de Sousa, em dia de luto nacional pela morte do Papa Francisco e em plena pré-campanha eleitoral, as referências ao líder da Igreja Católica foram variadíssimas, vindas praticamente de todas as bancadas parlamentares, e não faltaram apelos ao voto.
O Presidente da República não esqueceu o Papa Francisco nem por um segundo durante o discurso, focou-se nas ligações entre a “radical humildade” que ensinou e o 25 de Abril. Foi uma forma de recuperar as suas ideias de dignidade, paz, justiça, liberdade, abertura, inclusão, preferência pelos ignorados, omitidos ou silenciados e “humildade a reconhecer erro, a imperfeição”, apontando que para os humildes, “servindo os outros do começo ao fim da vida”. “25 de Abril sempre, o pleno e descomplexado abraço a todas as pessoas e a radical humildade que nos ensinou Francisco”, afirmou o Presidente.
“No mundo, desafios pungentes, idênticos ou acrescidos. No nosso pequeno e grande mundo, reptos diversos, muitos deles similares, outros não menos exigentes. Uns e outros estão certeiramente apontados por Francisco, uma vez, dez vezes, centenas de vezes, e que à sua maneira haviam despertado anseios prementes de mudança, como foram entre nós os anseios de Abril. Só que não basta o espírito. É preciso vivê-lo, dia após dia, ano após ano, década após década, dando-lhe viço para não estiolar”, disse Marcelo Rebelo de Sousa num discurso que será o seu último 25 de Abril enquanto Presidente da República.
Aguiar-Branco alerta políticos: “Não são meros espectadores”
José Pedro Aguiar-Branco, que presidiu ao último plenário antes de cessar funções como Presidente da Assembleia da República, aproveitou a oportunidade para deixar recados aos políticos e apelar a uma luta pela estabilidade, fazendo uma leitura sobre as consequências da falta de confiança na política. À classe política, alertou que “não podem ser meros comentadores da realidade, como se não tivessem o poder para a alterar o estado de coisas”, porque “não são meros espectadores, são construtores da realidade”.
E puxando a fita atrás até às primeiras eleições após a revolução, pediu que se esteja à altura dos que saíram à rua nesse dia, porque nos últimos anos tornou-se um hábito “ouvir que os portugueses não confiam nos políticos”. “A abstenção não é uma causa, é uma consequência. O populismo não é uma causa, é uma consequência. A raiz do problema é tantas vezes a incapacidade de apresentar resultados, construir o futuro e de estar à altura de quem os elegeu”, disse, pedindo um esforço em torno da estabilidade, sabendo “renunciar ao medo como tática, à divisão como estratégia, ao fatalismo como desígnio”.
PSD alerta para “novos perigos” que podem “minar” democracia
Teresa Morais, vice-presidente da Assembleia da República, foi a escolha do PSD para o discurso do 25 de Abril. Recuperou “memórias” de infância, a família dividida pela guerra e a revolução como a causa maior do regresso dos familiares a casa, de que “a guerra acabou”. Além de considerar que Portugal tem uma “democracia consolidada, mas ainda imperfeita” e “inacabada”, Teresa Morais defende que esta deve “conseguir superar” e que é fundamental “fazer melhor”.
Ainda assim, alertou para os “novos perigos que podem minar o regime democrático” e destacou que “as redes sociais estão a tornar-se um risco para as democracias” através da manipulação do pensamento — uma “democracia madura”, salienta, “salvaguardando a liberdade de expressão, não deve permitir que se partilhem crimes” nas redes sociais. Estamos, defendeu, “moralmente obrigados a encontrar soluções para os novos desafios”.
Spinumviva pelas mãos de Pedro Nuno, que atacou “diferentes direitas”
Pedro Nuno Santos não deixou o Governo passar incólume durante a sessão solene no Parlamento. Não só reiterou as críticas às alterações dos planos inicialmente previstos para a celebração da data, dizendo que “hoje, o povo sai à rua, enquanto o Governo fica à janela”, como fez uma referência ao caso da Spinumviva, com Luís Montenegro na bancada do Governo.
“Este imperativo democrático é incompatível com comportamentos de opacidade e de ocultação. Convive mal com condutas de dissimulação e de vitimização. E, sobretudo, torna insuportável a constante chantagem e infantilização dos portugueses. Enganam-se os portugueses que não ligam ou desconsideram a seriedade e a transparência de quem os governa”, disse o secretário-geral do PS.
O líder socialista centrou-se em todos aqueles que, legitimamente, estão desiludidos com a falta de respostas do país, para argumentar que “esta desilusão gera descrença num projeto democrático e coletivo”. E debruçou-se sobre as opção das “diferentes direitas”, para dizer que “extrema-direita não faz outra coisa que não seja explorar e ampliar a desesperança e a legítima indignação” e se dedica “a parasitar as desilusões do povo”, à procura de um bode expiatório, de inventar um inimigo, de alimentar o ódio”. Mas criticou também a “direita conservadora e liberal”, que acusou de “acabar a governar para uma minoria” e “proteger quem mais tem e quem menos precisa de ser protegido”.
Em contrapondo, prometeu um “projeto para todos”, “muito diferente” e “muito mais ambicioso do que um projeto centrado na exploração do ressentimento ou na defesa do privilégio”. Pedro Nuno Santos, que enumerou diversas razões para celebrar Abril (do combate à pobreza e desigualdade, à aceitação da diferença, ao ensinamento dos filhos para tratar as colegas como iguais e à violência doméstica), terminou a dizer que “celebrar Abril é celebrar o Papa Francisco: a sua memória, a sua vida e a sua mensagem”.
Chega levou alien e a Inteligência Artificial para discurso
André Ventura, em modo campanha, fez uma comparação entre aquilo que Abril prometeu e o país real, com críticas tanto ao Governo de Luís Montenegro como ao de António Costa, argumentando que se enche a casa de democracia de cravos e se mostra que Portugal está “em festa” quando “a vida das pessoas não permite que estejam em festa”. Depois de distintas referências de outros partidos a Celeste Caeiro, a mulher responsável pela distribuição de cravos no dia da revolução, Ventura disse que “morreu abandonada nas urgências de um hospital”, “sozinha num país que não lhe deu respostas”. “Enquanto estamos a celebrar, morrem nas urgências ou têm filhos em ambulâncias e veem tudo a sacar subsídios”, atirou o líder do Chega, que partiu para outro planeta para explicar o país.
“Imaginem que um alien chegava a Portugal e perguntava ao ChatGPT ‘como está Portugal?’”, começou, para abordar os temas do poder de compra, valor recorde da carga fiscal e dos salários baixos, o que levou Ventura a questionar: “Se a Inteligência Artificial nos diz que estamos na pobreza, como é que a inteligência do primeiro-ministro ainda não percebeu isso?” Usou exatamente a mesma imagem para falar da corrupção (“Era isto que Abril devia ter resolvido”) e, ao longo do discurso, introduziu o tema da imigração de variadíssimas formas, ao dizer que “quem vem de fora tem direito e saúde, quem paga impostos não tem direito a nada”. Ou que o país deu “prioridade aos que vinham de fora” para terem casa. “Protegem os ‘coitadinhos do sistema’ ao invés de “dar a quem paga este país”, salientou, prometendo romper com “país dos pobrezinhos e das minorias”. No final, relembrou Salgueiro Maia para dizer: “Não percam tempo a fazer celebrações, o 25 de Abril não se celebra, cumpre-se e nós vamos cumpri-lo.”
O apelo ao voto de Rocha em busca de “nova cultura político-partidária”
Também Rui Rocha surgiu com o modo campanha ativo: com críticas a todos os que vão fazendo “promessas estafadas” sobre a defesa do SNS, dizendo que “na habitação cada vez mais portugueses enfrentam a escassez criada por décadas de intervencionismo, burocracia, regulamentos infindáveis e carga fiscal injusta” e que, na educação, “o código-postal em Portugal pode condenar tantos a frequentar uma escola degradada”.
O presidente liberal criticou PS e PSD pelo estado a que as coisas chegaram, desafiou a que haja uma “nova cultura político-partidária” e não aquela que tem existido que, diz, “culminou no triste espetáculo que teve lugar aqui neste mesmo hemiciclo e que nos levou a umas eleições que os portugueses não desejavam”. No discurso do 25 de Abril, Rocha aproveitou para um apelo claríssimo ao voto na IL: “É preciso, é urgente, é essencial reformar o Estado. Mas só a Iniciativa Liberal tem a coragem de o afirmar. Só a Iniciativa Liberal tem a convicção de fazer o caminho urgente e indispensável da modernização do Estado.”
Bloco ataca Governo e alerta que “democracia não está vacinada”
Pelo Bloco de Esquerda, também Mariana Mortágua recordou memórias pessoais, dos tempos em que vivia no Alvito, em que a festa da vila se fazia no Largo General Humberto Delgado e em que cresceu numa casa onde “vivia um homem”, o pai, Camilo Mortágua, para quem o “25 de Abril foi o dia mais feliz da vida”. Entre as recordações e os comemorações dos 51 anos da revolução, criticou o Governo: “Que o Governo de Portugal esteja disposto a adiar as comemorações do 25 de Abril é só a triste confirmação que nem o dia mais feliz consegue iluminar todo o futuro de um povo.”
A coordenadora bloquista considera que durante 50 anos a revolução “estancou a peste do racismo e do autoritarismo e por isso”, mas realçou que agora é a vez de quem vive novos tempos. Aqueles em que Mortágua salientou exemplos de Donald Trump, Javier Milei, Georgia Meloni, Viktor Órban para dizer que esses líderes globais “decidem as palavras que se gritam e as que são para apagar e escolhem que mortes são legítimas”, apontando aos “novos devotos desta política que são os maiores fanáticos” e que usam os algoritmos das redes sociais para “manipular comportamentos e viciar a informação”. “Os descartáveis contam-se aos milhões”, concluiu.
Falou da guerra, da “indiferença da Europa”, referiu que “Gaza é a fronteira da humanidade” e rematou: “De que serve adiar as comemorações do 25 de Abril se as palavras de Francisco são tão cinicamente ignoradas? As últimas que disse, denunciando o delírio da guerra, e especialmente as pronunciadas em Lisboa – todos, todos, todos. Incluindo os sobreviventes da Palestina, as pessoas ciganas, as mulheres, os migrantes.” Na visão de Mortágua, a Constituição é um “texto ainda hoje rejeitado pelos herdeiros de Salazar”. Pelo que apelou aos jovens, falando diretamente para eles, e alertando que “a democracia não está vacinada contra o mal do nosso tempo”.
PCP atira contra “a direita retrógrada, Livre contra festejar liberdade com reservas
António Filipe, em nome do PCP, também recordou o Papa Francisco na luta pelos mais desfavorecidos e o combate contra o “obscurantismo” do Estado Novo, a importância das primeiras eleições para a Assembleia Constituinte e os deputados que desenharam a Constituição: “Temos o dever de lutar para que essa esperança não seja traída.” O deputado comunista reconheceu que os momentos atuais podem ser de “deceção e descrença” para os portugueses, pelo que prometeu um combate cerrado a todos aqueles que a “tentam denegrir”, apontando um alvo concreto: a “direita retrógrada, obscurantista e profundamente reacionária”. Ainda contra a extrema-direita, António Filipe salientou que, “dizendo-se antissistema, representa o pior do sistema que tem”.
Pelo Livre, Isabel Mendes Lopes lembrou o maior acaso do 25 de Abril, os cravos que se tornaram “símbolo da liberdade”, citou Papa Francisco para falar da “mudança de época” para que alertou e considerou o atual momento “ameaçador”. “Os nossos antepassados não eram diferentes de nós, mas estamos em vantagem por termos mais 100 anos de história”, disse, sublinhando que é preciso “não aceitar a mentira, a chantagem e o corromper das instituições”. “É o momento de definir a nossa história, se todos estivermos à altura do momento.”
Acrescentou ainda que é preciso um “Portugal mais livre, onde seja bom viver” e lembrou que “não é preciso ser tão destemido como Salgueiro Maia ou criativo como Zeca Afonso ou Maria Teresa Horta”, apelando ao voto: “Votem como se a nossa vida e liberdade dependesse disso.” Ao cair do pano, foi curta e direta na crítica ao Governo: “A celebração do 25 de Abril não se cancela, não se adia, a liberdade não se festeja com reservas.”
CDS pede estabilidade, PAN considera “urgente” celebrar Abril
Paulo Núncio, líder parlamentar do CDS-PP, recuperou as pressões que o partido sofreu e o voto contra do CDS à Constituição da República, justificando que esta era “muito marcada pela visão socialista e mesmo marxista das políticas económicas e sociais” e que “estava certo”. Não esqueceu o período do Verão Quente e o 25 de Novembro, dizendo também que “os dois 25’s são a continuação um do outro”. “Em Abril, ganhámos a liberdade; em Novembro, evitámos perdê-la”, referiu.
Agora, afirmou que como estas são as terceiras eleições em quatro anos, “há quem tema o regresso à instabilidade da Primeira República”. E não fugiu ao apelo ao voto: “A AD pede aos portugueses para não deixarem a estabilidade nas mãos das oposições que se entenderam para derrubar, mas não para construir”. Núncio mostrou-se ainda confiante de que “os portugueses vão escolher entre avançar e retroceder”.
Pelo PAN, Inês Sousa Real afirmou que “é urgente celebrar Abril e a esperança da democracia” e reconheceu que “portugueses estão cansados da instabilidade política”, insistindo que não se pode deixar “esquecer da memória coletiva” os tempos da ditadura. Lembrou também o Papa Francisco para quando referiu que “o coração está aberto à comunhão universal, nada e ninguém fica excluído”, pedindo que não se esqueça qualquer espécie do planeta.