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Cerca de 290 mil pessoas residentes em Portugal desenvolveram anticorpos contra o SARS-CoV-2

Barcroft Media via Getty Images

Cerca de 290 mil pessoas residentes em Portugal desenvolveram anticorpos contra o SARS-CoV-2

Barcroft Media via Getty Images

Apenas 2,9% da população em Portugal tem anticorpos contra o novo coronavírus. Não basta para imunidade de grupo /premium

Cerca de 290 mil pessoas têm anticorpos contra o coronavírus, diz estudo serológico do INSA. 44% dos inquiridos com anticorpos não tiveram sintomas. Quase não há diferença entre grupos etários.

Não chega a 3 por cento: 2,9% da população residente em Portugal desenvolveu anticorpos contra o novo coronavírus, ou seja, cerca de 290 mil pessoas. Valor que, no entanto, é insuficiente para se criar imunidade de grupo e é inferior a outros países europeus.

A conclusão é do primeiro inquérito serológico nacional realizado pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), divulgado esta sexta-feira. Para a coordenadora deste estudo, Ana Paula Rodrigues, era esperado que Portugal tivesse uma baixa seroprevalência — “proporção de pessoas com anticorpos contra o novo coronavírus” —, uma vez que “não tivemos uma epidemia intensa” no país.

A seroprevalência agora estimada é compatível com uma limitada extensão da infeção na população portuguesa, entre março e junho de 2020, e inferior ao valor necessário para alcançar uma potencial imunidade de grupo”, lê-se ainda no documento.

A coordenadora deste estudo foi questionada, durante a conferência de imprensa sobre a situação epidemiológica no país desta sexta-feira, sobre a percentagem de população que tem de ficar imune ao vírus para se conseguir imunidade de grupo. Ana Paula Rodrigues explicou que “há vários modelos matemáticos que apontam que é preciso que 40 a 67-70% da população fique imune“. No entanto, são apenas valores possíveis, já que, uma vez que se trata de um vírus respiratório, não é possível saber a resistência dos anticorpos criados e se é possível alcançar esses valores, acrescentou.

Ainda assim, o INSA assume que a imunidade ao SARS-CoV-2 possa estar “subestimada” neste estudo, uma vez que só foram tidos em conta os anticorpos e não a imunidade celular, que terá também “um importante papel na resposta imunitária”. Aliás, estudos sobre o MERS-CoV e o SARS-CoV-1 mostram que há uma resposta mais duradoura ao nível das células T, também conhecidas como células memória, do que ao nível dos anticorpos, que têm uma resposta mais “efémera”. Algo que acontece particularmente nos casos assintomáticos.

Algo que também é defendido por Manuel Carmo Gomes. Em declarações à Rádio Observador, o professor de Epidemiologia da Universidade de Lisboa explicou que “já está confirmado” que pessoas que entrem em contacto com o novo coronavírus desenvolvem esta imunidade celular, mas não se sabe ao certo quantas.

“Não sabemos qual é a percentagem de pessoas que em Portugal tem esse tipo de imunidade celular, mas é um valor que é, no mínimo, comparável a estes 2,9% que os anticorpos apontam“, defendeu o epidemiologista.

"Não sabemos qual é a percentagem de pessoas que em Portugal tem esse tipo de imunidade celular, mas é um valor que é, no mínimo, comparável a estes 2,9% que os anticorpos apontam"
Manuel Carmo Gomes, professor de Epidemiologia da Universidade de Lisboa

Mas vai mais longe. Para o docente, a percentagem de pessoas que desenvolveram anticorpos também está “sub-estimado” neste estudo do INSA. Isto porque “vários estudos” já comprovaram que o nível de anticorpos nos assintomáticos ou nas pessoas que tiveram sintomas de Covid-19 muito ligeiros baixa, “ao fim de dois a três meses”, “para um nível que pode não ser detetado por este tipo de estudo”.

Portanto as pessoas em Portugal que foram infetadas ao longo de março, por exemplo, e que não tiveram sintomas, grande parte delas já não pôde ser apanhada por este estudo“, considerou Manuel Carmo Gomes, acrescentando que “colocaria a percentagem de pessoas que contactaram com o vírus em Portugal na zona dos 3 a 5%.” Valores já mais próximos de países como Espanha e França.

44% das pessoas com anticorpos não tiveram sintomas

O estudo indica que cerca de 44% das pessoas que testaram positivo não apresentavam qualquer sintoma de Covid-19. Uma situação que, apesar de estar em linha com outros estudos internacionais, pode dever-se a um “viés de memória”, ou seja, as pessoas podem ter tido sintomas “mais ligeiros ou menos recentes” e não se lembrarem, lê-se no documento.

Estima-se que os homens tenham desenvolvido mais anticorpos do que as mulheres: 4,1% dos inquiridos que estiveram em contacto com o novo coronavírus eram homens e 1,8% eram mulheres. Uma situação inversa relativamente aos casos reportados pelas autoridades de saúde, em que há mais infeções nas mulheres do que nos homens. Segundo o mais recente boletim da Direção-Geral de Saúde, contabilizam-se mais de 28 mil casos positivos nas mulheres e quase 23 mil nos homens.

Os resultados do estudo deitam por terra uma das afirmações mais comuns no início da pandemia na Europa: a de que as crianças eram menos afetadas. Segundo o inquérito, ao nível dos grupos etários são poucas as diferenças. De acordo com o INSA, a percentagem de pessoas que estiveram em contacto com o vírus varia entre 2,2% na faixa etária entre os 10 e os 19 anos e os 3,2% no grupo etário dos 40 aos 59 anos, sendo que a seroprevalência nas restantes faixas etárias é de 2,9%, incluindo as crianças com idades entre os 12 meses e os 9 anos.

Não quer dizer que não existam efetivamente diferenças se tivéssemos um nível de prevalência mais elevado, mas são valores muito pequenos para ser possível determinar que eles sejam diferentes”, afirmou a coordenadora do estudo, durante a conferência de imprensa esta sexta-feira.

O instituto assume que o facto de haver menos casos reportados nas faixas etárias mais novas é porque, provavelmente, são doentes assintomáticos. “Isto quer dizer que se as crianças são assintomáticas, à partida, poderão também contaminar mais e ter um papel diferente do esperado na contaminação comunitária”, defende o pneumologista Filipe Froes , acrescentando que estes dados preliminares “apontam para o facto de as crianças também se infetarem, mesmo que fiquem menos doentes do que os adultos”.

Inquérito serológico nacional. Crianças portuguesas não estão mais protegidas de infeções do que os adultos

No caso dos mais velhos, refere ainda o INSA, assume-se que tenha havido uma subestimação, uma vez que a maioria dos casos de Covid-19 nas pessoas com mais de 60 anos ocorreram em “comunidades institucionalizadas” — como os lares —, que não foram abrangidas neste estudo.

Também se notam poucas diferenças em termos regionais, já que a percentagem de indivíduos que desenvolveram anticorpos contra o novo coronavírus está entre os 1,2% na região de saúde do Alentejo e os 3,5% em Lisboa e Vale do Tejo. Situação que o INSA descreve como não tendo “significância estatística”.

No estudo, o INSA refere que há uma “forte correlação entre a incidência acumulada e a seroprevalência estimada por Região de Saúde”. No caso de Lisboa e Vale do Tejo, por exemplo, houve uma prevalência mais elevada, que está em linha com o aumento de número de casos na altura em que foram colhidas as amostras.

Para Manuel Carmo Gomes, é uma situação que “abona em favor da representatividade” do estudo. “Se nós compararmos a seropositividade por região com a incidência que a doença teve nestas regiões, vemos que há uma associação que faz sentido.”

Era “esperado” haver mais pessoas com anticorpos do que o número de casos reportados

O instituto concluiu ainda que a presença de anticorpos é maior nas pessoas que referiram ter estado em contacto com um caso suspeito ou confirmado de Covid-19 (22,3%) e nos indivíduos que apresentavam sintomas compatíveis com a infeção (6,5%), isto é, febre, dificuldade respiratória, dor de cabeça, dor de garganta, exaustão, arrepios, náuseas/vómitos e diarreia. Aliás, a “prevalência foi superior nas pessoas com um maior número de sintomas”, lê-se no estudo.

O nível de escolaridade também é destacado pelo INSA e, neste âmbito, as diferenças são significativas. A percentagem de pessoas que contactaram com o vírus é mais elevada entre os que terminaram o ensino secundário (6,4%) e mais baixa entre os que completaram o ensino superior (1,4%).

Uma situação que a coordenadora do estudo justifica com o facto de “poderem ter sido” as pessoas com ensino secundário “a trabalhar mais durante este período”. Aliás, o estudo do INSA refere ainda que a percentagem de homens com anticorpos com o ensino secundário é superior às mulheres com o mesmo nível de escolaridade.

Num comunicado enviado às redações dos órgãos de comunicação social, o INSA explica que as diferenças entre o número de pessoas que desenvolveram anticorpos contra o coronavírus (cerca de 290 mil) e os casos reportados pelo sistema nacional de vigilância (cerca de 45 mil, no dia 8 de julho) — é seis vezes superior — deve-se à “sub-captação” dos casos ligeiros e assintomáticos, algo que tem sido destacado pelas autoridades de saúde ao longo da pandemia.

Para Ana Paula Rodrigues, este é “um dado esperado”. “Estranharíamos que este número [de pessoas com anticorpos] fosse inferior ao número de casos reportados. É um resultado que é também encontrado noutros estudos e que se justifica pelo facto de algumas pessoas terem sintomas mais ligeiros e fazerem o seu isolamento profilático em casa, sem procura de cuidados.”

Já Manuel Carmo Gomes, professor de Epidemiologia da Universidade de Lisboa, apesar de também considerar que estes 2,9% estão em linha com que era expectável, porque Portugal não teve uma epidemia tão agressiva como noutros locais da Europa, considera que isto significa que o “número de casos que conseguimos diagnosticar todos os dias está muito aquém do verdadeiro número de infetados da população“.

“Nós estimamos que entre 10%, 11%, 12% do verdadeiro número de infetados é que é detetado e diagnosticado. Isto porque há uma grande percentagem de pessoas que são infetadas e, ou são assintomáticas, ou têm sintomas muito leves que não chegam a valorizar”, afirmou o epidemiologista à Rádio Observador.

"O número de casos que conseguimos diagnosticar todos os dias está muito aquém do verdadeiro número de infetados da população"
Manuel Carmo Gomes, professor de Epidemiologia da Universidade de Lisboa

É necessário repetir estes estudos “periodicamente”

Este primeiro inquérito serológico nacional Covid-19 (ISN COVID-19) analisou 2.301 pessoas residentes no país, entre 21 de maio e 8 de julho, com idade superior ou igual a um ano. “Este estudo foi realizado após o pico da primeira onda epidémica de Covid-19 em Portugal, durante a segunda e terceira fases de desconfinamento. No entanto, o período de recrutamento foi coincidente com o aumento da atividade epidémica observado após meados de maio, em especial, na Área Metropolitana de Lisboa”, lê-se no documento divulgado pelo INSA.

Os inquiridos foram recrutados em 96 pontos de colheita de sete laboratórios de Patologia Clínica, associados da Associação Nacional de Laboratórios Clínicos, e 18 hospitais do Sistema Nacional de Saúde (SNS).

Este estudo teve como objetivo “caracterizar a distribuição dos anticorpos específicos contra SARS-CoV-2 e determinar a extensão da infeção por SARS-CoV-2 na população residente em Portugal”. Durante a conferência de imprensa, a coordenadora do estudo acrescentou que este estudo foi feito ainda devido a “uma necessidade de ter informação rápida” e útil.

“Foi isso que norteou a metodologia de escolha da amostra e do número de participantes”, afirmou Ana Paula Rodrigues, acrescentando que foi usada uma metodologia igual à “usada noutros serológicos do género”. “Tem limitações esta opção, tal como outras opções tem outras limitações de representatividade.”

O inquérito serológico nacional Covid-19 (ISN COVID-19) analisou 2.301 pessoas residentes no país, entre 21 de maio e 8 de julho

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Segundo Ana Paula Rodrigues, estes resultados demonstram não só a necessidade de se manterem as recomendações de “proteção individual e coletiva para todos os indivíduos, independentemente do respetivo nível de anticorpos específicos contra SARS-CoV-2″, como também mostram a necessidade de “monitorizar a evolução da seroprevalência destes anticorpos na população, de acordo com a evolução da epidemia em Portugal”.

A coordenadora do estudo sublinhou ainda, durante a conferência de imprensa, a importância de se repetirem estes estudos “periodicamente” — apesar de ainda não haver data para os novos inquéritos — de forma a monitorizar a evolução e perceber se, entretanto, se notam “diferenças”.

Na semana passada, o jornal Expresso tinha avançado que 3% da população portuguesa estava imune ao coronavírus e que tanto o Governo como os peritos já tinham sido informados sobre as conclusões deste inquérito.

Quais são os resultados de outros países europeus?

No comunicado, o INSA refere que os valores obtidos neste estudo “estão de acordo” com outros inquéritos seroepidemiológicos realizados, não só em Portugal como noutros países, a nível nacional. Ainda assim, a percentagem de pessoas que desenvolveram anticorpos é superior à de Portugal.

Em Espanha, por exemplo, um estudo divulgado no início do mês dava conta de que 5% dos espanhóis tinham estado em contacto com o novo coronavírus. Já em França, em maio, falava-se que 4,4% da população tinha estado infetada.

Ambos países que optaram por medidas mais restritivas para conter a pandemia, à semelhança do que aconteceu em Portugal, mas se formos comparar com países como a Suécia, que escolheu uma estratégia inversa, o número é ainda mais elevado. Em finais de abril, a percentagem de pessoas da cidade de Estocolmo que tiveram contacto com o novo coronavírus era de 7,3%.

Suécia admite que podia ter feito mais para conter o vírus

Já a nível nacional, o primeiro estudo serológico foi feito no Algarve e demonstrou que 2,8% das 1.235 pessoas testadas no concelho de Loulé — bombeiros, profissionais de saúde, forças de segurança, entre outras profissões com maior risco de exposição — tinham desenvolvido anticorpos.

Um estudo serológico realizado em Almeirim, numa amostra aleatória da população e a profissionais de saúde na linha da frente (553 pessoas), indicou que 3,88% dos inquiridos estiveram em contacto com o novo coronavírus. Já o rastreio serológico feito a a 1.645 estudantes, professores, investigadores e colaboradores da Universidade Nova de Lisboa dava conta de que 2,9% tinham anticorpos IgC.

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